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É possível “desespiritizar”?

            É possível após ter contato com a Doutrina Espírita, estudá-la nas obras de Kardec, comprovar seus princípios pela razão e pelo intercâmbio mediúnico, vivenciá-la no cotidiano, deixar de ser Espírita?

            O que leva alguém a dizer que não conhece o que já conhece? É possível depois de aprender a ler ou calcular, desaprender?

            Porque alguns desertam dos compromissos sabidamente assumidos na espiritualidade?

            Será o trabalho desinteressado que a Doutrina exige? O afastamento consciente dos prazeres ilusórios e mundanos? Ou o lado materialista que ainda fala mais alto?

            Para quem já tem a certeza da reencarnação, da lei de causa e efeito, não é possível modificar sua maneira de ver a vida e aceitar novamente dogmas, rituais, aprisionando-se novamente a cultos externos.

            Muitas vezes é o médium que se desvirtua do seu compromisso mediúnico, aceitando somente a orientação do seu “guia espiritual”, trabalhando em proveito próprio, desconsiderando a recomendação de Jesus; “Daí gratuitamente o que recebeste gratuitamente”. (Mt, 10:8) Outras vezes é o trabalhador que se afasta da Casa Espírita por vários motivos de menor importância.

            Não é possível deixar de saber. Como aceitar a justiça Divina sem a pluralidade das existências, sem a lei de ação e reação? De que maneira compreender Deus, se não entender que as disparidades que existem entre seus filhos são resultados dos diversos níveis evolutivos e das escolhas de cada um (livre-arbítrio)? Como deixar de entender que as penas eternas não existem e o “inferno” é um estado transitório, que serve para a transformação do indivíduo?

            Quem adentrou na Casa Espírita não o fez por privilégio, ou por ser “eleito”, mas por responsabilidade e compromisso. O comprometimento do passado nos remete ao trabalho no presente, oportunizando o resgate através da dedicação no bem desinteressado, no amor ao próximo, não necessariamente através da dor e do sofrimento.

            “Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade”, afirma Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo. A fé cega sob qualquer abalo pode desmoronar, mas a fé raciocinada é fortaleza indestrutível.

            As dificuldades que abrolham durante a jornada do espírita devem fortalecê-lo e não desestimulá-lo. É o desemprego que bate à porta, é a doença que o atinge ou a algum familiar, é o desencarne de alguém querido, é o conflito familiar que surge inesperadamente, situações dolorosas que necessitam uma firmeza de caráter para a superação. O conhecimento do porquê dos acontecimentos facilita a aceitação ao espírita. Aceitação produtiva e não passiva, pois eles devem servir de trampolim para saltos mais altos, de crescimento espiritual.

            Enfim, “desespiritizar” (neologismo criado para este artigo) não é possível. Somente abandona as lides espíritas quem ainda não compreendeu seus postulados racionais e lógicos, estando muito ligado a atavismos do passado ou não tendo coragem para assumir a nova postura perante a vida, que é a proposta do Espiritismo.

Luis Roberto Scholl