Despertar e manter o interesse por uma narrativa, facilitando o processo de aprendizagem é uma arte: a arte de contar histórias.

          Clique aqui para ver PPS sobre Contação de Histórias.

          Clique aqui para ver texto sobre Contação de Histórias.

         Jesus foi Mestre nessa arte. As parábolas evangélicas (histórias de fundo moral, envolvendo situações cotidianas) tocavam o coração do povo, divulgando a mensagem de amor do Cristo.

         As histórias relacionadas abaixo foram retiradas, em sua maioria, do periódico Seara Espírita, de responsabilidade do Grupo Espírita Seara do Mestre, publicação mensal, atualmente com 50.000 exemplares e outras foram criadas por evangelizadores para as aulas de evangelização.

         Por sugestão de Maria Aparecida, moradora em Minas Gerais, uma evangelizadora de almas, disponibilizaremos neste link, livrinhos que poderão ser impressos e usados por todos aqueles que acreditam que é importante que cuidemos das crianças, para que no futuro estas sejam as flores e os frutos das sementes plantadas.

         * “A infância bem educada dará ensejo à juventude bem estruturada. Naturalmente tal juventude produzirá uma sociedade de adultos onde as tônicas serão o trabalho, a honestidade, a fraternidade, a honradez e a fé robusta. Não percamos a preciosidade da idade infantil. Se a criança é o futuro já presente, invistamos nela”.

         *Trecho extraído do texto A criança, retirado do site www.momento.com.br.

         Clique aqui para conhecer o periódico Seara Espírita.

[Inicial]



         Conheça e saiba como adquirir o livro Universo infantil de autoria de Claudia Schmidt, lançado pela Livraria e Editora Francisco Spinelli da FERGS - Federação Espírita do Rio Grande do Sul, muitas delas publicadas nesse link.




          Entre as histórias publicadas abaixo encontram-se as da autora Célia Xavier Camargo. Histórias encantadoras e de grande sensibilidade que nos leva a belos momentos de reflexão e aprendizagem. Para facilitar a localização, as histórias estão separadas por assunto e possuem um asterisco em vermelho.

         As histórias de autoria de Célia Xavier Camargo encontram-se, também, publicadas em português, inglês e espanhol na Revista Semanal de Divulgação Espírita O Consolador.



As histórias abaixo com asterisco(*) possuem desenhos para imprimir e colorir ou atividades.


Aborto
Em defesa da VIDA

Adolescência
* Amizades
Aproveite a vida!
* Respeito às coisas alheias

Alimentos
* A florzinha Magali
As frutas
* O que sobrou do almoço

Allan Kardec
* Allan Kardec, o Missionário de Jesus
Jesus e o consolador prometido
* Um cara chamado Allan Kardec

Ambição
* O esquilo ambicioso

Amizade
* A bola colorida
* A galinha intransigente
* A girafinha Gina
Ideia infeliz
* Jujuba, o leãozinho
* O cavalinho insatisfeito
* O girassol
* O periquito Currupaco
* O Sapo sabido
* Receita milagrosas
* Respeito e amizade
* Responsabilidade e amizade
* Tucumim, o indiozinho
Uma amizade especial

Amor ao próximo
* A baleia azul
* A lição do escravo
* A pesca inesperada
* Fazendo o bem
Fazer o bem, sem olhar a quem
* O ser humano mais importante do mundo
* Prêmio ao trabalho
* Receita milagrosas
* Será que o lobo é mau?
Um estranho retorno do bem

Animais
(companheiros de jornada / nossos irmãos / respeito aos animais)

* A cobra
* A lição do Totó
* A sementinha
* Exemplo de humildade
* Gato preto
* O filhote
* O menino cão
Os três vizinhos: Sol, Tófi e Tupi
Preta, uma heroína
* Respeito mútuo
Um presente especial
Você tem um animal de estimação?

Anjo da Guarda
* O anjo de guarda
Sophia e seu anjo amigo

Ano Novo
* Ano Novo, vida nova!

Arrependimento
* Lágrimas de arrependimento

As Três Revelações:
Moisés, Cristo e o Espiritismo

* Allan Kardec, o Missionário de Jesus

Atitudes positivas
* O girassol
* No supermercado

Autoconhecimento
Um professor diferente

Auto-estima
* O pedaço de pão
* O vaga-lume
Ser diferente

Bens materiais
*A menina malcriada
*A visita
* Mãe, me dá um celular?
* Na riqueza e na pobreza
* No papel de mendiga

Boas maneiras
Palavras mágicas
Palavras mágicas II

Bondade/Caridade/Colaboração
* A lição da formiga
* A bondade de Pita
* Amigos para sempre
As visitas da mamãe
* Compreendendo a caridade
Caridade, o amor em ação
* Dar de si mesmo
Maria Churumela
* O carrossel
* O grilo e o sapo
* O ladrão de bananas
* O palhacinho triste
O quarto dos segredos
Os infortúnios ocultos
* Querido diário
Uma árvore especial
* Uma conversa no ônibus
Uma lembrança salvadora (autor desconhecido)

Compartilhar é bom
* A força do exemplo
* Aprendendo a viver
* O presente

Coragem
* A tartaruga mensageira

Corpo físico
(cuidados / dádiva divina / instrumento do Espírito / presente de Deus)

* A Banda
* A caixa de bombons
* A girafinha Gina
Corpo, morada do Espírito
* Dedé, o elefantinho
* Fósforos de cor
* Jader, o jacarezinho
* O bicho preguiça
* O brinquedo avariado
* O menino e o arco-íris
* O susto
* O vaga-lume

Desencarnação
* A aposta
* A despedida
* A morte não exister
* A viagem
Ane e sua tia
* Conversa na praia
Deus está cuidando
* Fósforos de cor

Deus
(agradecer a Deus / Amor a Deus / amor e sabedoria de Deus /
confiança em Deus / provas da existência de Deus)

* A existência de Deus
* As nuvens
* Encontro com a realidade
* O carrossel
* O crente desapontado
* O pastor invigilante
* O pequeno órfão
* O recém-nascido
* O servo infeliz
* Prêmio ao trabalho
* Resposta de Deus

Dia das mães
* Aprendendo a ser mãe
* Mãe de verdade
* Novo filho, novo irmão!
* O brinquedo avariado

Dia dos pais
* Escolhendo o presente do papai
*O melhor pai do mundo
* Resposta de Deus

Diferenças Físicas
* Dedé, o elefantinho
* Jujuba, o leãozinho

Drogas / Vícios
A história de Clara
* Pedrinho disse não!

Egoísmo
* A surpresa do achado
Egoísta, eu?
* Por uma moeda

Equilíbrio
* A força do sol

Espiritismo
* A curiosidade de Mariana
* A história de Joice
Em uma aula de evangelização
* O casamento
O grande debate
O sonho de André
Refletindo sobre a criação
Sonhos

Espírito
(existência e sobrevivência / Espíritos protetores)

* Espíritos protetores
* Estou com medo...
O Espírito protetor
* O sonho de Laurinho
* Pânico

Esquecimento do passado
Lembranças de outras vidas

Evangelho no Lar
* Evangelho no Lar

Evangelização
A evangelização
Entre dois mundos
* O anjo de guarda
* O mapa do tesouro
O show

Evolução espiritual
A escola mágica
E = E + E + T + P
* O que você quer ser quando crescer?
Os irmãos Miguel e João
* O pião
Regras para a felicidade
* Salvando uma vida
Ser mais evoluído

Fala/Maledicência
* A dor de garganta
* A mentira
*O caso da Girafa
* Palavrões

Família
(colaboração no lar / dádiva divina / dos nossos amigos / irmãos / liberdade e limites / respeito aos pais)

* A árvore e os frutos
A curiosidade de Paula
* A descoberta de Verônica
* A força da compreensão
* A História de Lenita
*A menina malcriada
* A ovelha negra
* Aprendendo com a natureza
* A força do exemplo
* Buscando solução
Diversão garantida
* Família ideal
* Fósforos de cor
* Laços de amor
Mensagem pra você!
Noite do Pijama
* Novo filho, novo irmão!
* O Coelhinho Barnabé
* O esquilo fujão
* O intruso
*O melhor pai do mundo
* O presente
* O rebelde sem causa
* O recém-nascido
* Quero se livre!
* Resposta de Deus
* Sacrifício de mãe
* Separação
Sim, não, espera
* Trabalhar com alegria
* Um irmãozinho!
Um presente por passar de ano
Uma amizade especial
* Uma família especial
* Valorização da Família
* Xiiii, esqueci!


* A bênção da fé
* A pesca inesperada
* A tartaruga mensageira

Ficar / namorar
Valorizar-se

Força de vontade
* Tempo perdido

Honestidade
A melhor decisão
* Na escola
Mentira tem vida curta
* Respeito à propriedade alheia

Infância
* O que é ser criança
* Porque ser criança

Inveja
* O pequeno órfão
* O servo infeliz

Jesus
(amigo / aniversariante / confiança / caridade / milagres / nascimento de Jesus / parábolas)

* A valorização do esforço - Parábola dos Talentos
* E se Jesus viesse me visitar?
* Ensinamento vivo - Parábola do Bom Samaritano
* Exemplo de humildade
* Jesus, nosso amigo
Milagres?
* Na estrada de Emaús
* Natal com Jesus
* O salvamento
Quem tem Jesus no coração...

Lei de Causa e Efeito
* A caminho da praia
* A casca de banana
* A dor de garganta
* A experiência da raposa
* A lagarta Filomena
Fazer aos outros...
* O cavalinho de pau
* O circo chegou
* O eco
* O ladrão de bananas
* O sonho da esperança
Os dois meninos
* Respeito às coisas alheias
* Tomando decisões

Leis divinas e leis humanas
Sinal vermelho

Livre-arbítrio
* A árvore e os frutos
* A casca de banana
* Tomando decisões
Um presente diferente

Mediunidade
Mediunidade – compromisso com o bem

Medo
* O medo

Mentira
* A mentira
Guto e o vício da mentira

Moisés
* Os Dez Mandamentos

Mundo espiritual
A Reencarnação de Teka
* Meu amigo Ricardo
* O anjo de guarda
* O mundo espiritual
* O novo lar de Janaína

Natal
(caridade / espírito natalino / o aniversariante)

* Espírito natalino
* Mãos unidas
* O significado do Natal
* Presente para Jesus

Natureza
A Coruja e o Sol
* A lição
* A luz do sol
* A natureza
* A sementinha insistente
As amigas nuvens
As Olimpíadas dos Insetos
Água, presente divino
Aninha e os minerais
Economia de água
É o fim do mundo?
Estelinha e a lua
* Lágrimas de arrependimento
Salvem o Planeta!

Obediência
* A lição de Doguinho
* Gisa e Arco
* O balão colorido

Orgãos dos sentidos
* Dudu, o menino curioso

Orgulho
* A baleia azul
* O cavalinho rebelde
* O pedaço de pão
* O Sapo sabido

Paciência
* A semente
* O remédio

Páscoa
* Lição da floresta
* Páscoa

Paulo de Tarso
* O tesouro do Cristo

Paz
* O tema de casa
* Paz no mundo
* Vamos brincar de paz

Perdão
A batata
* A galinha intransigente
* Amigos para sempre
* Necessidade do perdão
Oferecer a outra face...
* Pagar o mal com o bem

Pluralidade dos mundos habitados
* O astronauta do futuro

Prece
* A descoberta
Agradecer a Deus
A prece
Aprendendo a orar
* Buscando solução
* Enfermidade providencial
Lembranças da infância
* O remédio
O valor de uma prece
* Pedindo para Deus

Preconceito
É dia de GRE-NAL
* O brinquedo avariado
* Preconceitos
Preconceito, DIGA NÃO!
* Um novo vizinho
* Zuzu, a abelhinha que não podia fazer mel

Reclamação/insatisfação
* O servo infeliz
* Trabalhar com alegria

Reencarnação
* A bênção da fé
*O pequeno herói anônimo

Religiões
* Respeito às religiões

Remorso
* Enfermidade providencial

Respeito à criação Divina
* Lágrimas de arrependimento

Respeito à propriedade alheia
* A pipa de coração
* A surpresa do achado
* Respeito à propriedade alheia
* Respeito às coisas alheias

Respeito ao semelhante
(convivendo com as diferenças)

* A girafinha Gina
* Dedé, o elefantinho
* Tucumim, o indiozinho

Responsabilidade
* Responsabilidade e amizade

Sono / Sonhos
Uma amizade especial

Suicídio
Ideia infeliz

Trabalho
(Lei do trabalho / ocupação útil)

* A descoberta
*A formiguinha preguiçosa
* A lição da formiga
* Aproveitando as férias
Greve geral
* O cavalinho rebelde
* O circo chegou
* O coelhinho preguiçoso
* O crente desapontado
* O esforço da semente
* O Espantalho
* O farol apagado
* O pastor invigilante
* O pedaço de pão
* O pote de barro
* O servo infeliz
* O vaga-lume
* Respeito mútuo
* Tempo perdido
Toda ocupação útil é trabalho
* Trabalho voluntário

Uma nova oportunidade
* A casca de banana
* A dor de garganta
* A galinha insatisfeita
* O pote de barro
* Pagar o mal com o bem
* Respeito às coisas alheias

Vida
A corrida
* Mudar para melhor

Vida em outros Planetas
* Homenzinhos verdes





         










O sonho de André


História com interferência. Sempre que levantar a plaquinha exibindo uma boca sorrindo, todos deverão dizer, com muito entusiasmo, a palavra “FELIZ”.

         André era um menino de 5 anos, simpático, falante, educado, morava com a sua família, tinha muitos amigos e também tinha um amiguinho inseparável: um cãozinho chamado Toby. Enfim, André se julgava uma pessoa muito FELIZ.

         Numa tarde quente André brincava com Toby no quintal de sua casa. André jogava a bolinha e Toby corria para pegar e trazia de volta. Brincaram até se cansarem. André chamou Toby para tomar água e descansarem um pouquinho na sombra de uma laranjeira. O cãozinho muito FELIZ recostou a cabeça no braço do amigo e ambos adormeceram. Que soneca boa.

         André sonhou que Toby não conseguira alcançar a bolinha que havia caído em meio a um arbusto e então foi buscar. Enquanto abria os galhos avistou algo interessante: parecia um túnel que se abria em meio à folhagem. Muito curioso, foi andando por aquele túnel que, a cada instante, parecia mais e mais luminoso. Então escutou vozes e risadas de criança quando está FELIZ. Surpreso, ficou observando de longe. Havia um grupo de crianças brincando de esconde-esconde, outro brincando de roda, outro lendo história e, tinha até um grupinho, muito FELIZ, pulando amarelinha. Chamou a atenção de André o fato de não haver, ali, vídeo game, televisão ou computador. E mesmo assim a criançada brincava FELIZ.

         Em alguns minutos uma moça se aproximou das crianças pedindo para todos sentarem e fazerem um exercício de respiração (inspirando e expirando, lentamente, por 5 vezes). Fizeram uma pequena, mas profunda, prece e Olívia (este era o nome daquela moça) falou que iriam receber a visita de um amigo muito, muito, mas muito especial. E como o visitante gostava muito de crianças, Ele estava se sentindo muito FELIZ. Olívia pediu que todos fechassem seus olhinhos por alguns segundos. Quando abriram, que surpresa. Quem eles viram? Nada mais nada menos que um amigo que mora no coração de cada um: (alguém sabe que amigo é esse?) isso mesmo, Jesus.

         André não se conteve aproximou-se daquela turma, perguntando: - Que lugar é esse? – Eu estou no céu? E Olívia então explicou: - Aqui não é o céu não. Nós estamos em uma aula de Evangelização, onde aprendemos sobre a importância de Jesus em nossas vidas e muitos outros assuntos interessantes.

         Nesse instante o garoto acordou com Toby lambendo seu rosto. Correu para contar o sonho à sua mãe. A mãe, também, sem entender direito aquele sonho, convidou André para irem até o Grupo Espírita Seara do Mestre para obterem algumas informações sobre a Evangelização. Chegando, encontraram uma moça que era evangelizadora, e ela então explicou que André também poderia “ver” Jesus. Não com os olhos físicos, mas com os olhos da alma, que é a mesma coisa que tê-Lo dentro do coração toda vez que André se sentir ou fizer alguém se sentir FELIZ.

         André começou a participar das aulas de evangelização espírita e gostou muito. Algum tempo depois, a mãe perguntou a André o que ele estava achando das aulas. E ele prontamente respondeu:

         - Legal mamãe! Agora consegui entender o que significa ter Jesus no coração e como isso me torna uma pessoa ainda mais FELIZ!

Cleusa Lupatini

[Início]




Noite do Pijama



         Pedro e João eram amigões da escola! Eles adoravam brincar juntos, jogar bola, correr, colorir desenhos e conversar. Um dia Pedro convidou João para dormir na sua casa depois da aula, pois ele iria fazer uma noite do pijama.

         João achou a ideia do amigo fantástica e pensou: - Nossa!! Como a família do Pedro é legal! Deixam ele fazer noite do pijama em casa!

         Embora nunca tivesse participado de uma noite assim, João chegou em casa muito empolgado depois da aula e perguntou aos seus pais se poderia ir dormir na casa do colega no dia seguinte. Como foi autorizado, correu arrumar sua mochila e, feliz que estava com a novidade, ficou fazendo muitos planos.

         Chegou o momento de ir pra casa do amiguinho. A mãe de Pedro levou os meninos pra casa depois da aula e, sem demora, os dois foram brincar no quintal, onde se divertiram muito.

         Depois jogaram bola, brincaram de se esconder e a todo o momento João pensava que a casa de Pedro era muito mais divertida que a sua, os brinquedos do colega pareciam muito mais legais do que os seus! Achou até que os pais do amigo eram mais bonzinhos que os seus:

         - Acho que eu vou querer ficar aqui nessa casa pra sempre! - pensou.

         Após muito se divertirem, tomaram banho, jantaram e chegou a hora de ir pra cama.

         O papai de Pedro montou um acampamento no quarto para os meninos dormirem. Logo que deitaram, Pedro pegou no sono, estava cansado. João achou estranho deitar sem a mamãe lhe dar um beijo de boa noite e fazer uma prece com ele. Também sentiu falta de ouvir uma histórinha, o que sempre acontecia na sua casa. Logo começou a se revirar no colchão, e sem conseguir pegar no sono, ficou lembrando de sua caminha, de sua maninha Gabi, que às vezes lhe incomodava nas brincadeiras, mas agora lhe fazia falta! Estava com saudade da sua casa e sua família!

         João começou a chorar baixinho. Passou um tempo, e a mamãe de Pedro o ouviu e veio até o quarto.

         - O que houve querido? Por que está chorando? - perguntou a mãe de Pedro.

         - É que eu achei que aqui era a melhor casa do mundo, mas agora eu vi que eu gosto mais da minha casa e não estou conseguindo dormir aqui!

         Então a mãe de Pedro explicou amorosamente para o menino:

         - Claro João, você tem razão, o melhor lugar pra gente estar é na nossa casa com a nossa família. A família que Deus nos deu de presente! Você só vai ficar uma noite aqui e amanhã voltará pra sua casa. Eu ficarei aqui até você pegar nos sono, não se preocupe! É normal estranhar quando estamos longe de casa.

         João ficou mais aliviado e confiante. Logo conseguiu dormir, pensando que aprendeu a importante lição de que nenhuma casa ou família é melhor ou pior que a outra, elas são apenas diferentes!

Carina Fiorim Comerlato

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A Coruja e o Sol



         Há muito, muito tempo, quando o papai do céu criou o nosso Planeta, Ele o colocou pertinho de uma estrela linda e brilhante. Esta estrela se chama Sol! Utilizar um sol de tecido e bola ou balão azul para ser o planeta Terra.

         Tempos depois, em um dia de inverno, fazia um frio muito forte, todos os animais da floresta procuravam se proteger do tempo ruim em suas casinhas ou tocas, o vento era tão forte e gelado que ninguém tinha coragem de sair ao ar livre. Ninguém, menos um animalzinho, bem pequenininho, muito fofinho que resolveu dar um passeio à noite. Sabem quem era? Uma corujinha! As corujas são bichinhos que gostam muito de sair à noite para caçar seus alimentos, só que havia um problema: estava frio demais, não havia insetos naquela região para ela comer, então a corujinha precisou andar muito, muito longe a procura de comida, logo se afastou de sua casa. Maquete de isopor e EVA para ser a floresta e uma coruja de EVA ou tecido.

         Procurou, procurou algum alimento e quando ela percebeu a distância que estava de casa resolveu voltar, só que neste momento começou a nevar na floresta.

         A neve foi caindo, caindo... cada vez mais forte e a corujinha, que já estava tremendo de frio, acabou ficando presa no gelo. E agora o que ela iria fazer? - Ai, ai, ai meus pezinhos, dizia ela, e agora, alguém precisa me salvar!!! Mas, com todo aquele frio, ninguém apareceu. Confeccionar a neve com EVA branco picado bem fininho.

         A noite passou e a corujinha presa no gelo frio ficou..., rezando pra que aparecesse alguém que a salvasse até que... Sabem o que começou a acontecer?

         O dia começou a amanhecer e, com ele... O sol com seus raios de luz quentinhos começaram a aquecer todo aquele gelo que prendia a corujinha, até que ela conseguiu soltar um pezinho, depois o outro... e zupt! Saiu correndo toda contente de volta pra sua casinha!!

         Pensou ela: “Obrigada solzinho querido pelo seu calor que me salvou, obrigada papai do céu por ter criado essa estrela tão importante pra nossa vida!”

História criada pela evangelizadora Carina Fiorim Comerlato

[Início]




Jesus e o consolador prometido
(entrevista)




         Narrador: - Oi, Rita, tudo bem com você?

         Ritinha: - Oi, profe….! Boa tarde! Comigo tudo bem, sim!!! E contigo? Boa tarde criançada!! Tudo bem? Como a profe disse, eu me chamo Rita, mas podem me chamar de Ritinha!

         N: - Comigo está tudo bem, e com vocês, crianças?

         (Aguardar resposta.)

         N: - Ritinha, então vamos ter uma entrevista hoje?

         R: - Sim, profe. Hoje vamos fazer uma entrevista com uma pessoa muito importante para o Espiritismo e para a nossa Evangelização! Essa pessoa vai nos ajudar a entender sobre essa história que a Sra. falou de consolador prometido…

         N: - É mesmo Ritinha? E quem é ele?

         R: - O nosso entrevistado de hoje se chama Allan Kardec!

         (Fantoche de Kardec entra.)

         R: - Olá, Sr. Kardec, boa tarde!

         Kardec: - Olá, Ritinha, olá profe, olá criançada! Boa tarde a todos!!! Estou muito feliz de estar com vocês aqui hoje!

         (Todos respondem: boa tarde.)

         Ritinha: - Nós também, Sr. Kardec, estamos muito felizes em recebê-lo. Sr. Kardec, para começar, como é o seu nome completo?

         K: - Ritinha, meu nome é muito difícil de falar, até eu me enrolo um pouco! Eu me chamo Hippolyte Leon Denizard Rivail, nasci há muito anos atrás, na França, um país muito longe do Brasil.

         R: - Ué, mas se o seu nome é Hippo… Hippo…

         K: - Hippolyte Leon Denizard Rivail.

         R: - Isso, isso que o Sr. falou… Se o seu nome é esse, como as pessoas lhe chamam de "Allan Kardec"?

         K: - Ah, Ritinha.. é o seguinte, eu sou professor, sabe… E lá na França eu escrevi alguns livros, era um escritor muito conhecido! Daí, quando eu passei a trabalhar com a Doutrina Espírita, adotei um nome diferente, Allan Kardec, para que as pessoas não se confundissem quando fossem ler os livros...

         R: - Mas por que seu nome passou a ser Allan Kardec?

         K: - Esse nome foi um Espírito amigo que me sugeriu; nós éramos amigos em uma reencarnação em que eu tive esse nome!

         R: - Ah… acho que entendi… Na verdade, estou meio confusa... Sr. Kardec, no ano passado, na Evangelização eu já estudei sobre reencarnação, mas agora não me lembro. O que é isso mesmo?

         K: - Reencarnação é quando o Espírito nasce de novo, Ritinha, num corpo diferente daquele em que ele viveu antes. Você sabe que nós somos Espíritos, certo? Então, o Espírito não morre nunca, ele volta para viver de novo, em um corpo novinho em folha.

         R: - Ah… agora entendi tudo! O Sr. tinha o nome de Allan Kardec em outra reencarnação na Terra, em uma existência em outro corpo…!

         Mas continuando nossa entrevista. Sr. Kardec, nós estudamos aqui na Evangelização, eu e toda essa criançada que o Sr. está vendo na nossa sala, que Jesus, quando esteve na Terra, falou que Ele enviaria um Consolador, que ficaria para sempre conosco. Eu não entendi essa parte. O que é "Consolador"?

         K: - Bom, Ritinha, Consolador vem de "consolar", que é ajudar, auxiliar... por exemplo, quando você está triste, a sua mamãe ou papai não vai lhe perguntar o que houve? Não oferece ajuda em algum problema? Não explica o que ocorreu e ajuda a resolver?

         R: - Sim, minha mãe sempre me ajuda em tudo… Principalmente quando tenho algum problema no colégio ou com a minha irmã mais velha… Ela me acalma, me ensina as coisas… me diz como eu devo me comportar… O vovô da minha coleguinha da escola é assim também, sempre a ajuda quando ela precisa!

         K: - Pois é, nessas horas, sua mãe e o vovô da coleguinha estão consolando!

         R: - Quer dizer que minha mãe é consoladora? Peraí, Jesus enviou a minha mãe para me consolar???

         K: - Ritinha, a sua mãe sem dúvida te ajuda muito, mas Jesus estava falando de outra coisa….

         R: - Quem é então o consolador prometido por Jesus? Não estou entendendo!

         k: - Não é QUEM, Ritinha, é o que… O Consolador prometido por Jesus é a Doutrina Espírita!

         R: - A Doutrina Espírita? Ahhhh… A Doutrina Espírita! Eu sei o que é… é o que a gente aprende aqui na Evangelização!!! Está nos livros! Não é uma pessoa!

         K - É isso mesmo Ritinha, não poderia ser uma pessoa, porque as pessoas morrem, desencarnam, já o que está escrito nos livros dura para sempre, por isso que Jesus disse que enviaria um consolador que ficaria SEMPRE conosco!

         R: - Mas Sr. Kardec, como as pessoas podem ser consoladas?

         K: - Pelos ensinamentos de Jesus, Ritinha… O que está nos livros foi o que Jesus nos ensinou, são coisas que vários Espíritos disseram, coisas que os Espíritos aprenderam com Jesus e com os amigos que moram no plano espiritual, depois eles voltaram para nos contar… Tudo isso é a Doutrina Espírita, o consolador prometido. Esses ensinos nos orientam, dão respostas para as nossas dúvidas, nos auxiliam quando estamos com dificuldades, que nem a sua mãe lhe ajuda, a Doutrina Espírita nos ajuda a enfrentar outras situações da nossa vida.

         R: - Pelo visto, o Sr. sabe bastante sobre a Doutrina Espírita, Sr. Kardec!!! Estou impressionada!

         K: - Sei sim, Ritinha, porque eu estudei bastante! E também porque fui eu que organizou, em vários livros, as informações sobre a Doutrina Espírita!

         R: - Foi Jesus quem lhe disse tudo isso, Sr. Kardec?

         K - Não, Ritinha, como eu lhe disse antes, não foi Jesus diretamente, mas sim vários Espíritos que se comunicaram comigo em nome dEle. Eles estudaram e viveram muitas coisas, e Jesus permitiu que eles nos contassem, para que todos nós aprendêssemos e tivéssemos SEMPRE algo a nos consolar, a nos ajudar, o que Jesus nos havia prometido lá na sua época, que é a DOUTRINA ESPÍRITA.

         R: - Ah, entendi!!! Jesus prometeu o consolador e enviou a Doutrina Espírita para nos ajudar! E o Sr., Sr. Allan Kardec, foi quem organizou tudo o que Jesus ensinou através dos Espíritos!

         K: - Isso mesmo Ritinha! Você aprendeu direitinho! E vocês, garotada, já sabem o que é o CONSOLADOR PROMETIDO?

Cleusa Lupatini e Ana Paula Fiorin

[Início]




Guto e o vício da mentira



         Guto era um garoto muito esperto. Sempre soube bem aproveitar as oportunidades que teve na vida. Estudava muito e ia bem na escola porque sabia como era importante e difícil para seus pais o sustentarem em um bom colégio. Adorava matemática e sonhava em ser engenheiro de grandes construções no futuro. Gostava de sua casa e ajudava a mantê-la em ordem, apesar de ser muito carente. Acompanhava desde pequeno a mãe nos encontros infantis no Centro Espírita. Agora, que já era mais crescido, com mais responsabilidades e decisões, não ia mais com tanta frequência ao Centro, mais ainda aparecia lá “de vez em quando” porque se sentia bem.

         A vida seguia normal, proporcionando as lições necessárias para Guto. Uma, em particular, se tornou inesquecível: ele não era de mentir, mas, naquele dia, para não receber o castigo em casa, resolveu mentir. Brigara na escola com um colega e sabia que, por causa disso não poderia ir na excursão da turma, marcada para o fim de semana seguinte. Era algo que estava aguardando há muito tempo. Não contou nada para os pais, foi na excursão e, aparentemente, o caso ficou para trás. Mas não foi bem assim. Olhando as “vantagens”, tomou gosto pela mentira e passou a utilizar deste infeliz recurso sempre que podia, tirando benefícios nas situações. Chegou um momento em que estava “viciado” na falsidade e não conseguia mais parar, porque uma mentira levava a outra.

         Uma noite ele teve um sonho. Sonhou que era um engenheiro muito famoso e estava recebendo um prêmio por ter projetado uma grande obra na capital. Estava muito feliz e orgulhoso. Mas algo aconteceu. No momento da premiação, em vez de receber o prêmio, ele foi conduzido à prisão, porque a sua grande obra havia desmoronado. Foi descoberto que ele utilizava materiais de baixa qualidade, baratos e cobrava como se fossem de luxo; enganara a muitos colegas de profissão para crescer na carreira; prejudicara a muitos com suas mentiras e falsidades... No sonho, a caminho da prisão, ele se lembrara que tudo começara com pequenas mentiras “inocentes” que ele fazia na infância, e chorou muito. Apareceu-lhe uma pessoa que lhe disse: - Não se esqueça que, antes de reencarnar, você prometeu a si mesmo que jamais se utilizaria da mentira. Veja agora as consequências...

         Neste momento ele acordou extremamente suado e angustiado. Percebeu que era “apenas” um sonho. Recordou-se de suas aulas no Centro Espírita onde lhe falaram que, muitas vezes, o Espírito protetor se comunica conosco através dos sonhos. Estava claro para Guto que este diálogo era um aviso para ele mudar de atitude a partir de agora, superando o vício da mentira que trazia com ele, de outras reencarnações. Orou em agradecimento ao seu Anjo e dormiu mais tranquilo, prometendo jamais se esquecer dos seus novos propósitos e de retomar os estudos no Grupo Espírita.

Luis Roberto Scholl

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Ideia infeliz



         Tim tem andado bastante triste, ultimamente... Na escola, está com dificuldades em algumas matérias... Educação física, então, tem vontade de fugir das aulas! Tina lhe deu um fora, e não quer mais saber dele... Os pais não dão moleza: tem que ir bem na escola, tem que obedecer, não pode sair de noite com os amigos, nem ficar tempo demais no computador.

         Várias vezes ele tem se perguntado: Por que continuar vivendo? Dá tudo errado pra mim! Quantas dificuldades! Por que a minha vida é assim?

         Tim constuma se comparar com os amigos, e parece (somente parece!) que eles não têm problemas... Estão sempre alegres, têm namoradas, os pais não implicam com eles... Tudo muito bom e fácil.

         Então, um dia, Tim resolveu acabar com seus problemas. Quando estava organizando o plano, sentado em um banco da escola, Pipa apareceu pra conversar.

         Falaram da escola, da família. A menina percebeu que Tim estava muito triste, e que precisava de um ombro amigo.

         - Tomei uma decisão. Chega de sofrer. E Tim começou a contar tudo que lhe incomodava.

         Pipa ouviu atentamente. Deixou que o menino aliviasse o seu coração, pois sabia que ser ouvido e ter amigos, principalmente em momentos difíceis, é muito importante. Quando ele terminou, ela lembrou que todos temos problemas, que não existe família perfeita e que precisamos buscar ajuda, e não fugir daquilo que nos deixa tristes.

         - Mas logo todos meus problemas vão todos acabar, lembrou o menino.

         - Aí é que você se engana... Quando morremos, nosso corpo morre, mas o Espírito continua vivo, e quem se mata passa a viver no mundo espiritual em locais tristes, de muito sofrimento. A morte não termina com as dificuldades, apenas muda de lugar os problemas.

         O menino ficou pensativo.

         - Além disso, você terá que enfrentar problemas semelhantes aos que está tentando fugir em outras reencarnações. E pode renascer com dificuldades, inclusive físicas ou mentais, como consequência do suicídio. E você já pensou no sofrimento, na tristeza de seus pais e amigos?

         Tim logo lembrou da irmã menor... Seus pais o amavam, ele tinha certeza... E tinha a tia Ju, que ele adorava, também... Ficou um tempo em silêncio, pensando, e perguntou:

         - Mas às vezes me pergunto: Pra que viver? Afinal, por que estamos neste Planeta?

         Pipa aproveitou que Tim estava prestando atenção e lembrou que cada pessoa é um Espírito encarnado em um corpo, com o objetivo de aprender com as dificuldades, e evoluir espiritualmente. E que vamos reencarnar muitas vezes, até atingir a perfeição.

         - Tarefa difícil, pensou alto Tim.

         - Mas se torna mais fácil se seguimos os ensinamentos de Jesus, praticando a caridade, a paciência e aceitando os problemas como oportunidades de aprendizado. Não existe problema sem solução! É preciso buscar ajuda, conversar...

         E foi assim que Pipa esclareceu o amigo que pensava em fazer uma enorme bobagem, da qual se arrependeria por muito tempo... Também lembrou da importância da prece, principalmente quando estamos com dificuldades, pois nosso Espírito protetor nunca nos abandona.

         E ela acompanhou de perto Tim, por muito tempo, até que teve a certeza de que ele tinha abandonado a ideia infeliz, e entendido que é importante aprender com as situações que a vida apresenta, jamais desistindo por causa dos problemas, porque é através deles que desenvolveremos as virtudes necessárias para a conquista da felicidade.

Claudia Schmidt

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Valorizar-se



         Apesar da diferença de idade, as vizinhas Luana e Antônia eram muito amigas. Naquele dia, Antônia encontrou Luana sentada em um canto do quarto, com um olhar triste...

         - E aí amiga, a festa bombou?

         - É, respondeu Luana, meio sem entusiasmo.

         - E essa cara, o que aconteceu?

         - Não aconteceu nada. Deixa pra lá...

         Um silêncio se seguiu, enquanto Antônia foleava uma revista e Luana permanecia imóvel.

         - Tá bom, eu conto! – exclamou Luana. É que eu fiquei com um carinha na festa e agora não acho ele no twitter, no Orkut, nem no msn... Na verdade, não sei nada dele, só o primeiro nome.

         Novo silêncio, que é quebrado depois de alguns minutos por Antônia:

         - Quer um chiclé?

         - Quero!- disse logo Luana.

         Antônia então tirou o chiclete da própria boca e ofereceu à amiga.

         - Que nojo! – reclamou Luana. De onde você tirou essa ideia?

         Antônia riu e disse:

         - Engraçado... o meu chiclé você não quer. Mas beijou e deu uns amassos em um garoto que você nem conhece... Dele você não teve nojo, né? E se ele tiver hepatite, herpes, cárie?

         Antônia explicou que a cárie e algumas doenças são transmissíveis pelo beijo, inclusive a gripe.

         - Sem falar na troca de energias, completou Antônia.

         Agora foi a vez de Luana rir, dizendo que a troca de energias foi legal...

         Nesse momento, a mãe de Luana entrou no quarto, com um enorme pote de pipocas. Quando ela saiu, Antônia continuou:

         - Todas as nossas atitudes e sentimentos deixam marcas, em nós e com quem nos relacionamos. Por isso, é importante conhecermos as pessoas, seus valores e caráter. Você emprestaria o Toy para esse garoto que você ficou?

         Toy era o cachorrinho de Luana, seu companheiro inseparável.

         - Não emprestaria, né? - completou Antônia. Mas você emprestou a Luana! Valorizar quem gostamos inclui valorizar a si mesma! Valorizar o próprio corpo, a companhia... Se você conhecesse ele um pouco melhor, soubesse que é um cara legal, não estaria com esta cara hoje!

         Luana sabia que a amiga estava com a razão. Contou a ela mais sobre a festa, enquanto Antônia explicou que somos responsáveis pelos relacionamentos que cultivamos, e completou:

         - Também no ficar, no namorar, vale aquela regra ensinada por Jesus: “fazer aos outros o que queremos que nos façam”. Se todo mundo seguir, não haverá traições, nem mágoas.

         E foi assim, conversando, enquanto comiam pipocas, que Luana prometeu à amiga que teria atitudes diferentes, no futuro.

Claudia Schmidt

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Refletindo sobre a criação



         Lucas estava de férias da escola, mas, mesmo assim, sentia-se entediado devido ao cancelamento de sua viagem, há tempos programada. Andava de um lado para o outro quando se deparou com um livro e pensou: “Vou lê-lo, quem sabe o tempo passe mais rápido”.

         A leitura era sobre a criação do Universo, dizia que Deus o criou como em um “passe de mágica”, apenas com um gesto tudo apareceu. Assim também criou as primeiras figuras humanas, Adão e Eva.

         Para Lucas aquilo não parecia ter sentido, mas continuou a leitura, queria terminar aquele raciocínio para que pudesse formar a sua opinião. Foi quando chegou sua prima, Clara, que vinha entregar as encomendas para sua tia, mãe de Lucas, pois Clara fazia lanches para vender, e era a responsável pelo lanche daquela tarde.

         Ao chegar, Clara cumprimentou carinhosamente o primo que estava entretido nas páginas do livro, e não conteve a curiosidade:

         - Mas que livro é esse Lucas, que você esta lendo com tanta atenção?

         Lucas voltou o olhar para a prima e respondeu:

         - É um livro que achei aqui em casa, veja!

         Clara olhou, viu de que se tratava e perguntou ao primo:

         - Você concorda com essa teoria?

         Lucas rapidamente respondeu:

         - Eu não concordo com a forma que diz como tudo foi criado, mas acredito na autoria, sei que Deus é o Pai Universal, o Criador de tudo. E também tem essa história de Adão e Eva que para mim não tem coerência. Não acredito que toda a maldade mundana originou-se só porque Eva comeu a tal maçã, que ela é a culpada pelas nossas dores ou castigos. É conveniente acreditar nessa teoria, pois é tão mais fácil culpar essa mulher de todos nossos pecados. Sem falar que Adão e Eva, pela lógica, não poderiam originar todos os povos, toda a raça humana. A ciência explica a criação de forma diversa. Na minha opinião, a religião e a ciência deveriam andar de mãos dadas.

         Clara surpreendeu-se com o primo, não imaginava que ele, tão novo, tivesse esse pensamento. Então, inspirada, respondeu:

         - Sim, Lucas, concordo com você. Na ciência há leis da matéria e na religião há leis morais, e todas elas provêm de um princípio que é Deus, portanto uma não pode contradizer a outra, e sim, se completarem. Eu acredito que nada pode ser criado “magicamente” de uma hora para outra. A criação foi feita com muita calma, no decorrer do tempo, respeitando-o, através de uma evolução que vai desde o reino vegetal até o ser pensante, e tudo é regido por uma força maior, causa primária de todas as coisas, ou seja, Deus.

         Depois de ouvir atentamente a prima, Lucas respondeu:

         - Nossa Clara, como você sabe tudo isso?

         - É um assunto que sempre me questionei, então comecei a estudar, li alguns livros a respeito e, hoje, já tenho a minha opinião formada sobre a criação.

         A explicação de Clara foi fundamental para que Lucas pensasse a respeito. Os dois ficaram conversando a tarde toda, e não viram o tempo passar.

Juliana Guzzo

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Corpo, morada do Espírito



         Muriel é um menino de cinco anos muito inteligente e que possui muitos amigos na escola. Mas ele tem um probleminha... não gosta de tomar banho, de lavar o cabelo, nem de limpar as orelhas.

         Todo dia, na hora do banho, é a mesma coisa: ele reclama, se esconde, chora para não tomar banho. Não importa se o banho é de banheira ou de chuveiro, ele foge da água! E sempre, depois de muita discussão, ele toma banho, janta e vai dormir.

         Uma noite, porém, quando Muriel começou a reclamar, perguntando porque tinha que tomar banho todos os dias, a mãe concordou que ele ficasse sem banho, lavando apenas as mãos para o jantar.

         Na manhã seguinte, o menino não tomou banho para ir à escola e, quando vestiu o uniforme não percebeu que suas pernas e braços estavam bastante sujos, das brincadeiras do dia anterior. E assim, sujinho, ele foi para a escola.

         No meio da manhã, Muriel ligou para a mãe ir buscá-lo, chorando. Quando a mãe chegou, ele disse, em meio a lágrimas:

         - Não sou Cascão! Não sou porquinho! Não cheiro a lixo!

         E assim, meio conversando, meio chorando, ele contou que os colegas, quando viram que ele tinha os braços e as pernas sujos, começaram a colocar apelidos e dizer que ele cheirava mal, pois não tinha tomado banho.

         A mãe levou Muriel para casa, sem nada dizer. E, pela primeira vez, ele tomou banho sem reclamar.

         Quando o menino se acalmou, a mãe explicou:

         - Filho, o corpo é um presente de Deus para a morada do Espírito que somos. Precisamos do corpo para viver no planeta Terra, lugar em que aprendemos muitas coisas importantes para a nossa evolução espiritual. Cada Espírito reencarna em um corpo físico adequado a sua evolução, e é importante cuidar do corpo para que ele cumpra sua função: abrigar o Espírito enquanto está encarnado.

         O menino ouvia atento, com os olhos vermelhos de tanto chorar.

         - É preciso manter o corpo limpo para não sermos alvo de apelidos, mas também para não ficarmos doentes, porque a sujeira é porta de entrada para muitas doenças. Somos responsáveis por nossas atitudes, e cabe a cada um escolher tomar banho, limpar as orelhas, fazer exercícios e comer comidas saudáveis, para que o corpo possa cumprir a sua função adequadamente.

         A partir daquele dia, quando Muriel começava a reclamar porque tinha que tomar banho, a mãe lembrava que ele era responsável pelos cuidados como seu corpo e, se fosse chamado de Cascão, que não ligasse pra ir buscá-lo na escola. E o menino, lembrando da lição, tomava um banho caprichado, limpava as orelhas, e até colocava perfume...

Claudia Schmidt

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Oferecer a outra face...



         - Amanhã ele me paga! Não vai ficar assim! Que idiota eu sou! Por que não bati nele?

         Júnior chegou gritando em casa, furioso. Certo de que a vingança era a melhor solução, começou a planejar o que faria no dia seguinte... Afinal, achava que as coisas não podiam ficar assim...

         Seu pai, que havia percebido o desequilíbrio do garoto, puxou assunto, perguntando o que havia acontecido na escola.

         Junior contou, então, que tinha sido agredido por Daniel, durante um jogo.

         O pai deixou o garoto desabafar, falando sobre humilhação, orgulho ferido e vontade de pagar na mesma moeda.

         - Você já pensou que se der o troco, Daniel pode se sentir injustiçado, e entender que a sua reação foi exagerada, e querer vingança? Violência gera violência, meu filho.

         Sem entender, Júnior perguntou:

         - Como assim? Estou no meu direito de devolver o que ele me fez!

         - Só porque alguns acham que violência é o caminho, não significa que essa seja a melhor atitude. Perante uma ofensa, três condutas são possíveis: reagir com mais violência, fugir ou oferecer a outra face.

         - Mas, se eu não der o troco, vou passar por covarde...

         - Será? Quem pensa assim não sabe que revidar é continuar a briga. O que você ganha com isso? Mais ódio. Muitas brigas são motivadas por pouca coisa, ou por coisas sem sentido, mas que crescem com o calor da discussão. Lembra do ditado: Olho por olho...? Assim todo mundo acabará cego!

         Júnior conhecia o ditado, e achava correto devolver na mesma moeda. Mas a conversa estava fazendo com que ele percebesse a situação de uma maneira diferente.

         - Fugir também não é a solução ideal, continuou o pai, porque transfere o ódio para uma situação futura. Muitos acham que violência é apenas socos e o uso de armas, mas a violência abrange muito mais: palavras e gestos podem ser violentos, e também os palavrões, que são lixo puro, jogado da boca de quem fala.

         Isso Junior já sabia. Há muito tempo que ele não dizia palavrão. E não gostava que falassem desse jeito perto dele. Ele queria agora saber sobre “oferecer a outra face”:

         - Deixar ele bater nos dois lados da minha cara? E ficar imóvel? Nem pensar!

         - Não, não é nada disso. Oferecer a outra face é mostrar que as coisas podem ser resolvidas de uma maneira diferente: respeitar a opinião do outro, entender seus valores, compreender suas ações, perdoar a atitude desequilibrada. Quem sabe o Daniel não teve realmente a intenção de te humilhar, e tudo não passou de um mal-entendido?

         Aos poucos Júnior foi entendendo que a violência do mundo nasce na intimidade de cada um e que cada indivíduo é responsável por suas ações de violência ou de paz. O pai explicou, ainda, que o oposto da violência é a mansuetude. E que para ser manso, é necessário aprender a agir, ao invés de reagir, através de atitudes de paz, compreensão e tranquilidade. Júnior achou difícil, mas prometeu a si mesmo que iria conversar com Daniel sobre o ocorrido, oferecendo, assim, a outra face, a face do entendimento e da amizade.

Claudia Schmidt

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Egoísta, eu?



         “Qual o maior obstáculo ao progresso? O orgulho e o egoísmo.” O Livro dos Espíritos, questão 785.


         Egoísta, eu? Eu não! Sou um cara legal. E este teste que ganhamos de tarefa de casa, acho que nem vou fazer... Tá bom! Vou dar uma espiadinha...

         1 - Qual a primeira coisa que faço ou penso ao acordar? Acho que nem penso, só reclamo, afinal tenho que acordar cedo pra ir pra escola.

         2 - Se tenho bichos de estimação, como cuido deles? Mas cuidar deles não é minha tarefa, é da empregada ou da minha mãe....

         3 - Costumo auxiliar os outros sempre que possível? Minha mãe é que sempre dá algo de comer quando alguém com fome bate na porta, então não tenho muitas oportunidades de ajudar.

         4 - Trato bem as pessoas com quem convivo? Claro, desde que me tratem bem, também. Não tenho muitos amigos, mas é porque todos implicam comigo.

         5 - Faço a minha parte para a preservação do meio ambiente? Mas isso não é tarefa do governo? Ele é que deve procurar novas tecnologias que preservem a natureza, não eu...

         6 - Sou egoísta? Não, porque não faço mal a ninguém, e cuido da minha vida.

****


         Do outro lado da cidade, outro menino, da mesma turma, também fazia o teste.

         1 - A primeira coisa que faço ao acordar é uma prece, agradecendo por mais um dia.

         2 - Brinco com meus cachorros todos os dias, dou comida e água.

         3 - Tento ser útil. Cuido da minha irmã mais nova, ensino matemática ao meu colega Igor, vou à padaria para a minha vó...

         4 - Acho que sou alegre e educado com todos... Não reclamo e respeito minha mãe.

         5 - Apago as luzes quando não há pessoas na sala, fecho a torneira pra escovar os dentes, tomo banho sem demorar, ajudo a separar o lixo seco e úmido, e não jogo lixo na rua, porque acredito que cada um deve fazer a sua parte.

         6 - Sou egoísta? Sei que tenho muito a aprender, mas estou me esforçando para fazer as escolhas corretas.

****


         Qual dos dois meninos é realmente feliz? Qual deles está fazendo a sua parte para o próprio progresso e do mundo em que vive? Qual dos garotos já compreendeu que todas as escolhas têm consequências? Escolhas egoístas trazem tristeza e sofrimento, enquanto escolhas de bondade e amor trazem alegria e felicidade.

         A Terra é uma escola de almas, uma oficina de amor. A reencarnação é preciosa oportunidade de aprendizado, e cada Espírito deve aproveitar a vida, atendendo ao ensinamento de Jesus: “Vigiai e orai”. Vigiar os próprios pensamentos, palavras e ações, a fim de realizar o bem. E orar, pedindo força, coragem e auxílio para realizar as escolhas que trazem felicidade.

Claudia Schmidt

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O valor de uma prece



         "Pode-se, com utilidade, orar por outrem? O Espírito de quem ora atua pela sua vontade de praticar o bem. Atrai a si, mediante a prece, os bons Espíritos e estes se associam ao bem que deseje fazer.” O Livro dos Espíritos, questão 662


         Lúcia tomava um refresco na padaria próxima a sua casa, quando Adelaide, sua amiga de infância, chegou para cumprimentá-la. Adelaide estava sorridente e, ao abraçar a amiga, já foi contando o motivo de sua felicidade:

         - Lúcia, fui, hoje pela manhã, na casa de uma senhora que faz orações pelas pessoas e pedi que rezasse pela minha família e principalmente pelo meu filho que está passando por um momento delicado. Agora estou me sentindo mais aliviada.

         Lúcia atenciosa respondeu a amiga:

         - Sim Adelaide, fiquei sabendo que seu filho está com um sério problema de saúde. Desejo-lhe melhoras – e fazendo uma pequena pausa para que formulasse bem o questionamento, falou – mas por que diz que se sente aliviada?

         Adelaide, como se estivesse óbvia a sua resposta, respondeu à amiga:

         - Ora! Como sei que tem alguém rezando pelo meu filho me sinto mais confortada.

         - Ah sim! Dizem que oração nunca é demais – e sorrindo, Lúcia completou o raciocínio – todo pensamento positivo em favor de alguém ajuda muito, nós não temos ideia do quanto. Mas você tem rezado também?

         Adelaide, demonstrando tristeza no olhar e ao mesmo tempo uma decepção consigo mesma, respondeu:

         - Ando correndo tanto, com problemas diversos, que não tenho tido tempo para me concentrar nas orações.

         Lúcia novamente tentando proporcionar reflexão à amiga questionou:

         - Sim, entendo, mas para você qual o verdadeiro sentido de uma oração, o que a torna mais valorosa?

         - Não sei, acho que o sentimento que é colocado nela. – respondeu Adelaide, um pouco confusa.

         - Pois, então, querida amiga, se o valor está no sentimento, qual é a pessoa mais apropriada para fazer as orações? É você mesma. Não digo que não há mérito nas orações da senhora que se propôs caridosamente a rezar pela sua família, pois é muito importante recorrermos aos amigos para que nos ajudem nos momentos difíceis, dividimos a carga, se torna menos pesado, porém não podemos esquecer a nossa parte, Adelaide. Devido ao amor que sente pelo seu filho certamente as suas preces serão movidas com mais intensidade, chegarão mais longe e mais rapidamente. Como falei antes, não estou desmerecendo as orações dos amigos queridos, elas também proporcionam alívio, mas quando estamos diretamente ligados às pessoas que queremos ajudar, possuímos muito mais poder de ajuda, não podemos delegar isso inteiramente a terceiros. Consegue me entender, querida?

         - Sim, analisando assim tem mais sentido, realmente tenho falhado nesse sentido, obrigada Lúcia, você como sempre abrindo meus olhos, fornecendo conceitos tão lógicos que no dia a dia não consigo refletir sozinha. – respondeu Adelaide muito grata.

         "Naquela noite, e nas que seguiram, Adelaide orou, com muita fé, pelo filho, que com certeza, foi beneficiado pelas preces da mãe."

Juliana Guzzo

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Sinal vermelho



         Sinal vermelho. Minha mãe, dirigindo o carro, parou para aguardar o sinal verde. Enquanto esperávamos, um carro e uma moto ultrapassaram o sinal vermelho.

         Nós duas nos olhamos e eu perguntei:

         - Não está vermelho o sinal?

         Minha mãe respondeu afirmativamente.

         - E por que eles passaram?

         - Boa pergunta. Não sei por que eles desobedeceram às leis de trânsito. Felizmente não houve um acidente, mas algo muito grave poderia ter acontecido.

         O sinal abriu e seguimos rumo à escola. Foi quando minha mãe indagou:

         - Você sabe a diferença entre as leis humanas e as leis divinas?

         - Não, não sei – eu realmente não sabia.

         - As leis divinas regem o Universo e não mudam, como a lei de reencarnação e a lei de evolução. As leis humanas são elaboradas pelos seres humanos e mudam, conforme a época e a evolução do povo. Devemos obedecer às leis humanas, porque elas ajudam as comunidades a viver em harmonia. Já pensou se ninguém respeitasse as leis de trânsito? Quantos acidentes!

         - O mundo seria uma bagunça! Sem leis seria o caos – pensei alto.

         - Isso mesmo – mamãe concordou. Mas há um detalhe: as pessoas podem desrespeitar as leis humanas sem efeitos imediatos, como o motorista que passou o sinal vermelho, porém, ninguém foge às leis divinas. Todas as nossas atitudes tem consequências, boas ou más, conforme a ação praticada. É a lei de causa e efeito, a que todos estamos sujeitos.

         - Então aqueles motoristas vão sofrer um acidente mais tarde, porque passaram o sinal vermelho?

         - Não necessariamente. Mas todas as nossas atitudes, boas ou más ficam registradas no nosso “livro da vida”.

         - “Livro da vida”? Nunca ouvi falar...

         - Uns chamam de “livro da vida”, outros de consciência. É onde estão registradas as leis divinas, e também nossas atitudes e pensamentos. E quando desencarnarmos, e fizermos uma análise da última existência, acessaremos esses arquivos de memória. Por isso aquele ensinamento de Jesus: “Vigiai e orai”! Vigiai os seus pensamentos e ações, a fim de não realizar escolhas erradas, que tragam tristeza e arrependimento no futuro.

         Minha mãe e eu somos espíritas. Essa foi mais uma das lições que aprendemos juntas. Ainda falta muito tempo mas, quando eu dirigir meu carro, já sei que devo obedecer as leis de trânsito. Porque, em harmonia com as leis humanas e divinas, estou no caminho da evolução e da felicidade.

Claudia Schmidt

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As visitas da mamãe



         Hoje acordei muito cedo. Estou de férias no colégio, mas minha mãe fez questão de me acordar para sairmos juntas. Não vamos ao clube, não vamos ao shopping, nem passear. Ela tem um hábito, já há muito tempo, de visitar as famílias que moram em bairros mais carentes onde, alguns, nem casa têm.

         Para mim, no início, parecia estranho essas visitas, mas agora eu me acostumei e até gosto. Fiz amizade com crianças que nunca tinham tido brinquedos, que quase sempre usam a mesma roupa porque não tem outra, que ficam contentes em ganhar biscoitos que eu já estou enjoada de comer. Aprendi com elas que para ser feliz não é necessário muita coisa.

         Observei que mamãe não coloca suas roupas mais enfeitadas para estas visitas e entendi, depois de algum tempo, que era para não humilhar as outras mães que não podiam se vestir como ela, assim elas ficam mais próximas uma das outras.

         Nossa primeira visita foi em uma família que eu adoro. Quando chegamos à porta da casa muito pobre todos nos receberam com enorme alegria. As crianças cercaram e abraçaram mamãe com muito amor. A senhora dona da casa, mesmo preocupada com o esposo que estava acamado no hospital, recebeu-nos com muito afeto e gratidão. Levamos roupas, comida e um pouco de dinheiro, pois sem o esposo, a família não tem condições de se manter.

         Eu queria dar alguma coisa para eles também, mas minha mãe explicou que qualquer coisa que eu desse não seria minha, então eu não teria nenhum merecimento. Se eu quisesse dar algo de mim que tratasse dos doentes, cuidasse das crianças, auxiliasse em alguma tarefa naquele lar – isso seria a minha caridade. Poderia também aprender a costurar e fazer alguma roupa para aquelas crianças. Eu entendi que a caridade só pode ser feita quando damos aquilo que é nosso, seja algo material, o tempo ou o próprio esforço.

         Mamãe prometeu às crianças que visitaria o pai delas no hospital, levando conforto e tranquilidade. Quando saímos desse lar, fomos a outros, ajudando naquilo que cada um mais precisava.

         Já no fim da tarde, cansadas de tantas visitas, mas com o coração leve e extremamente alegre, chegamos em casa com a sensação de ter 'ganho o dia'. Algo que sempre me chamou atenção é que ninguém, além de mim, sabe dessas visitas da mamãe. Ela diz que, para fazer o bem, não se deve ter nenhum outro interesse se não o de ajudar.

         O que eu sei é que minha mãe é uma pessoa especial porque está sempre feliz, de bem com a vida e nunca se queixa de nada – acho que isso tem a ver também com as preces que todos prometeram fazer por ela.

Baseado em Os infortúnios ocultos de O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XIII, item 4.

Luis Roberto Scholl

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Quem tem Jesus no coração...



         Sabrina era uma jovem que frequentou durante anos as aulas de evangelização espírita infantil no Grupo Espírita que sua família participava. Ela nunca faltava. Era uma aluna atenta e questionadora.

         Sabrina quase não faltava as aulas, e, apesar da pouca idade, procurava colocar em prática os ensinamentos de Jesus.

         Após um tempo, porém, ela teve que se afastar deste compromisso, pois sua família mudou de cidade, indo morar em uma cidade bem pequena, que tinha apenas um Centro Espírita onde não havia - ainda - aulas de evangelização infanto-juvenil.

         Nos anos seguintes, Sabrina passou por situações muito difíceis: doença da irmã, abandono, perda de pessoas queridas... Ela fazia da prece sua companheira, mas sentia falta dos encontros, onde aprendia tantas coisas importantes, tinha amigos e o carinho das evangelizadoras.

         Quando Sabrina retornou, já adulta, ao grupo de estudos da Doutrina Espírita, ela relatou que havia algo que a sustentava em todos os momentos: a lembrança de um ensinamento recebido de uma evangelizadora da infância. E contou:

         - A evangelizadora dizia: “Quem tem Jesus no coração nunca está sozinho!” Com esse pensamento, eu me sentia sempre auxiliada e amparada pelo Mestre, e fui vencendo com coragem e resignação os momentos de dor. Jesus, nosso modelo e guia, governador do nosso planeta, sempre está conosco. O Cristo jamais nos deixa sozinhos... Com essa certeza devemos avançar fortes, corajosos e confiantes.

***


         Que possamos ter a certeza de que, se um dia nos sentirmos sem recursos, sozinhos, nunca estamos realmente sós! Jesus é nosso amigo, nosso companheiro de jornada. Lembremos também da presença carinhosa dos bons Espíritos, convidando-nos à renovação e ao equilíbrio. Eles são amigos anônimos, invisíveis aos olhos carnais, porém sempre presentes. Com fé na sabedoria e justiça de Deus seremos mais fortes no enfrentamento das dificuldades, dos desafios que se apresentarem nos caminhos do progresso que traçamos. E que a Doutrina Espírita, que nos ilumina a alma, possa nos tornar iluminados, no testemunho de fidelidade, de amor e de fé que formos capazes de oferecer.

Narrativa baseada em um fato real

Claudia Schmidt

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Fazer o bem, sem olhar a quem



         A família entrou no consultório falando alto: pai, mãe e filha não se entendiam.

         A pediatra que tratava o corpo, mas também a alma, tentou acalmá-los, para que pudesse verificar qual era o motivo que os trazia até ali.

         A menina, uma quase adolescente, não tinha nada de grave fisicamente, e a consulta parecia sem mais um pedido de socorro daqueles três corações em conflito. Mas qual seria a dificuldade? Ciúmes do irmão mais novo? Problemas na escola? Relacionamento difícil com os familiares?

         A menina, com certeza, tinha muitas coisas materiais, mas conversando com ela era possível perceber que ela não sabia utilizar o que possuía para sua felicidade e dos outros, estando sempre insatisfeita e mal-humorada.

         A falta de objetivos, além do grande desejo de ter muitas coisas materiais, era evidente em todos naquela família. Aproveitando uma oportunidade, a médica falou sobre o objetivo da vida: evoluir, desenvolver as virtudes que trazem felicidade. Falou também da Lei de Causa e Efeito e de como é importante o que pensamos e fazemos, pois emitimos energias, positivas ou negativas. A pediatra falava de um jeito tão natural e amoroso que conseguia envolver desde os pais, até a menina, na reflexão.

         - Mas tem hora que eu não sei o que fazer, e quando vi, já fiz a bobagem! - desabafou a menina.

         - Isso também acontece comigo, lembrou a médica. E sabe o que eu faço? Quando não sei o que fazer, eu penso: “O que Jesus faria nessa situação?” Então, logo sei qual a melhor atitude. Mas se errei, procuro pensar: “E agora, o que posso fazer para consertar?” E tento fazer algo de bom logo em seguida, se possível para a pessoa que prejudiquei, ou então para outra pessoa.

         A jovem médica sabia que cada consulta era um momento especial, pois sempre podemos fazer o bem, seja qual for a nossa profissão. Em pensamento, ela fez uma prece de agradecimento por conhecer a Doutrina Espírita que lhe oportunizou entender tantas coisas, tornando-se luz em seu caminho. Orou também por aquela família que, naquele momento, precisava aprender e praticar os ensinamentos de Jesus para encontrar o caminho da harmonia e da felicidade.

         Esse foi mais um dia de muito trabalho para a pediatra, mas ela atendeu a cada criança, cada família, com muito amor e dedicação, colocando em prática o seu objetivo nesta vida: “Evoluir, semeando o bem; ajudar, sem olhar a quem.”

Claudia Schmidt

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Uma amizade especial



         Era uma vez um menino chamado João, ele era filho único e morava com seus pais. João sempre sentiu-se muito amado por sua família.

         Diante do planejamento reencarnatório familiar, os pais de João decidiram ter mais um filho, João ficou muito feliz com a ideia de ter um irmão.

         Passaram-se nove meses e o bebê nasceu. João ganhou um irmão como desejou, ele se chamava Pedro. Porém com o passar dos dias, João começou a nutrir um sentimento desagradável, o ciúme, e a pensar que seus pais davam somente atenção para o bebê, e talvez já não o amassem tanto quanto antes. Para João, Pedro era agora o centro das atenções da família.

         João era um menino muito sensível e inteligente, e começou a perceber a preocupação de seus pais, pois o bebê estava demorando muito para falar. O pequeno João se deixou envolver pelo amor de seu irmão, e passou a dar mais atenção para Pedro, que ficava muito feliz com as demonstrações de afeto do seu mano mais velho.

         Com muito carinho os pais de João lhe explicaram que seu irmão tinha dificuldades para ouvir e que provavelmente não conseguiria falar. Cada vez mais João procurava entender as necessidades de seu irmão e passou a inventar brincadeiras em que a fala não era importante.

         Os meninos cresciam e cada vez se amavam mais. Eles dormiam no mesmo quarto. E foi numa linda noite de verão que João começou a ouvir vozes durante o sono, acordou e percebeu que não havia mais ninguém no quarto, alem dele e seu irmão caçula que dormia profundamente.

         Ao dormir novamente voltou a ouvir a mesma voz, se concentrou para entender o que ela dizia, e assim ouviu:

         - João meu querido, sou eu o Pedro seu irmão. Você sabia que durante o sono, enquanto nosso corpo descansa, podemos nos libertar dos limites do nosso corpo e em Espírito nos encontrar com aqueles que amamos?

         João se sentiu muito feliz ao descobrir que durante o sono poderia conversar com seu irmão. Quando acordaram João ainda lembrava daquele encontro feliz.

         Era feriado e o pai dos meninos levou-os para brincarem no parque da cidade. Eles brincavam felizes quando começou a chover, o pai amoroso sugeriu que os meninos esperassem a chuva parar dentro do carro. João e Pedro se entre olharam, e sem falarem nada, um entendeu o pensamento do outro. Deram-se as mãos e correram brincar na chuva.

Evangelizanda: Luise Pazini Albuquerque, segundo ciclo.

Evangelizadora: Adriana Cardoso da Silva - Grupo Espírita Amigos de Chico (Santo Ângelo/RS).

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Sophia e seu anjo amigo



         Sophia, assim se chamava uma menina que morava bem perto daqui, em uma casa muito simples, porem limpinha e aconchegante, com seus pais e seu irmãozinho que ainda era um bebê. A mãe de Sophia cuidava da casa e da família e seu pai trabalhava como marceneiro.

         Certo dia, Sophia estava voltando da à escola quando tropeçou em uma pedra e caiu. Algumas pessoas que passavam por ali a ajudaram a levantar, ela sentia o joelho doendo, mas continuo a sua caminhada.

         Chegando em casa logo disse:

         - Mamãe, machuquei meu joelho.

         Sua mãe toda carinhosa fez um curativo e deixou a menina deitadinha no sofá.

         Seu pai chegou do trabalho e foi ver o que tinha acontecido. Foi quando Sophia lhe perguntou curiosa:

         - Pai, existe anjo da guarda?

         O pai lhe respondeu:

          - Claro que existe minha filha!

         E continuou explicando:

         - Sophia, cada um de nós tem um Espírito que nos protege que chamamos de anjo da guarda.

         E Sophia interrompeu:

         - Mas então quando eu estava indo para a escola porque meu anjo da guarda deixou que eu tropeçasse e caísse?

         Seu pai sorridente lhe falou:

         - Milha filha, quando você caiu, poderia ter acontecido algo muito pior. Mas graças à proteção do se anjo da guarda você apenas machucou o joelho! E agora Sophia, você acredita em Espíritos protetores e anjos guardiões?

         Sophia que depois daquela conversa amiga já estava quase esquecendo a dor no joelho, pulou no colo do pai, lhe deu um abraço e respondeu:

         - Agora sim papai, agora sim!

Evangelizanda: Luise Pazini Albuquerque – Segundo ciclo - Grupo Espírita Amigos de Chico (Santo Ângelo/RS).

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Fazendo o bem



         Durante uma aula de Evangelização, entre todas as coisas que a professora falou, Bentinho gravou mentalmente de modo especial que todos temos tarefas a cumprir e que devemos sempre fazer o bem aos outros.

         Bentinho, garoto esperto e inteligente, ouviu e guardou dentro do coração as palavras da professora.

         No dia seguinte, no horário do recreio, viu uma colega tentando resolver um problema de matemática. Bentinho lembrou-se do que a professora tinha dito e não teve dúvidas, parou e, como tinha facilidade para matemática, em poucos minutos resolveu a questão.

         A garota agradeceu, encantada, e Bentinho afastou-se satisfeito, pensando: Fiz a minha primeira boa ação do dia.

         Na saída da escola, passou por uma casa onde um garotinho tentava empinar uma pipa sem muito sucesso. Num impulso, aproximou-se e, tomando o brinquedo das mãos do menino, rapidamente colocou a pipa no céu.

         O garoto agradeceu, surpreso, segurando o carretel de linha que mantinha a pipa no ar, e Bentinho prosseguiu seu caminho sentindo-se cada vez melhor. Fizera sua segunda boa ação do dia e um grande bem-estar o inundava por dentro.

         Mais adiante, pouco antes de chegar a sua casa, viu um menino abaixado junto a uma bicicleta. Aproximou-se e percebeu que ele estava com problemas. A corrente tinha saído do lugar. Imediatamente, Bentinho ajoelhou-se e, com presteza, arrumou a corrente. O menino agradeceu e foi embora.

         Bentinho entrou em casa todo orgulhoso.

         Contou à mãe o que tinha feito naquela manhã e ela deu-lhe os parabéns pela ajuda às três crianças. Depois, perguntou:

         — E agora? O que pretende fazer, meu filho?

         — Vou almoçar e depois ficarei lá fora vendo se posso ajudar mais alguém hoje.

         A mãe escutou e não disse nada.

         Depois do almoço Bentinho ficou no portão, esperando o que ia acontecer.

         Mais tarde, ele voltou para casa, satisfeito, e contou para a mãe:

         — Mamãe, ajudei uma senhora a atravessar a rua. Depois, ajudei o carteiro a entregar todas as correspondências.

         Bentinho parou de falar, sorriu e concluiu cheio de orgulho:

         — Estou exausto, mas muito feliz, mamãe. Agora vou tomar um banho, jantar e dormir.

         A mãe olhou-o com seriedade e considerou:

         — Bentinho, muito louvável seu desejo de ajudar as pessoas, meu filho. Todavia, e suas tarefas, quem fará?

         Bentinho arregalou os olhos, como se só naquele momento tivesse se lembrado de seus deveres.

         — Mas, mamãe... — gaguejou, decepcionado —, achei que estava fazendo a coisa certa!

         — Sim, meu filho. Só que ajudar aos outros é algo mais que podemos fazer, sem esquecer nossas próprias obrigações. A professora não disse que todos têm suas tarefas a cumprir?

         — É verdade. E agora?

         — Agora, você tem os deveres da escola para fazer, o quarto para arrumar, os brinquedos para guardar. Ah! E ainda ficou de consertar a bicicleta de seu irmão, lembra-se?

         — Mas já é tarde! — reclamou o garoto.

         — Não é tão tarde assim. Você ainda tem algum tempo antes do jantar.

         Vendo que a mãe estava irredutível, Bentinho baixou a cabeça e foi cumprir suas obrigações. Em seguida, tomou banho e jantou. Depois da refeição, extremamente cansado, foi logo dormir.

         A mãe entrou no quarto para fazer a oração com ele.

         Sentou-se na beirada da cama e, acariciando os cabelos do filho, disse:

         — Meu filho, eu estou muito orgulhosa de você hoje. Fez a coisa certa ajudando às pessoas. Só que, no impulso de ser útil, não podemos ultrapassar o limite da ajuda realizando a tarefa pelo outro.

         — Como assim, mamãe?

         — Por exemplo. Fazendo a tarefa de matemática para sua colega, você a impediu de aprender. O mais correto seria tê-la ensinado a resolver o problema. Entendeu?

         — Entendi, mamãe. Quer dizer que eu poderia ter ajudado o garotinho a empinar a pipa, mas não a fazê-lo por ele, não é? Assim também com o garoto da bicicleta. Se eu o tivesse ensinado a colocar a corrente, em outra ocasião ele saberia fazer isso sozinho. E o carteiro?

         — A questão do carteiro é mais complexa, meu filho. A responsabilidade por entregar a correspondência pertence a ele. O carteiro ganha para isso. E se você tivesse feito algo errado? Como entregar uma correspondência importante em endereço diferente? Ou se perdesse uma carta? A responsabilidade seria dele e ele sofreria as consequências.

         — Tem razão, mamãe. Mas acho que agi bem quando ajudei a senhora a atravessar a rua.

         — Exatamente, meu filho, embora tudo o que você fez hoje tenha sido bom. Só não devemos tirar a oportunidade das pessoas de aprenderem fazendo suas obrigações.

         — Nem de nos esquecermos de fazer as nossas!

         Bentinho estava contente. Tinha sido um dia diferente e muito produtivo.

         Abraçou a mãezinha com amor, e, juntos, fizeram uma prece a Jesus, gratos pelas lições daquele dia.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Prêmio ao trabalho



         Certa vez uma Anjo de rutilante beleza desceu à Terra.

         Estava à procura de uma criança que pudesse servir de ligação entre a Terra e o Céu, e que tivesse desenvolvido sentimentos nobres, boa-vontade e o amor ao próximo.

         Como recompensa, essa criança teria a ventura de fazer uma visita a planos superiores, com a finalidade de aprendizado e recreação, durante as horas consagradas ao repouso noturno.

         Passando por certa cidade, o Anjo viu um garoto que parecia simpático. Aproximou-se e convidou-o a ajudar uma família muito necessitada das redondezas. O menino respondeu:

         — Agora não posso! Preciso destruir um ninho de pardais que andam estragando as frutas do nosso pomar. Talvez mais tarde...

         E, assim dizendo, apanhou o estilingue e afastou-se.

         O Anjo baixou a cabeça muito triste ao ver a MALDADE do garoto, e foi embora.

         Mais adiante encontrou uma menina e aproximou-se, esperançoso, convidando-a para ajudar os necessitados. Ela pensou um pouco e respondeu, pesarosa:

         — Agora não posso. É minha hora de brincar e meus amigos estão esperando. Mais tarde, talvez...

         O Anjo sorriu de leve ao perceber o EGOÍSMO da criança e afastou-se, triste.

         Mais tarde, o Anjo encontrou um garoto e abordou-o, otimista. O menino, que parecia não ter problema nenhum, morava numa bela casa e estava desocupado, respondeu imediatamente:

         — Ah! Não sei não. Tem certeza de que são necessitados mesmo? Veja aquele moleque de rua que está no meu portão. É um malandro e procura apenas uma maneira de se aproximar de minha casa para roubar. Essa “gentinha” não me engana. Fora! Fora! Vadio! Vá trabalhar!

         Ao ouvir as palavras cruéis e cheias de ORGULHO do garoto, o Anjo afastou-se sem dizer nada.

         E assim, prosseguiu em sua busca sem encontrar a criança que apresentasse os requisitos necessários, isto é, boa-vontade e amor ao próximo.

         Estava quase desistindo, quando viu um garoto maltrapilho. Aproximou-se e fez-lhe o mesmo convite, embora sem muita esperança, pois o menino aparentava ser bem pobre.

         Os olhos do menino brilharam ao ouvir o convite do Anjo e respondeu, incontinenti:

         — Ah, vou sim! O senhor pode me aguardar só um pouquinho? Estou voltando do mercado onde fui fazer umas compras para o almoço. Moro aqui perto. Vamos até em casa?

         O Anjo o acompanhou mais animado, notando-lhe a boa-vontade. Lá chegando, verificou a extrema pobreza em que sua família vivia.

         Já na entrada, o menino conversou amigavelmente com os passarinhos e galinhas que vieram encontrá-lo.

         — Ah, meus amigos! Pensam que me esqueci de vocês? Aqui está o que lhes trouxe — e, assim dizendo, tirou do bolso da calça um pedaço de pão duro que ganhara e distribuiu com as aves famintas.

         Em seguida, entrou em casa.

         — Mamãe! — disse o menino. — Vou sair para visitar umas pessoas necessitadas. Posso levar-lhes alguma coisa? Devem estar passando fome. Sei que temos pouco, mas eu não preciso de nada, por isso levarei a parte que me cabe. Não se preocupe com o serviço; arrumarei a cozinha quando voltar. Está bem?

         Ao ouvir as palavras do menino, o Anjo compreendeu que encontrara o que tanto tinha procurado.

         Foi com os olhos úmidos de emoção que acompanhou o garoto até o lar que precisava de ajuda.

         Com carinho, o menino atendeu a todos: Tratou de um doente, deu banho no caçula da casa e ajudou a senhora no serviço doméstico. Quando terminou estava cansado, mas feliz.

         Disse à dona da casa:

         — Não se preocupe. Vou tentar arrumar serviço para seu marido. Dou uma ajuda de vez em quando numa casa muito rica e tenho certeza que o dono, que é um homem muito bom, poderá arranjar alguma ocupação para ele.

         Fez uma pausa e concluiu:

         — Tenha muita confiança em Deus! Ele não nos desampara nunca.

         A pobre mulher, mais animada, agradeceu sensibilizada a ajuda que recebera, e o garoto despediu-se, prometendo voltar assim que pudesse.

         O Anjo, profundamente emocionado, ao deixarem a casa disse ao menino:

         — Parabéns! Você merece um prêmio pela sua BOA-VONTADE e AMOR AO PRÓXIMO. Receberá, de hoje em diante, toda a ajuda que lhe for necessária para o prosseguimento de sua tarefa de ajuda ao semelhante, porque Deus precisa do concurso de todas as pessoas de bem para a implantação do seu Reino de Amor na face da Terra.

         Naquela noite o garoto teve lindos sonhos, sendo levado para regiões mais felizes do Plano Espiritual onde receberia instruções para trabalhar, acordando no dia seguinte com ânimo renovado para enfrentar a vida.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Escolhendo o presente do papai



         Andando pelas ruas de comércio da cidade, Julinho, de oito anos, pensava:

         — O que vou comprar de presente para o papai?

         Aproximava-se o Dia dos Pais e ele queria dar um presente ao seu pai, mas que representasse seu próprio esforço.

         Conseguira economizar dez reais da mesada do mês e disse à mãe:

         — Mamãe! Posso escolher um presente para o papai? Mas quero fazer isso sozinho!

         Antes de responder, a mãe pensou um pouco, e achou que seria bom para o filho: ele ia exercitar a responsabilidade, aprender a utilizar o livre-arbítrio, isto é, entre várias opções de escolha, tomar a decisão adequada à quantia que tinha em suas mãos; além disso, saindo desacompanhado, também exercitaria a independência, tornando-se mais confiante e seguro de si mesmo.

         Depois de pensar, a mãe decidiu:

         — Está bem, Julinho, pode ir. Mas, espere um momento. Vou pegar o dinheiro para você levar.

         — Não precisa, mamãe. Eu tenho dinheiro! Economizei na mesada deste mês — afirmou o menino com satisfação, tirando a nota de dez reais do bolso da calça e mostrando-o à mãe.

         Agradavelmente surpresa, a senhora sorriu e disse:

         — Então está bem, meu filho. Cuidado ao atravessar as ruas e guarde bem seu dinheirinho. Vá com Deus!

         O menino arrumou-se, penteou os cabelos, colocou a nota no bolso da calça e despediu-se da mãe.

         Andou por várias lojas. As opções eram muitas. Olhou calças e camisas, mas eram caras. Um par de sapatos? Nem pensar! Não tinha dinheiro para comprá-los.

         Caindo na realidade, começou a ver coisas mais ao seu alcance. Talvez um lenço ou um par de meias? Quem sabe uma caixa de chocolates? Seu pai gostava de música; quem sabe um CD de músicas resolveria a questão?

         As dúvidas eram muitas, e os preços também.

         Na verdade, olhando as vitrines das lojas, Julinho pensava... pensava... Ele queria dar algo ao seu pai, a quem amava tanto, mas que ele pudesse se lembrar dele para sempre. Que o presente o acompanhasse por toda a vida!

         Desse modo, as coisas de comer estavam descartadas. Uma gravata, uma caixa de lenços ou um par de meias, ele usaria por algum tempo, depois iria deixar de lado por terem ficado velhos. O CD, ele poderia não gostar das músicas.

         Com a cabecinha cheia de dúvidas, Julinho passou por uma livraria e seus olhos se arregalaram:

         — Um livro! Por que não pensei nisso antes?

         Decidido, entrou na livraria e, no meio dos livros que estavam em exposição, achou um perfeito e com desconto! Era exatamente o que ele queria, e ao preço de dez reais! Seu pai iria adorar!

         Mandou embrulhar para presente, pagou e saiu da loja todo feliz.

         No domingo, Dia dos Pais, Julinho levantou-se cedo e, passando a mão no pacote, correu a abraçar seu pai. Com o presente escondido nas costas, ele chegou ao quarto do pai todo sorridente.

         — Papai, parabéns pelo seu dia! Trouxe uma coisa para você. Olhe!

         E estufando o peito com orgulho, entregou ao pai o lindo pacote amarrado com bela fita vermelha.

         — Obrigado, filhinho. Mas, o que será? — disse o pai, mostrando curiosidade.

         Ao abrir o pacote deparou-se com um livro.

         — Meu filho! É um presente muito valioso. Adorei a idéia!

         — Fui eu que escolhi, papai. Queria dar-lhe um presente que fosse útil em todas as ocasiões e que, cada vez que o abrisse, se lembrasse de mim.

         Comovido, ele exclamou:

         — Acertou em cheio, meu filho! Não poderia ter escolhido melhor. Obrigado!

         Deu um grande e carinhoso abraço no pequeno Júlio. Depois, mostrou o livro à mãe.

         — Veja, querida. É um exemplar de “O Evangelho segundo o Espiritismo”!

         A mãe, também comovida, abraçou-se aos dois e ficaram os três enlaçados.

         — Sabia que você iria gostar, papai. Certo dia, ouvi você dizer para a mamãe que este livro traz muito conhecimento para quem o lê e serve em todos os momentos: na alegria e na tristeza, na saúde e no sofrimento. Que ele consola, alegra, dá paz e esperança a quem precisa.

         — Isso mesmo, meu filho. Você lembrou muito bem. Nesta obra estão contidas as lições que Jesus nos deixou para servir-nos de guia na existência.

         Emocionado, naquele momento o pai pediu que orassem juntos para agradecer a Deus o filho tão especial que lhe dera, e também o dia que estava apenas começando, mas que prometia ser feliz e cheio de bênçãos.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A lição do Totó



         Era uma vez um menino que se chamava Juquinha.

         Juquinha era muito malcriado. Gostava de brigar com os outros garotos e divertia-se em maltratar os animais.

         Os garotos se defendiam, mas os pobres animais, muito dóceis e humildes, não reagiam.

         Ele vivia atirando pedras nos passarinhos e destruindo seus ninhos; puxava o rabo dos gatos, batia nos cachorros e arrancava penas das galinhas.

         Um horror! Ninguém gostava dele.

         Sua mãe, que era uma mulher muito bondosa, condoída da sorte dos bichinhos que tinham a infelicidade de cair nas mãos do menino, tentando corrigi-lo aconselhava com carinho:

         — Juquinha, meu filho! Tome cuidado. Um dia você ainda vai se arrepender! Que mal lhe fizeram esses pobres bichinhos? Eles são filhos de Deus, como nós, e merecem todo o nosso respeito e carinho.

         Mas, qual nada! Juquinha sacudia os ombros, fazia uma careta e ia brincar, sem se importar com os conselhos de sua mãe.

         Um dia Juquinha resolveu sair para passear com seu cachorrinho Totó.

         O cãozinho ia à frente, todo satisfeito, abanando o rabo. Era tão difícil Juquinha convidá-lo para sair!

         Caminhando pela rua, o menino avistou um pequeno galho que tinha caído de uma árvore. Pegou-o, fez com ela uma varinha, e começou a agitá-la no ar. Depois, tendo outra ideia, com más intenções, ameaçou Totó com a varinha, como se fosse bater nele.

         O cãozinho, que vez por outra olhava para trás, viu o gesto e percebeu a intenção do garoto.

         Totó, que já estava cansado dos maus tratos recebidos do seu dono, resolveu lhe dar uma lição.

         Virou-se e deu uma mordida na perna do Juquinha. Uma pequena mordida, apenas para assustá-lo, dar-lhe uma lição. Mas o menino, surpreso e apavorado, começou a chorar de dor.

         Com a dor que sentiu ao ser mordido pelo cão, que sempre fora seu amigo, Juquinha percebeu o que os animais sentiam quando ele os machucava.

         Desse dia em diante ele tornou-se um menino bonzinho e protetor dos animais.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Buscando solução



         O pequeno Gabriel, de sete anos apenas, andava muito triste.

         O ambiente da sua casa, que sempre fora cheio de paz, amor e alegria, já não era o mesmo.

         Desde algum tempo, percebia que seus pais brigavam muito. Mal se falavam e, quando isso acontecia, era para discutir.

         Gabriel e seus irmãos, Clarinha e Vinícius, pouco mais velhos do que ele, ficavam quietinhos no quarto, com o coração apertado de preocupação, sem saber o que fazer para ajudar.

         Um dia, os pais brigaram tanto que o pai saiu de casa batendo a porta com estrondo, e a mãe ficou chorando muito em seu quarto.

         Gabriel não conseguia pensar em nada mais. Não estudava, não brincava, não conseguia fazer seus deveres e estava indo mal na escola.

         Há dois dias eles tinham brigado e o pai ainda não voltara para casa. Sua mãe parecia uma sombra, sempre de olhos inchados de tanto chorar.

         — Mamãe, o papai não vai voltar? — perguntou, preocupado com a situação.

         A mãezinha abraçou-o com carinho e sorriu, afirmando:

         — Claro que vai, meu filho. Ele está muito ocupado com o trabalho, por isso não tem vindo para casa.

         Não se preocupe. Tudo vai bem.

         Mas Gabriel sabia que nada ia bem. E ele pensava: “O que será de nós se papai não voltar? Como ficará nossa vida? Será que ele não gosta mais de nós?”

         Mas não encontrava resposta para essas perguntas. Porém, ele sabia que precisava fazer alguma coisa.

         Lembrou-se de que sua mãe costumava dizer que Deus sempre tinha uma resposta para nos dar diante dos sofrimentos, e que se a buscássemos nas palavras de Jesus, encontraríamos o socorro desejado.

         Então Gabriel pegou o Evangelho, abriu numa página qualquer, certo de que Jesus certamente o ajudaria mostrando o caminho. De olhos fechados, colocou o dedinho num local da página. Seus olhos fixaram-se na frase onde colocara o dedo, e leu: “Quem pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate à porta, ela se abrirá.”

         De olhos arregalados, leu a frase várias vezes. Sim! Mamãe tinha razão! Jesus tinha lhe mandado a resposta. Entendeu que teria que orar pedindo o que desejava, e que encontraria um meio de resolver a situação dos pais.

         Gabriel começou a orar, pedindo a Deus que não permitisse que sua família fosse destruída.

         Todas as vezes que se lembrava do problema, ele repetia a oração.

         Aquela noite ele conseguiu dormir mais tranquilo.

         De manhãzinha, acordou com uma “ideia luminosa” na cabeça. Pegou lápis e uma folha de caderno e escreveu um bilhete para o papai, nestes termos:

         “Querido Carlos, eu amo você. Precisamos conversar. Eu espero você naquele restaurante que a gente sempre vai, às oito horas da noite. Um beijo, Fernanda.”

         Escreveu outro bilhete igualzinho, só trocando os nomes, como se fosse o papai convidando a mamãe para um encontro. Olhou os bilhetes, contente com ele mesmo. Depois, todo alegre, deixou o bilhete para a mãe na porta da rua, para que ela o encontrasse ao abri-la.

         Arrumou-se para ir à escola e, quando foi tomar café, notou que a mãe já estava mais animada.

         Na saída da escola, passou no prédio onde seu pai trabalhava, que era bem pertinho, e deixou o bilhete com o porteiro para lhe entregar. Em seguida, pôs-se a orar para seu plano dar certo.

         De tarde, sua mãe avisou aos filhos que iria sair um pouco à noite. Depois, foi ao salão se arrumar.

         Gabriel não tinha contado nada aos irmãos, que estranharam o comportamento da mãe. Ande será que ela iria?

         De noite, a mãe apareceu na sala, já toda arrumada e perfumada, avisando:

         — Não vou demorar. Tranquem bem a porta e não saiam de casa.

         Mais tarde, quando voltou, os irmãos tiveram uma grande surpresa: o pai a acompanhava.

         Carlos abraçou os filhos, com muito amor. Após matarem a saudade, o pai disse às crianças:

         — Meus filhos, hoje eu percebi o mal que estava causando a vocês. Eu e a mãe de vocês conversamos e resolvemos nunca mais brigar. Procuraremos acertar nossas diferenças, daqui em diante, dialogando em paz. Hoje compreendemos que, se existe amor, não há o que não se possa resolver.

         Parou de falar, enxugou uma lágrima, e prosseguiu:

         — E isso nós conseguimos graças ao Gabriel, que encontrou a maneira certa de nos aproximar de novo.

         E contou, diante de Clarinha e Vinícius, que ouviram surpresos o que o filho tinha feito.

         Muito admirado, Gabriel perguntou:

         — Mas como vocês descobriram que fui eu?

         Todos riram, quando os pais mostraram os bilhetes que tinham recebido.

         Aquela letrinha, a mesma nos dois bilhetes, e tão conhecida, só podia ser a do Gabriel!

         O garoto ficou encabulado por ter sido descoberto. E o pai, desarranjando-lhe os cabelos, disse emocionado:

         — Todos nós temos a agradecer ao nosso querido Gabriel, que soube resolver a situação que eu e sua mãe criamos.

         Gabriel sorriu, satisfeito e aliviado, e contou:

         — Agradeçam a Jesus. Foi ele que me mostrou o caminho!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O girassol



         Narciso, um garoto muito mimado, vivia sempre criando problemas com os colegas.

         Ele não aceitava ser contrariado. Sua vontade tinha sempre que prevalecer. E, quando isso não acontecia, fechava-se, irritado, e não conversava com ninguém.

         Aproximava-se a primavera, estação das flores. Num lindo dia de sol, a professora levou os seus alunos até um jardim, no fundo da escola.

         — Como vocês sabem, o inverno está terminando e logo a primavera vai chegar. Por isso, hoje vamos ter uma aula prática de jardinagem. Já aprenderam em classe o que as plantas precisam para germinar, se desenvolver e dar flores ou frutos. Então, vocês vão agora plantar as sementes ou mudas que trouxeram de casa.

         Os alunos, animados, foram retirando das sacolas o que haviam trazido para plantar.

         Cada um deles escolheu uma espécie diferente de flor.

         Um aluno dizia, orgulhoso:

         — Professora, trouxe algumas mudas de onze-horas. Mamãe disse que elas se alastram com facilidade e dão lindas flores.

         — Muito bem, Zezinho.

         — Eu trouxe uma muda de hortênsia, professora — disse Ricardo.

         — E eu, uma muda de manacá para enfeitar e perfumar nosso jardim! — afirmou Bentinho.

         E assim, cada um deles mostrava o que trouxera de casa: roseiras, crisântemos, petúnias, violetas, margaridas e muito mais.

         Narciso, que lembrou na última hora a necessidade de levar uma planta para a escola, ao sair de casa arrancou a primeira que encontrou.

         Ao observar o que os colegas trouxeram, sentiu-se diminuído ao ver que havia plantas muito mais bonitas que a sua.

         Vendo que só ele se mantinha calado, a professora perguntou:

         — Narciso, o que você trouxe?

         Envergonhado, ele respondeu, mostrando a planta, cujas folhas caídas pareciam murchas:

         — Não sei nome dessa planta, professora.

         — Alguém sabe? — ela indagou para os demais.

         Rafael, um garoto muito esperto e inteligente, do qual Narciso não gostava, respondeu:

         — Eu sei, professora! É uma mimosa ou sensitiva. Ela se encolhe toda ao ser tocada, por isso está assim.

         Um dos meninos comentou em tom de brincadeira:

         — O Narciso tem nome de flor, mas se assemelha mais à sensitiva: ninguém pode se aproximar dele!

         Os demais caíram na risada. Sentindo-se humilhado perante o conhecimento do outro e a brincadeira do colega, Narciso revidou, irritado:

         — E você, Rafael, trouxe essa enorme flor amarela para aparecer, não é?

         Rafael, que realmente trouxera uma muda já com uma linda flor, estranhou a reação do colega. Olhou para ele, pensou um pouco e respondeu tranquilo:

         — Está enganado, Narciso. Escolhi o girassol porque é uma planta que acho linda e admiro muito. Não sei se você reparou, mas ele sempre, onde estiver, procura o sol. Tem gente que busca a escuridão, mas eu, como o girassol, desejo buscar a luz.

         Narciso baixou a cabeça. Talvez a resposta estivesse nessa frase, pensou.

         Rafael sempre estava cercado de amigos, e ele sempre sozinho. Ninguém gostava dele. Sentiu que precisava mudar seu comportamento se quisesse fazer amigos.

         Aquela manhã os alunos ficaram no jardim entretidos com as plantas. Ao bater o sinal, cada um tomou seu rumo.

         No trajeto para casa, Narciso notou Rafael que, um pouco atrás, ia para o mesmo lado. Parou e esperou. Rafael se aproximou dele e passou a acompanhá-lo.

         — Narciso, eu sei que você não gosta de mim, mas quero ser seu amigo. Se eu fiz algo que o desgostou, peço-lhe desculpas. Nunca tive a intenção de magoá-lo.

         O outro, olhando para o colega, notou tanta sinceridade em sua atitude, que se desarmou:

         — Não, Rafael, você nunca me fez nada. A culpa é minha. Eu é que sou um chato.

         Pela primeira vez, sentiu necessidade de ser verdadeiro, humildemente reconhecendo seus erros.

         Trocaram um sorriso e, a partir dali, passaram a conversar, falando sobre a escola, futebol e do que cada um mais gostava.

         Naquele pequeno trajeto, aprenderam a se conhecer melhor e Narciso passou a estimar Rafael. Pareciam velhos amigos.

         Ao chegar em casa, convidou-o para entrar e conhecer sua mãe, e o outro aceitou, satisfeito.

         Chegando à cozinha, Narciso apresentou o colega:

         — Mamãe, este é meu amigo Rafael. Como ele, eu também quero ser como um girassol!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Dar de si mesmo



         Laurinha, embora contasse apenas oito anos de idade, tinha um coração generoso e muito desejoso de ajudar as outras pessoas.

         Certo dia, na aula de Evangelização Infantil que frequentava, ouvira a professora, explicando a mensagem de Jesus, falar da importância de se fazer caridade, e Laurinha pôs-se a pensar no que ela, ainda tão pequena, poderia fazer de bom para alguém.

         Pensou... pensou... e resolveu:

         — Já sei! Vou dar dinheiro a algum necessitado.

         Satisfeita com sua decisão, procurou entre as coisas de sua mãe e achou uma linda moeda.

         Vendo Laurinha com dinheiro na mão e encaminhando-se para a porta da rua, a mãe quis saber aonde ela ia. Contente por estar tentando fazer uma boa ação, a menina respondeu:

         – Vou dar este dinheiro a um mendigo!

         A mãezinha, contudo, considerou:

         – Minha filha, esta moeda é minha e você não pode dá-la a ninguém porque não lhe pertence!

         Sem graça, a garota devolveu a moeda à mãe e foi para a sala, pensando...

         – Bem, se não posso dar dinheiro, o que poderei dar?

         Meditando, olhou distraída para a estante de livros e uma ideia surgiu:

         – Já sei! A professora sempre diz que o livro é um tesouro e que traz muitos benefícios para quem o lê.

         Eufórica por ter decidido, apanhou na estante um livro que lhe pareceu interessante, e já ia saindo da sala quando o pai, que lia o jornal acomodado na poltrona preferida, a interrogou:

         – O que você vai fazer com esse livro, minha filha?

         Laurinha estufou o peito e informou:

         – Vou dá-lo a alguém!

         Com serenidade, o pai tomou o livro da filha, afirmando:

         – Este livro não é seu, Laurinha. É meu, e você não pode dá-lo para ninguém.

         Tremendamente desapontada, Laurinha resolveu dar uma volta, Estava triste, suas tentativas para fazer a caridade não tinham tido bom êxito e, caminhando pela rua, continha as lágrimas que teimavam em cair.

         – Não é justo! – resmungava.– Quero fazer o bem e meus pais não deixam!

         Nisso, ela viu uma colega da escola sentada num banco da pracinha. A menina parecia tão triste e desanimada que Laurinha esqueceu o problema que tanto a afligia.

         Aproximando-se, perguntou gentil:

         – O que você tem, Raquel?

         A outra, levantando a cabeça e vendo Laurinha a seu lado, desabafou:

         – Estou chateada, Laurinha, porque minhas notas estão péssimas. Não consigo aprender a fazer contas de dividir, não sei tabuadas e tenho ido muito mal nas provas de matemática. Desse jeito, vou acabar perdendo o ano. Já não bastam as dificuldades que temos em casa, agora meus pais vão ficar preocupados comigo também.

         Laurinha respirou, aliviada:

         – Ah! Bom, se for por isso, não precisa ficar triste. Quanto aos outros problemas, não sei. Mas, em relação à matemática, felizmente, não tenho dificuldades e posso ajudá-la. Vamos até a sua casa e tentarei ensinar a você o que sei.

         Mais animada, Raquel conduziu Laurinha até a sua casa, situada num bairro distante e pobre. Ficaram a tarde toda estudando.

         Quando terminaram, satisfeita, Raquel não sabia como agradecer à amiga.

         – Laurinha, eu aprendi direitinho o que você ensinou. Não imagina como foi bom tê-la encontrado naquela hora e o bem que você me fez hoje. Confesso que não tinha grande simpatia por você. Achava-a orgulhosa, metida, e vejo que não é nada disso. É muito legal e uma grande amiga. Valeu.

         Sentindo grande sensação de bem-estar, Laurinha compreendeu a alegria de fazer o bem. Quando menos esperava, sem dar nada material, percebia que realmente tinha ajudado alguém.

         Despediram-se, prometendo-se mutuamente continuarem a estudar juntas.

         Retornando para casa, Laurinha contou à mãe o que fizera, comentando:

         – A casa de Raquel é muito pobre, mamãe; acho que estão necessitando de ajuda. Gostaria de poder fazer alguma coisa por ela. Posso dar-lhe algumas roupas que não me servem mais? – perguntou, algo temerosa, lembrando-se das “broncas” que levara algumas horas antes.

         A senhora abraçou a filha, satisfeita:

         – Estou muito orgulhosa de você, Laurinha. Agiu verdadeiramente como cristã, ensinando o que sabia. Quanto às roupas, são “suas” e poderá fazer com elas o que achar melhor.

         Laurinha arregalou os olhos, sorrindo feliz e, afinal, compreendendo o sentido da caridade.

         – É verdade, mamãe. São minhas! Amanhã mesmo levarei para Raquel. E também alguns sapatos, um par de tênis e uns livros de histórias que já li.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O cavalinho rebelde



         Em certo sítio muito agradável, em meio a uma linda pastagem, vivia um cavalinho que era o orgulho de todos.

         Nascera ali naquelas paragens e os outros animais o amavam com se fosse o filho de cada um deles.

         Ele nasceu forte e sadio. Deram-lhe o nome de Formoso.

         Era realmente um prazer vê-lo a correr pelos campos, galopar na pradaria, a brincar com outros animais. Mas Formoso, por ter a atenção e o carinho de todos, cresceu convencido e orgulhoso. Nada era bastante bom para ele. Queria sempre o melhor para si e acreditava que tinha mesmo o direito à atenção geral.

         Quando se tornou um jovem cavalo, de pelo brilhante e sedoso, pernas ágeis e fortes, seu dono resolveu que ele seria um corredor. Afinal, Formoso era rápido como uma flecha e, sem dúvida, o cavalo mais rápido da região. Seria treinado para participar das corridas de cavalos e, com certeza, teria dias de glória no hipódromo.

         Formoso torceu o nariz. Recusou-se a participar do treinamento julgando-se superior a essa tarefa.

         – Eu não! – afirmava ele – Cansar-me correndo para divertimento do povo? De jeito nenhum! Não vou.

         O patrão, decepcionado, julgou que talvez tivesse errado em seus cálculos. Provavelmente Formoso não tinha tendência para as corridas. Quem sabe sentir-se-ia melhor no próprio lar? Deixaria Formoso para uso de sua esposa. Ela gostava de cavalgar e ficaria feliz com o presente.

         Formoso recusou-se. Quando a mulher montou em seu dorso ele mostrou seu desagrado corcoveando. Para não cair, ela desmontou e nunca mais quis saber dele.

         Ainda tentando desculpá-lo e justificar suas atitudes, pois o amava, o dono pensou:

         – Quem sabe minha esposa é muito pesada para Formoso? Talvez, se o meu filho montasse, sua reação seria diferente!

         Qual nada! O garoto montou, sob a assistência amorosa do pai, e logo teve que descer porque Formoso reagiu dando coices e pinotes.

         E assim, sucessivamente, o dono de Formoso tentou de tudo para arrumar uma tarefa para ele. Tentou colocá-lo puxando uma charrete leve e o arado, sem resultado. Esbarrava sempre na sua má vontade.

         Afinal, o tempo foi passando e, vendo que não conseguia localizá-lo em nenhum setor de serviço, pois Formoso gostava mesmo era de correr pelos campos, alimentar-se muito bem e beber água fresca, o homem perdeu a paciência e resolveu vendê-lo, embora com muita dor no coração.

         Qual não foi sua surpresa ao encontrar certo dia, algum tempo depois, numa pequena e poeirenta estrada, o Formoso, o seu lindo cavalo Formoso, que possuíra de tudo, que poderia ter sido um campeão nas corridas, animal de estimação e montaria para sua família, que o tratava com imenso amor, agora irreconhecível, sujo e maltratado, com a cabeça baixa, humilhado, puxando com grande dificuldade uma pesada carroça.

         Foram-lhe dadas muitas oportunidades que Formoso não soubera aproveitar. Agora, teria que aprender o valor do trabalho sob condições bem mais difíceis e árduas, para que pudesse valorizar as bênçãos que o Senhor colocara em sua vida.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O crente desapontado



         Havia um homem que possuía uma pequena área de terra, mas de solo fértil e dadivoso.

         Dono de profunda e invejável fé, o nosso homem não se cansava de louvar a Deus por toda a criação e pelas dádivas da natureza, sempre tão pródiga.

         O terreno vizinho era habitado por um homem muito pobre, mas muito trabalhador. Ele nada possuía, mas trabalhava tanto que nem sequer tinha tempo de pensar em Deus. Acreditava no seu esforço pessoal e em tudo aquilo que seus braços podiam realizar.

         E, assim pensando, desde o alvorecer até o poente, lá estava ele, arroteando o terreno, adubando, plantando e arrancando as ervas daninhas que se misturavam à boa semente.

         O outro criticava-o pela falta de religião e dizia-lhe:

         – Não sei como pode deixar de louvar a Deus! Veja a beleza do céu com seus astros, a pujança da natureza que nos concede suas dádivas! Agradeço a Deus todos os dias e peço a Ele que me ajude porque sei que não deixará de ouvir minhas preces.

         O incrédulo sorria, concordava com a cabeça e pedia licença, retirando-se:

         – Agora não tenho tempo. O sol já está se pondo e preciso regar minha horta e dar milho para as galinhas.

         E o crente ali ficava, condoído da falta de fé do vizinho e sentado sob uma árvore, a contemplar as primeiras estrelas que já começavam a surgir, embevecido ante a majestosa obra do Criador.

         O tempo foi passando e a propriedade do crente foi mudando de aspecto.

         Onde antes existira uma plantação viçosa, agora o mato tomava conta, sufocando as poucas sementes que teimavam por nascer. A cerca estava toda quebrada e a horta destruída pelas galinhas que penetravam pelos buracos, e pelos passarinhos que, não encontrando oposição, comeram as plantas existentes.

         No pomar, sem cuidados, as frutas amadureceram nos pés e, sem ninguém que as colhesse, apodreceram caindo ao chão, servindo de repasto para os vermes e insetos.

         Enfim, o aspecto era de abandono e desolação. A sujeira tomava conta de tudo.

         No terreno ao lado, porém, tudo era diferente. As plantas, bem cuidadas, faziam a alegria do seu dono. As hortaliças e legumes produziam bastante, propiciando farta alimentação, além da venda no mercado do excedente da produção.

         As frutas colhidas e armazenadas deram-lhe bom lucro e, com a renda, aumentou o rancho, fez uma pintura bem bonita e ainda comprou algumas vacas.

         O crente, sem entender o que acontecera, inquiriu o incrédulo:

         – Não sei por que minha propriedade está indo tão mal, enquanto a sua, que era um terreno ruim e cheio de pedras, está tão bonita. Não entendo! Sou fervoroso crente em Deus. Jamais deixei de cumprir minhas obrigações religiosas e sempre tenho suplicado a ajuda do nosso Mestre Jesus.

         Fazendo uma pausa, perguntou, algo desapontado:

         – Será que Ele me esqueceu?

         Ao que o incrédulo respondeu:

         – Louvar a Deus no íntimo do coração é muito importante, mas creio que “Ele” não desprezou o trabalho. Disseste que minha terra era ruim e cheia de pedras, mas o que sei é que trabalhei muito. Para o solo, usei como adubo a estrumeira dos teus animais que jogavas em meu terreno por sobre a cerca, tornando-o mais fértil e melhorando a produção. Com as pedras que retirei do solo, fiz uma cerca mais forte e resistente ao assédio dos animais.

         Fez uma pausa e prosseguiu:

         – Não tenho muito tempo para dedicar-me a Deus, mas creio que esqueceste uma lição muito importante que foi deixada há muito tempo atrás por Jesus de Nazaré, que dizes amar.

         – Qual é? – perguntou o crente fervoroso.

         – Ajuda-te a ti mesmo que o céu te ajudará!

         Envergonhado, o crente baixou a cabeça, reconhecendo que o outro tinha razão e que ele, que se julgara tão superior ao vizinho, aprendia com ele uma lição de vida, extraordinária.

         Entendeu então que é muito importante ter fé em Deus, mas isto não basta. É preciso transformar em obras as lições recebidas. O Evangelho de Jesus, que ele prezava tanto, estava apenas em seu cérebro, não em seu coração.

         Fora preciso alguém, que nem sequer tinha tempo de louvar a Deus, abrir-lhe os olhos e lembrar a lição inesquecível do Mestre de Nazaré:

         – Ajuda-te a ti mesmo que o céu te ajudará!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A lição da formiga



         Na escola de Otávio organizava-se uma festa e os alunos, animados, ultimavam os preparativos. Alguns penduravam enormes cordões de bandeirinhas coloridas, outros faziam cartazes, outros varriam o chão, outros ainda limpavam as mesas e cadeiras.

         Na cozinha, preparavam-se bolos e tortas, doces e salgados, para serem servidos durante a festa.

         Trabalhavam com amor, enquanto conversavam e se divertiam.

         Otávio era o único que não quisera colaborar em nada.

         A professora, atenta e dedicada, solicitou-lhe várias vezes que ajudasse nesse ou naquele setor de serviço, mas ele recusava-se terminantemente a auxiliar no esforço de todos.

         Certo momento, a professora ordenou-lhe, severa:

         — Já que você se recusa a colaborar na organização de nossa festa, a exemplo dos demais, terá uma outra tarefa: deverá entregar-me amanhã, sem falta, uma redação sobre o tema: A Vida das Formigas.

         — Mas professora, isso não é justo! — reclamou o garoto. — Só eu tenho que fazer esse trabalho?

         — Engano seu, Otávio. Não é justo é você estar sem fazer nada enquanto seus colegas trabalham e se esforçam a benefício de todos.

         Fez uma pausa e, vendo a indecisão de Otávio, completou:

         — Pode começar já, caso contrário não conseguirá terminar até amanhã.

         — Mas, como fazer isso? Não sei por onde começar! — retrucou o garoto.

         — É simples. Observe as formigas no jardim!

         Muito embaraçado, Otávio encaminhou-se para o jardim da escola. Suspirando, sentou-se no chão e pensou: Bolas! Onde é que vou encontrar formigas?

         Nisso, viu uma formiguinha que passou apressada entre seus pés. Seguiu-a com o olhar e logo em seguida reparou em duas outras que seguiam apressadas, no mesmo sentido.

         Curioso, levantou-se e acompanhou-as. Um pouco adiante, viu uma formiga que voltava carregando um pedaço de pão que, não obstante pequeno, era muitas vezes maior do que ela.

         Sorriu, divertido, e, ao mesmo tempo, admirado: — Aonde será que ela vai levar aquele pedacinho de pão duro? — pensou.

         Olhou em volta e, um pouco à frente, viu um grande pedaço de sanduíche que alguém jogara. Em torno dele, dezenas de formigas trabalhavam diligentes. Algumas cortavam em pedaços menores e outras os transportavam.

         Quando o pedaço era ainda muito pesado para suas pequenas forças, uniam os esforços e carregavam juntas.

         Seguindo o trajeto que faziam, Otávio percebeu que entravam num formigueiro, deixavam a carga e retornavam ao trabalho.

         — Que interessante! — murmurou Otávio, impressionado com a cooperação e a união existente entre as pequenas operárias. — São tão pequenas e tão unidas e trabalhadeiras!

         Nesse momento, lembrou-se da festa da escola e que só ele não estava colaborando. Levantou-se, envergonhado, procurou a professora pedindo que lhe desse uma tarefa.

         Sorridente, a mestra perguntou:

         — Muito bom! Mas o que fez você mudar de idéia, Otávio?

         — As formigas que a senhora mandou que eu pesquisasse. Vivem unidas num sistema de cooperação fraterna e amiga. Se elas podem trabalhar, eu também posso.

         Parou de falar, fitando a professora e disse:

         — Só que, ajudando na festa, não terei muito tempo para preparar a redação. Preciso mesmo entregar amanhã cedo?

         A mestra sorriu, satisfeita, e, colocando a mão sobre a cabeça do menino falou, com carinho:

         — Não, Otávio. Não há necessidade de fazer a redação. Você já aprendeu sua lição.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O ladrão de bananas



         Deixando a mata onde vivia, um macaquinho aventurou-se por outras bandas. Estava faminto.

         Os homens destruíram a mata, e o solo ficara árido, seco, sem vegetação. Derrubaram as árvores, depois colocaram os enormes troncos em caminhões que, roncando assustadoramente, os levaram para longe; o resto fora queimado.

         E o macaquinho, assim como os outros animais e aves, foi obrigado a abandonar seu refúgio, procurando um lugar onde pudesse se abrigar.

         Logo, encontrou um sítio bonito com grandes árvores. No meio de um gramado, havia uma casa simpática, cercada de flores. Um homem saiu da casa e, acompanhado por um cão, foi tratar da criação. Ele deu comida conversando com os animais: galinhas, patos, porcos e cavalos; depois, tirou leite da vaca. Para cada um tinha uma palavra gentil.

         O macaquinho resolveu que iria morar ali.

         Ganhando coragem, aproximou-se com cuidado. O cachorro, sentindo sua presença, pôs-se a farejar e foi no seu encalço latindo feroz.

         Aos guinchos, assustado, rapidamente o macaquinho subiu numa árvore e ficou escondido no meio da folhagem.

         — O que houve, Pingo? Viu alguma coisa? — perguntou o dono ao cão.

         Debaixo da árvore, o cachorro continuava a latir sem parar, olhando para o alto. Aproximando-se, o dono olhou para cima e viu o macaquinho que tremia de susto.

         — Ora, é apenas um macaco, Pingo. Deixe-o em paz.

         Nos outros dias, o homem viu o macaquinho que se aproximava cada vez mais. Uma manhã, ao acordar, encontrou o bichinho a procurar restos de comida no terreiro.

         Cheio de compaixão, pegou algumas bananas e deixou-as sobre um mourão da cerca.

         Arisco, o bichinho só se aproximou depois que o homem entrou em casa.

         Desse dia em diante, todas as manhãs o homem deixava algumas bananas para o novo amigo. Deu-lhe o nome de Miquinho.

         Ele habituou-se a ter a presença do animal por perto quando estava trabalhando.

         No meio da sua plantação, ele tinha algumas bananeiras. Homem bom, mas severo, ele avisou:

         — Miquinho, eu só não admito que roube meus cachos de bananas. Entendeu?

         O macaco olhou-o e deu um guincho estridente, como se tivesse entendido.

         Apesar dessa recomendação, o homem começou a perceber que alguém estava mexendo nas suas bananeiras. De vez em quando, um cacho desaparecia.

         — É você que está roubando minhas bananas, Miquinho?

         Com seus olhos de gente, pequenos e arregalados, o macaco olhava para o amigo e balançava a cabeça negativamente.

         Em dúvida, o homem se calava, mas não sabia o que pensar. Quem mais poderia estar roubando suas bananas?

         Certa noite caiu uma grande tempestade. O vento forte agitava as árvores, enquanto raios e trovões cortavam os ares. Os animais ficaram agitados, temerosos. No sítio, ninguém dormiu.

         Na manhã seguinte, quando o dono acordou, viu o estrago que o temporal fizera. Árvores tinham sido arrancadas, o paiol fora destelhado, e no terreiro tudo estava fora do lugar.

         Pegando sua velha caminhoneta, resolveu ir à cidade buscar material para fazer os reparos.

         Havia percorrido algumas centenas de metros, quando viu Miquinho que, ao lado da estrada, o acompanhava pulando de árvore em árvore. O bichinho guinchava alto, desesperado, como se quisesse falar com ele.

         O homem parou o veículo e desceu.

         — O que está acontecendo, Miquinho? Por que esse barulho todo?

         Mas o macaquinho continuava a guinchar, olhando e apontando para a estrada. Depois, pegou a mão do dono e puxou-a, como se quisesse que ele o acompanhasse.

         Curioso, o homem o acompanhou e, logo depois da curva, com surpresa, viu o estrago que a chuva fizera: a ponte fora completamente destruída!

         O rio, agitado, mostrava grande correnteza pelas fortes chuvas que caíram na região.

         Ele pegou Miquinho no colo, abraçando-o:

         — Se não fosse você, meu amigo, essa hora eu teria caído no rio. Obrigado.

         Voltando para o sítio, o dono foi fazer uma vistoria nas plantações, para verificar os estragos. Nisso, encontrou um rapaz que saia de um pequeno abrigo que fizera para guardar ferramentas.

         — O que está fazendo em minha propriedade? E por que está com esse cacho de bananas nos braços? — perguntou, sério.

         Muito envergonhado, o rapazinho explicou:

         — Moro aqui perto e estamos passando necessidade. Então, quando não temos nada para comer, venho aqui e pego um cacho. Ontem fui surpreendido pela chuva e o vento, sendo obrigado a me abrigar aqui. Acabei adormecendo e só acordei agora. O senhor me perdoe, mas não sou ladrão.

         Condoído da situação do rapaz, pensou: – E se fosse eu que estivesse passando fome e precisasse roubar para comer?

         Lembrou-se de Jesus quando afirmou que devemos fazer aos outros tudo o que gostaríamos que os outros nos fizessem.

         O homem procurou saber onde ele morava e, depois, deixou-o ir embora levando o cacho de bananas. Em seguida, virando-se para o macaco, disse:

         — E eu que pensei que fosse você o ladrão de bananas! Fui injusto e me arrependo. Você me perdoa, amigo?

         Miquinho, guinchando feliz, pulou no colo dele, desmanchando-lhe os cabelos.

         Mais tarde, o homem foi até a casa do rapaz e, confirmando a situação de miséria em que ele vivia com a mãe e dois irmãos menores, propôs:

         — Estou precisando de um ajudante no sítio. Quer trabalhar comigo?

         O rapaz sorriu, agradecendo a Deus pelo socorro que lhes tinha mandado.

         E o homem, agora com a consciência tranquila, retornou para o sítio com seu amigo Miquinho, certo de que Jesus estava contente com ele.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O pote de barro



         Um pote de barro, velho e sujo, fora jogado ao chão por ser considerado imprestável.

         Já conhecera momentos felizes, fora jovem e bonito, e sua pintura atraía os olhares de admiração de todos.

         Passara por mãos respeitáveis e tivera muita utilidade. Mas agora, depois de servir durante muitos anos com lealdade e firmeza, ele fora considerado lixo e atirado ao monturo. Só não se partiu, porque caíra em meio à macia vegetação, que lhe amortecera a queda.

         Triste, o velho pote de barro lamentava-se da sua sorte e da ingratidão dos homens. Sentia saudade das mãos amigas que o acariciavam, e a inatividade a que fora relegado lhe doía por dentro.

         Logo ele que desejava tanto servir e ser útil!

         O tempo passava e ele continuava ali, jogado ao chão.

         A chuva o castigava e o vento o enchia de terra. Veio o inverno e ele tiritava de frio sem poder se proteger.

         Um dia, trazida pelo vento que soprava forte, uma sementinha caiu sobre seu dorso e, tremendo de frio, suplicou-lhe:

         — Oh, meu amigo pote, posso abrigar-me dentro de você? O vento me arrasta e o frio me castiga. Não tenho onde ficar!

         Feliz por poder ser útil, o velho pote respondeu gentil:

         — Com todo prazer, minha pequena amiga! Entre no meu bojo e fique à vontade.

         E a sementinha ali ficou, protegida do vento e do frio, quietinha... quietinha...

         Sem ter o que fazer e cansado da vida, o pote adormeceu esperando a estação mudar e o tempo melhorar.

         Certo dia acordou ao perceber passos de alguém que se aproximava, e ouviu uma exclamação:

         — Mas que lindo pote de barro!

         Olhou dos lados para ver sobre quem falavam, mas admirado notou que era a ele que se dirigiam!

         Surpreso, só então notou que se transformara num belo vaso de flores!

         A sementinha que ele permitira se alojasse em seu interior germinara e, no meio de verdes e brilhantes folhas, lindas flores desabrocharam enchendo-o de perfume e cor.

         E o pote sorriu satisfeito da vida e muito orgulhoso da sua nova e útil ocupação.

         Também assim acontece conosco na vida, meus amiguinhos. Sempre poderemos ser úteis para alguma coisa. E quando tivermos real desejo de servir e ajudar o nosso próximo, seremos mais felizes porque também seremos auxiliados.

         Jesus, que é Nosso Mestre, sempre nos recompensará pelo bem que fizermos aos outros.

         Pois não foi ele mesmo que disse: “A cada um segundo suas obras”?

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Jujuba, o leãozinho



         Habitando uma grande floresta, Jujuba, o leãozinho, crescia forte e sabido.

         Sua mãe, Dona Leoa, cuidava dele com muito carinho: dava-lhe banho, penteava-lhe o pelo, aparava-lhe as unhas e alimentava-o.

         Muito amorosa, sua mãe defendia-o contra os perigos da floresta, não permitindo que se afastasse muito da toca.

                  Mas Jujuba, vivendo sempre sozinho, sentia falta de amigos, desejava ter com quem brincar.

         Certo dia Jujuba resolveu sair de casa para encontrar um amigo.

         Encantado com tudo o que via, embrenhou-se na mata, afastando-se da toca.

         Um pouco adiante viu um coelhinho escondido entre as árvores e perguntou:

         – Olá! Quer ser meu amigo?

         O coelho ao ver quem lhe dirigia a palavra arregalou os olhos, assustado, e gritou, sumindo no meio do mato:

         – Um leão!...

         Jujuba não entendeu a atitude do coelho, mas não desanimou.

         Andando mais um pouco encontrou um veadinho que pastava tranquilamente. Aproximou-se e disse:

         – Olá! Quer ser meu amigo?

         Com as pernas bambas de medo, o animal fez meia-volta e desapareceu no meio da floresta, gritando:

         – Fujam! Um leão! Um leão!...

         Jujuba, triste, ainda não desanimou. Continuou andando e procurando. Mais adiante olhou para cima e viu um macaco enroscado num galho de árvore.

         – Quer brincar comigo? – perguntou esperançoso.

         Ao vê-lo, o macaco assustou-se e foi embora, pulando de galho em galho. O filhote de leão, muito chateado e infeliz, pôs-se a chorar.

         – Buá... Buá... Buá.

         Ouvindo o choro, alguns animais que estavam escondidos se aproximaram. O leãozinho chorava de cortar o coração e eles se condoeram das suas lágrimas.

         – Por que está chorando? – perguntou um enorme sapo.

         Ao ouvir aquela voz, Jujuba parou de chorar e enxugou as lágrimas.

         – Você está falando comigo? – estranhou, pois quisera conversar com ele.

         – Sim, é com você mesmo! – confirmou o sapo. – O que aconteceu?

         – Por que está chorando? – perguntou um enorme sapo.

         E Jujuba, mais animado, explicou:

         – Saí de casa para procurar um amigo. Alguém que quisesse brincar comigo. Mas ninguém gosta de mim...

         E recomeçou a chorar: Buá... buá...

         Ouvindo a reclamação do leãozinho, feita em voz macia e terna, o sapo olhou os outros animais, que abaixaram a cabeça.

         – Não se envergonham de ter medo de um pequeno filhote? — perguntou-lhes o sapo.

         O coelho, ainda tremendo de susto, indagou mais corajoso:

         – É só isso que deseja? Não vai atacar-nos depois?

         – Não! Por que iria atacá-los? Quero que sejamos amigos e que brinquem comigo. Sinto-me tão sozinho!

         Então os animais perceberam que Jujuba era apenas um leãozinho delicado e gentil, incapaz de fazer mal a alguém. E disseram envergonhados:

         – Perdoe-nos. Nós o julgamos mal sem conhecê-lo e sem saber quem era você. Queremos ser seus amigos, Jujuba. Pode contar conosco.

         Satisfeito, o leãozinho agradeceu a todos e olhou em torno, preocupado.

         – E agora? Creio que me afastei demais e acho que não sei voltar para casa!

         Mas os bichos o tranquilizaram, afirmando-lhe:

         – Não se preocupe. Nós o levaremos para casa.

         Feliz, Jujuba retornou ao lar com um enorme acompanhamento de bichos e, desse dia em diante, tornaram-se grandes amigos e sempre brincavam juntos.

         E os animais da floresta entenderam que não se deve julgar as criaturas pela aparência, sem conhecê-las. Que somos, na verdade, todos irmãos, filhos de um mesmo Pai, que nos criou, e que poderemos viver todos juntos em paz e harmonia, se tivermos boa vontade.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Enfermidade providencial



         Pedrinho brincava com seus amigos no jardim jogando bolinhas de gude. Eram garotos levados, mas Pedrinho gostava deles. Cansado da brincadeira, um deles disse, fazendo careta:

         — Que dia mais chato! Nada temos para fazer.

         Chutando umas pedras, Pedrinho concordou:

         — Chato mesmo. Que tal se nós brincássemos de pega-pega?

         Dedé, balançando a cabeça, respondeu:

         — Outra vez? Já fizemos isso hoje!

         — Que tal amarrarmos o rabo do gato e atearmos fogo para vê-lo correr? — sugeriu Joãozinho, maldoso, com os olhos brilhando de animação.

         — Nada feito! — retrucou Dedé — Esqueceram que já fizemos isso? Meu gato está todo queimado e minha mãe ficou muito brava comigo.

         Pedrinho concordou:

         — É verdade. Temos que inventar coisas diferentes.

         — Mas, o quê? — Dedé perguntou. — Já jogamos bola, corremos atrás do cachorro do Pedrinho, sujamos as roupas do varal da dona Antonia, tomamos sorvete...

         — Já sei! — falou Joãozinho com ar inteligente e maroto — Vamos roubar frutas na chácara do velho Simão.

         Todos bateram palmas. Afinal, tinham encontrado algo diferente para fazer. Nisso, a mãe de Pedrinho chamou-o para tomar banho e jantar. Como fosse tarde, resolveram deixar a brincadeira para o dia seguinte.

         À noite, Pedrinho colocou o pijama e deitou-se. Sua mãe veio dar-lhe boa-noite e juntos fizeram uma prece.

         Naquele momento, envolvido pelas bênçãos da prece, Pedrinho sentiu remorso de tudo o que fizera e desejoso de realmente mudar.

         O garoto orou a Jesus pedindo-lhe que o transformasse num menino bonzinho e o livrasse das tentações do mal.

         Todavia, lembrando que os amigos ficariam esperando por ele, pediu à mãe que o acordasse cedo, e explicou:

         — Combinei encontrar-me com o Dedé e o Joãozinho.

         A mãezinha, preocupada, aconselhou:

         — Olha lá, meu filho, o que vão fazer. Não gosto que ande na companhia desses meninos. São muito arteiros.

         — Não se preocupe, mamãe. Não vamos fazer nada errado.

         A mãe despediu-se, dando-lhe um beijo no rosto:

         — Está bem, meu filho. Boa noite! Que o seu anjo da guarda o proteja e lhe inspire bons pensamentos.

         Na manhã seguinte, Pedrinho amanheceu muito indisposto. Passou mal à noite, teve febre, calafrios. A mãe examinou-o e, pelas manchas no corpo, achou que poderia ser catapora, pois tinha ouvido dizer que várias crianças estavam com essa doença.

         Pedrinho não conseguiu levantar-se para ir ao encontro dos amiguinhos.

         Mais tarde, um vizinho veio vê-lo e perguntou:

         — Vocês sabem da novidade? Hoje pela manhã dois garotos entraram no pomar do velho Simão para roubar frutas e foram apanhados pelos cachorros quando tentavam pular o muro.

         Preocupada, a mãe de Pedrinho perguntou:

         — E os meninos?

         — Estão bem, embora um pouco machucados. Levaram um susto terrível! Poderiam até ter morrido!

         Pedrinho, assustado, ouvia a conversa. Depois, não se conteve e começou a chorar, falando com voz entrecortada de pranto:

         — Ainda bem que fiquei doente!

         E confessou tudo para sua mãe, que o ouviu em silêncio.

         — Está vendo, meu filho, do que você se livrou? Agradeça a Jesus e ao seu anjo da guarda que o protegeram. Lembra-se da prece que fez ontem ao deitar? A oração nos protege sempre, e é ajuda preciosa nas dificuldades e perigos deste mundo. Procure sempre ser bom para merecer o amparo dos Amigos Espirituais.

         — É verdade, mamãe. Procurarei ser um menino diferente de hoje em diante, eu prometo.

         E completou com um suspiro aliviado:

         — Bendita catapora!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A lição do escravo



         Há muito tempo, quando ainda existia a escravidão no Brasil, um negro velhinho, de cabelos de neve, chamado Bastião, vivia numa fazenda grande e bonita.

         O senhor, dono das terras, era mau e prepotente. Por qualquer coisa, chicoteava os escravos; e, se suas ordens não fossem obedecidas ou se o negro tentasse fugir, era colocado no tronco, onde ficava acorrentado sem comer e sem beber por muitos dias.

         Por isso, os escravos eram revoltados e não gostavam do patrão. Mas Bastião era diferente. Dono de coração bom e generoso, estava sempre contente da vida e tentando ajudar a todos.

         A filhinha do fazendeiro, menina meiga e gentil, se afeiçoara ao velho Bastião e passava o tempo junto do escravo, ouvindo suas histórias.

         Certo dia, um dos escravos, não suportando mais os maus-tratos, tentou fugir. Encontrado pelo feitor e aprisionado, foi acorrentado ao tronco.

         O filho do escravo fujão, menino de apenas cinco anos, vendo o pai amarrado, aproximou-se em lágrimas, agarrando-se nas pernas dele.

         Irritado com os gritos do pequeno, o senhor mandou que o atirassem no meio do mato para não mais ouvir seu choro.

         O fazendeiro não percebeu, porém, que sua filhinha Ana, condoída da sorte do negrinho, embrenhara-se também pelo mato para fazer-lhe companhia.

         Ao perguntar pela menina, que era a luz dos seus olhos, sentindo sua falta, lhe disseram que ela fora procurar o pequeno escravo.

         Assustado, o patrão chamou alguns homens e foi atrás dela. Contudo, o velho Bastião, que percebeu o que estava acontecendo, já se adiantara e tinha ido procurar as crianças.

         Quando o fazendeiro e seus homens chegaram, o encontraram com uma cobra venenosa morta nas mãos, e as crianças abraçadas e em segurança, encolhidas atrás de um tronco caído, trêmulas de medo.

         Bastião matara a cobra, mas fora picado por ela.

         Vendo o que tinha ocorrido, o senhor não sabia como manifestar sua gratidão, pois era evidente que o escravo defendera as crianças com a própria vida.

         Abraçando a filhinha, que estava muito assustada, o patrão perguntou, pela primeira vez denotando gentileza no trato com um escravo:

         — O que você deseja, Bastião, pela bravura que demonstrou salvando a vida da minha filha? Seja o que for que pedir, lhe será concedido.

         E o velho escravo, em cujo organismo o veneno da cobra já fazia efeito, respondeu com os olhos úmidos de pranto, muito emocionado:

         — Não salvei apenas sua filha, senhor, mas também a vida de um pequeno escravo, pois toda vida vem de Deus e é igualmente importante. Já que me permite externar um desejo, gostaria de lhe pedir que todas as criaturas fossem tratadas como seres humanos, sem distinção, uma vez que somos todos filhos do nosso Pai Celestial.

         E percebendo o olhar de espanto do senhor perante seus conceitos, que não julgara possível encontrar num velho escravo, Bastião concluiu:

         — Isso eu aprendi com Jesus Cristo.

         Diante daquelas palavras que representavam uma lição para ele, uma vez que o escravo poderia ter-se vingado dele na pessoa de sua filha Ana, e não o fizera, o fazendeiro abaixou a cabeça, envergonhado, e concordou:

         — É verdade. Você tem razão, Bastião. Seja assim como deseja. De hoje em diante eu prometo-lhe que os escravos serão bem tratados, com todo o respeito que se deve a seres humanos.

         A partir desse dia, o fazendeiro melhorou consideravelmente a vida dos escravos, dando-lhes condições dignas de existência, melhorando suas moradias e fornecendo-lhes alimentação mais saudável.

         Com a melhoria nas condições de vida, ele percebeu que o tronco não era mais necessário, pois os escravos passaram a gostar dele e do serviço na fazenda, e tudo o que faziam era de boa vontade e com um sorriso nos lábios.

         Alguns anos depois, com o crescimento da idéia abolicionista no Brasil, esse fazendeiro foi dos primeiros a libertar seus escravos, transformando-os em trabalhadores assalariados.

         E nunca mais o fazendeiro se esqueceu do velho escravo Bastião que, na sua simplicidade, dera um exemplo de amor tão grande, que modificara sua vida e a de todos quantos residiam naquela propriedade.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Aprendendo a ser mãe



         Vitória era uma menina boa, inteligente e criativa. Todavia era arteira e não aceitava quando a impediam de fazer alguma coisa.

         A mãe, preocupada com sua segurança e bem-estar, alertava:

         — Vitória, não mexa com fósforos. Você pode se queimar.

         E a garota, respondia:

         — Não vou me queimar, mamãe. Tenho seis anos e já sou grande!

         A mãe achava graça, abraçava a filha com amor, e guardava a caixa de fósforos no alto do armário, onde a pequena não poderia alcançar.

         E assim acontecia sempre. Quando Vitória brincava de casinha com as amigas, a mãe tinha que estar sempre atenta para que não se machucassem. Ora era uma faca, que a menina pegava para fazer comidinha, ora era o ferro elétrico que ela ligava para passar roupa; de outras vezes, subia numa grande mangueira que havia no quintal para apanhar mangas e assim por diante. A mãe não podia “descansar” um minuto.

         E Vitória reclamava, batendo o pé, indignada:

         — Mamãe! Sei o que estou fazendo. Já sou grande!

         A mãe a colocava no colo e explicava, com carinho:

         — Minha filha, você ainda tem muito que aprender. Quando você nasceu em nosso lar, Deus me fez responsável por sua vida. Minha tarefa é cuidar, educar e proteger você, de modo que nada de mal lhe aconteça. Como as mães de suas amiguinhas permitiram que elas viessem brincar aqui em casa, tenho que cuidar delas também. Entendeu?

         — Entendi, mamãe.

         — Ótimo. Mamãe não faz por mal e nem quer ser desmancha prazeres. Quando você crescer e tiver filhos vai entender melhor. Agora, vá brincar!

         No entanto, tudo continuava como antes.

         Certo dia, Vitória foi com sua mãe fazer compras. Na volta, um cãozinho de rua as seguiu. Tinha o pelo curto, branco com manchas marrons. Parecia abandonado.

         Vitória ficou encantada. Adorava cachorros. E aquele era tão pequeno e desprotegido!

         — Mamãe, podemos levá-lo para casa?

         — Não, Vitória. Ele tem dono.

         — Foi abandonado, mamãe. Tenho certeza. Vamos levá-lo.

         A mãe recusava e a menina insistia. Conversavam paradas em frente a uma padaria. O dono, um simpático português, entrou no meio da conversa:

         — Queira desculpar-me, senhora, mas realmente esse cãozinho não tem dono. Vem sempre aqui porque costumo lhe dar um prato de leite.

         Vitória, com os olhos brilhando e um sorriso radiante, de mãos postas, suplicou:

         — Viu, mamãe, não lhe disse? Por favor! Vamos levá-lo para nossa casa. Ele terá um lar!

         Diante de tanta insistência, a mãe acabou concordando.

         — Está bem, Vitória. Com uma condição. Que você se responsabilize por cuidar dele: dar ração, água, banho e tudo o mais.

         A garota concordou, feliz. Pegando o filhote no colo, acariciou-o e disse:

         — Vamos, Bilu. Serei sua mãe e cuidarei de você.

         Desse dia em diante, Vitória só pensava no animalzinho. Cuidava dele com muito amor. Quando ela ia para a escola, ele queria acompanhá-la; quando ela voltava, ele a esperava no portão, e a primeira coisa que a menina fazia era abraçá-lo. Mas ela reconhecia que Bilu dava trabalho e estava sempre cuidando dele, vigiando:

         — Bilu, não suba no muro! Não coma porcaria do chão! Não vá para a rua, um carro pode pegar você! — E assim por diante.

         Quando acabava o dia, ela estava cansada, mas feliz, por tê-lo a seu lado.

         Na véspera do Dia das Mães, mãe e filha estavam sentadas no quintal observando Bilu que corria, latindo feliz, atrás de uma borboleta. Vitória olhou para a mãe e disse:

         — Mamãe! A senhora me disse que eu só entenderia o trabalho que dou quando crescesse e tivesse um filho. Não precisei crescer para isso. Bilu já me dá muito trabalho e preocupação. É como se ele fosse meu filho!

         A mãe sorriu achando graça do jeito sério da filha. Vitória sorriu também e trocaram um grande e carinhoso abraço, enquanto a menina exclamava:

         — FELIZ DIA DAS MÃES, mamãe! Ainda não comprei seu presente.

         A mãe suspirou, satisfeita, entendendo que Deus sabe o que faz e que dá a cada um, na vida, as experiências que precisa para aprender e amadurecer. Sua filhinha estava crescendo e tornando-se melhor.

         — Não precisa comprar nada, minha filha. Você já me deu o melhor presente que eu poderia desejar: Você!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O susto



         Rafael era um menino muito arteiro. Desses que não param um minuto.

         Desde pequeno dava muito trabalho aos pais, que viviam tendo de protegê-lo a todo instante.

         Assim mesmo, com todos os cuidados, Rafael completara oito anos e já tinha quebrado a perna duas vezes, trincado o osso do braço, cortara duas vezes a cabeça levando vários pontos. Isso sem contar as quedas, os arranhões, os galos e os sustos.

         Ufa! Cuidar de Rafael não era tarefa fácil!

         Sempre tinha alguém gritando:

         — Cuidado, Rafael!

         A mãezinha recomendava-lhe com carinho:

         — Meu filho, não corra tanto!

         — Olhe o buraco!

         — Não atravesse a rua! Olhe o sinal fechado!

         Mas, qual! Rafael, sempre apressado, não dava atenção.

         Um dia, voltando da escola, Rafael viu um amigo do outro lado da rua e não deu outra. Correu para encontrá-lo. A mãe, que caminhava a seu lado, não conseguiu detê-lo. Só conseguiu gritar:

         — Não, Rafael!... Olhe o carro!

         Porém, não deu tempo. O veículo não conseguiu frear a tempo. O motorista, assustado ao ver que o garoto atravessava a rua correndo, ainda desviou o carro, jogando Rafael ao chão.

         Foi aquela correria. Alguém chamou a ambulância, que levou o menino para o hospital.

         Rafael permanecia desacordado. Batera a cabeça no asfalto e esta inconsciente.

         Felizmente, não aconteceu nada de grave.

         Enquanto isso, Rafael percebeu que estava num lugar diferente. Olhou em torno e achou tudo bonito.

         Nesse momento aproximou-se um rapaz todo reluzente. Sério, olhou para Rafael e disse:

         — Por pouco você não conseguiu retornar mais cedo.

         — Eu? Retornar para onde?

         — Para o mundo espiritual! Não é isso o que tem tentado sempre? — perguntou o moço.

         O menino respondeu, apavorado:

         — Não!... Não quero deixar minha família, a escola, meus amigos, meu corpo!

         Sereno, o rapaz considerou:

         — Então, tenha mais cuidado, Rafael. Cuide bem do seu corpo, proteja-o de perigos. Ele é um grande amigo que você tem e também seu maior tesouro nesta vida. Evite retornar mais cedo porque a responsabilidade será sua.

         Nesse momento, Rafael acordou no hospital.

         Logo viu as fisionomias preocupadas do pai e da mãe. Felizes por vê-lo acordado, eles choravam.

         — Não chorem! — disse ele. — Prometo-lhes que, daqui por diante, terei mais cuidado.

         E contou aos pais a conversa que tivera com o moço luminoso, e eles entenderam o que tinha acontecido com Rafael enquanto estava desacordado.

         Era a resposta do Senhor às suas preces. Juntos, elevaram os pensamentos em oração, agradecendo a Deus.

         A partir desse dia, Rafael transformou-se num outro menino.

         Continuava a ser criança, brincava, jogava bola e se divertia como qualquer outro garoto da sua idade, porém agora tinha mais cuidado e respeito pelo seu corpo e pela sua vida.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A força do sol



         Carlinhos, menino bom e prestativo, gostava de ajudar as pessoas.

         Uma coisa, porém, Carlinhos não suportava: ver gente discutindo ou brigando.

         Logo ficava nervoso e entrava no meio da discussão, querendo apartar a briga. Isso acontecia em qualquer lugar em que estivesse: em sua casa, na escola ou na rua.

         Em casa, quando seus pais começavam a discutir por problemas domésticos, Carlinhos colocava-se no meio deles, querendo resolver a parada.

         Na escola, muitas vezes seus colegas se desentendiam jogando futebol ou por qualquer outro motivo, e partiam para a briga aos empurrões, socos e pontapés. Carlinhos corria tentando separá-los e acabava no meio da briga.

         Chegava em casa desanimado, cansado, todo sujo e, não raro, machucado.

         A mãe, que o conhecia bem, já sabia o que tinha acontecido, e aconselhava-o com amor:

         — Meu filho, não faça mais isso. Qualquer dia você pode se machucar seriamente tentando apartar uma briga. Tenha mais cuidado! Chame um adulto, o professor responsável pela turma.

         Mas qual! Carlinhos prometia não interferir mais em discussões, porém quando uma briga começava, lá estava ele de novo no meio.

         Certo dia, em que ele tinha chegado com um olho vermelho e a testa sangrando, a mãe aflita perguntou-lhe:

         — O que aconteceu desta vez, meu filho? Veja seu estado! Você está todo sujo, o uniforme rasgado, e está machucado! Andou brigando de novo?

         — Claro que não, mamãe! Ao contrário. Tentava separar dois amigos meus que se desentenderam jogando bola.

         A mãe o envolveu num abraço e disse, com amor:

         — Depois conversaremos. Agora vá tomar um banho.

         Quando o menino saiu do banho, já com aspecto melhor, ela fez um curativo na testa dele e chamou-o para almoçar.

         O pai, que chegara naquele momento, olhou para o filho, sério, respirou fundo e ia ralhar com ele, mas resolveu manter-se calado.

         Os dois irmãos menores olhavam para Carlinhos e riam. Todos sabiam o que tinha acontecido. Não era a primeira vez que ele chegava machucado em casa.

         — Parem de rir, vocês dois. Isso não é brincadeira. Carlinhos, meu filho, almoce e depois farei uma compressa em seu olho para evitar que fique roxo.

         Após a refeição, enquanto colocava a compressa sobre o olho de Carlinhos, a mãe conversava com ele dizendo:

         — Mantenha distância quando perceber que uma briga está prestes a começar, meu filho.

         — Mas, mamãe! Quero evitar que meus amigos briguem! Não suporto vê-los de cara virada um com o outro, com raiva.

         — Eu sei que sua intenção é boa, Carlinhos. Para fazer isso, porém, é preciso manter certa distância da briga e, especialmente, agir com tranquilidade, delicadeza, equilíbrio e muito amor.

         — Como assim, mamãe? O que é equilíbrio?

         — É quando nos mantemos controlados e imparciais no meio de uma situação, isto é, sem pender para um lado ou para o outro, guardando os melhores sentimentos. Entendeu?

         — Mais ou menos.

         A mãe procurou em torno algo que pudesse servir-lhe de exemplo. De repente, olhou pela janela e viu o sol brilhando lá fora.

         Levou o garoto até o jardim e perguntou:

         — Carlinhos, sem contar Deus, que é nosso Pai e Criador do Universo, o que existe de maior e mais poderoso neste mundo em que vivemos?

         O menino pensou um pouco e depois respondeu, olhando para o alto:

         — O Sol, mamãe. Estudei na escola que o Sol é uma estrela muitas vezes maior que o nosso planeta Terra. Ele nos dá luz, calor e condições de viver. A professora explicou que o Criador fez tudo tão bem feito que, se o Sol estivesse um pouco mais distante da Terra, morreríamos congelados por falta de calor; se estivesse um pouco mais próximo, morreríamos queimados!

         — Isso mesmo, Carlinhos. E não só nós, seres humanos, mas todos os seres viventes, animais e plantas. Então o Sol é poderoso e está bem distante da Terra, não é? No entanto, indispensável à vida, seus raios chegam até nós com delicadeza, sem nos machucar ou ferir; penetram os lugares mais escondidos e profundos, com suavidade, levando luz e calor.

         O garoto pensou um pouco e disse:

         — Entendi aonde quer chegar, mamãe. Quer dizer que para ajudar não precisamos entrar na briga, não é?

         — Exatamente, meu filho. Veja! Você tem apenas oito anos, mas é bem maior que os garotos da sua idade. Então, o que acontece? Se os meninos forem menores, você pode machucá-los com sua força. Se forem maiores, você acaba machucado.

         — É verdade, mamãe. Então, o que posso fazer?

         — Na hora do perigo, pense em Deus pedindo que a paz e o entendimento se estabeleçam. Depois, se puder ajudar, faça-o, mas sem entrar na briga.

         A partir desse dia, ao ver os garotos discutindo, Carlinhos fazia uma rápida oração e depois dizia sereno:

         — Calma, pessoal. Vamos tentar resolver esse problema em paz, está bem? O que está acontecendo? Posso ajudar?

         Ouvindo-lhe a voz tranquila, os amigos paravam de discutir, acalmavam-se os ânimos, e logo estavam brincando de novo, felizes por estarem juntos e em paz.

         Não há o que não se possa resolver, quando existem boa vontade e paz no coração.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O cavalinho de pau



         Como toda criança, Antônio tinha seus sonhos. Desejava muito ter um cavalinho de pau para brincar de viajar, de mocinho e bandido, de fazendeiro.

         Sua família, contudo, era muito pobre e seu pai não tinha recursos para comprar-lhe o brinquedo tão almejado. E Toninho, sabendo disso e sendo um menino muito compreensivo, não pedia nada. Sonhava apenas.

         À noite, antes de dormir, sempre dava rédeas à imaginação e fazia de conta que estava cavalgando um lindo cavalo de madeira.

         No dia do seu aniversário, quando fez oito anos, o pai lhe trouxe de presente uma pequena bola de borracha. Não era o cavalinho de pau com que ele sonhava tanto, mas era uma linda bola colorida e ele ficou feliz, porque sabia quanto representava para o pai aquele sacrifício.

         Certo dia, brincando com a bola nova na rua, Toninho viu um garotinho que olhava fixamente para a bola colorida.

         Cheio de compaixão, pois tinha um coração muito bom, Toninho aproximou-se do menino de bola na mão. Os olhos do pequeno estavam brilhantes quando ele disse:

         — Que linda bola! Sempre sonhei ter uma igual a essa.

         Levado por um impulso generoso, Toninho estendeu-lhe as mãos, dizendo:

         — É sua. Pode levar.

         O menino estava surpreso.

         — Você está me dando a sua linda bola?! — indagou, ainda não acreditando em tamanha felicidade.

         Como Toninho confirmasse, ele agradeceu e, agarrando a bola com as duas mãos, virou-se e saiu correndo e gritando de alegria.

         Toninho sorriu também, contente. Por que não satisfazer o desejo do garoto? Afinal, ele bem que sabia o que era desejar uma coisa e não poder ter.

         Quando o pai chegou do trabalho de tardezinha, ele contou o que fizera.

         — Fez muito bem, meu filho, não devemos ser egoístas. Mas, não sentirá falta da sua bola?

         — Não, meu pai, brincarei com outras coisas. E depois, Jesus não ensinou que deveríamos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que os outros nos fizessem? Assim, se eu estivesse no lugar daquele menino eu gostaria de ganhar a bola, por isso resolvi dá-la a ele. Então, estou feliz!

         O pai fitou o filho com admiração e falou, emocionado:

         — Jesus deve estar muito contente com você, meu filho, e o recompensará por isso, pode ter certeza.

         Dois dias depois, voltando para casa após as aulas, Toninho entrou no seu quarto para guardar o material e trocar de roupa, quando teve uma grande surpresa.

         Bem no meio do aposento, entre outros brinquedos, estava o mais lindo cavalo de madeira que Toninho jamais vira!

         Cheio de espanto, aproximou-se dele acariciando-o ternamente, temendo vê-lo desaparecer.

         O pai entrava no quarto neste momento e ele virou-se, indagando com o olhar ansioso o que significava “aquilo”.

         — Minha patroa mandou-lhe estes brinquedos. Eram do filho dela, mas ele está muito crescido e não brinca mais. Então, resolveu dá-los a você. Gosta?

         — Se gosto? É a coisa mais linda que já vi na minha vida, papai! — disse Toninho, abraçando o cavalinho pelo pescoço e beijando a crina de barbante.

         Depois se levantou e, limpando as lágrimas com as costas das mãos, afirmou:

         — Acho que Jesus deve ter realmente ficado contente comigo, papai, para mandar-me este presente!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

[Início]




Na estrada de Emaús



         Cleofas e um companheiro caminhavam por uma estrada que conduzia a uma aldeia chamada Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém. Faziam o trajeto a pé, como era costume naquela época entre as pessoas sem recursos.

         Enquanto caminhavam, eles iam conversando. Sentiam-se amargurados. Jesus tinha sido crucificado e eles comentavam sobre os trágicos acontecimentos que tinham ocorrido e lamentavam a morte do Mestre que nunca mais poderia estar com eles.

         Assim falavam, quando se aproximou um homem e começou a caminhar ao lado deles, mas eles estavam tão angustiados que não se preocuparam em olhar direito para ele e por isso não perceberam que era Jesus.

         Então, o homem lhes disse:

         — Sobre o que vocês estão conversando? E por que estão tristes?

         Cleofas, tomando a palavra e até um pouco irritado pela intromissão do desconhecido, disse-lhe, surpreso:

         - Pois quê! O senhor é tão estrangeiro em Jerusalém que não sabe o que se tem passado ali nestes últimos dias?

         — O quê? — indaga o estranho.

         E os dois seguidores do Mestre responderam:

         — Sobre Jesus Nazareno, que foi profeta poderoso diante de Deus e de todo o povo, e de que modo os sacerdotes e nossos senadores o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Ora, esperávamos que fosse ele o Messias e que resgatasse Israel. Entretanto, depois de tudo isto, este é o terceiro dia que estas coisas sucederam. Por outro lado, algumas mulheres, seguidoras do Mestre, foram até seu túmulo e não o encontraram, declarando que tinham visto anjos que afirmaram estar ele vivo.

         Então, o homem lhes disse:

         — Ó insensatos e lentos de coração, para crer em tudo o que os profetas disseram! Não era preciso que o Cristo sofresse todas as coisas e que entrasse assim na sua glória?

         E, começando por Moisés e depois por todos os profetas, ele lhes explicava o que tinham dito dele as Escrituras.

         Quando estavam perto da aldeia para onde iam, ele deu mostras de que ia mais longe.

         Os dois amigos, porém, o convenceram a parar, dizendo:

         — Fique conosco. Já é tarde e o dia está terminando. É perigoso andar por estas estradas à noite.

         O desconhecido, achando que tinham razão, decidiu-se a ficar com eles.

         Sentaram-se para cear. Estando com Cleofas e seu companheiro à mesa, ele tomou o pão, abençoou e, tendo-o partido, lhes deu.

         Nesse momento, sentados diante dele, à luz de uma tocha, puderam vê-lo melhor. Seus olhos se abriram e eles o reconheceram.

         — É Jesus! — disseram a um só tempo.

         Seus corações batiam descompassados, e uma grande alegria inundava-lhes o íntimo. Mal podiam acreditar em tamanha felicidade!

         Todavia, foi um momento só. Logo em seguida, o Mestre desapareceu diante deles.

         — Como não o reconhecemos? — disse um ao outro.

         — Contudo, a verdade é que sentimos o coração se nos aquecer enquanto ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras.

         Estavam eufóricos. Levantaram-se no mesmo instante e voltaram para Jerusalém.

         Precisavam contar a todos o que lhes tinha acontecido em caminho e como eles reconheceram Jesus no partir do pão.

         Um grande bem-estar os dominava. Sentiam-se agora confiantes e seguros como jamais estiveram. O Mestre estava vivo! Ele não morrera na cruz. Retornara para lhes dar a derradeira lição da imortalidade da alma, confirmar tudo o que lhes tinha ensinado, mostrando aos seus discípulos que a morte não existe.


         (Adaptação do cap. 24:13 a 35 do Evangelho de Lucas.)

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A pipa de coração



         Gabriel era apaixonado por pipas.

         Desde pequeno seu pai lhe ensinara a fazer pipas e a soltá-las.

         Era com imensa alegria que ele levava a pipa para o campo e corria, soltando a linha, até vê-la subir no ar, cada vez mais alto.

         Margarida, uma amiga de Gabriel, sempre pedia:

         — Gabriel, você me deixa soltar a sua pipa? Só desta vez!

         Mas ele respondia:

         — Não. Isso não é coisa de menina. Além disso, você não sabe, e vai estragar minha pipa.

         E a menina, inconformada, reclamava:

         — Mas eu deixo você andar na minha bicicleta! E ler meus livros!

         Certo dia, Gabriel tinha feito uma linda pipa nova e a garota tornou a pedir para que ele a deixasse soltá-la.

         — Não adianta, Margarida. Você não vai colocar a mão na minha pipa nova.

         A menina afastou-se dele e foi embora, muito brava e revoltada.

         Após as aulas, passando perto da casa de Gabriel, Margarida viu que ele estava se divertindo num balanço, junto de outra amiga. Viu também que ele havia deixado a pipa nova encostada em uma árvore.

         Ela se aproximou e, sem que ele percebesse, pegou a pipa e saiu correndo.

         Chegando em casa, foi logo empinar a pipa. Com satisfação, viu que ela subiu e soltou mais linha. De repente, tentou puxar e não conseguiu: a pipa estava presa num galho. Com medo de que Gabriel, procurando a pipa e não a encontrando, viesse atrás dela, puxou com força e a pipa rasgou, caindo no chão, toda estragada.

         Margarida, assustada, recolheu os restos e correu a escondê-los em seu quarto.

         Não demorou muito, apareceu Gabriel.

         — Roubaram minha pipa, Margarida. Você viu quem foi?

         — Não, não vi.

         Ela entrou em sua casa e deixou-o na rua, sozinho.

         A mãe notou que Margarida estava estranha. Na hora de dormir perguntou a ela:

         — Você não está bem, minha filha, parece triste. Quer contar o que aconteceu?

         A menina começou a chorar e contou para a mãe o que tinha acontecido.

         — Não tive intenção de estragar a pipa dele, mamãe. Só quis ter o gostinho de brincar um pouco com ela! Agora não sei o que fazer!

         A mãe abraçou-a, carinhosa:

         — Eu sei, minha filha. Porém você cometeu um gesto feio: pegou o brinquedo dele sem pedir. E depois, acabou estragando-o.

         — O que devo fazer, mamãe?

         — Faça uma prece e peça que Jesus a ajude. Lembre-se de tudo o que já aprendeu. Consulte sua cabecinha, pense bem. Amanhã tenho certeza que você acordará com a solução. Agora, boa noite. Durma bem, minha filha.

         Margarida pensou... pensou... pensou...

         Lembrou-se de que pegar a pipa do amigo sem permissão dele, mesmo tendo a intenção de devolver, foi um desrespeito e que, numa situação semelhante, não gostaria que fizessem o mesmo com ela.

         No dia seguinte, tinha decidido o que fazer.

         Após as aulas, comprou papel, muniu-se do necessário e fez uma pipa. Muitas vezes tinha visto Gabriel trabalhar e sabia como fazê-lo.

         Mais tarde, enchendo-se de coragem, procurou o amigo e contou-lhe o que tinha acontecido, terminando por dizer:

         — Peço-lhe desculpas, Gabriel. Não tive intenção de estragar sua pipa. Mas, para compensá-lo, aqui está outra que fiz especialmente para você.

         — Aqui está, Gabriel. Espero que goste! — pegou a pipa e entregou ao garoto.

         O menino ficou comovido ao ver sua pipa nova. Tinha o formato de um coração.

         Depois, ele abraçou Margarida com carinho:

         — Margarida, eu reconheço que sempre fui muito chato com você. Por isso, também tenho que lhe pedir desculpas. De hoje em diante, tudo vai ser diferente.

         — Amigos?

         — Amigos!

         Dali a pouco, Gabriel já estava testando sua pipa nova, todo feliz da vida, enquanto Margarida o observava, satisfeita por ter resolvido o problema.

         Gabriel virou-se para Margarida e sugeriu com um sorriso:

         — Bom trabalho. Ela ficou ótima! Quer experimentar?

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O Coelhinho Barnabé



         O Coelhinho Barnabé morava num lindo sítio cercado de árvores, de flores, e nada lhe faltava. Tinha tenras cenouras e frescas folhas de alface que lhe davam para comer todos os dias, apanhadas da horta, e tinha água fresca à vontade.

         No sítio moravam muitos outros animais: vacas, bois, cabras, galinhas, galos, patos, cavalos, jumentos e um cachorro que era muito seu amigo, de nome Tico.

         Barnabé e seus pais ocupavam uma confortável casinha de madeira, construída especialmente para eles, dentro do terreiro. Porém o Coelhinho Barnabé queria muito mais.

         Certo dia chegou uma ratazana contando maravilhas da cidade de onde viera.

         Dona Ratazana falava do grande movimento de carros nas ruas, da comida que era encontrada em qualquer lugar e ninguém passava fome. Falou das pessoas que passavam e atiravam restos de comida e guloseimas no chão, e que ela se banqueteava todos os dias.

         Os olhos de Barnabé ficaram brilhantes de animação e seu focinho tremeu todo de desejo de conhecer a tal cidade.

         Começou a achar muito sem graça a vida no campo, sem movimento, sem pessoas. E a partir desse dia, passou a sonhar em ir para a cidade.

         Como fazer isso? Seus pais não permitiriam, com certeza. Sempre lhe diziam que o melhor lugar para se ficar é a casa onde mora a família, isto é, o Lar.

         Pensou... pensou... pensou... e resolveu. Sairia durante a noite, quando seus pais estivessem dormindo.

         Assim resolveu, assim fez.

         No dia seguinte economizou algumas cenouras, umas folhas de alface, e, colocando tudo numa mochila, preparou-se para fugir.

         Quando a noite chegou, fingiu que estava dormindo, e esperou que tudo se aquietasse. Depois, pegou a pequena mochila e saiu aos pulos, desaparecendo na escuridão.

         Fez um longo trajeto, seguindo o rumo que dona Ratazana havia indicado. Mas nada de chegar à cidade. Barnabé já estava cansado, sem forças para prosseguir e faminto.

         Resolveu parar para descansar e alimentar-se. Estava tão cansado que dormiu debaixo de um arbusto. De repente, acordou assustado. Tinha ouvido uns ruídos estranhos e ficou com medo. Tremia da cabeça aos pés.

         Eu quero minha mãe! — gritou, chorando.

         Com saudade de casa, soluçou até pegar no sono de novo. Acordou com dia claro e, como o medo tivesse desaparecido como a escuridão, resolveu prosseguir viagem.

         Não demorou muito, começou a ver ao longe umas construções enormes, altas; deveriam ser os prédios da cidade. Ficou feliz. Conseguira chegar, afinal!

         Acelerou os pulos e logo estava andando nas ruas da cidade. Ficou surpreso. Era tudo muito bonito, as casas eram tão altas que pareciam alcançar o céu; as ruas tinham bastante movimento de carros e de pessoas.

         Barnabé, que estava um pouco assustado com o barulho, e andava se escondendo, ficou mais corajoso e confiante, saindo para observar.

         Percebeu que as pessoas, ao vê-lo, ficavam surpresas; umas gritavam, outras riam, e outras tentaram apanhá-lo. Apavorado, escondeu-se. Com medo, não podia sair do seu esconderijo e conseguir mais comida, pois a que levara já tinha acabado, e ele estava faminto.

         E Barnabé, triste no seu canto, passou a ver outras coisas que não tinha percebido antes. Viu passar crianças maltrapilhas esmolando pão, velhinhos dormindo nas calçadas, cachorros sendo espancados pelas pessoas, homens doentes se arrastando na sarjeta, pobres mães carregando seus filhinhos e suplicando algumas moedas para comprar leite. Barnabé viu isso e muito mais. E ficou cada vez mais triste.

         Não, esse não era um lugar bom para se morar. Sentia saudade do sítio, de sua casa, de seus pais, de seus amigos. Lá, nunca tinha passado fome. Todos eram bem tratados.

         E decidido, resolveu: — Vou voltar.

         Aproveitando-se da escuridão da noite, partiu de retorno a sua casa.

         Quando se aproximou, os animais o viram e vieram correndo ao seu encontro.

         Seus pais, de braços abertos, o acolheram com amor.

         — Por que, meu filho, você fugiu de casa nem dizer nada, sem avisar?

         — Perdoe-me, papai. Cometi um erro, mas espero que o senhor me perdoe.

         E contou que ficou iludido com as narrativas de dona Ratazana, e quis conhecer a cidade.

         O pai, botando as mãos na cintura, perguntou:

         — E se lá na cidade era tão bom assim, meu filho, dona Ratazana teria vindo morar no sítio?

         Dona Ratazana, que ouvia a conversa, baixou a cabeça, envergonhada.

         Barnabé concordou:

         — Agora sei disso, meu pai. Por isso, voltei. O melhor lugar para morar é o nosso Lar.

         Aquele dia, os animais fizeram uma grande festa no terreiro para comemorar a volta do coelhinho Barnabé.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Sacrifício de mãe



         O pai havia desencarnado fazia já algum tempo, partindo para a Pátria Espiritual, e Maneco ficou sozinho com sua mãe.

         A vida, que até aquela data fora tranquila, sem que nada lhes faltasse, tornou-se difícil. Os recursos que o pai deixara minguavam dia a dia e, em poucos meses, acabaram por completo.

         Maneco, porém, sem perceber a situação, continuava na mesma vida: estudava, brincava e divertia-se.

         Acostumado a ter o que desejava, sem se privar de nada, começou a reclamar de tudo: da comida, das roupas gastas, dos sapatos usados, mostrando-se exigente e insatisfeito.

         A mãezinha amorosa, cujos recursos restringiam-se à pensão que o marido deixara ao desencarnar, não sabia o que fazer para agradar o filho.

         Não tendo dinheiro, a pobre mulher recorria à bondade dos vizinhos e amigos, emprestando o suficiente para comprar algo melhor para o filho: uma fruta, um pedaço de carne, algumas batatas, algum doce.

         Quando o rapazinho se sentava à mesa e comia com apetite, a mãe sentia-se compensada de seus esforços, e fitava-o embevecida, satisfeita. Maneco perguntava:

         — Não vai almoçar, mamãe?

         Invariavelmente ela respondia, dando uma desculpa:

         — Não estou com fome, meu filho.

         Ou, então, alegava que já havia almoçado, ou que almoçaria depois.

         Certo dia, ao chegar à sua casa, Maneco encontrou a mãezinha na cama, desfalecida.

         O médico, chamado às pressas, após examiná-la, informou:

         — O estado de sua mãe é de fraqueza extrema. Provavelmente não come há vários dias. Precisa alimentar-se melhor para poder recuperar as forças.

         Maneco, surpreso, não sabia o que dizer. Aproximando-se do leito, perguntou à mãe:

         — Por que não tem se alimentado, mamãe?

         A generosa senhora, um pouco envergonhada, nada disse; apenas uma lágrima desceu pelo seu rosto pálido.

         Maneco, perplexo, compreendeu enfim. Aos poucos foi ligando os fatos, lembrando-se de tudo o que vinha acontecendo, e entendeu que a mãezinha sacrificava-se por ele. Dava o melhor de si para o filho, nada reservando para ela mesma. E ele, insensível e prepotente, nunca percebera o sacrifício da mãe.

         Maneco caiu ajoelhado, em lágrimas, ao lado do leito pobre, enquanto lhe dizia com voz entrecortada de emoção:

         — Perdoe, mãezinha, não ter percebido a nossa real situação e a grandeza da sua generosidade. Mas, nunca senti falta de nada! Como é que a senhora conseguia comprar tudo que me oferecia?

         Uma vizinha, que chegara há pouco e ouvia a conversa, respondeu comovida:

         — Sua mãe emprestava o dinheiro de um e de outro para que nada lhe faltasse, Maneco.

         — Meu Deus! Como pude ser tão cego? Mamãe, eu arranjarei um emprego, pois já tenho idade para trabalhar. Não ganharei muito, por certo, mas o pouco que receber será o suficiente para amenizar nosso infortúnio. Deus nos ajudará, mamãe, e seremos muito felizes ainda.

         A mãe, com sorriso terno, afirmou contente:

         — Deus já nos ajudou, meu filho, e considero-me muito feliz por Ele ter-me dado um filho como você!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O circo chegou



         Geraldinho andava sem destino pelas ruas, chutando pedras.

         Ao virar uma esquina, deparou com um grande cartaz colorido onde se via um leão e um domador.

         — Oba! O circo chegou!

         Geraldinho sempre tivera grande atração por circos, mas dificilmente aparecia algum em sua pequena cidade.

         Imediatamente o menino revirou os bolsos da bermuda a ver se encontrava alguma moeda. Nada. Só algumas figurinhas, um pedregulho bem polido e um estilingue.

         — Como vou fazer para ir ao circo?

         Pensou um pouco e descobriu:

         — Já sei. Vou pedir dinheiro para a mamãe.

         Voltando para casa, Geraldinho falou com a mãe, que respondeu:

         — Dou sim, meu filho. Antes, porém, preciso que você me ajude varrendo o quintal.

         — Varrer o quintal? Trabalhar? Nem pensar!

         Geraldinho foi até a mercearia da esquina, onde o seu José era muito seu amigo.

         — Seu José, poderia emprestar-me uma moeda? Quero ver o espetáculo do circo e não tenho dinheiro.

         — Como não, Geraldinho? Darei a moeda se você me fizer um favor. O empregado não veio hoje e tenho algumas entregas para fazer. Poderia fazê-las para mim?

         O menino, muito desapontado, foi saindo de fininho:

         — Infelizmente não posso, seu José. Tenho que estudar.

         Voltando para casa, Geraldinho passou defronte da residência de dona Luzia, uma vizinha muito boa e simpática. Como ela estivesse ali fora varrendo a calçada, o menino atreveu-se a pedir-lhe uma moeda emprestada.

         — Claro, Geraldinho! Dar-lhe-ei a moeda, mas estou tão atarefada hoje! Minha ajudante está doente e preciso de quem me ajude a arrancar o mato do jardim. Se você me fizer essa gentileza, prometo dar-lhe não uma, mas duas moedas.

         Decepcionado, o garoto respondeu:

         — Infelizmente, dona Luzia, agora não dá. Minha mãe está me esperando. Até logo! — e foi embora.

         Geraldinho era assim mesmo. Não gostava de fazer nada e as pessoas conhecidas sabiam disso.

         Aflito, o menino via o tempo passar sem conseguir recursos para ir ao circo.

         À noite, aproximou-se do local onde o circo estava montado. A lona, toda esticada, parecia um balão; o nome, em letras grandes e luminosas, piscava, convidando-o a entrar. Mas, como?

         Geraldinho pensou que, se tivesse feito algum serviço, qualquer serviço, teria a alegria de assistir ao espetáculo, mas agora era tarde. Essa seria a última apresentação, e, no dia seguinte, a lona estaria desarmada e os caminhões rodando pela estrada afora.

         Sentou-se no meio-fio a observar o movimento de pessoas e carros que iam e vinham.

         Nisso, uma senhora idosa escorregou e caiu no chão. A sacola que carregava abriu e o conteúdo se espalhou pela calçada.

         Penalizado, o garoto levantou-se imediatamente e a socorreu.

         — A senhora está bem, vovó? — perguntou atencioso.

         — Estou bem, meu filho, não foi nada. Graças a Deus, não me machuquei. Ficarei dolorida por alguns dias, mas é só.

         O menino ajudou-a a erguer-se e, depois, recolheu as coisas dela que tinham caído no chão, colocando tudo de volta na sacola.

         Refeita do susto, a senhora pediu a Geraldinho que a ajudasse a atravessar a rua.

         Percebendo que a sacola estava muito pesada, ele se prontificou:

         — Farei mais, vovó. Vou acompanhá-la até sua casa e carregarei a bolsa para a senhora, pois está muito pesada.

         — Quanta gentileza! Mas não quero atrapalhar, meu filho. Com certeza você tem alguma coisa para fazer...

         Pensando no circo, o menino suspirou, afirmando:

         — Não... nada tenho para fazer.

         Geraldinho levou a senhora até o portão da residência e despediu-se. A velhinha abriu a bolsa e, pegando uma linda moeda, entregou-a ao garoto:

         — Agradecida, meu filho. Olhe, isto é para você. Compre o que quiser. E venha visitar-me qualquer dia desses!

         Surpreso, Geraldinho fitou a moeda depositada na palma da sua mão. Era exatamente o que precisava para comprar o ingresso do circo.

         Quando menos esperava, recebeu o que tanto queria. Geraldinho compreendeu que, como ajudara a velhinha, também fora ajudado. Compreendeu também que, se desejamos alguma coisa, temos que nos esforçar para obtê-la. Que, na medida em que damos, recebemos em troca.

         Assim, Geraldinho comprou o ingresso e, naquela noite, divertiu-se a valer assistindo ao espetáculo do circo.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A semente



         Olavo, menino de sete anos, irrequieto e sem paciência, não conseguia realizar suas pequenas tarefas, reclamando de tudo.

         Sentava-se para fazer os deveres da escola, mas em poucos minutos largava o lápis, irritado, alegando:

         — Esta tarefa é muito difícil! Não sei fazer.

         Convidado pelos colegas para assistir a um filme, logo se mostrava impaciente, reclamando:

         — Este filme é muito comprido! Não aguento mais!

         Ao ser chamado para jogar bola, em pouco tempo estava cansado da brincadeira:

         — Este jogo não acaba nunca! Vamos brincar de outra coisa?

         A mãe, preocupada com o comportamento do filho, ouvia suas reclamações, aconselhava-o a ter paciência e a se esforçar mais, sem conseguir resultado algum.

         Certo dia ela resolveu levá-lo para passear.

         Era primavera. Caminhando por uma praça, Olavo ficou encantado com uma árvore florida e exclamou:

         — Veja, mamãe, que árvore grande e bela! Suas flores são lindas e perfumadas!

         Mais adiante, Olavo parou diante de uma estátua recentemente inaugurada. A escultura homenageava um pioneiro da cidade, reproduzindo sua figura em tamanho natural. Olavo, admirado diante da estátua, comentou:

         — Veja, mamãe, que estátua bonita. Parece ter vida!

         Logo em seguida, passaram por uma grande pedra que compunha a ornamentação do jardim, e o menino considerou:

         — Já esta pedra não serve para nada!

         A mãezinha, aproveitando a ocasião, explicou:

         — Engana-se, meu filho. De uma pedra bruta como esta é que o artista fez aquela escultura que você admirava há pouco.

         — Como será que o artista consegue fazer um trabalho tão bonito?

         A mãe sorriu e respondeu:

         — Certamente gasta muito esforço e tempo.

         E apanhando uma vagem no chão, abriu-a, retirou uma das sementes e colocou-a na palma da mão do menino, considerando:

         — Tudo na vida depende de esforço, meu filho. De uma pequena semente como esta é que nasceu a árvore enorme e bela que você está vendo. Representa o esforço conjugado da natureza e do homem, pois alguém cuidou dela para que se desenvolvesse.

         O garoto teve uma ideia e disse, animado:

         — Vou levar esta semente e plantá-la em nossa casa. Quero vê-la crescer logo!

         — Boa ideia, meu filho. Porém, não tenha pressa. Serão precisos muitos anos para que esta pequena semente se transforme em uma árvore. Mas você terá a oportunidade de vê-la nascer, crescer e se desenvolver.

         Olavo ficou decepcionado.

         — Gostaria que crescesse logo!

         — Nada acontece de um dia para o outro, meu filho. Tudo que formos fazer demanda esforço, tempo e boa vontade. Você já viu um prédio surgir de repente, uma ponte ser construída do dia para a noite?

         — Não. Nem a tarefa da escola se revolve sozinha.

         — Isso mesmo. A natureza precisa de tempo para realizar seu trabalho, e nós também. Então, vá em frente. Plante sua semente e verá como é lindo vê-la crescer.

         Delicadamente, Olavo levou a semente em sua mão. Chegando em casa, sob a orientação da mãe, ele abriu um buraco, depositou a semente, cobriu-a com terra e regou.

         Todos os dias, logo ao acordar, Olavo ia ver o local onde tinha plantado sua semente. Um dia, deu pulos de alegria: um brotinho estava apontando.

         Depois, com satisfação Olavo acompanhou o desenvolvimento da plantinha, que todo dia crescia um pouco, até que passou em muito a altura de Olavo.

         Aquele menino irrequieto e impaciente aprendeu com aquela semente que tudo tem um tempo certo na vida e que não adianta atropelar as coisas.

         Olavo tornou-se bom aluno na escola e alguns anos depois, já moço, foi estudar em outra cidade.

         Ao voltar, encantou-se com o que viu. Sua sementinha transformara-se numa linda e frondosa árvore, cheia de perfumadas flores.

         Olhando o tronco possante, os galhos frondosos que permitiam sombra e frescor, as lindas flores que enfeitavam a frente de sua casa, Olavo disse à sua árvore, emocionado:

         — Nós dois crescemos e já estamos produzindo. Eu, porque consegui terminar a faculdade, e você, porque nos alegra com suas flores e sua sombra. Aprendi muito com você, querida amiga. Obrigado!

         Aproximou-se e, abraçando o belo tronco, encheu-o de beijos.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A menina malcriada



         Aninha era uma menina muito malcriada.

         Por qualquer motivo se irritava, jogava-se no chão aos gritos, batendo os pés.

         Rasgava todos os livros e revistas que possuía, quebrava os brinquedos caros que ganhava de presente dos pais e brigava sempre com os poucos amiguinhos que ainda tinha.

         Resultado: em pouco tempo ficou sozinha. Tornara-se uma criança tão desagradável que ninguém mais queria brincar com ela.

         Seus pais, carinhosos e pacientes, diziam-lhe com brandura:

         — Não faça assim, Aninha!

         — Não quebre a boneca que é tão linda!

         — Não rasgue o livro que tem uma história tão interessante!

         — Não bata nos seus amiguinhos!

         Mas, qual! Não adiantava aconselhar.

         Depois, Aninha punha-se a berrar que queria outros brinquedos, livros e revistas novas, e não parava de gritar enquanto não lhe satisfaziam a vontade.

         Sua mãe, muito bondosa, já estava desanimada. Não sabia como agir.

         Aninha era sua filha única e a criara com excesso de carinho, atendendo-lhe aos menores caprichos. Agora queria voltar atrás e não conseguia.

         Desesperada, elevava os olhos em prece, suplicando a Deus que a ajudasse, mostrando-lhe como agir, inspirando-lhe qual atitude tomar. Já não sabia mais o que fazer. Não adiantavam conselhos e orientações. Aninha não mudava.

         Certo dia, Aninha tinha sido excessivamente malcriada. Sua mãe, em lágrimas, orou com especial fervor suplicando o auxílio do Pai Celestial.

         Naquela noite, Aninha dormiu.

         Dormiu e sonhou.

         Sonhou que se encontrava em sua própria casa. Viu seu corpo adormecido, sem saber explicar o que estava acontecendo.

         Sentiu-se mais leve e “boiando” dentro do quarto. A princípio achou graça e divertiu-se com a situação.

         Logo, porém, viu entrar no quarto uns seres estranhos que queriam brigar com ela. Acusavam-na de ser má, egoísta e prepotente.

         Olhando-os bem, começou a reconhecer aquelas figuras. Eram personagens dos livros e revistas que rasgara. Estavam zangados porque haviam perdido a sua casa. Com a destruição dos livros e revistas não tinham onde ficar.

         Aninha, assustada, procurava se defender, gritando por socorro, mas ninguém apareceu para ajudá-la.

         Tentou sair do quarto, fugindo pela porta aberta, mas nesse instante apareceram seus brinquedos avançando em sua direção. Todos estragados, faltando peças, a boneca com a perna quebrada, o carrinho sem rodas, o cachorrinho sem orelhas... Enfim, todos em pedaços!

         Apavorada, viu seus amiguinhos que apreciavam a cena pela janela. Gritou por socorro, suplicou por ajuda, mas eles riam dos seus apuros.

         Gritou por sua mãe e seu pai, mas parece que não ouviam seus pedidos de ajuda.

         Depois de muito gritar, lembrou-se de que sua mãe a ensinara a orar.

         Então, em lágrimas, suplicou:

         — Jesus, me ajude! Não sabia quanto mal estava fazendo. Quero me modificar!

         Nesse instante sentiu que caía num buraco muito fundo e acordou em sua cama. A mãe, apreensiva, estava ao seu lado fitando-a, preocupada.

         — O que foi, minha filha? Você estava tendo um sono tão agitado!

         Aninha abraçou-se à mãe dizendo-lhe, em prantos:

         — Ah! Mamãe, se você soubesse! Tive um terrível pesadelo. Mas serviu-me de lição. Prometo ser diferente de hoje em diante.

         E realmente, a partir desse dia, para surpresa geral, Aninha tornou-se uma menina dócil, boazinha e obediente. Passou a cuidar dos seus livros, revistas e brinquedos com carinho, e nunca mais brigou com seus amiguinhos nem desrespeitou qualquer pessoa.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A lagarta Filomena



         Num jardim muito bonito e florido, vivia uma lagarta que se chamava Filomena.

         Ela gostava de passear pelas plantas e se alimentar de folhas verdinhas.

         Certo dia, durante um passeio, encontrou uma formiguinha com a perna machucada. Condoída, fez um curativo na perna da formiguinha e ajudou-a a retornar para sua casa, o formigueiro.

         Tininha, a formiga, ficou muito agradecida.

         Alguns dias depois, Filomena saiu para dar umas voltas. Andou... andou... andou... e quando quis voltar para casa, não conseguiu: estava perdida.

         Sem perceber, Filomena tinha saído do jardim e agora não sabia o que fazer. Para piorar sua situação, caiu de uma grande pedra escorregadia e ficou estendida no chão, com as pernas para cima, sem conseguir se levantar.

         Filomena ficou muitas horas no sol quente, sem água e sem alimento. Começou a sentir-se doente e fraca, incapaz de andar.

         O local era árido. Só tinha areia e pedras, e ninguém aparecia para socorrê-la.

         As horas foram passando e ela foi ficando cada vez mais preocupada.

         Já fazia um dia inteiro que Filomena estava estirada no chão, quando ouviu um barulho. Resolveu gritar por socorro.

         Tininha estava por perto e escutou gemidos:

         — Ai, ui, ai! Socorro!...

         A formiga aproximou-se do local de onde partia a voz e qual não foi sua surpresa quando avistou a lagarta:

         — Dona Filomena! O que aconteceu?

         A pobre lagarta, reconhecendo a formiguinha que ajudara, falou-lhe comovida:

         — Ah, Tininha! Foi Deus quem a mandou! Estou aqui há horas sem ninguém para me socorrer.

         A formiga desejava fazer alguma coisa para ajudar, mas era tão fraquinha!

         Teve uma ideia. Foi até o formigueiro chamar suas irmãs. Assim, trouxeram uma linda folha verde e tenra para Dona Filomena comer e água para matar-lhe a sede. Depois, as formigas curaram seus ferimentos.

         Quando a lagarta já estava melhor, levaram-na para casa.

         Dona Filomena disse:

         — Nem sei como agradecer o auxílio de vocês, principalmente de Tininha, que foi tão boa comigo.

         — Não precisa agradecer, Dona Filomena. Só fiz minha obrigação, retribuindo o bem que a senhora me fez.

         E, desse dia em diante, tornaram-se grandes amigas.

         Assim também acontece em nossas vidas. Todo o bem que fizermos reverterá em nosso próprio benefício. Cada um de nós colherá exatamente aquilo que houver plantado.

         Por isso Jesus, sabiamente, ensinou que devemos fazer aos outros o que queremos que os outros nos façam.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O palhacinho triste



         Guilherme era um menino que tinha aproveitado muito bem suas lições na escola e passara de ano com louvor.

         Então, seus pais, muito amorosos, lhe proporcionaram alguns dias de férias em conhecida cidade de praia, naquela região.

         Eufórico, Guilherme arrumou a mala e, juntamente com seus pais e o irmãozinho, num dia muito bonito saíram em viagem.

         Ao chegar, logo à entrada da cidade, viram um circo armado, cheio de luzes coloridas, jaulas com belos animais selvagens, elegantes cavalos e macacos engraçados.

         Com os olhos arregalados de emoção, Guilherme ouviu seu pai prometer que no dia seguinte iriam assistir ao espetáculo.

         No outro dia, à hora marcada, deram entrada no circo e logo começou a função. Bailarinas, equilibristas, mágicos e trapezistas, alternavam-se com palhaços, macacos, elefantes, domadores de animais e muitas outras coisas.

         Com um pacote de pipocas nas mãos, Guilherme acompanhava tudo rindo e batendo palmas, satisfeito.

         De repente, olhou um dos palhaços que faziam piruetas e davam cambalhotas no picadeiro. Apesar do riso aberto, seus olhos eram tristes. Quando ele se aproximou mais, Guilherme notou que duas lágrimas brilhavam em suas faces pintadas.

         Daquele momento em diante, nada mais teve graça, e a figura do palhaço triste não lhe saiu da cabeça.

         Na manhã seguinte acordou e, em vez de ir à praia, voltou ao circo. O aspecto agora era bem diferente. Não havia mais belas luzes coloridas e a impressão de luxo e riqueza desvaneceu-se inteiramente. Fora, algumas pessoas faziam a limpeza do local enquanto outras lavavam e tratavam dos animais.

         O garoto perguntou onde poderia encontrar o palhaço triste e informaram que ele estava no picadeiro.

         Entrando na enorme lona do circo, agora vazio, Guilherme pareceu ouvir ainda os aplausos e gritos da plateia.

         Logo o viu. Uma pequena figura sentada no chão, tendo a cabeça entre as mãos.

         — Olá! — cumprimentou Guilherme.

         O palhaço ergueu a cabeça ao ouvir a voz desconhecida.

         — Olá! O que o traz aqui, garoto?

         — Bem, é que eu queria ver um palhaço de perto.

         — Ah! Com certeza vai se decepcionar. Sou apenas um homem como qualquer outro.

         Guilherme sentou-se junto dele e disse:

         — Estranho! Sempre pensei que os palhaços vivessem sempre sorrindo e brincando, como se a vida fosse uma festa — comentou o menino.

         — Puro engano, meu filho. Muitas vezes a gente ri para não chorar — afirmou com tristeza.

         — Agora eu entendo isso. Ontem mesmo, durante o espetáculo, percebi que você estava triste. Por quê?

         — Deu para notar?!... A verdade é que estou com problemas muito graves.

         E o palhaço contou-lhe que estava com a filhinha doente e não tinha dinheiro para levá-la ao médico. Contente por poder ajudar, Guilherme sorriu e lhe assegurou:

         — Ora, não se aflija! Meu pai é médico e poderá examinar sua filha.

         O garoto saiu correndo e, pouco depois voltou acompanhado do pai.

         O palhaço acompanhou-os até onde estava a filha doente e eles ficaram impressionados com a miséria do local. O carro em que viajavam e que lhes servia de moradia, era muito pobre e sem conforto.

         O médico examinou a criança e afirmou ao pai que ela, além de pneumonia, estava também desnutrida, precisando se alimentar melhor.

         — Eu sei, doutor. — disse o palhaço — Mas não tenho dinheiro. Ganho pouco e mal dá para as despesas mais urgentes.

         — Não se preocupe. Sua filhinha precisa ser hospitalizada, mas ficará boa logo, com a ajuda de Deus.

         O médico conduziu a menina para o hospital, onde logo ela estava sendo medicada. Em seguida, ele levou uma cesta contendo gêneros alimentícios que dariam para muitos dias, entregando também ao palhaço um envelope com uma boa importância em dinheiro.

         Surpreso, o pobre homem disse:

         — Mas, doutor, eu não sei quando poderei lhe pagar!...

         — Não se preocupe. Quero apenas que faça as crianças sorrirem.

         Depois de alguns dias a garotinha voltou para casa contente e saudável.

         Era o último espetáculo do circo. Levantariam acampamento no dia seguinte. Guilherme e sua família estavam na primeira fila.

         O palhaço aproximou-se, trazendo nas mãos um lindo balão vermelho, amarrado com um cordão. Chegando junto a Guilherme entregou-lhe o balão, com sorriso feliz.

         — Você agora não é mais um palhacinho triste — disse o menino.

         — Não. Graças a você, posso sorrir novamente. Não sei como lhes agradecer tudo o que fizeram por mim.

         O médico, bem-humorado, afirmou:

         — É fácil. Faça um espetáculo bem alegre para alegrar as crianças.

         Com um último olhar agradecido, o palhaço afastou-se dando cambalhotas e fazendo palhaçadas, acompanhado pelo riso de todos.

         Guilherme suspirou, satisfeito. O pai olhou para o menino com carinho:

         — Muitas vezes, o sofrimento e a dor estão onde menos esperamos, meu filho. É preciso ter sensibilidade para descobrir onde está a necessidade das pessoas. Se não fosse você, ninguém teria descoberto o problema do palhaço. Muito bem, Guilherme, Jesus certamente está contente com você.

         E, abraçando o filho com ternura, completou:

         — A verdade é que onde estivermos podemos ajudar alguém. Basta que se tenha boa-vontade e amor no coração.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A experiência da raposa



         Certa vez, uma raposa de lindo rabo peludo e de elegante nariz pontudo, aproveitando a noite que tinha chegado de mansinho, entrou em um galinheiro.

         Fez-se grande tumulto. As aves corriam assustadas, trombando umas nas outras e cacarejando de medo.

         Satisfeita com a confusão que se estabeleceu entre as galinhas, a raposinha corria de um lado para o outro, arrancando-lhes as penas e divertindo-se a valer. Até que percebeu uma galinha que continuava no mesmo lugar. Parou a brincadeira e aproximou-se, curiosa.

         A galinha, com as asas abertas, arrepiada, protegia seu ninho onde sete pintainhos, mal acabados de sair da casca do ovo, pipilavam. Ao ver que a raposa se aproximava, tremendo de pavor, a pobre mãe suplicou:

         — Por favor, dona Raposa, não destrua minha família que amo tanto. Se quiser pode comer a mim, mas não mate meus filhinhos e Deus a recompensará por sua generosidade. Eles nada lhe fizeram! São pobres criaturinhas indefesas. Tenha piedade!

         Ouvindo a súplica da mãezinha aflita, a pequena raposa condoeu-se e foi embora do galinheiro, para grande surpresa das aves que respiraram aliviadas.

         Algum tempo depois, a raposa, já crescida, foi também abençoada com duas lindas raposinhas, que eram o seu maior tesouro.

         Certo dia percebeu, nas imediações da sua toca, um cachorro adestrado na caça às raposas, e procurou proteger seus filhotinhos da melhor maneira possível.

         Porém o cão, que possuía faro muito delicado, encontrou o esconderijo. Impedindo que elas fugissem, arreganhou os dentes, rosnando colérico e pronto para atacá-las.

         Nesse instante, a raposa-mãe lembrou-se da vez em que entrara no galinheiro e das palavras da galinha.

         Tremendo de medo ela gaguejou:

         — Você tem filhotes?

         Surpreso, o cachorro parou e respondeu:

         — Tenho.

         Criando coragem, a raposa continuou:

         — Então sabe o que estou sentindo. Por piedade, não mate minhas filhas que são tudo o que tenho. E se isso estivesse acontecendo com sua família? Poupe-nos e Deus o recompensará por sua generosidade.

         O valente cão de caça pensou... pensou... e achou que a raposa tinha razão. Cheio de piedade, foi embora sem molestá-las.

         A raposa abraçou as filhas com amor, agradecendo a Deus a ajuda e reconhecendo o valor da lição que manda fazer ao próximo aquilo que queremos que os outros nos façam.

         Como naquele dia em que ela tinha ajudado uma pobre galinha desesperada que suplicava pela vida de seus pintainhos, agora, por sua vez, num momento de perigo, tinha recebido a mesma ajuda de um cão de caça, que se condoeu da sua situação de mãe, que defendia seus filhotes.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Por uma moeda



         Fernando era um menino de bom coração, e sensível ao sofrimento dos outros.

         Certo dia, passando por uma rua na periferia da cidade, viu uma casa muito pobrezinha e duas crianças magras e pálidas que brincavam à porta.

         Num impulso, aproximou-se e puxou conversa com as crianças. Ficou sabendo que não tinham pai e que a mãe estava trabalhando para prover o sustento da casa. Disseram, também, que nada tinham comido ainda naquele dia, e que só iam comer quando a mãe retornasse do trabalho.

         Penalizado, Fernando desejou ajudar. Mas, como? Também não tinha recursos e seu pai trabalhava muito para que nada lhes faltasse no lar.

         Teve uma idéia. Tinha muitos amigos, e, se ele sozinho quase nada podia fazer, em conjunto eles poderiam fazer muito.

         Reuniu os amigos e expôs seu plano. Se cada um contribuísse com um pouco, ajudariam aquela família substancialmente. Todos aprovaram a idéia de Fernando. E mais, entusiasmados, resolveram pedir a colaboração de parentes, amigos e vizinhos, pois, angariando mais recursos, estenderiam a ajuda a outras famílias necessitadas.

         E assim foi feito. Não apenas recebendo gêneros alimentícios, roupas, calçados, mas cada um também doando tempo de trabalho, fazendo companhia às crianças, ajudando na higiene doméstica e ensinando os deveres da escola.

         Aos poucos, como eles previam, a assistência estendeu-se a outras famílias igualmente necessitadas e que residiam ali por perto.

         Todos estavam felizes e otimistas.

         Pedindo a colaboração de um dos garotos na escola, que Fernando sabia ser muito rico, ficou grandemente decepcionado, pois o menino respondeu indiferente:

         — Nada tenho para dar.

         — Como? Você é o menino mais rico da escola! — estranhou.

         Como Fernando continuasse a insistir a contragosto o garoto tirou uma pequena moeda do bolso e entregou-a dizendo:

         — Esta moeda é só o que posso dar.

         Perplexo, Fernando olhou a moeda e teve vontade de não aceitar, por ser de valor insignificante. Porém, pegou a moeda, agradeceu e afastou-se, indignado.

         Chegando em casa, comentou com a mãe o acontecido, e terminou dizendo:

         — Tive vontade de não aceitar a moeda, que é um insulto às necessidades alheias. Não vale nada!

         A mãe fitou-o e disse serena:

         — Pois faria muito mal, meu filho. Você deve aprender que, na vida, cada um dá o que tem. E isso, muitas vezes, não tem relação com o que a pessoa acredita possuir.

         Surpreso, Fernando perguntou:

         — Como assim, mamãe? Não entendo. Ele é muito rico!...

         — Exatamente. Mas não aprendeu a dar nada de si. Por isso, meu filho, essa moeda que você despreza tanto é a oportunidade do seu amigo de doar alguma coisa, e que, para ele, representa muito. Compreendeu?

         — Compreendi. A senhora quer dizer que a doação é um aprendizado que temos de exercitar — respondeu o menino, admirado das sábias palavras de sua mãe.

         — Isso mesmo, meu filho. O egoísmo é uma doença da qual nos libertamos muito lentamente. E o seu amigo está dando os primeiros passos para vencer essa terrível chaga.

         Fernando olhou para aquela moedinha que brilhava em sua mão com olhos diferentes e agradeceu a lição que recebera.

         Fez um quadro com a moeda, colocando uma moldura e pendurou-o no seu quarto, em local bem visível, para que nunca mais se esquecesse da lição.

         Um ano depois, aquele seu amigo já estava plenamente integrado no grupo e alegremente colaborando, muito feliz da vida, para espanto geral.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A caminho da praia



         Gabriel estava muito contente. Tinham tido um belo Natal em família e o Ano Novo começava bem.

         Seu pai tinha resolvido que iriam passar alguns dias na praia e era preciso correr com os preparativos.

         Tanta coisa para arrumar! Tanta coisa para levar! Roupas, calçados, esteira, guarda-sol, cadeiras. Ah! Não poderiam esquecer a bola, os patins, as raquetes, o boné e o protetor solar! — pensava Gabriel.

         Na véspera do dia combinado todos se deitaram cedo. Sairiam antes de o sol raiar. Gabriel nem conseguiu dormir. Estava ansioso demais e não via a hora de colocarem o pé na estrada.

         Depois de muita confusão, acomodaram-se no carro e partiram eufóricos.

         Viajaram muitas horas sem problemas. Tudo era festa.

         Por volta do meio-dia já estavam todos cansados e com fome. O pai prometeu que parariam para almoçar no primeiro restaurante que encontrassem.

         Nisso, viram um carro estacionado à beira da estrada. Pareciam estar com problemas e Jorge, o pai de Gabriel, resolveu parar e ver se eles precisavam de ajuda.

         Roberto, o irmão mais velho, reclamou:

         — O senhor vai parar, papai? Ah! Não para não! Estamos cansados e com fome. Além disso, nem conhecemos essa gente!

         Jorge virou-se para o filho e afirmou, sério:

         — Roberto, temos que ser solidários, meu filho! E se fôssemos nós que estivéssemos em dificuldade numa estrada deserta? Também não gostaríamos de receber ajuda?

         — Claro! — respondeu o garoto de má vontade, suspirando.

         Jorge desceu, enquanto a família ficou no carro aguardando. O outro veículo estava com defeito e Jorge, que entendia de mecânica, dispôs-se a examinar.

         Não demorou muito, e as famílias estavam conversando fora dos carros. As mães trocavam informações, enquanto as crianças brincavam, comiam bolachas e bebiam água.

         Descobriram, por coincidência, que iriam para a mesma cidade do litoral.

         Jorge terminou o conserto e despediram-se, já como velhos amigos. Cláudio abraçou Jorge dizendo:

         — Nem sei como lhe agradecer, Jorge. Se não fosse você, não sei o que faria. A cidade mais próxima está longe e o socorro demoraria a chegar.

         — Não me agradeça, Cláudio. Tenho certeza de que faria o mesmo por mim.

         Reiniciaram a viagem e algumas horas depois chegaram ao destino.

         Ver o mar é sempre uma alegria e eles estavam muito animados.

         O dia ensolarado era um convite que eles não podiam deixar de aproveitar. Não viram mais a família de Cláudio e até se esqueceram do incidente na estrada.

         Certa manhã, a praia estava cheia de gente e de guarda-sóis. Gabriel estava brincando com um baldinho cheio de água, quando viu um siri. Saiu correndo atrás do bichinho, mas por mais que se esforçasse, não conseguia alcançá-lo.

         Quando cansou da brincadeira, Gabriel quis voltar para junto dos pais e dos irmãos, mas só viu gente desconhecida. Não sabia mais onde estava.

         Era muito pequeno e estava exausto. Olhava para cima, e o sol a pino não deixava que visse o rosto das pessoas.

         Desesperado, sem saber para onde ir, pôs-se a chorar gritando:

         — Mamãe! Papai!...

         Mas ninguém atendia aos seus chamados.

         Gabriel estava cansado de gritar quando ouviu uma voz conhecida dizer:

         — Ei, menino, onde estão seus pais?

         — Não sei. Estou perdido. Buáááá! Buááááá!

         Olhando-o atentamente, o homem perguntou:

         — Mas você não é o Gabriel?!...

         — Sou.

         — Então não se preocupe. Pare de chorar. Vamos procurar seus pais. Lembra-se de mim? Sou Cláudio, o homem que vocês ajudaram na estrada.

         Cláudio dirigiu-se a um alto-falante ali perto e mandou avisar Jorge que o pequeno Gabriel estava com ele.

         Logo em seguida apareceram os familiares do menino. Mostrando grande alívio, a mãe abraçou o filhinho, chorando de alegria.

         Jorge, surpreso, agradeceu o amigo Cláudio.

         — Graças a Deus que você encontrou meu filho. Estávamos desesperados e já não sabíamos onde procurar. Nem sei como lhe agradecer!

         Cláudio abriu um grande sorriso e respondeu:

         — Não precisa! Tenho certeza de que faria o mesmo por mim.

         Roberto olhou para o pai com lágrimas nos olhos:

         — Ainda bem que Cláudio reconheceu Gabriel. E isso foi graças a você, papai! Agora entendo que tinha toda razão quando parou à beira da estrada para ajudar aquelas pessoas. É dando que recebemos.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O pedaço de pão



         Num armário de cozinha conversavam um pedaço de bolo, uma torta, algumas rosquinhas e um humilde pedaço de pão.

         Dizia o bolo, todo orgulhoso:

         — Todos me adoram, pois sou fofo e macio.

         Uma rosquinha retrucava do seu canto:

         — Pode ser. Mas, para o lanche da família, as crianças não dispensam a minha presença!

         E a torta, torcendo o nariz, respondia, irônica:

         — Em dias comuns, talvez. Eu, porém, sou sempre indispensável em qualquer mesa de festa. Minha presença é aguardada com muita satisfação, pois sou saborosa e encanto aos mais exigentes paladares.

         Diante das palavras dos outros companheiros, o pedaço de pão encolheu-se mais ainda no seu canto, humilhado.

         O bolo, fitando-o com ar arrogante, perguntou:

         — E você, não diz nada?

         O pobre pedaço de pão baixou a cabeça, triste. Sentia-se diminuído diante dos companheiros, e sem valor nenhum. Afinal, era apenas um pão.

         A torta retrucou, sarcástica:

         — Deixe-o. Não vê que ele não serve para nada? Só se utilizam dele quando não têm coisa melhor. Com tantas iguarias gostosas como nós, seu fim é ficar aqui, mofando neste armário, até ser jogado no lixo.

         Triste, o pão não respondeu. Sabia que não tinha importância alguma.

         Nisso, ouvem um barulho na cozinha. Alguém se aproxima. Calam-se.

         A porta do armário se abre e aparece a dona da casa e seu filho Paulinho.

         — O que você deseja comer, meu filho? — pergunta a mãe, atenciosa. — Talvez algumas rosquinhas?

         — Não, mamãe. Estão um pouco moles. Gosto delas sequinhas.

         — Bem, talvez um pedaço de bolo? Ou de torta?

         — Não, não. São muito doces — retrucou o garoto.

         E, fitando o pedaço de pão, o menino apanhou-o com carinho enquanto afirmava:

         — Quando estou realmente com fome, mamãe, não dispenso o meu pedaço de pão!

         Com alegria, o pão deixou o armário, sob os olhares consternados dos companheiros.

         Também nós, na vida, por mais insignificantes que nos sintamos, temos o nosso valor e uma tarefa a cumprir.

         Por isso, não devemos nos considerar melhores do que os outros, deixando que o orgulho se instale em nosso coração.

         Também não devemos nos considerar piores do que os outros. Cada um de nós é diferente e único, mas todos somos irmãos perante Deus.

         Todos nós temos valor.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Aproveitando as férias



         Caminhando pela rua, Celso ia desanimado. Chutou uma lata e pensou:

         — As férias não estão sendo como eu sonhei.

         Durante o ano letivo, tendo que fazer tarefas e enfrentar provas, ele ansiava pelas férias escolares prometendo a si mesmo não fazer nada, nadinha. Queria descansar!

         Até para a sua mãe Celso avisou, irredutível:

         — Mamãe, nas férias não quero fazer nada. Nada de trabalho, nada de atividades. Não me acorde! Quero dormir bastante!

         A mãe concordou. Agora, Celso dormia até o meio-dia, acordando somente à hora do almoço. Depois, ficava o resto do dia sem fazer nada. No começo achava essa vida ótima, depois, sem saber por que, começou a sentir-se irritado e descontente, reclamando de tudo.

         Os colegas insistiam para que fosse com eles jogar futebol ou ir à piscina, mas o menino recusava dizendo:

         — Não vou, não. Quero descansar!

         Certo dia uma amiguinha de Celso, passando por sua casa e vendo-o no portão, convidou:

         — Tem um grupo que vai levar sopa numa favela e estou indo juntar-me a eles. Quer ir também?

         — Está brincando? Com esse sol e esse calor que está fazendo? Nem pensar!

         Passou-se uma semana... duas semanas...

         Na terceira, Celso não agüentava mais a monotonia.

         Observando a mãe lavar roupas, o menino desabafou:

         — Mamãe, não sei o que está acontecendo comigo. Estou sem ânimo. Perdia a fome. Não tenho conseguido dormir direito à noite. Passo horas acordado, sem sono. E, o pior, é que vivo cansado!

         A mãezinha enxugou as mãos no avental, olhou o filho desanimado e sorriu, compreensiva:

         — É exatamente porque você não está tendo nenhuma atividade útil, meu filho, Quanto menos fizer, mais cansado ficará.

         Sentou-se ao lado de Celso num banco ali perto e continuou:

         — Para podermos viver, Deus nos dotou de energias. Essas energias têm que ser bem utilizadas por nós. Por isso sentimos necessidade de trabalho, de movimento, de atividades.

         — Mas quando terminou o ano letivo eu estava muito cansado e não queria ver livros na minha frente!

         — Muito justo, porque você estudou e se esforçou bastante durante o ano, meu filho, e precisava descansar. Agora, já está descansado e precisando movimentar o corpo e a mente. Existem outros tipos de atividades que nos distraem, alegram e animam. Ler um bom livro, fazer um esporte, uma visita, ajudar alguém, são coisas úteis e agradáveis.

         Celso pensou um pouco e concluiu que a mãe tinha razão.

         Naquela tarde, acompanhou os amigos ao clube para uma partida de futebol. Voltou para casa com outro aspecto.

         No dia seguinte encontrou a menina que ia levar sopa na favela e dispôs-se a acompanhá-la. Viu tanta necessidade e sofrimento, que se comoveu. Ajudou a distribuir a sopa e o pão, conversou com as crianças, visitou as famílias e voltou para casa, com novo ânimo.

         Corado e sorridente, entrou em casa e relatou à mãe tudo o que fizera. Estava com outro aspecto e tinha um brilho diferente no olhar.

         Sentou-se e comeu sem reclamar. Com as atividades do dia, sentia-se cansado mas satisfeito. Naquela noite dormiu logo e teve sono tranqüilo. No dia seguinte acordou cedo, bem disposto e animado, afirmando:

         — Mamãe, eu quero aproveitar minhas férias!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Ano Novo, vida nova!



         Caminhando pela rua, sem pressa, Roberta, de oito anos, encaminhou-se para o parquinho próximo de sua casa. Sentou-se no balanço preferido e ali ficou quieta, pensando na vida.

         O ano tinha sido bom. Apesar de não ter se dedicado especialmente aos estudos, havia sido aprovada na escola, e sentia-se aliviada.

         A festa de Natal tinha sido muito boa, com comida à vontade, frutas, doces, chocolates e balas. Além disso, ganhara vários presentes, inclusive uma nova bicicleta, exatamente a que desejava.

         No entanto, apesar de estar tudo bem, algo a incomodava. Lembrando do Natal, cuja data representava o aniversário de Jesus, chegou à conclusão de que só pensara em si mesma. O ano estava para terminar e isso lhe dava certa tristeza.

         Como o ano novo chegaria dentro de alguns dias, Roberta pensou que gostaria de mudar sua vida para que ela fosse melhor ainda.

         Mas mudar o quê?

         Em relação à escola, deveria estudar mais, não apenas para passar de ano, mas para aprender realmente.

         Ao pensar na escola, imediatamente a imagem de Tereza surgiu em sua mente. Era uma colega com quem teve uma briga por um motivo qualquer, e não tinham se falado mais. E ela sentia falta da amiga.

         Lembrando da festa de encerramento do ano letivo, Roberta reviu o momento em que um grupo de alunas apresentou lindos números de dança. Ela tinha se emocionado porque o balé era seu sonho! Sempre quis aprender a dançar! Quem sabe a hora tinha chegado?

         Nesse momento, Roberta viu uma garotinha bem pobre que chegou ao parquinho, tímida, sem saber o que fazer. Enquanto a mãe dela, parada na calçada, entretinha-se a conversar com uma moça, a menina ficou parada, indecisa.

         Intimamente, Roberta tomou uma decisão:

         — Isso mesmo! O ano novo será diferente! E vou começar agora.

         Então, Roberta deixou o balanço e aproximou-se da menina, convidando:

         — Quer balançar? Venha, eu ajudo você!

         Sentou a garotinha e pôs-se a balançá-la, enquanto a menina ria, feliz. Logo estavam amigas. Roberta ficou sabendo que o nome dela era Carolina, tinha 4 anos e morava num bairro bem distante. Quando a mãe da garotinha chegou, elas conversaram e Roberta disse:

         — Tenho alguns brinquedos e quero dar para Carolina. Tenho também roupas e calçados que não me servem mais, além de doces e balas que ganhei no Natal. Venham comigo até minha casa. É aqui pertinho.

         A mãe ficou toda contente e agradecida:

         — Você não imagina o que isso significa para nós. Sem dinheiro, nada pude comprar para Carolina no Natal. Nem comida nós temos em casa.

         Penalizada, Roberta levou mãe e filha até sua casa, apresentou-as a sua mãe e, como o almoço estivesse pronto e seu pai já tivesse chegado, sentaram-se e almoçaram todos juntos.

         Ao se despedir, a mulher estava emocionada. Sentia-se agradecida pela ajuda e pelo acolhimento que tivera naquele lar. Carolina jogou-se nos braços de Roberta e disse:

         — Obrigada, Roberta. Você agora é minha amiga do coração!

         Ao receber o abraço a garotinha, Roberta sentiu que jamais tinha experimentado tal sensação de bem-estar, paz e felicidade.

         Mais tarde, ela foi até a casa de Tereza. Tocou a campainha e, para sua surpresa, foi a própria colega que abriu a porta. Ao vê-la, a menina arregalou os olhos, surpresa.

         — Roberta! Você, aqui em casa?...

         — Vim para lhe pedir desculpas, Tereza. Sinto muito o que aconteceu naquele dia.

         — Roberta, eu é que devo lhe pedir desculpas. Falei coisas que não devia e acabamos brigando. Você me perdoa?

         As duas trocaram um olhar e caíram na risada.

         — Bem, acho que somos amigas de novo, não é?

         Elas se abraçaram com carinho, contentes por terem resolvido a questão.

         Deixando a casa de Tereza, Roberta voltou para seu lar e contou a sua mãe o que tinha acontecido, que tinha feito as pazes com Tereza e concluiu:

         — Mamãe, graças a Deus agora está tudo bem entre nós.

         — Fico feliz, minha filha, que você e Tereza tenham se acertado. Nunca estaremos bem se alguém tiver algo contra nós.

         — Tem razão, mamãe. Estou aliviada. Ah! Também resolvi que o ano novo seja diferente, por isso gostaria de lhe pedir: posso estudar balé no ano que vem?

         — Se você realmente deseja, é claro que pode!

         — Obrigada, mamãe! Vou telefonar para a professora e me matricular no curso.

         Nos próximos dias, Roberta fez uma programação de tudo o que gostaria de fazer para o próximo ano, e aproveitou para realizar algumas coisas que estavam faltando antes do fim do ano: fez visita aos seus avós e a um colega que estava enfermo, deu banho no cachorro; arrumou seu quarto separando o que iria precisar daquilo que poderia dispor e muitas outras coisas.

         No dia 31 de dezembro, sentia-se em paz consigo mesma e com o mundo.

         Quando soou a meia-noite e os festejos começaram, o céu ficou todo iluminado com a queima de fogos de artifício. A cidade ganhou vida nova, com buzinas de carros soando, gritos de alegria e pessoas que deixavam suas casas para cumprimentar vizinhos, parentes e amigos.

         Sob o céu iluminado, a mãe olhou para a filha e disse com amor:

         — Feliz Ano Novo, minha filha!

         — Feliz Ano Novo, mamãe!

         Roberta agora tinha certeza do que queria: ANO NOVO, VIDA NOVA!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Natal com Jesus



         Aproveitando a aproximação de dezembro, a professora falava sobre o assunto, ponderando com os alunos:

         — Nossas aulas estão terminando e logo vocês estarão de férias. Natal está chegando e hoje vamos falar sobre esse assunto tão importante para nós que somos cristãos. Todos os dias devemos nos lembrar de Jesus e procurar estar junto dele! Contudo, Natal é um momento especial porque toda a cristandade comemora nesse dia a vinda do Cristo ao mundo. Então, gostaria de saber: Como vocês esperam comemorar o Natal?

         O entusiasmo foi geral. O assunto era palpitante! Cada criança falou sobre suas expectativas para a festa: As visitas de parentes que viriam de longe, os preparativos e as compras que estavam sendo feitos para o grande momento e, especialmente, os presentes que esperavam ganhar.

         A professora ouviu com atenção as informações infantis, deixando que falassem à vontade. Depois, considerou, com um sorriso:

         — Ótimo! Vejo que estão animados e sabem o que querem! Mas será que alguém se lembrou de que o aniversariante é Jesus, e, portanto, a festa é para Ele?

         Silêncio geral. Os alunos trocaram entre si olhares surpresos e constrangidos. Ninguém havia pensado nisso!

         Um aluno quebrou o silêncio, arriscando:

         — Bem, se o aniversariante é Jesus, então, devemos pensar como Ele gostaria que preparássemos a comemoração, não é?

         Todos concordaram. Porém, como fazer isso? Perguntar a Jesus?

         Um outro garoto, que ouvia pensativo, disse:

         — Bem, professora, acho que só podemos fazer isso buscando nos ensinamentos de Jesus. Minha mãe me ensinou que o Cristo gostava de estar sempre junto com os sofredores e necessitados do mundo.

         — Excelente, Joãozinho. Alguém se lembra de mais alguma coisa?

         Dorinha, menina estudiosa e disciplinada, comentou:

         — Professora, outro dia abri a Bíblia ao acaso e li um trecho que Jesus dizia que, ao darmos uma festa, não deveríamos convidar os ricos, mas os que não nos poderiam retribuir a gentileza.

         — Muito bom, Dorinha. Você provou que entendeu a mensagem do Mestre.

         Ismael, o menorzinho da turma, que acompanhava tudo com atenção, levantou-se e disse:

         — Professora, meu pai fala que Jesus ama a todo mundo: as pessoas, os bichinhos, as plantas. É verdade?

         — Sem dúvida, Ismael. O amor do nosso Mestre se reflete em toda a natureza.

         — Então, acho que Jesus não gostaria de chegar em nossa casa e encontrar a mesa cheia de animais mortos. Eu não gosto!

         Diante da ponderação daquela criança, que lembrava o respeito à vida, os demais se calaram. A professora passou o olhar pela sala, onde os alunos se mantinham em silêncio, pensativos, e sugeriu:

         — A classe já se manifestou abordando coisas importantes que devem ser analisadas com seriedade. Gostaria que o grupo refletisse sobre o assunto e encontrasse a melhor solução para festejarmos o Natal de Jesus. Vocês terão até o final desta aula para resolver, está bem? Depois desse tempo, voltarei para saber o que decidiram.

         As crianças passaram a refletir no assunto, cada um dando sua sugestão. Afinal, depois de muita conversa, resolveram. A decisão foi unânime e estavam todos entusiasmados.

         Retornando, a mestra olhou para a classe e indagou:

         — E então? Chegaram a uma decisão?

         O líder a turma, levantou-se e informou:

         — Sim, professora. Depois de tudo o que foi falado, decidimos que a melhor maneira de festejarmos o Natal, é fazer visitas aos hospitais. Jesus cercava-se especialmente dos sofredores e doentes, e onde encontrá-los em maior número a não ser num hospital? Deve ser muito triste ser criança e ter que passar o Natal separado da família, não é? Podemos ensaiar um teatro, levar alegria, músicas, brincadeiras e algumas guloseimas que eles possam comer. O que a senhora acha?

         A professora acompanhava comovida a explicação do aluno, que era interrompida pelos demais com palmas e gritos de alegria. Com lágrimas nos olhos, ela aprovou:

         — Parabéns, vocês decidiram sabiamente. Por certo este ano teremos um Natal diferente!

         A partir daquele dia, com a cooperação das famílias que aderiram eufóricas à idéia dos filhos, arrecadaram recursos para realizar o projeto, ganharam doces e presentes. Cada aluno contribuiria com suas tendências, mostrando o que tinha de melhor. Assim, surgiram atores para um pequeno teatro; palhaços, mágicos e, como não poderia faltar, ensaiaram músicas natalinas.

         Chegou o grande dia.

         Era véspera de Natal. Em um grande comboio se dirigem para o primeiro hospital. Foi um momento inesquecível! Médicos, enfermeiras, atendentes, todos aprovaram a iniciativa. Os pacientes, então, nem se diga! Acompanhavam com olhos brilhantes de animação e alegria as apresentações variadas e cheias de humor. Receberam presentes, balões coloridos e doces. Naturalmente, os alunos haviam se informado antes para saber o que os pacientes poderiam comer, inclusive os diabéticos, que receberam guloseimas especiais.

         Notadamente no Hospital do Câncer, a emoção foi maior, diante das crianças pálidas, abatidas, muitas sem cabelos, com feridas, mas todas demonstrando no olhar a felicidade daquele momento.

         O ambiente saturado de luz se derramava em bênçãos de paz, de amor e de alegria para todos.

         Certamente, tanto as crianças enfermas quanto os alunos daquela classe, jamais esqueceriam esse Natal, quando tiveram a oportunidade de sentir a presença de Jesus, tão viva e tão forte entre eles!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Exemplo de humildade



         Há muito, muito tempo atrás, numa humilde e pequena estrebaria, alguns animais conversavam, trocando idéias sobre suas vidas.

         E o boi, muito manso, dizia com sua voz grave e pacienciosa:

         — Tudo o que fazemos é trabalhar de sol a sol. Puxo o arado revolvendo a terra para a semeadura, e conduzo a carroça com tranqüilidade e alegria executando meu trabalho sem reclamar. O senhor pode contar comigo, que estou sempre firme no serviço, mas jamais recebi uma única palavra de encorajamento.

         O cavalo, que ruminava num canto, concordou balançando a cabeça:

         — Também tenho dado o melhor de mim, levando o senhor para todo lado, caminhando grandes distâncias sob o sol abrasador, a chuva fria ou o frio inclemente. Mas, tenho recebido apenas o chicote no lombo como paga pelos meus serviços.

         O burrico levantou a cabeça, tristonho, e suspirou:

         — Tenho carregado cargas muito pesadas e nunca reclamei, nem me recusei a cumprir minhas tarefas, todavia nunca recebi uma ração extra em agradecimento pelos meus esforços.

         A vaca, que amamentava seu bezerrinho recém-nascido, ergueu os olhos grandes e úmidos e comentou:

         — Também eu tenho sentido na pele a ingratidão do homem. Não contente em tirar-me o leite com que alimenta seus filhos, não raro desagrega nossa família, matando-nos por prazer para alimentar-se de nossas carnes, utilizando-nos a pele para a confecção de calçados e roupas.

         A ovelhinha, que tudo ouvia em silêncio, e que de olhar sonhador observava através da porta, o céu de um azul profundo e limpo, recamado de estrelas, suspirou e disse com sua voz meiga:

         — Concordo que todos têm sua parcela de razão. Também eu não estou livre de maus tratos, embora colabore sempre com a minha lã para que o homem confeccione agasalhos com que se protege do frio. Mas sabem o que ouvi dizer outro dia? Que é aguardado um Messias com toda ansiedade. Dizem que ele virá do céu para amar os homens na Terra, e para conduzi-los ao regaço de Nosso Pai.

         E os animais, atentos e curiosos, sentindo uma esperança nova, pediam-lhe a uma só voz:

         — O que mais dizem desse Messias enviado por Deus? Conte-nos... conte-nos...

         E a ovelhinha, orgulhosa das suas informações, prosseguia:

         — Dizem também que ele dará a cada um segundo suas próprias obras. Por isso, tenhamos confiança em Deus que nunca nos desampara.

         Mais reconfortados e confiantes, os animais naquela noite sonharam com o Messias, que cada um imaginava conforme seus gostos e necessidades, e que seria o Salvador do Mundo.

         No dia seguinte viram que se aproximava, vindo pela estrada, um homem que conduzia um burrico, carregando uma jovem de belo e doce semblante.

         Como não tivessem conseguido alojamento para passarem a noite, contentaram-se com aquela humilde estrebaria.

         Pareciam exaustos da longa viagem e a jovem aguardava um filho para breve.

         Com espanto, os animais viram o homem ajeitar as palhas, improvisando um leito para a jovem.

         Algumas horas depois nascia um lindo bebê, sob as vistas carinhosas e atentas dos animais.

         No céu uma grande estrela surgira, prenunciando um acontecimento incomum, e, rodeando a manjedoura, transformada em improvisado berço para o recém-nascido, os animais sentiram-se compensados por todo o sofrimento das suas vidas, conscientes da grande importância daquele acontecimento.

         E, na paz e quietude do ambiente singelo, reconheceram naquela criança o Messias, o Cristo de Deus, que nascera na Terra para ensinar o Amor, mas que preferira como testemunhas mudas do seu nascimento, não os homens, mas os humildes, laboriosos e dóceis animais da criação.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Espírito natalino



         Estavam no mês de dezembro. Os últimos dias de aulas traziam alegria aos alunos porque representavam a chegada das férias, as festas do final de ano, viagens e divertimentos. Todavia, também traziam certa tristeza, pois a convivência diária com os colegas a que estavam acostumados e que lhes dava tanto prazer, deixaria de existir.

         No encerramento do ano letivo, ao se despedir de seus alunos, a professora falou sobre o Natal, explicando a importância da vinda de Jesus ao mundo, e concluiu dizendo:

         — Nunca se esqueçam de que o espírito natalino representa, sobretudo, repartir o que temos com o próximo, mesmo que seja pouco. Isso é o que o Mestre espera de nós: que possamos agir como verdadeiros irmãos.

         Nico ficou com aquelas palavras na cabeça.

         O que teria ele para repartir com alguém? Não era rico. Ao contrário, era de família bem pobre. As roupas e calçados que usava lhe eram necessários. Brinquedos, ele não tinha. Lembrou-se dos livros escolares que já não lhe serviriam mais. Sim, poderia doá-los a alguma criança pobre.

         Sorriu a essa idéia. Encontrara algo para repartir.

         Intimamente, porém, não se sentia satisfeito. Dando os livros escolares a alguém, não estaria repartindo nada, apenas abriria mão de algo que não lhe faria falta! Naquele seu gesto estava faltando alguma coisa...

         Alguns dias depois, já bem próximo do Natal, foi visitar seu avô e ganhou uma moeda. Uma linda moeda!

         — O que farei com ela? Já sei! Vou comprar aquele cachorro-quente que sempre sonhei comer e que nunca pude.

         Nico saiu correndo rumo “àquela” barraquinha de cachorro-quente que ele tão bem conhecia de tanto ouvir as pessoas elogiarem.

         Pediu o sanduíche e, cheio de ansiedade, já com água na boca, mal podia esperar que ficasse pronto. Acrescentou os molhos e tudo o mais que tinha direito, e acomodou-se na sarjeta para apreciá-lo devidamente.

         Satisfeito, respirou fundo e abriu bem a boca para dar o primeiro bocado. Nesse instante, viu ao seu lado, também sentado no meio-fio, um moleque sujo e esfarrapado, cujos olhos famintos não se despregavam do seu sanduíche.

         Nico, a princípio, tentou não dar atenção ao menino. Mas aqueles olhos de pedinte o incomodavam.

         Naquele momento, lembrou-se das palavras da professora no último dia de aula, e entendeu finalmente o que ela queria dizer.

         Levantou-se, e, pouco depois voltou, com o cachorro-quente dividido ao meio. Entregou uma parte para o garoto, que lhe agradeceu com um enorme sorriso, e ficou com a outra.

         E juntos, lado a lado, saborearam o delicioso sanduíche.

         Jamais Nico tinha experimentado tal sensação de bem-estar e de felicidade. A gratidão do menino de rua tinha para ele um sentido todo especial.

         Finalmente entendera o que era o espírito natalino. Ele conseguira renunciar, dividindo algo que muito desejava. Repartira o pão com alguém ainda mais necessitado do que ele, e tinha certeza de que Jesus aprovava seu gesto. Nem sabia o nome do moleque! Mas que importância tinha isso?

         Virou-se para o garoto, que o fitava com olhos brilhantes e cheios de alegria. Sorriram. Tinha ganhado um novo amigo.

         — Feliz Natal! — exclamou satisfeito.

         — Feliz Natal! — repetiu o menino.

         E se abraçaram contentes.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O pião



         Apesar de ser muito inteligente e de ter todas as condições para aprender, Mateus não gostava de estudar.

         Para ele era um verdadeiro sacrifício abandonar as brincadeiras e ir para a escola.

         Gostava mesmo era de andar pelos matos caçando passarinhos e colhendo frutos silvestres, brincar com seus brinquedos ou jogar bola na rua com os amigos e vizinhos.

         Nunca achava tempo para fazer os deveres de casa. Na escola, não prestava atenção ao que a professora ensinava e nem se dava ao trabalho de copiar o que ela passava no quadro-negro.

         No final do ano, como não poderia deixar de ser, o resultado desse comportamento: todos os colegas passaram de ano e só Mateus foi reprovado.

         Ficou muito triste, chorou, mas nada adiantou. Teria que repetir a mesma série na escola e procurar aproveitar as aulas.

         No entanto, Mateus continuava levando a mesma vida de sempre, sem se preocupar com os estudos.

         No aniversário ele ganhou de alguém um pião e interessou-se pelo brinquedo. Ele enrolava a cordinha cuidadosamente em torno do pião e depois soltava com gesto brusco, e era com satisfação que via o brinquedinho rodar, rodar, rodar sobre si mesmo.

         Um dia, observando o pião que rodava sem cessar, ele comentou com o pai, que lia o jornal ali perto:

         – Que engraçado é o pião, não é papai? Como será que ele gira sempre e não sai do lugar?

         O pai, que estava preocupado com o comportamento do filho, aproveitou o momento para informar:

         – É verdade, meu filho. E você sabe que não é só com o pião que acontece isso?

         – Como assim, papai? – perguntou Mateus sem entender o que seu pai dizia.

         – Sim, meu filho. Também muitas pessoas, como o pião, ficam girando apenas em torno de si mesmas e não saem do lugar. Nunca aprendem nada porque não se interessam em ver o mundo que existe em derredor. São egoístas. Só pensam na própria pessoa.

         E, nesse caso, são pessoas que nem sequer pensam no próprio bem, ou saberiam que só aprendendo e participando do mundo é que conseguem progredir na vida.

         Mateus fitou o pai interrogativamente e em seguida olhou para o pião que ainda rodava, rodava, rodava, sem parar.

         Ficou calado, pensando...

         Entendera a lição.

         No dia seguinte, para surpresa de sua mãe, ninguém precisou chamá-lo para ir à escola. Quando ela levantou, Mateus já estava pronto.

         Tomou o café da manhã sem dizer nada, e saiu para as aulas.

         A partir desse dia, Mateus começou a dedicar-se aos estudos. Fazia os deveres de casa e depois ainda pegava um livro para ler. E, ainda assim, sobrava muito tempo para brincar e se divertir.

         Nunca mais se esqueceu da lição do pião e, quando alguém não queria estudar, ele alertava:

         – Quer ser como um pião, rodando em torno de si mesmo sem nunca sair do lugar?

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O coelhinho preguiçoso



         Rogério era um coelhinho de família boa e preocupada com sua educação.

         Morava num sítio muito bonito, pertinho da cidade, com muitos outros animais.

         Percebendo que Rogério não gostava de trabalhar, a mamãe Coelha o orientava dizendo:

         — Meu filho, nessa vida todos temos que ser úteis de alguma forma. Todos nós precisamos realizar alguma tarefa. Deus não nos concedeu a vida para que sejamos um peso para a natureza.

         Mas o coelhinho fugia a todo esforço nobre.

         Certo dia ele saiu de casa contrariado porque a mãe lhe pediu que a ajudasse nos serviços domésticos varrendo a pequena toca onde moravam.

         Andando aos pulos por um caminho, Rogério ia resmungando. Cansado, sentou-se à sombra de uma árvore, à beira de um riozinho.

         Preguiçoso, ele suspirou e disse:

         — Ah! Gostaria de ser como esse riacho que não faz nada!

         Para sua surpresa, ouviu uma voz que lhe dizia:

         — Puro engano. Trabalho bastante. Transporto com muito cuidado a água que irá beneficiar as plantações e que será usada pelas criaturas humanas nos mais diversos serviços, e as aves e animais vêm até mim para saciar a sede. Além disso, sirvo de morada para muitos peixes.

         Assustado, Rogério pensou um pouco e, contemplando uma vaca malhada que ruminava no pasto, ali perto, considerou:

         — Bem, então eu gostaria de ser como aquela vaca que passa o tempo todo sem fazer nada. Só come e dorme.

         A vaca, que ouvira as palavras do coelhinho, encostou-se na cerca e mugiu:

         — Múuuuu... múuuuu.... Como não faço nada? Forneço o leite todas as manhãs. Sem contar que, muitas vezes, têm irmãs nossas que dão até a vida para que os homens possam se alimentar.

         Decepcionado pela reação do animal, o coelhinho olhou em torno procurando alguém que não fizesse absolutamente nada.

         A árvore, que se conservara calada até aquele instante, entrou na conversa:

         — Não lhe para mim! Também trabalho. Dou flores e frutos que servem de alimento. Agasalho pássaros, pequenos animais e insetos em meus galhos fortes. Além disso, todos gostam de descansar à minha sombra acolhedora. Como você, por exemplo!

         O carneiro, que se aproximara para participar da conversa, esclareceu que fornecia a lã para fazer agasalhos; a galinha, que ciscava ali perto, afirmou que entregava seus ovos para alimentação e, até uma aranha que tecia sua rede num galho, tinha uma tarefa:

         — Se não fosse por mim, que me alimento das moscas e pequenos insetos que existem no ar, sua vida seria impossível! — afirmou orgulhosa.

         O coelhinho estava muito envergonhado. Só ele não gostava de fazer nada.

         Pensativo, Rogério voltou para casa.

         Encontrou a mamãe atarefada em arranjar alimento para a família. Sem dizer nada, pegou a vassoura e pôs-se a trabalhar.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O esquilo ambicioso



         Certa vez um esquilo encontrou um buraco existente no tronco de uma árvore grande e forte.

         Era o abrigo ideal para o pequeno esquilo viver. Muito satisfeito da vida, mudou-se para lá.

         A árvore passou a protegê-lo do vento, da chuva, do frio e dos animais selvagens, que sempre representavam um perigo.

         Contente, o esquilo passou a pensar em arrumar sua casa. Como a considerasse muito pequena, desejou aumentá-la.

         Com seus dentes fortes e afiados, começou a roer as paredes para aumentar sua casa. Sonhava em ter uma família e precisaria de espaço para a esposa e os filhinhos que viriam.

         Assim, ele aumentou o buraco fazendo mais um quarto, uma sala onde pudessem comer e um depósito para guardar as nozes que encontrasse. O inverno costumava ser rigoroso e era preciso armazenar o alimento de modo a não passarem fome.

         O esquilo arrumou sua casa com muito amor, enfeitando e limpando para esperar a chegada da família.

         Como não estava satisfeito com o que tinha, desejando sempre mais, foi aumentando a casa e fazendo novos cômodos.

         Os outros moradores da árvore, passarinhos, insetos e pequenos animais, reclamaram:

         — Esquilo, você está destruindo a nossa casa! A nossa amiga árvore está ficando fraca.

         Ao que ele retrucava, indiferente:

         — Vocês estão enganados. A árvore é forte e tem raízes robustas.

         Certo dia, já no início do inverno, ele tinha saído para arrumar comida e demorou algumas horas. Ao voltar, teve uma grande surpresa. Olhou de longe para admirar a sua linda casa e estranhou:

         — Onde está a minha casa, a árvore frondosa e amiga?...

         Assustado, não podia acreditar no que seus olhos viam: A árvore, que era tão forte, tão firme, estava caída no chão!

         Como desabara daquele jeito?

         Tentando encontrar a razão daquele desastre, o esquilo chegou mais perto para ver o que havia acontecido, e notou que ele, sem perceber, havia-lhe roído as raízes, fazendo com que elas perdessem a força, com o imenso buraco que se fizera dentro do tronco da árvore.

         O esquilo percebeu então, tarde demais, que ele próprio havia sido o responsável pela queda da árvore. Que, na sua ambição desmedida, havia destruído as condições da moradia que o Senhor concedera, não apenas a ele, mas também a todos os outros seres que a habitavam.

         Bastaria que se tivesse contentado com o pouco que lhe tinha sido dado, para que ele pudesse ali viver longos anos em paz e segurança. Contudo, o desejo de ter sempre mais, fizera com que destruísse seu lar e o lar dos passarinhos, dos pequenos animais e dos insetos que ali viviam.

         Agora, decepcionado e triste, o esquilo lamentava o erro que cometera. Estavam no início do inverno e era preciso procurar outro abrigo, se não quisesse ficar ao relento e exposto às intempéries.

         Porém, ele tinha confiança em Deus. Sabia que, como havia encontrado aquele buraco, encontraria outro. Era preciso não desanimar e aprender com os próprios erros.

         Então, humildemente, ele dirigiu-se aos companheiros de infortúnio que ali estavam, tristes, e lhes disse:

         — Peço-lhes perdão. Cometi um grande erro e agora todos nós estamos sem um lar. Mas, não podemos desanimar. Prometo-lhes que encontraremos uma outra árvore para morar. Confiem em Deus!

         As aves, os animaizinhos e os insetos ficaram mais animados, sentindo uma nova esperança brotar em seus corações.

         E o esquilo, daquele dia em diante, nunca mais cometeria o mesmo erro, aceitando e adaptando-se às condições de vida que Deus lhe oferecesse.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Xiiii, esqueci!



         Alvinho era um menino que nunca terminava o que tinha começado a fazer. Deixava tudo pela metade.

         Era um horror! De manhã, ia escovar os dentes e deixava a pasta dental sem a tampa. Saía do banho e a torneira do chuveiro ficava pingando. Na hora de se vestir, abria a porta do armário ou uma gaveta, e não fechava. Abria a geladeira para pegar alguma coisa e deixava a porta aberta. Sentava para fazer os deveres da escola e esquecia os livros e cadernos em cima da mesa.

         Assim, suas roupas estavam sempre desarrumadas, os brinquedos fora do lugar, os patins no meio da sala, a pasta dental sem tampa e assim por diante.

         A mãe tentava ensiná-lo a ser mais ordeiro, colocando cada coisa em seu lugar, mas qual nada! Alvinho continuava do mesmo jeito. Sua resposta era sempre a mesma:

         — Xiiii, esqueci!

         Um dia a mãe de Alvinho resolveu dar-lhe uma lição.

         Logo cedo, quando o menino foi vestir o uniforme para ir à escola viu que estava amassado. Ele reclamou:

         — Mãêêêê!... Olha como está meu uniforme! Todo amassado!

         A mãe respondeu:

         — Esqueci de passar! Você vai ter que ir com ele assim mesmo, meu filho.

         E lá se foi o Alvinho com a roupa amassada para a escola.

         Mais tarde, quando ele voltou, sentou-se para almoçar. Estava com muita fome!

         Ao abrir a panela de arroz para servir-se, viu que estava ainda cheia de água e os grãos, duros.

         — Mãe! O que aconteceu? O arroz está horrível!

         E a mãe respondeu, fingindo-se surpresa:

         — Xiiii! Esqueci de acender o fogo! Espera um pouco, meu filho, que vou acabar de preparar o arroz.

         E assim foi o resto do dia. A cama estava arrumada pela metade, o banheiro todo molhado, o bolo meio cru, e até roupa suja Alvinho encontrou no guarda-roupa.

         A resposta era sempre a mesma. A mãe dizia que tinha esquecido.

         No final do dia, não agüentando mais, Alvinho reclamou:

         — O que aconteceu hoje, mamãe? A casa está de pernas para o ar, e a senhora está muito esquecida. Assim não dá!

         Ao ouvir a reclamação do filho, a senhora respondeu:

         — Não sei do que você se queixa, Alvinho! Fiz exatamente o que você faz todos os dias! Esquece o que está fazendo e deixa tudo pela metade.

         Compreendendo que a mãe tinha razão, Alvinho aceitou a lição e prometeu a si mesmo ter mais cuidado com suas atitudes dali por diante.

         Reconheceu quanta paciência sua família tivera com ele durante todo o tempo, quando ele não conseguira agüentar aquela situação um só dia!

         A partir dessa data, Alvinho tornou-se um garoto mais atento e organizado, com suas próprias coisas e com as coisas da casa, de uso de toda a família.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Trabalhar com alegria



         José Antonio era o seu nome. Mas todos o chamavam de Zequinha.

         Zequinha, que logo completaria oito anos, era um menino bom, porém tinha um hábito muito feio: não conseguia fazer nada sem reclamar.

         A mãe, com muita paciência, tentava fazer com que o filho entendesse a necessidade de modificar seu comportamento, sem grande resultado.

         Como eram espíritas, os pais se preocupavam com as atitudes de Zequinha, percebendo que, se continuasse assim, teria muitos problemas no futuro.

         Um dia, a mãe lhe disse:

         — Zequinha, sei que você gosta de brincar, o que é natural, pois é uma criança. Porém, todos nós precisamos colaborar, dando a nossa contribuição para o bem-estar da família. Jesus fica triste quando não estamos satisfeitos, pois na existência temos muito a agradecer a Deus, nosso Pai. Nada nos falta. Por isso, é preciso manter o otimismo e a alegria de viver nas atividades de cada dia, meu filho.

         — Entendeu, meu filho?

         — Entendi, mamãe.

         O menino prometeu que procuraria ser diferente daquele dia em diante.

         No dia seguinte, depois que Zequinha voltou da escola, a mãe deu-lhe uma tarefa: comprar sabão no supermercado da esquina, pois havia terminado. O garoto saiu resmungando.

         Depois, a mãezinha pediu-lhe que arrumasse a mesa para o almoço. De má vontade, Zequinha obedeceu.

         Não podendo sair, a mãe pediu-lhe o favor de levar o irmão menor para a escola. Mais tarde, deu-lhe a incumbência de enxugar a louça e varrer o quintal. Sempre reclamando, Zequinha obedeceu.

         À noite, na hora do Evangelho no Lar, a mãe perguntou se Zequinha tinha cumprido todas as suas obrigações daquele dia.

         — Sim, mamãe. Fiz tudo o que a senhora mandou. Jesus deve estar contente comigo hoje.

         A senhora balançou a cabeça, afirmando:

         — Não, meu filho. Ainda falta alguma coisa.

         Zequinha pensou... pensou... pensou... mas não conseguiu descobrir o que era que tinha deixado de fazer.

         — Ora, mamãe, a senhora deve estar enganada. Executei todas as tarefas que me foram pedidas.

         E, contando nos dedos, relacionou todas as atividades do dia:

         — Fui à escola, ao supermercado, arrumei a mesa para o almoço, levei meu irmãozinho para a pré-escola, varri o quintal e enxuguei a louça. Puxa! Trabalhei o dia inteiro! — reclamou o menino, descontente.

         — Mas ainda falta uma coisa, meu filho.

         — Qual, mamãe?

         — Se você fez tudo o que lhe foi pedido, ainda falta ter executado as tarefas com alegria.

         Somente então Zequinha lembrou-se do que havia prometido no dia anterior.

         Abaixou a cabeça, reconhecendo que a mãe tinha razão.

         Com ternura, ela acariciou seus cabelos, e disse:

         — Não tem importância, meu filho. Amanhã será um outro dia. Deus nos concederá novas oportunidades para que possamos nos corrigir, praticando o que aprendemos.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A bênção da fé



         Carlos e Luisa sentiam-se extremamente desalentados e sofredores. Seu filho único, Otávio, garoto de seis anos de idade, falecera repentinamente vitimado por uma doença incurável.

         Inconformados, Carlos e Luisa buscavam explicação para sua dor. Por que fora acontecer logo com eles? Otávio era um menino bom, obediente, carinhoso, um verdadeiro anjo caído do céu. Por que Deus o retirara dos seus braços, dos pais que o amavam tanto?

         Assim, revoltados, procuravam consolo em todos os lugares e de todas as formas, sem encontrar lenitivo ou resposta para seus sofrimentos.

         Certo dia, eles entraram numa Casa Espírita, apesar de não acreditarem em nada.

         Ouviram o comentário evangélico e depois tomaram passe. De alguma maneira, sentiram-se mais aliviados.

         Terminada a reunião, o dirigente foi conversar com eles. Assim, contaram-lhe sobre a morte do garoto. Luisa, profundamente revoltada, terminou seu relato dizendo:

         - Desde esse dia, e lá se vão seis meses, não tivemos mais paz ou alegria de viver.

         Sereno, o responsável pela reunião fitou-os penalizado, e perguntou:

         - Não acreditam na imortalidade da alma?

         Surpreso, o casal trocou um olhar, enquanto Luisa exclamava:

         - Nunca pensamos nisso!

         Com sorriso terno, o espírita ponderou:

         - Pois é bom que comecem a pensar nessa possibilidade. O Espírito é imortal e sobrevive à morte do corpo físico. Seu querido filho Otávio está mais vivo do que nunca!

         Com o coração batendo rápido e os olhos a brilharem de esperança, Luisa indagou:

         - O senhor tem certeza disso?

         - Absoluta. Certamente precisa da ajuda de vocês. Suas lágrimas não devem estar fazendo bem a ele. É provável que esteja sofrendo muito.

         - O que fazer, então, para ajudá-lo? - perguntou a mãe, preocupada.

         - Orem por ele. Procurem lembrar-se das coisas alegres, dos momentos felizes que tiveram e, quem sabe, um dia poderão se reencontrar.

         O bondoso velhinho deu-lhes algumas explicações necessárias sobre a Doutrina Espírita e, antes que se retirassem, entregou-lhes alguns livros cuja leitura poderia fornecer-lhes noções mais claras e precisas.

         Carlos e Luisa deixaram o Centro Espírita com nova esperança.

         A partir daquele dia, Luisa passou a fazer preces pelo filhinho desencarnado, pedindo sempre a Jesus que, se possível, lhe permitisse vê-lo novamente.

         Certo dia adormeceu em prantos. Fazia exatamente um ano que seu filho retornara ao mundo espiritual.

         Luisa viu-se num lindo jardim, todo florido, e onde muitas crianças brincavam despreocupadas.

         Sentou-se num banco para observá-las quando viu alguém caminhando ao seu encontro: era Otávio.

         Cheia de alegria abraçou-o, feliz. Ele estava do mesmo jeito; não mudara nada.

         Após os primeiros beijos e abraços, Otávio falou-lhe com carinho:

         - Mamãe, estou muito bem. Não chore mais porque eu também fico triste. Suas preces tem me ajudado muito.

         - Ah! Meu filho, que felicidade! Pena que estou sonhando!

         - Não, mamãe, estamos nos encontrando de verdade.

         Colhendo uma rosa do jardim, ele ofereceu-a para a mãezinha, despedindo-se:

         - Para você, mamãe, com todo o meu amor. Dê um beijo no papai.

         - Não vá, meu filho! - suplicou, aflita.

         - Preciso ir agora. Não se preocupe, mamãe. Eu voltarei para os seus braços. Ajude outras crianças necessitadas. Até breve!

         Despertando, Luisa não conteve as lágrimas de emoção. Estivera com Otávio. Pena que fora apenas um sonho.

         Qual não foi seu espanto, porém, quando, olhando para a mesinha de cabeceira, viu uma bela rosa. A mesma que seu filho lhe dera, ainda com gotas de orvalho nas pétalas, como se tivesse sido colhida a pouco.

         Tomando a flor entre os dedos, enternecida, levou-a aos lábios, enquanto o pensamento elevava-se numa prece de agradecimento ao Criador pela dádiva que lhe concedera.

         Entendera a mensagem. Agora já não poderia duvidar da imortalidade da alma e seu coração encheu-se de conforto e de paz.

         Algum tempo depois, nas tarefas a que se vinculou no auxílio a famílias carentes de uma favela da cidade, recebeu uma criança cuja mãe falecera ao dar à luz, e cujo pai não era conhecido.

         Cheia de compaixão, Luisa tomou nos braços o recém-nascido e, ao aconchegá-lo ao peito, uma onda de amor a envolveu. Naquele momento, ela resolveu levá-lo para casa e adotá-lo como filho do coração.

         Sem saber, Luísa recebia, com esse gesto generoso, seu querido filho Otávio que, graças à Misericórdia Divina, retornara aos seus braços amorosos como filho do coração.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A morte não existe



         Neste domingo, que coincide com o Dia de Finados, data em que se homenageiam os mortos, é preciso parar e refletir.

         Jesus deixou bem claro que a morte não existe. A morte do corpo físico representa apenas a passagem de um mundo para o outro. O Espírito deixa o mundo material e passa a viver no mundo espiritual, que é sua verdadeira vida.

         O Mestre não apenas falou sobre a importância da vida futura, exemplificou seus ensinamentos retornando após sua morte na cruz para mostrar aos discípulos a verdade que ensinara.

         Por isso, meu amiguinho, não adianta procurarmos nossos mortos queridos no cemitério, porque eles não estão lá. Sob a terra permanecem apenas os restos mortais, que nada mais importam. É como uma roupa velha que não serve mais para o uso, de tão estragada que está.

         E além do mais, quem é que gosta de lugares tristes?

         Se pudermos escolher, naturalmente iremos para os melhores lugares, mais agradáveis e alegres. Assim também acontece com o Espírito que já deixou a Terra.

         A realidade do mundo espiritual é muito bonita. A vida lá é muito melhor do que a nossa, que estamos ainda aqui encarnados. Tudo o que vemos aqui na Terra, e que nos parece belo, é apenas pálida e imperfeita cópia do que existe na Espiritualidade.

         Dessa forma, se temos algum ente querido que já partiu para a realidade maior, nos lembremos dele com alegria, recordando os momentos felizes que passamos juntos ou passagens engraçadas da nossa vida em comum, emitindo pensamentos de carinho e de saudade, mas sem revolta ou desespero. Façamos preces envolvendo-o em vibrações afetuosas para que ele se sinta amado e protegido.

         Se sentirmos necessidade de ofertar-lhe alguma coisa, que não seja nossa ida ao cemitério, onde ele certamente não irá gostar de retornar.

         Coloquemos um vaso de flores em nossa casa mesmo, lembrando sua presença querida. Podemos doar algo a alguém mais necessitado, em seu nome, o que o deixará gratificado.

         Ou então, meu amiguinho, você pode enviar-lhe um buquê de flores.

         Como? Bem, pense nas flores que seu ente querido mais gostava, ou, então, aquelas que você acha mais bonitas. Imagine um lindo ramo de flores, adorne-o com o papel e a fita que desejar, demonstrando seu carinho. Depois, escreva mentalmente um belo cartão, com as palavras que gostaria de lhe dizer. Em seguida, entregue sua oferenda dizendo:

         — Estas flores são para você!

         Tenha certeza de que seu ente querido receberá seu presente. Assim, ele irá realmente se sentir homenageado e agradecerá a feliz lembrança que você teve.

         Experimente!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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As nuvens



         Caminhando desolado pelas ruas, Alberto encontrou um velho amigo de seu pai, o senhor João.

         O menino estava triste e angustiado. O velhinho, andando a seu lado, perguntou-lhe a razão de sua tristeza.

         — Nada vai bem! — respondeu Alberto. — Parece que o mundo vai desabar sobre minha cabeça! Estou vindo do hospital onde fui visitar minha mãe e o estado dela inspira cuidados. Meu pai está desempregado e as despesas com o hospital aumentam cada dia causando-nos preocupação. Não bastasse isso, ainda fui mal numa prova na escola e não sei se vou passar de ano.

         Fez uma pausa e, com a voz embargada pela emoção, contendo a custo as lágrimas, concluiu:

         — Como o senhor pode ver, tenho motivos de sobra para estar desesperado.

         O bondoso homem ouviu sem interromper o desabafo do garoto. Em seguida, olhou para o céu e disse:

         — Observe. As nuvens pesadas são prenúncios de chuva breve. Devemos nos apressar.

         Alberto olhou para o alto sem grande interesse. Escuras e pesadas nuvens haviam tomado todo o céu. Indicando que não tardaria a chover.

         — As nuvens vão se acumulando, acumulando, até que a tempestade desaba limpando a atmosfera. Assim também acontece conosco, Alberto. Muitas vezes a tormenta nos agita o íntimo e é preciso que “limpemos” o nosso interior também. Sei que você é um garoto valente e corajoso, mas não tema chorar. As lágrimas fazem bem e aliviam a tensão.

         Nesse instante grossos pingos de chuva começaram a cair e eles precisaram se abrigar na varanda de uma casa desocupada.

         Alberto olhou para o companheiro e, não resistindo mais, deixou que as lágrimas corressem pelo seu rosto, lavando-lhe a alma.

         O velhinho abraçou-o e permaneceram assim por algum tempo vendo a chuva cair.

         Meia hora depois parou de chover. As nuvens, tangidas pelo vento, foram embora e o sol voltou a surgir, clareando tudo.

         — Está vendo, Alberto? — comentou o generoso velhinho. — O sol brilha novamente, quando há poucos minutos atrás estava tudo escuro e chuvoso. Veja como o ar está limpo e claro. Parece um milagre! As folhas e flores ganharam nova vida e até um lindo arco-íris surgiu no céu! Por isso, há que ter esperança, meu filho. Confiar em Deus e ter fé. As coisas mudam e o que num momento nos parece sem solução, no momento seguinte poderá estar resolvido.

         Alberto fitou o amigo com gratidão.

         — Muito obrigado, seu João. O senhor me ajudou muito. Já estou bem melhor e mais otimista.

         Separaram-se amistosamente. O homem estava a caminho do seu trabalho e o menino tinha que ir à escola saber o resultado da prova.

         Mais confiante, Alberto dirigiu-se ao colégio e teve uma grata surpresa: Fora aprovado!

         Cheio de alegria, correu para casa e contou ao pai a novidade. O pai, que também andava preocupado, mostrava-se mais alegre porque tinha promessa de um emprego.

         — Que bom, meu filho! Também tenho boas notícias. Um amigo meu está precisando de um ajudante e convidou-me para trabalhar em sua oficina. Não sei muita coisa de mecânica, mas tenho boa-vontade e vou aprender, meu filho.

         Mais tarde, eles foram ao hospital levar as boas novas para a mãe que, certamente, ficaria muito feliz.

         Outra surpresa agradável. O médico estava bastante otimista e assegurou-lhes que, se tudo continuasse bem, logo a paciente receberia alta do hospital.

         Para felicidade do garoto, seu João foi também visitar sua mãe e contaram-lhe as novidades. E Alberto concluiu:

         — O senhor tinha razão. As coisas mudam e é preciso ter fé em Deus! Está tudo bem agora. A tempestade passou!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Valorização da Família



         Fabiana andava sem destino pelas ruas da cidade. Sentia-se triste e desolada. Olhava com admiração as mulheres bem arrumadas, cheirosas, levando pela mão crianças alegres e bem vestidas, que nem notavam sua presença.

         De família muito pobre, ela morava num bairro afastado onde faltava tudo. Desejava ter uma vida melhor, mas seu pai era operário de uma fábrica e ganhava pouco; sua mãe lavava roupas, o que lhe rendia alguns trocados, enquanto Fabiana cuidava dos dois irmãos menores.

         Fabiana desejava estudar, ter uma profissão e ganhar dinheiro para ajudar sua família, porém tinha apenas doze anos ainda.

         Passando por um jardim, sentou-se para descansar. Logo, ouviu choro ali perto. Levantou-se, procurando de onde vinham aqueles soluços, e encontrou uma garotinha no chão, em prantos.

         — O que aconteceu? — perguntou, preocupada.

         — Eu caí e machuquei meu joelho. Veja! — disse a pequena, limpando as lágrimas e mostrando o joelho ralado, de onde o sangue escorria.

         Condoída da situação da menina, que não deveria ter mais de três anos, Fabiana consolou-a:

         — Isso não é nada. Vai sarar logo. Onde estão seus pais?

         — Meu pai morreu. E minha mãe está trabalhando. Fugi de casa. Queria conversar com alguém que me desse um pouco de atenção. Você foi a única pessoa que falou comigo!

         Sem que elas percebessem, Otávio, o pai da menina, desencarnado, preocupado com a filha, estava ali tentando ajudá-la. Sorriu satisfeito ao ver a atenção que Fabiana dava a ela.

         — Como é seu nome? — perguntou Fabiana, penalizada, sentindo um interesse todo especial.

         — Sofia.

         — Um lindo nome. E onde você mora, Sofia?

         — Aqui perto. Lá naquela casa! — respondeu a garota, apontando com o dedinho.

         Fabiana, acompanhada por Otávio, pegou a menina no colo, atravessou a rua e levou-a até o portão. Apertou a campainha e esperou. Logo, uma empregada apareceu. Quando viu a menina no colo de uma desconhecida, colocou as mãos na cintura, irritada e surpresa:

         — Sofia! Você fugiu de casa? Como conseguiu sair?

         — Aproveitei quando o jardineiro chegou. Sai, e ele nem me viu!

         Com cara fechada, a empregada gritou:

         — Muito bonito! Então, fugiu de casa, não é? E ainda chega no colo de uma desconhecida! Você não sabe que está proibida de falar com estranhos?

         — Fabiana não é uma estranha, Ema. É minha amiga.

         Vendo que a empregada estava muito nervosa, Fabiana explicou:

         — Não brigue com Sofia, por favor. Eu a encontrei caída no chão, machucada, e a trouxe para casa. Ela precisa de um curativo.

         Irritada, Ema gritou:

         — Pois não vou fazer curativo algum. Ela se machucou porque quis. Passe já para dentro, Sofia!

         A garotinha, porém, encolhida de medo, não queria entrar sem a nova amiga. Preocupada com ela, Fabiana a acompanhou.

         Entrando na casa, que era um verdadeiro palacete, Fabiana ficou impressionada com a beleza e o luxo da decoração.

         Como a empregada não se preocupara com o machucado, Sofia foi buscar a caixa de primeiros-socorros e, com carinho, Fabiana fez um pequeno curativo, enquanto Ema continuava reclamando, aos gritos.

         Mas Clara, a mãe de Sofia, que havia saído do serviço mais cedo, chegou justo no momento que Ema abria o portão e, sem ser notada, ouviu tudo. Estacionou o carro na rua, entrou em casa e ficou parada na porta, muito espantada, observando a cena.

         Quando Ema viu a patroa, ficou branca de susto. Deu um sorriso amarelo, tentando justificar-se:

         — Dona Clara, estava dizendo a Sofia que ela precisa...

         Com expressão grave, a dona da casa impediu-a de prosseguir:

         — Não se preocupe em explicar, Ema. Ouvi perfeitamente o que você disse. Conversaremos depois.

         Sofia correu ao encontro da mãe, feliz. Abraçada fortemente à mãezinha, suplicava:

         — Mamãe! Que bom que você chegou! Ainda bem que você está aqui! Fica comigo! Não quero mais ficar sozinha.

         Ao ver a menina desconhecida, a senhora cumprimentou-a, gentilmente, enquanto Sofia explicava:

         — Mamãe, esta é minha amiga Fabiana. Eu fugi de casa para passear e caí no jardim. Fabiana me trouxe no colo e olha o curativo que ela fez no meu joelho!

         Com um sorriso, a mãe agradeceu a Fabiana pelo atendimento à sua filha. Convidou-a para sentar-se e conversou com ela, fazendo-lhe algumas perguntas. E assim ficou sabendo como ela vivia, onde morava, e as dificuldades da família.

         Enquanto conversavam, Ema arrumava a mesa para a refeição, e a mãe notou que toda vez que Ema se aproximava, a filha encolhia-se de medo, agarrando-se ainda mais à mãe. Percebendo o pavor que a empregada gerava na menina, a senhora ordenou que esta voltasse para a cozinha.

         Quando Ema saiu da sala, Sofia pediu:

         — Mamãe, deixa a Fabiana ficar comigo?

         — Isso é impossível, querida. Fabiana tem família e precisa voltar para a casa dela — explicou a mãezinha, carinhosamente.

         — Se ela for eu também vou, mamãe. Ela é minha amiga. Gosta de mim e não quero mais ficar sozinha com a Ema — insistiu a menina.

         Fabiana pensou que, com certeza, morar numa casa como aquela, seria um sonho para ela. Todavia, não poderia deixar sua família, que precisava dela.

         Ao pensar na família, Fabiana lembrou-se que estava ficando tarde. Despediu-se de Sofia, deixou o endereço e prometeu que sempre que pudesse viria visitá-la.

         Retornando para casa, a mocinha encontrou a mãe ocupada em colocar a mesa para o jantar, enquanto o pai consertava o ferro elétrico e os irmãos brincavam na sala.

         Havia tanto amor em tudo, tanta harmonia naquela vida simples e pobre, que ela se emocionou.

         — Mamãe! Papai! Sei que andei reclamando da nossa vida. Mas hoje penso diferente. Não trocaria essa vida por nenhuma outra. Podemos sentir falta de algumas coisas, mas aqui temos o amor de uma verdadeira família e isso não há dinheiro que pague.

         Todos se abraçaram felizes.

         No dia seguinte, ao anoitecer, Sofia e sua mãe apareceram para uma visita na casa de Fabiana, e ficaram conhecendo José e Ana.

         Clara notou a pobreza daquele lar; conversou com os pais de Fabiana, achando-os muito simpáticos. Depois, aceitando a sugestão de Otávio, desencarnado, que estava ali, teve uma idéia e explicou:

         — José e Ana! Sou uma mulher sozinha e trabalho muito. Desde que Otávio, meu marido, faleceu, tenho que cuidar dos negócios. Desse modo, sou obrigada a deixar minha filha com pessoas que podem não ser boas para ela. Sofia, desde o momento que conheceu Fabiana, gostou muito dela. Agora que estou aqui, que conheci vocês, senti vontade de lhes fazer uma proposta: Tenho uma casinha nos fundos do meu jardim. Preciso de alguém de confiança para tomar conta da casa e da minha filha enquanto trabalho, o que Ana tem condições de fazer. E você, José, pode continuar no seu serviço, e, nas horas vagas, cuidar do jardim e de outras pequenas tarefas da nossa casa. Além disso, as crianças poderiam ir à escola, ali perto; eu mesma providenciarei tudo. O que acham? Dessa forma, creio que nós nos ajudaremos mutuamente!

         Todos ficaram contentes com a solução do problema, especialmente Otávio que dera a sugestão, e Sofia mais ainda, pois não se separaria da sua querida Fabiana. Além disso, ainda teria os irmãozinhos dela para brincar!

         A pequena Sofia, emocionada, sentindo a presença do papai que partira para o mundo espiritual, disse com muita sabedoria:

         — Sinto que o papai está muito feliz.

         Na espiritualidade, Otávio agradecia a Deus pela ajuda que dera à sua família, comovido com as palavras da filhinha, testemunhando que ninguém morre e que, após a morte, continuamos a amar a família e a ajudá-la em suas dificuldades, sempre que possível.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Respeito às coisas alheias



         Paulinho era um menino que fora criado com todo amor e carinho pelos seus pais.

         Estudava numa escola boa e confortável, tinha professora dedicada e amigos com quem se divertia nas horas de folga. Enfim, era um bom aluno.

         Contudo, certa vez entrou na sua classe um garoto maior que veio transferido de outra escola. De personalidade envolvente, Roberto começou a dominar Paulinho, que passou a ver no novo amigo um líder.

         Desse dia em diante, Paulinho mostrou fraco rendimento escolar, não fazia mais os deveres de casa, tornou-se malcriado e saía sempre à noite voltando tarde ao lar, sem que sua mãe soubesse onde tinha estado.

         Não valeram conselhos e recomendações dos pais e da professora; o garoto cada vez mais mostrava indisciplina, desrespeito e desinteresse por tudo o que lhe fora ensinado até então.

         Seus pais, muito preocupados, não sabiam mais o que fazer.

         Nessa época, o pai de Paulinho começou a ter problemas de saúde. O coração estava seriamente comprometido e era necessário um tratamento rigoroso e muito cuidado.

         Certo dia, Paulinho chegou tarde da noite e encontrou tudo fechado e silencioso. Ninguém em casa.

         Sem saber o que fazer, procurou informações com um vizinho. Assim, recebeu a notícia de que seu pai passara mal e fora levado às pressas para o hospital.

         Com o coração angustiado, correu até o hospital e encontrou sua mãe em prantos.

         — Graças a Deus que você chegou, meu filho — disse ela.

         — Como está papai? — perguntou, aflito.

         — Está sendo atendido pelo médico, Paulinho, mas demoramos muito para vir e temo que o socorro chegue tarde.

         — Mas, por que, mamãe? Por que não pediu para Aninha ligar logo de um telefone público?

         — Eu pedi, meu filho, mas o telefone está quebrado.

         Muito desapontado, o garoto lembrou-se de que fora ele mesmo e seu bando quem destruíra o aparelho por brincadeira. Gaguejando, insistiu:

         — Mas tem um pronto-socorro próximo de nossa casa. Por que a senhora não solicitou uma ambulância?

         Meneando a cabeça, a mãe informou algo desalentada:

         — Tentamos, Paulinho... Mas a ambulância, infelizmente, estava com os quatro pneus cortados, serviço de um bando de garotos desocupados que andam por aí, segundo informaram.

         Corando até a raiz dos cabelos, Paulinho lembrou-se que, também por divertimento, eles haviam estragado os pneus da ambulância que estava estacionada no pátio defronte o pronto-socorro.

         Cheio de vergonha e arrependimento, em lágrimas, Paulinho confessou à sua mãe tudo o que fizera, e concluiu:

         — Se o papai morrer, nunca mais vou me perdoar. Por minha culpa ele não recebeu a assistência urgente de que tanto precisava.

         A mãezinha que ouvia calada afagou-lhe os cabelos e falou com carinho:

         — Sempre é tempo de nos arrependermos de nossas ações más, meu filho. Ore e peça a Deus em favor do seu pai. Ele nunca deixa de nos amparar nas nossas necessidades.

         Algum tempo depois, o médico veio avisar que estava tudo correndo bem e que o paciente logo estaria recuperado.

         Cheios de alegria, mãe e filho se abraçaram, agradecendo a Deus que atendera às suas súplicas.

         E, a partir daquele dia, Paulinho voltou a ser o menino que era antes, reconhecendo que o respeito à propriedade alheia é muito importante, especialmente às coisas públicas que prestam serviço inestimável à população, e que nunca sabemos quando nós também vamos precisar delas.

         Que ele, ao invés de transmitir suas boas qualidades aos amigos indisciplinados, se deixara contaminar por eles.

         Paulinho prometeu a si mesmo que faria tudo o que pudesse para que seus amigos também compreendessem que somente o respeito e o amor ao próximo poderão nos tornar pessoas melhores e mais felizes.

         Fiel às promessas de mudança interior que fizera a si mesmo, Paulinho procurou à companhia telefônica e a direção do pronto-socorro responsabilizando-se pelos estragos verificados e prontificando-se a pagar com seu trabalho os prejuízos que causara.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O servo infeliz



         Existiu certa vez num país muito distante, um homem que vivia sempre muito infeliz e desgostoso da vida que levava.

         Todo serviço era pesado e desagradável. Não havia tarefa que desejasse realizar e qualquer pequeno serviço que se lhe ordenasse era feito de má vontade.

         Vivia resmungando pelos cantos e acabou por tornar-se uma companhia indesejável até junto dos outros servos da casa.

         Se o patrão o mandava lavar e tratar dos cavalos, reclamava que o cheiro dos animais lhe causava mal-estar. Se a tarefa solicitada era ir até a cidade comprar mantimentos, alegava que o sol lhe dava tonturas e que era sempre ele a fazer o serviço pesado. Se ele era mandado recolher o rebanho no pasto ao anoitecer, alegava que o sereno era ruim para sua saúde delicada.

         Enfim, qualquer tarefa que lhe fosse conferida era executada de mal-humor e muita má vontade, embora tivesse corpo sadio e braços fortes.

         Certo dia, ele e outro servo foram mandados à cidade para fazer um serviço, e, como não poderia deixar de ser, ele ia reclamando da vida para o companheiro que o escutava com paciência infinita.

         — Pois é como lhe digo. Todo serviço mais desagradável fica para mim. Faço sempre as obrigações mais pesadas e, se não bastasse isso, vivo com problemas de saúde e dores no corpo todo. Já não agüento mais!

         O outro, com delicadeza retrucava, convicto:

         — Não é bem assim, meu amigo. Todos nós trabalhamos bastante, é verdade. Mas somos recompensados, pois o patrão é bom e generoso. Não podemos nos queixar da sorte. Além do mais, todo serviço é bênção de Deus.

         — Qual nada! Somos tratados como animais e trabalhamos qual burro de carga para ganhar uma miséria. Ah! Como eu gostaria de ter uma vida diferente, de não precisar trabalhar!

         E avistando na estrada, logo adiante, um homem sentado sob uma árvore, à frente de pequeno portão que dava acesso a uma casa simples, mas que exalava limpeza, apontou-o enquanto falava:

         — Olha aquele homem ali calmamente sentado à beira do caminho. Sua fisionomia serena mostra que não deve ter problemas. E, para estar sentado a essa hora do dia, é sinal de que não trabalha. Isso é que é vida!

         Aproximaram-se. O homem fitava-os com tranqüilidade. Como ainda estivesse um pouco frio, trazia uma manta bastante surrada, mas limpa, que o cobria até a cintura.

         Entabularam conversação, e o servo infeliz o inquiriu curioso:

         — Diga-me, bom homem, o que faz da vida? Com certeza não deve trabalhar! Ah, como o invejo!

         O estranho fitou-o serenamente e respondeu:

         — É verdade. Não trabalho mais como antigamente porque não posso. Toda a minha vida fui um homem trabalhador. Chegava todas as noites em casa exausto, mas feliz, porque cumprira bem minhas obrigações. Um dia, porém, conduzia uma carroça rumo ao povoado quando sofri um acidente. Os cavalos assustaram-se e a carroça desgovernou-se.

         Tentando deter os animais, que saíram num galope desenfreado, pulei sobre os cavalos e fiquei entre eles, segurando-os com meus fortes punhos. O varal, porém, partiu-se, e eu perdi o equilíbrio, caindo entre as patas dos animais. Fiquei muito ferido, porém com a bênção de Deus, estou ainda vivo.

         E, fazendo uma pausa, retirou a manta de sobre as pernas, concluindo:

         — Fiquei sem minhas pernas, mas não lamento. Ainda posso fazer muita coisa, garanto-lhes. Tenho ainda os braços fortes, os dedos ágeis e a cabeça lúcida. Disse-lhes que não executava mais o serviço antigo...

         E, apontando com a mão, mostrou um garoto sorridente que se aproximava trazendo um fardo de palha.

         — Agora faço cestas para vender. Meu filho me ajuda e temos conseguido sobreviver com essa atividade.

         E elevando a fronte para o alto, falou com os olhos rasos de lágrimas:

         — Deus é muito bom! Tenho uma família amorosa, não me falta serviço e estou vivo com a graça de Deus. Como podem ver, tenho tudo o que preciso para ser feliz.

         O servo descontente abaixou a cabeça, envergonhado pela lição que recebera. Comovido, saiu dali meditando em todas as dádivas que Deus lhe dera e que nunca soubera aproveitar e agradecer.

         Desse dia em diante tornou-se um outro homem. Com bom ânimo e alegria realizava todas as tarefas, lembrando sempre de agradecer a Deus as oportunidades que lhe concedera na vida.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

[Início]




Pagar o mal com o bem



         Caminhando apressado rumo à escola, Orlando encontrou um grupo de colegas com quem estava tendo problemas. Sem motivo, desde algum tempo, Pedro tomara-se de antipatia por ele e passara a tratá-lo mal em qualquer lugar onde estivesse.

         Por isso, vendo que o grupo se aproximava, Orlando ficou preocupado.

         E não deu outra. Passando por ele, Pedro jogou a mochila de Orlando no chão, numa atitude provocadora, e depois se afastou dando uma gargalhada.

         Orlando, porém, não reagiu. Com tranqüilidade, abaixou-se, apanhou a mochila, e continuou seu trajeto como se nada tivesse acontecido.

         Na escola, enquanto a professora escrevia no quadro-negro, Pedro levantou-se de sua carteira e jogou todo o material de Orlando no chão.

         Ouvindo o barulho, a professora virou-se. Pedro, já no seu lugar, ria disfarçadamente, acompanhado pelos demais alunos.

         — O que houve, Orlando? — perguntou ela ao ver os cadernos e livros espalhados no chão.

         Recolhendo o material, o menino desculpou-se:

         — Não foi nada, professora. Derrubei sem querer.

         E isso se repetia todos os dias. Pedro encontrava sempre novas maneiras de agredir o colega: no jogo de futebol, na escola ou na rua.

         Orlando nunca reagia, o que deixava Pedro cada vez mais irritado.

         Certo dia, Orlando estava passeando de bicicleta quando viu Pedro e sua turma que vinham em sentido contrário. Tentou se esquivar, mas não teve jeito. Eles o encurralaram de encontro a um muro.

         Orlando desceu da bicicleta, enquanto os garotos o cercavam. Pedro aproximou-se com ar ameaçador.

         — É agora que eu lhe arrebento a cara, seu pirralho!

         E assim dizendo, levantou os punhos cerrados, prontos para espancar o outro. Orlando continuou olhando-o sem dizer nada.

         — Vamos, seu covarde! Lute!

         Mas Orlando continuou calado, embora lágrimas surgissem em seus olhos.

         A turma ria, incentivando Pedro que, cansado de esperar, partiu para cima do menino.

         Nisso, um homem que passava viu o que estava acontecendo e correu para socorrer Orlando. O bando, assustado, saiu correndo, mas ainda a tempo de ouvir o homem perguntar:

         — Sabe quem são aqueles meninos? Quer que os siga?

         Enxugando as lágrimas, o pequeno Orlando respondeu:

         — Não. Não foi nada. Eles não fizeram por mal. Deixe-os ir embora, senhor.

         Apesar de admirado, o homem respeitou a vontade de Orlando. E, depois de se certificar de que ele estava bem, afastou-se, aconselhando-o a tomar cuidado porque a turma poderia voltar.

         Na tarde do dia seguinte, Orlando saíra para fazer uma tarefa e viu Pedro que vinha de bicicleta descendo a rua. Certamente estivera fazendo compras para sua mãe, porque trazia uma sacola presa no guidão.

         De súbito, tentando ajeitar melhor a sacola, Pedro não viu um buraco no asfalto. A bicicleta se desequilibrou e ele foi jogado sobre o meio-fio, batendo a cabeça na quina da calçada. Um filete de sangue escorreu pela sua testa. Sentindo muita dor, Pedro gemia.

         Orlando aproximou-se, atencioso:

         — Você está bem? Quer ir para um hospital? Está ferido e precisa de cuidados.

         Surpreso ao ver quem o estava socorrendo, Pedro respondeu meio sem jeito:

         — Não foi nada. Foi só um susto.

         — Graças a Deus! Quer que o ajude a chegar em casa? — perguntou Orlando, recolhendo os tomates e cenouras que estavam espalhados pelo chão.

         Pedro estava perplexo. Não entendia porque Orlando mostrava-se tão bondoso com ele. Pensativo, ficou olhando para o garoto à sua frente. Afinal, não se conteve:

         — Orlando, você tem muitos motivos para me detestar. Trato-o muito mal e não perco oportunidade de desafiar, humilhar e diminuir você perante os colegas. Por que está me ajudando?!...

         — Porque aprendi que não se deve retribuir o mal com o mal — respondeu o garoto com simplicidade.

         Espantado com a resposta do colega, Pedro falou:

         — Agora entendo porque nunca aceitou uma provocação. Mas com quem foi que aprendeu essas coisas?

         — Com Jesus. A professora da aula de Moral Cristã, do Centro Espírita que freqüento, falou sobre esse assunto outro dia. Jesus ensinou que devemos retribuir o mal com o bem. Que se alguém nos bater numa face, devemos apresentar a outra. E, mais do que isso, que devemos amar, não apenas os nossos amigos, mas também os inimigos. É isso.

         Calado, Pedro ouviu as explicações de Orlando. Na verdade, naquele momento se deu conta de que nunca havia conversado com ele, e não sabia como era, nem o que pensava. Agora, ouvindo-o, percebeu que Orlando era diferente dos outros colegas, mais consciente e responsável, apesar da pouca idade.

         Pedro sentiu, naquele instante, que o rancor e a animosidade tinham desaparecido do seu coração.

         — Obrigado! — disse simplesmente, afastando-se.

         No domingo, ao chegar ao Centro, Orlando teve uma grata surpresa.

         Lá estava Pedro, todo sorridente, embora um pouco encabulado, para também participar da aula de evangelização.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A dor de garganta



         Sentada à porta da sua casa em companhia de Cláudia, uma amiga, Mariana divertia-se a observar as pessoas que passavam, tecendo comentários em torno de cada uma delas. E dizia, rindo:

         — Veja, Cláudia, aquela mulher lá do outro lado da rua. Que roupa horrorosa!

         Dali a pouco comentava:

         — E aquela outra? Olhe os cabelos dela, desgrenhados. Parece uma bruxa! Só falta a vassoura! — e caía na gargalhada.

         Ao ver um garoto que passava na frente delas, criticou em voz alta, sem se preocupar que ele ouvisse:

         — Olha o tênis desse menino! Está todo sujo e rasgado! Deve tê-lo encontrado numa lata de lixo.

         O garoto, que ouvira a observação de Mariana feita com desprezo, virou-se e olhou para elas com expressão de tristeza e humilhação, e, baixando a cabeça, continuou seu caminho sem dizer nada.

         Cláudia, de coração bom e generoso, ficou muito envergonhada com a atitude da amiga.

         — Mariana, precisamos ter respeito com as pessoas. Não podemos tratá-las dessa maneira. Viu como o garoto ficou chateado?

         Indiferente, Mariana retrucou, balançando os ombros:

         — Que me importa? É bom mesmo que tenha ouvido, assim não sairá mais à rua daquele jeito!

         — Ele não tem culpa de ser um menino pobre, Mariana. Com certeza é o melhor par de calçados que tem! Além disso, Jesus ensinou que devemos fazer aos outros o que queremos que os outros nos façam. Você gostaria que alguém agisse assim com você?

         Mariana, porém, que não estava acostumada a ser contestada pela amiga, reclamou com maus modos:

         — Você é uma chata! Vá embora!

         Levantou-se irritada e entrou batendo a porta, deixando Cláudia sozinha no portão.

         A mãe, ao vê-la chegar daquele jeito indagou:

         — Que falta de educação, minha filha! Por que bateu a porta daquela maneira?

         E Mariana, numa crise de raiva, respondeu nervosa:

         — A Cláudia me irrita, mamãe! Não quero mais saber dela. Não sou mais sua amiga.

         A mãe não disse nada, limitando-se a convidá-la para almoçar.

         A família acomodou-se para a refeição. Sentados à mesa, Mariana continuava de péssimo humor: reclamou do irmãozinho, que não comia direito; do avô, que fazia barulho para tomar a sopa; da comida, que não estava a seu gosto; e até do cachorro, que latia no quintal.

         Após a refeição, a mãezinha chamou Mariana, sentou-se com ela no sofá e, aconchegando-a ao coração com muito carinho, perguntou:

         — Minha filha, quer me contar o que aconteceu e que a deixou tão mal-humorada?

         Mais calma, Mariana contou tudo o que acontecera. A mãe ouviu e, com serenidade, lembrando-se de todas as vezes que havia alertado a filha para esse problema, considerou:

         — Sua amiga Cláudia tem razão, minha querida. Comece a observar seu comportamento e perceberá que você só enxerga o lado negativo de tudo. À hora do almoço mesmo, limitou-se a criticar seu irmãozinho, o avô, a comida e até o cãozinho de quem você gosta tanto. Nada disse de agradável para ninguém!

         A bondosa senhora parou de falar, analisando o efeito de suas palavras, e prosseguiu:

         — Não acha que deve mudar a maneira de encarar a vida, procurando ver mais o lado positivo das pessoas, das situações e das coisas? Você será bem mais feliz, pode acreditar. Além disso, Jesus ensinou que cada um receberá de acordo com as próprias obras. Aquilo que semeamos, colhemos. É da Lei.

         Mariana ouviu as palavras da mãe e permaneceu pensativa o resto do dia.

         Naquela noite, foram fazer uma visita à vovó que morava do outro lado da cidade. Na volta, o tempo virou para chuva e ventava muito. A temperatura caiu e, quando chegaram em casa, já estava chovendo.

         No dia seguinte, Mariana acordou com dor de garganta e completamente sem voz. Ao ver a mãe na cozinha preparando o café, apanhou uma folha de caderno e escreveu:

         — A senhora tinha razão. Já estou colhendo!

         Ao ler o que estava escrito, a mãezinha sorriu achando graça e respondeu:

         — É natural que você esteja com a garganta irritada, filha. Ontem apanhou muita friagem!

         Mas apesar do comentário materno, Mariana conservou a íntima certeza de que estava recebendo pelo que fizera aos outros. Havia falado demais, menosprezado seus semelhantes, e agora estava sem voz.

         — E se eu não puder falar nunca mais?!... — pensou ela, assustada.

         Naquele momento, Mariana tomou uma decisão. Procuraria modificar sua maneira de agir, realçando o lado bom de tudo e passaria a respeitar todas as pessoas.

         Começou a colocar em prática suas boas disposições logo ao sair de casa para ir à escola, pedindo desculpas à Cláudia pelo que fizera. Mas, tranqüila e bem humorada, a amiga nem se lembrava mais do desentendimento.

         Satisfeita da vida, levantando a cabeça e olhando o céu, Mariana exclamou contente:

         — Que dia lindo!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Necessidade do perdão



         O dia estava lindo e agradável. Marcelo, porém, chegou em casa irritado e nervoso.

         Entrou pisando duro, bateu a porta com força e jogou a mochila numa cadeira.

         A mãe, que o observava, aproximou-se serena perguntando:

         — Por que todo esse mal-humor, meu filho? O sol está brilhando lá fora e a vida é bela! O que aconteceu de tão grave que justifique a maneira desagradável com que entrou em casa hoje?

         Carrancudo, o menino respondeu:

         — Estou zangado com o Gabriel. Além de rasgar meu livro de estimação, ainda brigou comigo. Não vou perdoá-lo nunca!

         A mãezinha enlaçou-o carinhosamente e aconselhou:

         — Não diga isso, meu filho. Todos nós precisamos do perdão, pois também erramos. Jesus ensinou que devemos perdoar não sete vezes apenas, mas setenta vezes sete vezes. Isto é, ensinou que devemos perdoar sempre. Além disso, também não devemos julgar ninguém. Será que o Gabriel rasgou seu livro de propósito?

         — Não sei e nem me interessa. Não quero mais a amizade dele — afirmou o garoto, categórico.

         A mãe passou a mão pelos cabelos do filho e ponderou:

         — Tente perdoar, Marcelo. Enquanto você não esquecer a ofensa, não terá felicidade e paz.

         — Não consigo, mamãe. Acho que não sei perdoar.

         A senhora pareceu meditar por alguns instantes e depois falou:

         — Lembra-se de quando você ganhou a bicicleta?

         — Como não? — respondeu Marcelo. — Quantas vezes caí até conseguir equilibrar-me e sair andando!

         — É verdade, meu filho. Hoje, porém, você não se lembra mais disso quando sai para passear. E quando aprendeu a nadar?

         — Também me custou muito esforço! — lembrou o menino.

         — E quando entrou na escola para ser alfabetizado? — insistiu a mãe.

         — Ah, foi muito difícil. Graças a Deus já sei ler e escrever direitinho — respondeu o garoto contente consigo mesmo.

         — Então, meu filho, nada se consegue sem esforço. Também as nossas imperfeições precisam de muita boa vontade da nossa parte para ser tiradas do nosso íntimo. E o ressentimento é uma delas. Precisamos aprender a perdoar.

         — Ah! Já entendi. A senhora quer dizer que preciso exercitar o perdão, não é?

         — Exatamente.

         — Está bem, mamãe. Vou tentar.

         No dia seguinte, muito a propósito, Marcelo foi brincar com um vizinho e, sem querer, quebrou um carrinho de estimação do garoto.

         Triste, mas conformado, o menino aceitou seu pedido de desculpas, dizendo:

         — Não tem importância, Marcelo. Sei que você não fez de propósito.

         Ao ouvir as palavras do amigo, que com justa razão deveria estar zangado com ele, Marcelo lembrou-se das palavras da mãe quando afirmou que todos precisamos de perdão.

         Naquele mesmo dia, procurou o colega na escola e, com um sorriso alegre, disse:

         — Quero que você me desculpe se fui grosseiro outro dia, Gabriel.

         — Você tinha razão, Marcelo. Eu rasguei seu livro — respondeu o menino.

         — Mas tenho certeza de que não fez por querer — afirmou convicto.

         — É verdade. Ele caiu das minhas mãos e, tentando segurá-lo, eu o rasguei.

         Abraçaram-se contentes, prometendo mútua amizade.

         Depois das aulas, Marcelo levou Gabriel até sua casa e apresentou-o à sua mãe.

         — Mamãe, este é o meu “amigo” Gabriel — falou, acentuando a palavra.

         Muito satisfeita, pelo sorriso do filho a mãe percebeu que o mal-entendido terminara e que Marcelo havia aprendido a perdoar.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Respeito à propriedade alheia



         Era uma tarde de domingo muito bonita e ensolarada. Os pássaros cantavam, as borboletas enfeitavam alegremente as flores e todos os animais brincavam felizes.

         Foi então que Joãozinho disse a seu amigo Antoninho:

         - Vamos aproveitar este dia bonito e passear no pomar de maçãs do Seu Joaquim?

         Antoninho, com água na boca, respondeu:

         - Oba! Vamos sim, quero comer aquelas maçãs maravilhosas!

         Assim, foram correndo até o pomar. Chegando lá, olharam para todos os lados, para ver se não havia ninguém. Foi então, que após espreitarem com cuidado, subiram nos pés de macieiras.

         Joãozinho dizia sorridente:

         - Olha, Antoninho, que frutas deliciosas!

         - São saborosas!

         Antoninho, com o os olhos brilhando, respondeu:

         - É verdade, ainda bem que podemos comer de graça. Vamos comer muitas maçãs e levar o que pudermos para casa.

         E assim o fizeram.

         Continuaram a comer muitas maças e quando já estavam apanhando algumas frutas para levarem embora, avistaram uma menina que se aproximava.

         Era a Aninha, a sobrinha do Seu Joaquim.

         Ficaram assustados, mas depois pensaram: é só uma menina!

         Aninha se aproximou e perguntou:

         - Quem são vocês? O que vocês fazem no pomar do tio Joaquim?

         Eles responderam baixinho:

         - Viemos comer algumas maças.

         - E vocês pediram permissão para meu tio? - indagou Aninha.

         Os dois se olharam e disseram que ninguém estava vendo.

         Aninha apontou para o céu e disse:

         - Deus está vendo, Ele sabe tudo o que fazemos e somos responsáveis pelas nossas atitudes.

         Após ouvirem o que Aninha falou, Joãozinho e Antoninho ficaram envergonhados.

         - Você tem razão Aninha, Deus vê tudo o que fizemos, por isso, devemos sempre agir corretamente, disse Joãozinho.

         Antoninho tomou coragem e pediu desculpas. Disse que desse dia em diante sempre pediriam permissão para pegarem coisas que não fossem suas, respeitando as coisas alheias.

Carla Kitzmann

Desenhos feitos por Cleusa Lupatini - Evangelizadora do Grupo Espírita Seara do Mestre.

[Desenho 1]      [Desenho 2]

[Início]




Ensinamento vivo



         Após as aulas, Carlinhos voltava para casa quando, andando por uma rua de grande movimento, viu um homem caído na calçada.

         Condoído da situação do mendigo, Carlinhos desejou fazer alguma coisa para ajudar.

         Mas, como? Era pequeno e ninguém lhe dava atenção.

         Tentou despertar o pobre maltrapilho, mas ele não se mexeu.

         Assustado, o garoto tentou pedir ajuda aos transeuntes, mas todos estavam apressados, sem lhe dirigirem um olhar sequer.

         Um tanto desanimado, Carlinhos viu um sacerdote que se aproximava e encheu-se de esperança. Abordou o religioso, suplicando:

         — Padre, ajude este pobre homem que está passando mal!

         O sacerdote lançou um olhar indiferente ao mendigo e respondeu:

         — Infelizmente, não posso. Tenho o tempo contado. Dirijo-me à igreja onde deverei rezar uma missa dentro de poucos minutos.

         E assim dizendo, seguiu seu caminho, deixando o menino muito desapontado.

         Não demorou muito, Carlinhos viu um senhor simpático que se aproximava, sobraçando alguns livros.

         Enchendo-se de coragem, pediu:

         — O senhor, que deve ser um homem bom e que deve ler muito, a julgar pelos livros que carrega, poderia auxiliar este pobre homem?

         O estranho olhou o infeliz estirado na calçada, e, ajeitando os óculos, retrucou:

         — Não posso. Estou a caminho da biblioteca onde devo entregar-me a importantes estudos. Além disso, ele não tem nada que um café bem forte e sem açúcar não cure. Está bêbado!

         Friamente, sem se preocupar com a aflição do garoto, continuou seu caminho, apressado.

         Carlinhos estava quase desanimando quando viu sua professora de Evangelização Infantil, vindo em sua direção. Com ânimo renovado, o menino correu ao seu encontro, afirmando satisfeito:

         — Graças a Deus que a senhora apareceu, tia Marta. Veja, este pobre homem precisa de ajuda urgente!

         A professora aproximou-se, fitando o infeliz que continuava caído na calçada. Depois, olhando o relógio disse, compungida:

         — Gostaria de poder ajudar esse coitado, Carlinhos, mas infelizmente estou indo para casa e preciso preparar o jantar. Estava justamente a caminho do supermercado onde deverei comprar o necessário antes que feche.

         Ao ouvir essas desculpas, o garoto não conteve o desapontamento. Seus olhos se umedeceram e murmurou mais para si mesmo:

         — Será que esse pobre homem não encontrará também um bom samaritano?

         Surpresa, a professora perguntou:

         — O que disse?

         — Sim, tia Marta. Lembra-se da Parábola do Bom Samaritano que a senhora contou no último domingo? Pois é! Estou aqui há bastante tempo e ninguém atende às minhas súplicas. Já passou até um sacerdote, um professor, e ninguém quis socorrê-lo.

         Fez uma pausa e, fitando a professora com os olhos grandes e lúcidos, questionou:

         — Será que não vai aparecer um bom samaritano, como na parábola que Jesus contou?

         Profundamente tocada pelas palavras do garoto, a professora respondeu, envergonhada:

         — Tem razão, Carlinhos. Precisamos fazer alguma coisa por este homem.

         Ela pensou um pouco e lembrou-se que, não longe dali, existia um pronto-socorro.

         Decidida, telefonou e, não demorou muito, uma ambulância recolhia o mendigo, encaminhando-o para atendimento.

         Marta foi com o menino até o hospital, onde o médico examinava o paciente. Algum tempo depois. O doutor informou:

         — Felizmente ele chegou a tempo. Está doente e num estado de fraqueza tão grande que, se não fossem vocês, teria morrido. Agora receberá o tratamento necessário ao seu restabelecimento. Já está tomando soro e, medicado, logo deverá ficar bom.

         Cheios de alegria, Marta e Carlinhos se abraçaram. Combinaram, depois, que todos os dias viriam visitar o novo amigo no hospital.

         Emocionada, a professora afirmou:

         — Graças a você, Carlinhos, hoje nós agimos como verdadeiros cristãos!


         (Adaptação da Parábola do Bom Samaritano, Lucas 10:30 a 37.)

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A mentira



         Embora não fosse rica, Clarinha era uma menina a quem nada faltava. Morava numa casa confortável, tinha uma família amorosa e, tudo o que desejava, na medida do possível, seu pai lhe comprava.

         Mas Clarinha tinha um grande problema: a mentira.

         Mentia a todo instante, para qualquer pessoa e em qualquer ocasião. De tanto mentir, Clarinha não conseguia mais parar. A mentira tornara-se um hábito em sua vida e quando menos se esperava, lá estava ela inventando coisas.

         Na verdade, ela sentia verdadeiro prazer nisso e seus olhos brilhavam de satisfação ao inventar uma história.

         Certo dia, Clarinha estava na escola quando um vizinho veio perguntar se ela sabia do paradeiro de seus pais.

         Mais que depressa ela colocou a cabecinha avoada para funcionar:

         — Ah! Sei sim! Papai e mamãe foram visitar meu tio João que está doente. Sabe? Ele está com um problema terrível no estômago e...

         — E onde mora seu tio João?

         — Mora na cidadezinha aqui perto. Não sei o endereço, mas é próximo ao supermercado.

         O amigo de seu pai agradeceu e saiu rapidamente, aflito.

         Quando Clarinha saiu da escola, após as aulas, foi para casa brincando pelo caminho, colhendo flores e parando para ver as vitrinas das lojas de brinquedos.

         Chegando próximo à sua casa, percebeu um movimento incomum. Uma grossa cortina de fumaça cobria tudo e os vizinhos tentavam apagar o fogo inutilmente.

         Viu seus pais suarentos e cansados, que faziam esforços para retirar seus pertences do interior da casa em chamas. Com os olhos arregalados de espanto, Clarinha perguntou:

         — O que aconteceu, papai?...

         Virando-se para ela, ele respondeu com severidade:

         — Aconteceu, minha filha, que sua mãe esqueceu o ferro elétrico ligado e a casa pegou fogo. Nossos vizinhos perceberam que algo de estranho estava acontecendo pelo cheiro de queimado que se espalhava ao redor, e não sabendo onde nos encontrar, perguntaram a você.

         Clarinha, muito vermelha, abaixou a cabeça envergonhada.

         — Então, fomos visitar seu tio João que está doente?

         Gaguejando, Clarinha procurou se desculpar:

         — Pa... papai, desculpe. Não pensei que fosse causar algum problema!

         — “Algum problema”? Minha filha, você percebe o que fez com sua mentira? Quase perdemos tudo! Bastaria que tivesse dito a verdade, isto é, que fomos ao sítio, pertinho da cidade, para que grande parte do problema fosse evitado. Embora desejosos de ajudar, nossos amigos não conseguiram abrir a porta, que estava trancada. Se tivessem nos encontrado antes, nada disso teria acontecido.

         — Estou tão envergonhada!...

         — Espero que isto lhe sirva de lição, minha filha. Graças a Deus, perdemos apenas bens materiais. Nossa família nada sofreu — completou com um suspiro de alívio.

         Com os olhos cheios de lágrimas, Clarinha prometeu:

         — Vou tentar me corrigir, papai. Nunca mais direi uma mentira. Daqui por diante quero dizer só a verdade.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O melhor pai do mundo



         Carlinhos, um menino muito arteiro, entrou em casa se sentindo muito chateado.

         Estava no quintal jogando bola com os amigos e, sem querer, quebrou o vidro de uma das janelas.

         O pai, que lia o jornal na varanda, percebeu o que tinha acontecido. Levantou-se na mesma hora e foi chamar a atenção do filho:

         — Meu filho, tenha cuidado! Não chute a bola com tanta força. Você quebrou um vidro da nossa janela. E se fosse da casa do vizinho? Seu pai teria que pagar! E se você tivesse machucado alguém?

         — Mas, papai, eu não tive culpa!

         — Seja como for, você causou um prejuízo e descontarei da sua mesada.

         Entrando na cozinha, Carlinhos sentou-se numa cadeira, revoltado. Maria, a empregada de sua mãe, que enxugava umas louças, perguntou:

         — O que foi desta vez, Carlinhos?

         — Meu pai brigou comigo só porque quebrei o vidro de uma janela. Disse que vai descontar da minha mesada. Sempre a culpa é minha! Tudo eu! Tudo eu!

         Maria, que gostava muito do menino, com carinho respondeu:

         — Carlinhos, todos temos que ser responsáveis pelas nossas ações. E seu pai estava apenas tentando ensinar-lhe responsabilidade, disciplina e respeito às coisas alheias.

         — Maria, mas ele briga comigo o tempo todo! Para tomar banho, fazer a tarefa da escola, arrumar os brinquedos. Ufa! Estou cansado! Gostaria de ter outro pai. Olha, Maria, acho que nem vou dar presente a ele nos Dia dos Pais.

         — Ele faz isso por amor, Carlinhos. E não é verdade que seu pai chama sua atenção o tempo todo. Pense bem!

         Carlinhos, já mais calmo, pensou um pouco e concordou.

         Lembrou-se de todas as vezes que o pai o tinha levado para passear, pescar, tomar sorvete, andar de bicicleta, ao parque de diversões. Todas as vezes que o pai tinha chegado cansado do serviço, mas tinha se sentado para lhe ensinar os deveres da escola, que ele não conseguia fazer sozinho.

         Mais ainda: lembrou-se das vezes que o pai tinha entrado na ponta dos pés em seu quarto para desejar-lhe boa-noite.

         — Você tem razão, Maria. Meu pai se preocupa comigo.

         E Maria, que era uma mulher muito sofrida, colocou a mão da cabeça dele, sentou-se a seu lado e disse:

         — Vou lhe contar uma história, Carlinhos. Tem um rapaz que, desde pequeno, foi muito peralta, fazia coisas erradas, brigava com os vizinhos, não respeitava as pessoas, porém nunca teve alguém que o ensinasse. A mãe o amava muito e, como o menino já não tinha pai, ela não queria que ele sofresse. E assim, sempre desculpava tudo o que o filho fazia, cercando-o de cuidados e de atenções. Nunca acreditava nas professoras da escola e nem nas pessoas que vinham alertá-la sobre o péssimo comportamento do filho. Um dia, ele começou a roubar. No começo, eram pequenos furtos, depois passou a roubar coisas maiores, aparelhos de som, televisões, e até carros.

         Carlinhos ouvia com os olhos arregalados de espanto:

         — E depois? — perguntou interessado.

         — Depois, acabou sendo preso. A mãe lamenta até hoje não ter dado a educação que ele precisava.

         O menino estava impressionado.

         — Você o conhece, Maria?

         Com os olhos úmidos ela respondeu:

         — Conheço sim, Carlinhos. Esse rapaz é meu filho.

         Somente naquele momento o garoto percebeu que, embora Maria trabalhasse na sua casa desde que ele tinha nascido, nada sabia sobre a vida dela.

         Maria parou de falar, enxugou os olhos no avental, e completou:

         — Por isso, Carlinhos, agradeça a Deus todos os dias por ter um pai que se preocupa com você e que o ama muito. Se eu tivesse me preocupado em dar uma boa educação e orientações religiosas a meu filho, provavelmente hoje ele seria diferente.

         Carlinhos, muito sério, lembrou:

         — É por isso que o papai e a mamãe sempre dizem que o Evangelho de Jesus nos ajudará a sermos pessoas melhores.

         — Isso mesmo, Carlinhos. Porém, na época, eu não sabia.

         Voltando das compras, a mãe entrou em casa e Carlinhos correu ao seu encontro.

         — Mamãe! Mamãe! Precisamos comprar o presente do papai!

         — Calma, meu filho! Mas o que aconteceu para você estar assim tão ansioso?

         — É que eu descobri que tenho um pai maravilhoso! O MELHOR PAI DO MUNDO!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A casca de banana



         Laurinha estudava na escola de seu bairro, e estava na terceira série do primeiro grau.

         Não se preocupava muito com os estudos, mas conseguia sempre ser aprovada, embora com dificuldade.

         Agora, já quase no final do ano, Laurinha ia fazer uma prova muito importante.

         Sua mãe aconselhava-a a estudar, mas Laurinha respondia:

         — Depois. Agora estou brincando.

         — Laurinha, venha estudar, minha filha!

         — Mais tarde, mamãe. Agora preciso conversar com minha amiga.

         Algumas horas depois a mãezinha atenta a chamava novamente, e ela replicava:

         — Amanhã, mamãe. Posso assistir à televisão? Só um pouquinho!

         Depois, ficava com sono e ia para a cama e, no dia seguinte, tudo se repetia da mesma maneira.

         Até que chegou o dia da prova.

         Nervosa, Laurinha foi para a escola e voltou bastante deprimida.

         Uma vergonha! Tirara nota ZERO na prova e fora a chacota de toda a classe. Os outros alunos foram bem e acharam as questões fáceis. Só ela não sabia nada, e, portanto, nada respondera.

         A professora a chamara na frente, inquirindo a razão daquele tremendo fracasso, porém Laurinha, de cabeça baixa e muito envergonhada, nada respondeu.

         Ao chegar em casa contou à sua mãe, chorando muito. Sentia-se humilhada perante os colegas de classe, achava que ninguém gostava dela. E tomou uma decisão:

         — Não vou mais à escola! Não quero mais ver ninguém.

         A mãe, com carinho, afagou-lhe os cabelos dizendo com ternura:

         — Não se comporte dessa maneira, minha filha. Na verdade, você recebeu uma lição merecida. Colheu o que plantou, entende? Como não estudou nada, nada poderia saber, não é? O seu fracasso é, portanto, responsabilidade sua!

         A menina fitou a mãe, surpresa, já parando de chorar.

         — Pode ser. Mas não volto mais àquela escola. Nunca mais! E, depois, vou perder o ano mesmo!

         Sua mãe sorriu, sabendo que não era o momento para insistir no assunto. Laurinha iria refletir e, provavelmente, mudaria de atitude.

         Para espairecer, convidou-a para irem juntas à padaria da esquina. No caminho, a menina, que se distraía com o movimento da rua, pisou numa casca de banana que alguém jogara na calçada. Levou o maior tombo!

         Rapidamente, toda dolorida e olhando em torno, para ver se alguém presenciara sua queda, Laurinha levantou-se, envergonhada.

         A mãezinha viu naquele incidente oportunidade para uma lição e não perdeu tempo:

         — Por que você não ficou esparramada no chão?

         Laurinha olhou para a mãe, surpresa e sem entender a pergunta.

         — O quê? Por que não fiquei no chão? Claro que não!

         — Ah! Você não pensou em ficar na calçada, estatelada?

         Laurinha replicou, horrorizada:

         — Que ideia, mamãe! Naturalmente que não. Levantei o mais rápido possível!

         A senhora balançou a cabeça, concordando:

         — Isso mesmo, minha filha. É assim que devemos agir sempre. Não acha você que a situação na escola seja mais ou menos a mesma?

         Laurinha escutou e pareceu meditar por momentos.

         — Pense bem, querida. Em nossas vidas as dificuldades são obstáculos que precisamos superar. E não importa quantas vezes levemos uma queda, temos sempre que nos levantar e seguir em frente.

         A menina sorriu e seus olhos se iluminaram.

         — A senhora tem razão, mamãe! Uma prova mal feita não significa nada, a não ser que preciso me esforçar mais. Amanhã vou para a escola.

         No dia seguinte, logo cedo, Laurinha voltou às aulas e, para alegria sua, a professora deu-lhe uma nova oportunidade para que pudesse recuperar os pontos perdidos.

         Afinal, aquele problema que lhe parecera tão grande e sem solução, na verdade era bem pequeno.

         E Laurinha, desse dia em diante, sempre que se via em dificuldades e tinha vontade de desistir, lembrava-se da lição que lhe dera uma humilde e desprezada casca de banana.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A visita



         Sílvia morava numa casa confortável, tinha pais amorosos, freqüentava uma boa escola e nada lhe faltava.

         Filha única, ela se acostumara a ver satisfeitas todas as suas vontades, e jamais aceitava “não” como resposta.

         Com o passar dos anos, os pais de Sílvia perceberam como tinham errado na educação da filha. Reconheceram que tinham transformado a menina, agora com oito anos, numa criaturinha egoísta, arrogante, insatisfeita, orgulhosa e exigente. Quando não faziam sua vontade, jogava-se no chão e esperneava, berrando a plenos pulmões.

         Após passar por inúmeros vexames, os pais de Sílvia resolveram que era preciso mudar, antes que fosse tarde demais. O que era engraçadinho numa criança de dois anos tornara-se inaceitável numa garota de oito.

         Querendo colocá-la diante da realidade, certo dia a mãe lhe disse:

         — Venha, minha filha. Vamos sair.

         — Oba! Vamos fazer compras? Estou mesmo precisando de um montão de coisas! Quero comprar algumas camisetas, três calças jeans, alguns calçados e também brinquedos. Estou cansada dos que tenho. São velhos e imprestáveis! — considerou a menina, fazendo uma careta.

         A mãe, tranquilamente, afirmou:

         — Não vamos fazer compras, Sílvia.

         — Ah! Não? E aonde vamos, posso saber?

         — Vamos fazer uma visita.

         — Não quero fazer visita! Quero fazer compras! — respondeu a criança, mal-humorada.

         Sem perder a calma, a mãe insistiu:

         — Primeiro a visita. Depois, se você se comportar, veremos!

         Sem dar maiores explicações, Olinda pegou a filha pela mão e levou-a até o carro. De cara amarrada, a menina olhava pela janela.

         O carro deixou as ruas de maior movimento, encaminhando-se para um bairro na periferia. Aonde iriam? — pensou Sílvia.

         Estacionaram numa rua muito pobre. As casas eram miseráveis, as pessoas sujas e mal-vestidas. Nas ruas, não havia calçadas nem asfaltamento. Crianças brincavam na terra, em meio a poças de lama mal-cheirosa.

         Sílvia sentiu nojo. Que lugar horrível!

         A mãe parecia não notar tanta sujeira. Caminhava serena, cumprimentando as pessoas com um sorriso amistoso. Diante de uma casa, parou. Bateu na porta e alguém veio abrir. Era uma mulher toda despenteada, rosto sujo e roupas remendadas.

         — Bom dia, Maria. Viemos fazer-lhes uma visita.

         O semblante da dona da casa iluminou-se ao ver a recém-chegada.

         — Dona Olinda! Que prazer tê-la em nossa casa! Entre! Entre!

         Sílvia estranhou. Nunca pensou que sua mãe tivesse relacionamento com “essa gentinha”.

         Entraram. A moradia era muito pequena. Na sala, que também servia de quarto, Sílvia viu um leito. Aproximou-se, curiosa.

         Uma menina, que parecia ter a sua idade, estava deitada.

         — Ela está doente? — perguntou surpresa.

         — Márcia, quando bebê, esteve muito doente. A partir daí, não saiu mais dessa cama. Não anda, não fala, não enxerga. Só ouve. Tenho que lhe dar comida na boca. Faz as necessidades aí mesmo, por isso não há roupa que chegue. Agora mesmo, já está molhada. Fez xixi e preciso trocá-la.

         Sílvia ficou olhando aquela menina que ali estava deitada, sem poder sair do leito, brincar, ir à escola ou passear. Seus olhos se encheram de lágrimas e sentiu o coração inundar-se de compaixão.

         Nesse momento, ouviu que sua mãe dizia:

         — Maria, trouxe gêneros alimentícios, leite e bolachas; para a Marcinha, roupas e calçados. Além disso, pegue este dinheiro. Não é muito, mas será o suficiente para pagar as contas de água, energia elétrica e comprar gás. Se precisar de mais alguma coisa, me avise. Sei que você é sozinha e não pode trabalhar porque tem que cuidar da Marcinha.

         A pobre mulher não cabia em si de felicidade. Com lágrimas nos olhos agradeceu, comovida:

         — Dona Olinda, foi Jesus quem mandou a senhora. Deus lhe pague! Nunca há de faltar nada para a senhora e para sua filha.

         Despediram-se. Entrando no carro, iniciaram o caminho de volta. Chegando ao centro da cidade, Olinda perguntou:

         — Quer fazer compras agora, minha filha?

         Sílvia enxugou uma lágrima e balançou a cabeça:

         — Não, mamãe. Descobri que não preciso de nada. Já tenho demais.

         O resto do trajeto a menina manteve-se calada.

         Mais tarde. Sílvia chamou sua mãe no quarto. Duas caixas de papelão se achavam no meio do aposento, abarrotadas de roupas, calçados e brinquedos. Com um sorriso radiante, Sílvia perguntou:

         — O que acha, mamãe, de levarmos todas essas coisas para Marcinha? Afinal, não preciso delas. Tenho certeza de que, lá, terão muito mais utilidade. Também tenho alguns livros que pretendo doar. Como ela ouve, pretendo ler para ela.

         Olinda abraçou a filha com carinho. A lição fora bem aproveitada. Agora estava certa de que Sílvia jamais voltaria a ser a mesma criança exigente e egoísta.

         — Tem toda razão, querida. Hoje mesmo levaremos tudo para a Marcinha. Ela vai adorar!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Respeito mútuo



         O senhor Manoel era um homem muito bom e compassivo. Vivia do amanho da terra e suas tarefas eram executadas sempre com amor e devotamento. Ele tinha um filho que, não obstante a educação que lhe dava, era indisciplinado e agia sempre sem se preocupar com os outros, jamais cogitando se prejudicava alguém ou não.

         O pai carinhoso tentava orientá-lo para o bem, afirmando-lhe que sempre devemos amar o próximo e respeitá-lo, como Jesus nos ensinou.

         – E os animais? - perguntava Toninho, impaciente.

         – Os animais também, meu filho. São nossos irmãos menores, credores de toda a nossa consideração e respeito, necessitando da nossa ajuda, tanto quanto nós não prescindimos do concurso deles para nossas tarefas do dia-a-dia.

         Como estavam no campo, o pai fez uma pausa e exemplificou, apontando um animal atrelado ao arado.

         – Veja o Gentil, por exemplo. É dócil e manso, nunca desdenhando o trabalho árduo do campo, e, nestes anos todos em que trabalhamos juntos, nunca o vi rebelde e indisciplinado. Jamais agrediu alguém!

         – O Gentil ainda concordo, pois ele o ajuda, papai. Mas os outros!... – retrucou Toninho com desprezo.

         – Os outros animais também ajudam, meu filho. Cada qual tem uma tarefa diferente, mas não menos importante. A Mimosa, nossa vaquinha, fornece o leite tão gostoso que bebemos toda manhã; as galinhas fornecem os ovos para a nossa alimentação e o nosso cão trabalha sem descanso, cuidando da defesa da nossa casa. Portanto, todos merecem nosso carinho e gratidão.

         Mas Toninho ainda não estava convencido.

         No dia seguinte, o senhor Manoel convidou Toninho para irem à cidade fazer umas compras. Toninho, eufórico com o passeio, aboletou-se na pequena carroça, feliz da vida.

         Ao chegarem à cidade, enquanto seu pai entrou no armazém para fazer compras, Toninho ficou vendo o movimento da rua.

         O tempo foi passando e seu pai não voltava. O menino foi ficando impaciente.

         Olhou para Gentil, que permanecia parado, de olhos baixos, humilde, sem dar demonstrações de impaciência. Teve vontade de agredir o animal para ver sua reação.

         – Vou dar uma volta. Veremos se ele é realmente obediente.

         Toninho olhou ao redor e viu um pedaço de tábua, longo e fino, numa construção ali perto.

         Pegou a ripa e, sem titubear, subiu na carroça e ordenou a Gentil que andasse. O animal, não reconhecendo a voz do dono a que estava habituado, não saiu do lugar.

         Toninho, tomando da ripa, desceu com ela sobre o lombo do cavalo. Este relinchou de dor e, levantando as patas dianteiras, empinou perigosamente a frágil carroça, jogando Toninho ao chão.

         Ao ouvir os gritos na rua, o Sr. Manoel acudiu correndo, encontrando o filho no solo, aos berros.

         Ao saber do que acontecera, através de pessoas que assistiram ao fato, Manoel ficou indignado.

         – Mas, papai, o senhor disse que o Gentil era manso e ele me derrubou! – gritava o garoto, surpreso.

         E o pai, pegando o filho e levando-o até junto do animal, disse-lhe:

         – E acha que ele poderia agir diferente? Veja o que você fez com o pobre animal!

         Do lombo do cavalo escorria um filete de sangue. Toninho não percebera que na ponta da ripa existia um prego e fora a dor do ferimento que fizera Gentil reagir.

         Aproveitando a oportunidade que se lhe oferecia, Manoel completou:

         – Gentil é manso como um cordeiro. Apenas se defendeu de uma agressão, instintivamente. Todos nós, meu filho, recebemos de acordo com que tivermos feito. Se você tivesse lhe dado carinho e amor, teria recebido a retribuição correspondente. Como você agrediu, foi agredido. Entendeu?

         Muito envergonhado, Toninho balançou a cabeça em sinal de assentimento e prometeu a si mesmo que nunca mais cometeria o mesmo erro.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Responsabilidade e amizade



         Juquinha voltava da escola com a mochila dependurada nas costa e uma bola nas mãos. Brincando, ele chutou a bola e quebrou a vidraça da janela de uma residência pela qual estava passando.

         Temeroso pelo que fizera, ele saiu correndo e dobrou a esquina, rápido.

         Zezé, seu colega, que vinha um pouco atrás, preocupado com uma prova que faria no dia seguinte, nem notou o que tinha acontecido.

         Ao passar diante da casa, deparou-se com um homem muito zangado, que, o agarrando pelo braço, gritou:

         — Peguei você, moleque safado!

         Assustado, sem entender o que estava acontecendo, Zezé se defendeu:

         — Eu não fiz nada! Não sei do que a senhor me acusa.

         — Como não sabe? Você acaba de quebrar a vidraça da janela de minha casa e não sabe?...

         — Não sei não, senhor. Não fui eu! Não fui eu!

         — Ah, não? E essa bola aqui, de quem é?

         Zezé havia reconhecido a bola, nova e bonita, que pertencia ao seu amigo Juquinha. Porém ele não era dedo-duro e não entregaria o colega. Então, apenas respondeu:

         — Não é minha, senhor, eu juro!

         — Se você estiver mentindo para mim, vai se arrepender. Vamos! Vou levá-lo até sua casa e falar com seus pais.

         — Por favor, senhor, solte-me! Meus pais estão trabalhando e não tem ninguém em casa.

         Zezé chorava e suplicava tanto, que o homem cedeu. Largou o braço dele e pediu-lhe o endereço, que o garoto deu. Depois, voltando aos poucos à normalidade, ele informou:

         — Amanhã irei à escola falar com sua professora. Como é seu nome?

         — José Luiz Barbosa, mas todos me chamam de Zezé.

         — Muito bem, Zezé. Pode ir agora.

         Zezé continuou seu caminho, aliviado. No dia seguinte tudo se esclareceria, tinha certeza. Certamente Juquinha não deixaria que ele fosse acusado injustamente.

         De manhã Zezé levantou-se, confiante, e foi para a escola.

         Eram dez horas quando o homem apareceu na porta da sala de aula.

         A professora Dorinha o recebeu e perguntou o que desejava. Ele entrou e explicou o que tinha acontecido diante de toda a classe.

         Juquinha encolheu-se na carteira.

         Diante da acusação daquele homem, Zezé esperou que Juquinha assumisse a culpa, não deixando que ele fosse acusado injustamente.

         Como Juquinha continuasse calado, Zezé baixou a cabeça triste e desiludido.

         A professora Dorinha, vendo a situação criada, saiu em defesa do aluno.

         — O senhor tem toda razão de reclamar e até de desejar uma reparação, porém não pode vir aqui e acusar um aluno meu sem ter certeza da culpa dele. Além disso, esta bola não é do Zezé, posso lhe afirmar.

         — Mas alguém quebrou minha janela com esta bola e quero saber quem foi.

         Ele olhava para toda a classe, fitando um por um. Todavia, ninguém se manifestou. Irritado, ele disse:

         — Muito bem. Vocês estão se protegendo, mas eu vou descobrir quem foi e, aí, tomarei providências. Deixarei a bola aqui na mesa. Que o dono a pegue depois, se tiver coragem. Passem bem.

         O homem retirou-se pisando duro. Após a saída dele, Dorinha olhou para sua classe, triste, e considerou:

         — Estou bastante decepcionada com vocês. Não importa o que tenhamos feito, temos a obrigação moral de assumir nossos erros. Mentir é muito feio e, omitir nossa responsabilidade, deixando que alguém seja acusado em nosso lugar, é pior ainda.

         Zezé, com a cabeça entre as mãos, chorava baixinho.

         Nesse momento, Juquinha levantou-se, tímido e envergonhado:

         — Professora, fui eu que quebrei a vidraça. Mas não fiz por querer! Foi um acidente!

         Depois, virando-se para o amigo que chorava, disse:

         — Zezé, me desculpe! Não quis criar um problema para você, apenas fiquei com medo da reação de meus pais ao ficarem sabendo. Porém, você sabia que eu era culpado e não me entregou, e isso me deixou com vergonha de mim mesmo. Será que você pode me perdoar?

         Zezé levantou a cabeça, limpou as lágrimas e sorriu:

         — Claro, Juquinha. Sabia que você não deixaria que eu fosse acusado injustamente. Afinal, somos bons amigos!

         Juquinha caminhou até Zezé e abraçaram-se, contentes por terem resolvido bem a situação.

         Depois, Juquinha, também emocionado, prometeu:

         — Professora, eu prometo que ao sair daqui irei à casa daquele senhor, contarei a verdade e me responsabilizarei pelos danos que causei.

         — Ótimo, Juquinha. Você decidiu muito bem — concordou Dorinha.

         E Zezé, ao lado dele, afirmou:

         — Eu acompanho você, Juquinha.

         A professora abraçou a ambos, depois olhando para os demais alunos, informou:

         — Neste dia tivemos uma lição ao vivo. Uma situação difícil se resolveu de forma pacífica, e todos amadureceram um pouco mais. Juquinha aprendeu que a mentira só prejudica, e pôde comprovar a grandeza de Zezé que não entregou o amigo, mesmo sabendo-o culpado.

         Ela parou de falar por alguns momentos, depois prosseguiu comovida:

         — Juquinha ainda vai enfrentar dificuldades com o homem a quem prejudicou, e também com seus pais, mas tudo ficará mais fácil diante da sua resolução de dizer a verdade. Que todos possamos ter aprendido a lição.

         Ao terminar a aula, Zezé acompanhou Juquinha, que explicou ao homem o que tinha acontecido, desculpando-se e prometendo pagar os danos causados, usando sua mesada para comprar-lhe uma vidraça nova.

         Contaria a seus pais o que tinha acontecido, e tinha certeza de que o problema seria resolvido com tranqüilidade.

         O mais difícil fora admitir a culpa. Tudo o mais não tinha importância.

         Sereno e confiante, Juquinha retornou para casa, certo de que, dali por diante, não haveria problema que não conseguisse resolver.

         Aprendera, também, que uma amizade sincera como a de Zezé, não tinha preço e precisava ser valorizada.

         E desse dia em diante, tornaram-se ainda mais amigos.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O pequeno órfão



         Morando numa casa confortável, Ricardo era um menino que levava vida tranqüila e segura. Uma família amorosa supria-lhe as necessidades, e ele freqüentava uma boa escola onde tinha muitos amigos.

         Ricardo, porém, não se contentava com o que Deus lhe concedera.

         Estava sempre desejando algo mais e suspirando por tudo o que seus amigos tinham.

         Sabem o que é isso? É um sentimento muito feio chamado: INVEJA.

         Se os pais o presenteavam com um carrinho, ele reclamava com raiva:

         — Não quero essa droga. Quero um carrinho de controle remoto, como o que o Dudu ganhou no aniversário!

         — Mas, filhinho, é muito caro! — dizia a mãe, triste.

         — Não me interessa. Quero, quero e quero! — gritava, batendo os pés.

         Quando a mamãe carinhosa lhe comprava uma roupa, ele falava com desprezo:

         — Que coisa horrível! Acha que vou usar “isso”? Essa roupa não vale nada!

         — Quando a vi na loja achei bonita e lembrei-me de você, meu filho — justificava-se a mãe, pesarosa.

         — Pois pode devolver. Não vou usar. Gosto de roupas caras e de lojas chiques. Na verdade, eu quero mesmo é uma calça “jeans” como a do Beto.

         Na hora da refeição era o mesmo problema sempre. Ricardo reclamava de tudo:

         — Legumes novamente?

         — Sim, meu filho. Legumes fazem bem à saúde e são gostosos.

         — Pois não como! — gritava o menino, empurrando o prato com grosseria. — Ainda se fosse um frango assado, como o que eu vi outro dia na casa do Adriano, eu comeria.

         — Meu filho — respondia a mãe desgostosa — essas coisas são caras e a vida está difícil. Você sabe que nada nos falta, mas o papai trabalha muito para manter a casa. Devemos é agradecer a Deus por tudo o que possuímos e pela vida tranqüila que temos.

         O garoto balançava os ombros com desprezo e saía resmungando.

         A mãe de Ricardo, em suas orações, sempre pedia a Deus que ajudasse seu filho, tão invejoso e egoísta, a ver a vida com outros olhos.

         Certo dia, o garoto havia brigado com os pais; exigira a compra de uma bicicleta nova e, como eles se negaram, o menino saiu batendo a porta, chorando e reclamando:

         — Ninguém gosta de mim! Ninguém me dá o que peço! Sou um infeliz abandonado. Tenho vontade de sumir de casa!

         Ricardo chegou até uma praça e sentou-se num banco. Amuado, ali ficou, resolvido a não voltar logo para casa; queria dar um susto nos pais.

         Após alguns minutos percebeu uma criança um pouco menor do que ele que, sentada no chão, parecia muito triste.

         Aproximou-se sem saber por quê. Na verdade, nunca se interessara pelos problemas dos outros.

         — Olá! — disse, a guisa de cumprimento.

         O menino levantou a cabeça e Ricardo percebeu que chorava.

         — Aconteceu alguma coisa? — perguntou sem muito interesse.

         — É que me sinto muito sozinho. Não tenho ninguém que goste de mim. Sou órfão e vivo na rua — murmurou o garoto.

         — Como assim? Não tem casa?

         — Não. Quando meus pais morreram fui morar com uma tia. Mas ela me maltratava e obrigava-me a roubar, alegando que eu comia bastante e lhe dava muitas despesas. Depois de algum tempo, não agüentei mais; fugi de casa e, desde esse dia, durmo nos bancos das praças.

         — E onde você come?

         O garoto sorriu. Um sorriso triste e desconsolado.

         — Normalmente, peço um prato de comida em alguma casa rica, mas nem sempre consigo. Então, reviro as latas de lixo à procura de algo para comer. Você não imagina quanta coisa boa a gente acha numa lata de lixo!

         Ricardo, que nunca imaginara que existissem pessoas passando por tanta necessidade, estava surpreso e chocado.

         — Quantos anos você tem? Como se chama?

         — Tenho oito anos e me chamo Zezé. E você? Você também está triste! Também não tem ninguém?

         — Tenho sim, Zezé — falou Ricardo com satisfação. — Tenho uma família maravilhosa e gostaria que você a conhecesse. Minha mãe é muito boa e faz uma comida simples, mas muito gostosa. Quer almoçar comigo?

         Zezé aceitou com alegria. Desde o dia anterior não se alimentara e estava faminto.

         Chegando ao seu lar, Ricardo apresentou o novo amigo e, em lágrimas, pediu desculpas pelo seu comportamento.

         — Mamãe, eu compreendo agora que Deus foi muito bom dando-me uma casa boa e confortável e uma família amorosa que se preocupa comigo. Que mais posso desejar?

         Muito contente com a mudança que se operara em seu filho, a mãe abraçou-o emocionada, dizendo-lhe com carinho:

         — Que bom, meu filho, que você pense assim. Deus ouviu minhas preces e, se não somos ricos de dinheiro, somos ricos de amor, de paz, de alegria e de saúde. Não é verdade?

         — É verdade, mamãe — concordou Ricardo, sorridente.

         Zezé ficou por alguns dias naquele lar e, tão bem se adaptou ao ambiente da casa que, a pedido de Ricardo, que se afeiçoara muito a ele, foi adotado, passando a fazer parte da família, para alegria de todos.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O vaga-lume



         Morando num lindo recanto do campo, entre flores coloridas e perfumadas, árvores frondosas e amigas, Vavá, o vaga-lume, vivia sempre triste insatisfeito.

         Sentia-se pequeno e inútil. Voava sobre as rosas e admirava-lhes a beleza e o perfume, encantava-se com as borboletas que passavam vestidas elegantemente de asas multicoloridas. Ouvia com assombro o canto mágico dos pássaros nas ramagens do arvoredo e entristecia-se por não conseguir emitir uma nota sequer. No fundo, tinha uma inveja profunda deles, das rosas, das borboletas, dos pássaros e de todos os que eram diferentes dele.

         Por que Deus o fizera assim? Ele não era bonito como as borboletas, não era perfumado como as rosas e não sabia cantar como os pássaros!

         A única coisa que possuía era aquela incômoda lanterninha na parte traseira do seu corpo e que ninguém mais tinha. Só ele!

         Ainda se fosse uma luz bonita e brilhante, como a das estrelas que Vavá contemplava à noite, ou como aqueles postes de luz que ele via de vez em quando na cidade, seria diferente. Teria orgulho dela. Mas qual! Essa luz fraca e oscilante não servia para nada!

         Certo dia, Dona Coelha apareceu aos saltos, muito preocupada com seu filhotinho. O pequeno estava doente e ela precisava de uma determinada planta para fazer um chá.

         Pediu ajuda para a Borboleta:

         — Amiga Borboleta, ajude-me a encontrar o remédio para meu filho.

         Mas a borboleta respondeu, abrindo as asas multicoloridas:

         — Como procurar? Está ficando escuro e não vejo nada!

         Dona Coelha agradeceu e pediu auxílio para a rosa, muito aflita:

         — Por favor, amiga Rosa, ajude-me a encontrar o remédio para meu filho!

         Abanando a linda cabeça de pétalas macias, a rosa respondeu, delicada:

         — Gostaria de ajudá-la, mas, infelizmente, não posso andar e, mesmo que pudesse, com essa escuridão seria impossível!

         Dona Coelha agradeceu e, encontrando o passarinho, pediu-lhe:

         — Você que anda por tantos lugares, poderia ajudar-me a procurar a planta que necessito para curar meu filho?

         O passarinho ficou pensativo e depois respondeu, atencioso:

         — Creio que sei onde encontrar a planta que a senhora procura, Dona Coelha, mas está muito escuro e não posso voar, pois trombaria nas árvores. Além disso, não sei o lugar exato e agora de noite seria impossível encontrá-la.

         A pobre coelhinha ficou muito triste e já se dispunha a desistir do seu intento e retornar ao seu lar sem a planta necessária. Mas os bichinhos que se juntaram para analisar o problema, preocupados com a situação da pobre mãe, começaram a discutir qual a melhor solução.

         Dona Coruja, que ouvia tudo em silêncio, acomodada num galho de árvore, sugeriu:

         — Só conheço alguém capaz de ajudar neste momento tão difícil.

         — Quem??!! — perguntaram todos ao mesmo tempo.

         — O vaga-lume Vavá!

         Olharam-se surpresos. Como não pensaram nisso antes?

         — EU???...

         — Claro! Quem mais possui uma lanterna? — explicou a Coruja, satisfeita.

         Encaminharam-se, então, para o região onde o passarinho vira a planta, sempre guiados por Vavá, que ia na frente, todo orgulhoso, iluminando o caminho.

         Procuraram... procuraram... procuraram... até que, bem escondidinha, lá estava ela.

         Dona Coelha, muito feliz e aliviada, não sabia como agradecer:

         — Obrigada, Vavá! Se não fosse você e sua lanterninha nunca teria conseguido. Que Deus o abençoe!

         Vavá, que, pela primeira vez, sentia-se útil e valorizado, ficou satisfeito. E percebeu que o dom que Deus lhe dera era muito... muito importante, e poderia ajudar muita gente.

         Agora já não se incomodava mais de não ser belo como as borboletas, ou perfumado como as rosas, ou ter voz melodiosa como os pássaros.

         Já não se sentia mais como um pequeno e insignificante inseto, inútil e desprezado por todos. Ele era muito importante e tinha uma tarefa que só ele podia executar: clarear as trevas.

         E, a partir desse dia, Vavá passeava sempre pelo campo, confiante em si mesmo e orgulhoso da sua luz, agradecendo a Deus a bênção que lhe concedera.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O presente



         Beto, menino de nove anos, muito pobre, certo dia ganhou um lindo e apetitoso pedaço de bolo.

         Com os olhos brilhantes, pegou o bolo com as mãos, aspirando, com satisfação, o cheiro bom que se desprendia dele, e abriu a boca preparando-se para dar-lhe uma mordida.

         Nesse exato momento, porém, parou, lembrando-se que seu irmão menor, Renato, de sete anos, gostava muito de bolo e que há muito tempo não comia um pedaço.

         Com um suspiro, embrulhou o pedaço de bolo e disse:

         — Já sei! Vou dá-lo de presente ao Renato. Meu irmãozinho vai adorar!

         Mais tarde Beto entregou o pequeno embrulho ao irmão que, abrindo-o, não conteve a alegria:

         — Que bom! Gosto muito de bolo. Obrigado, Beto.

         Mas quando ia morder o pedaço de bolo, Renato lembrou-se de sua irmã Rosa, de quem ele gostava muito, e falou:

         — Ah! Beto, se você não se incomodar, gostaria de presentear a mana Rosa com este pedaço de bolo. Ela tem sido tão boa, leva-me para a escola, ajuda-me com os deveres de casa e convida-me para passear.

         Beto concordou e ambos levaram o presente para a irmã.

         Abrindo o embrulho, Rosa sentiu água na boca. Quando ia dar a primeira mordida, porém, lembrou-se do irmão mais velho, Geraldo, e afirmou:

         — Desde que papai desencarnou, nossa situação tem sido muito difícil e Geraldo tem trabalhado bastante para ajudar na manutenção da casa. Acho que ele merece este pedaço de bolo por tudo o que tem feito por nós.

         Os outros concordaram e, como estava na hora de Geraldo chegar do trabalho, ficaram aguardando-o no portão, ansiosamente.

         Mal o avistaram, os três irmãos correram ao seu encontro. Rosa entregou-lhe o embrulho.

         Geraldo abriu e sorriu, feliz. Estava cansado e com fome. Trabalhara o dia todo e quase não se alimentara, e esse pedaço de bolo era muito bem-vindo.

         Lembrou-se, porém, da mãe, que vivia exausta de tanto trabalhar e que os amava tanto. Fitou os irmãos e disse:

         — Meus queridos irmãos. Agradeço-lhes a dádiva que me fazem, mas acredito que a mamãe merece este bolo mais do que eu. Sempre se sacrificou por todos nós e é justo que ganhe este presente.

         Os irmãos foram unânimes em concordar.

         Entraram em casa e dirigiram-se à cozinha, onde a mãe preparava a humilde refeição da tarde. Geraldo, rodeado pelos irmãos, explicou o que estava acontecendo e entregou o bolo à mãe.

         Com os olhos rasos de lágrimas, a mãezinha fitou os filhos e falou, sensibilizada:

         — Beto, Renato, Rosa e Geraldo. Estou muito satisfeita com todos. Vocês demonstraram hoje que somos realmente uma família, que nos amamos muito e que pensam uns nos outros com esquecimento de si mesmos. Vocês aprenderam a lição de Jesus que manda fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fosse feito. Estou muito feliz e o papai, onde estiver, com certeza também estará bastante satisfeito.

         Os filhos estavam muito emocionados, e a mãe sorriu com carinho, propondo:

         — E agora, vamos jantar. Depois, repartiremos fraternalmente este lindo bolo e cada um comerá um pedacinho.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O balão colorido



         Janjão era um menino que possuía um bom coração, mas era muito desobediente.

         Sua mãe vivia a lhe dar conselhos, dizendo-lhe:

         –Janjão, não mexa com fogo, pois você pode se queimar!

         –Janjão, desça desse muro, você pode cair e se machucar!

         –Janjão, cuidado com essa faca, meu filho. Ela é muito perigosa!

         Mas, qual nada. Janjão continuava o que estava fazendo, fingindo não ouvir as recomendações de sua mãezinha.

         Certo dia, Janjão e Pedrinho, seu melhor amigo, estavam entediados. Já haviam brincado de esconde-esconde, jogado bolas de gude, pega-pega, etc., e não sabiam mais o que fazer.

         Janjão teve uma idéia luminosa:

         – Já sei! Vamos fazer um balão!

         – Um balão? – repetiu Pedrinho, surpreso. – Mas não é perigoso?

         – Sim, um balão. E não é perigoso não, seu medroso. Vá comprar o papel e a cola.

         — Eu? Por que eu? A idéia foi sua! – reagiu Pedrinho.

         — Está bem. Então eu vou.

         Trabalharam a tarde toda num quartinho que existia no fundo da casa de Pedrinho. Sabiam que a mãe dele estaria ocupada trabalhando e não perceberia.

         Depois de pronto, aguardaram com muita ansiedade o anoitecer. Afinal, para ter graça, balão tem que ser solto à noite.

         Acenderam o balão e ficaram torcendo para ver se ele ia subir.

         O balão foi enchendo... enchendo... enchendo até que lentamente começou a subir.

         Os garotos não continham a animação e a alegria. Em pouco tempo, o lindo balão colorido foi subindo... subindo... subindo para o céu, cada vez mais alto. Logo, tornou-se apenas um ponto luminoso como se fosse outra estrela do firmamento. Depois, escondeu-se atrás de umas grandes árvores e os garotos o perderam de vista.

         Do balão colorido só ficou mesmo a lembrança. Ainda conversaram mais um pouco relembrando, emocionados, a linda subida do balão.

         Janjão, lembrando-se de que já era tarde e seus pais deveriam estar preocupados, despediu-se e foi embora.

         Morava num sítio e precisava andar um pouco pelo campo para chegar até a sua casa. De longe, avistou um imenso clarão que iluminava o céu, afugentando a escuridão. Apertou o passo e logo percebeu que o fogo vinha de sua casa.

         Ao aproximar-se, viu as chamas lambendo as paredes de sua casa, os móveis no terreiro, pessoas que corriam com baldes d’água, tentando conter o fogo. Seu pai, preocupado, andando de um lado para o outro, sua mãe e sua irmã chorando. Aflito perguntou:

         – Que aconteceu, papai?

         – Ah! Meu filho! Graças a Deus você está bem. Estávamos preocupados sem saber onde você estava. Pensávamos até que poderia estar dentro da casa em chamas. Alguém andou soltando balões e, quando percebemos, o fogo já se alastrara e tomara conta de tudo, como você vê. Com a ajuda de amigos conseguimos ainda salvar alguma coisa, com a graça de Deus.

         O garoto, já arrependido, e percebendo o ato que praticara, começou a soluçar:

         – Perdoe-me papai. A culpa é toda minha. Fui eu que soltei o balão, mas nunca poderia imaginar que causaria tantos danos.

         O pai suspirou, compreendendo o sofrimento do filho, enquanto lhe disse, severo:

         – Está vendo, meu filho? Por ser desobediente, quanto mal você causou? Graças a Deus, os prejuízos são materiais apenas, e, embora sejamos pobres, conseguiremos vencer e recuperar o prejuízo que tivemos. Mas, e se alguém tivesse perdido a vida?

         Janjão chorava sentidamente.

         – Perdoe-me, papai. Agora eu compreendo o mal que causei e que, quando mamãe fala que é perigoso, é porque ela está vendo o que pode acontecer.

         O pai abraçou o filho e desse dia em diante Janjão tornou-se um garoto diferente, mais responsável, e até começou a trabalhar para ajudar seu pai a cobrir os danos que involuntariamente causara.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O esquilo fujão



         Numa clareira da floresta, habitava uma família de esquilos que vivia em paz e harmonia.

         A pequena família era constituída do papai Esquilão, da mamãe Esquila e de um casal de filhotes muito obedientes. Todos se estimavam sinceramente, pois entre eles havia compreensão e amizade.

         Enquanto papai Esquilão saía em busca do sustento da família, mamãe Esquila permanecia em casa cuidando dos filhos e dos afazeres domésticos.

         Certo dia, Esquila descobriu que ia ser mãe novamente. Todos ficaram muito felizes. Afinal, as crianças estavam crescidinhas e um bebê fazia falta em casa.

         Dentro de pouco tempo, a família aumentou. Era um lindo filhotinho!

         O filhote crescia rápido e se tornava cada vez mais exigente. A pequena família vivia em função dele, fazendo-lhe todas as vontades.

         Mas nem tudo podia ser permitido! E cada vez que sua mãe o repreendia, ele ficava revoltado e infeliz.

         Com o passar do tempo, começou a achar que ninguém o amava. Sempre viviam ralhando com ele: “Não faça isso, Esquilino! Não faça aquilo! Arrume suas coisas!”

         Um dia, cansado de tudo, sentindo-se muito triste, foi embora resolvido a viver livre na floresta. Sua mãe sempre o alertara para os perigos que encontraria, mas ele nunca se importou. O pai também jamais permitira que ele se internasse na mata sozinho preocupado com sua segurança. Agora, no entanto, ele estava livre e não precisava obedecer a ordens de ninguém.

         — Ufa! Afinal vou levar a vida que sempre desejei. Já sou bastante crescido para cuidar de mim mesmo! — pensou.

         Andou bastante pela floresta, satisfeito da vida.

         Aos poucos foi escurecendo e o pequeno esquilo não tinha encontrado ainda local onde pudesse se abrigar. Os ruídos da mata o assustavam e ele desejou estar ao lado de sua mamãe, sempre tão amorosa.

         Mas agora estava perdido. Não sabia mais voltar. E, além de tudo, estava com uma fome terrível!

         A escuridão foi ficando cada vez maior e mais apavorante.

         Cansado de tanto andar, Esquilino aninhou-se no tronco de uma grande árvore e adormeceu depois de muito chorar.

         De manhãzinha, acordou ouvindo o ruído de folhas secas. Alguém se aproximava. Levantou-se rápido. Quem sabe era alguém que poderia ajudá-lo?

         Era um lobo enorme e ameaçador!

         Quando o lobo uivou, arregaçando os dentes perigosamente, o esquilinho saiu em grande disparada.

         Ao perceber que não estava mais ao alcance do lobo, parou para descansar.

         — Ufa! Que sufoco! — disse mais aliviado.

         Nisso, ouviu um ruído estranho, como se fossem guizos. Olhou para o chão e se deparou com uma enorme cobra pronta para dar o bote.

         Apavorado, fugiu novamente tão rápido quanto lhe permitiam as pernas.

         Com o coração aos saltos e a respiração ofegante, parou junto a uma árvore. Suas pernas estavam bambas! Encostou-se nela para recuperar o fôlego, quando escutou um zumbido diferente.

         O que seria? Olhou para o lado e percebeu que quase tocara num grande cacho de abelhas. E elas pareciam realmente enfezadas!

         Reunindo as forças, fugiu de novo procurando escapar do enxame que vinha em sua direção.

         Olhando para trás, não viu um riacho logo à sua frente. Caiu dentro dele, ficando todo molhado.

         Felizmente, as abelhas o perderam de vista e Esquilino pôde sair da água tranquilamente.

         Olhando em volta, reconheceu o lugar. Sim! Estava próximo de casa!

         Mais confiante, tomou uma pequena trilha e em poucos minutos chegou à clareira onde residia.

         Todos ficaram felizes e aliviados com sua volta e o abraçaram e beijaram repetidas vezes.

         Mais refeito, após se alimentar convenientemente, Esquilino disse à sua mãe:

         — Sabe, mamãe, descobri que nada é melhor do que o lar da gente! Pensei que não me amassem, porque viviam me repreendendo. Agora, sei que é justamente por me amarem muito que agiam assim. Passei por muitos perigos, sentindo-me só e desamparado. Apenas aqui, junto de vocês, estou seguro e tranquilo.

         E a mamãe, com lágrimas nos olhos, afirmou risonha:

         — É verdade, meu filho. Nada como o amor da família. Porém, jamais esteve desamparado. Deus velava por você e o trouxe são e salvo para o nosso convívio.

         E Esquilino, baixando a cabeça, disse comovido:

         — Obrigado, meu Deus, pela família maravilhosa que o Senhor me concedeu!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A galinha insatisfeita



         Em certo sítio bastante agradável, vivia uma galinha chamada Petita.

         Normalmente, Petita estava de mau-humor, reclamando de tudo e de todos.

         O poleiro era muito alto, o ninho muito duro, o milho não tinha gosto, as minhocas não eram macias, e a água não era limpa nem fresca.

         Enfim, nada estava bom para dona Petita.

         As outras aves do terreiro andavam sempre alegres e felizes, mas dona Petita já acordava de mal com a vida.

         Se o galo cantava muito cedo seu có-có-ró-có-có, ela reclamava que ele não a deixava dormir; se ele cantava mais tarde para atender-lhe a vontade, ralhava com ele porque a fizera perder a hora de levantar. Quando os animais faziam festa no terreiro, ela reclamava do barulho; se não a convidavam para dançar e participar das brincadeiras, afirmava-se abandonada por todos.

         Enfim, não sabiam mais o que fazer para agradá-la.

         Até que um belo dia ela ouviu a patroa conversando com o empregado encarregado de tratar dos animais:

         — Amanhã logo cedo quero que você pegue a Petita e a mate. Eu desejo comer galinha ensopada no almoço. E ela está bem gordinha, no ponto de ir para a panela.

         A galinha, que ciscava ali perto, ao ouvir isso estremeceu. Queriam botá-la numa panela!

         E Petita já começou a sentir os tormentos que a aguardavam.

         Aquela noite, Petita não conseguia dormir. E quando, afinal, fechou os olhos, exausta, teve sono agitado. Sonhou que o empregado corria atrás dela e agarrava-a com força; já se sentia num tacho com água fervente, e depois alguém lhe tirava as penas, deixando-a peladinha, peladinha. Foi temperada com esmero, e ia ser colocada no fogo, quando ela acordou, suando frio e toda arrepiada.

         A pobre Petita chorou... chorou muito. Quem poderia ajudá-la? Ninguém gostava dela! Tinha certeza de que ficariam muito felizes com seu sofrimento e ninguém sentiria sua ausência.

         O dia começou a clarear e Petita lamentou, lembrando-se que nunca mais ouviria o lindo co-có-ró-có-có do galo; que nunca mais botaria ovos no seu ninho, que agora reconhecia ser tão macio e quentinho; que não mais comeria o milho gostoso e as minhocas tenras; que nunca mais conversaria com ninguém, e percebeu como iria sentir saudades de tudo aquilo.

         Só então Petita se deu conta de como sua vida sempre fora boa e agradável. Quanto tempo ela perdera se lastimando!

         — Oh! Deus! Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo diferente — pensava, suspirando profundamente.

         O empregado já se aproximava para pegá-la, quando surgiu a patroa conduzindo seu filhinho pela mão.

         O garoto, ao ver a intenção do empregado começou a chorar, gritando:

         — Não! Não quero que matem a Petita! Não quero que matem ninguém!

         E a mãe, surpresa com a atitude do menino, retrucou:

         — Ora essa, meu filho! Galinha ensopada é tão bom!

         — Não quero, mamãe. Prefiro comer batatas, se for para sacrificar alguém.

         A mãe pensou... pensou... na atitude do filho e afinal concordou, dizendo-lhe:

         — Tem razão, meu filho. Não devemos tirar a vida de ninguém. De hoje em diante todos os animais deste sítio estão a salvo e poderão viver tranquilos.

         Petita respirou, aliviada. Estava salva! E devia sua vida justamente àquele garoto que ela sempre considerara tão desagradável, e que agora afirmava gostar dela!

         Satisfeita e cacarejando feliz, Petita abraçou a todos no terreiro, e fizeram uma grande festa.

         A partir desse dia, Petita transformou-se numa galinha alegre e satisfeita da vida, não se cansando de agradecer a bondade de Deus, que lhe dera uma nova oportunidade, pela mão de uma criança.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A surpresa do achado



         Certa vez, um pequeno pastor caminhava pelos campos pastoreando suas ovelhas.

         Já estava cansado e com fome quando, sobre o capim verde e em meio à vegetação, encontrou pequena bolsa de couro. Abriu e, qual não foi sua surpresa: ali estavam cinco lindas moedas de ouro brilhando no fundo da bolsa!

         Ficou eufórico! Quanta coisa poderia fazer com esse dinheiro!

         Pegando as rutilantes moedas na mão, ainda pensou que deveriam pertencer a alguém, e que esse alguém por certo estaria desesperado.

         O desejo de ficar com as moedas, porém, falou mais alto e, acalmando a consciência, guardou o pequeno tesouro pensando, sem muito entusiasmo:

         — Se por acaso encontrar a pessoa que perdeu as moedas, devolvo-as. Caso contrário, elas são minhas por direito, pois as encontrei.

         E assim pensando, passou o resto do dia a fazer planos de como usaria o tesouro que tão inesperadamente lhe caíra nas mãos.

         Ao cair da tarde, levou as ovelhinhas de volta para casa, resolvido a nada contar à sua mãe, com medo de que ela o fizesse devolver as moedas. Afinal, não existiam tantas casas assim nas imediações e, por certo, alguém do vale as perdera.

         Ao chegar em casa ficou sabendo que seu pai precisara fazer uma viagem para fechar um negócio muito lucrativo.

         Três dias depois seu pai voltou. Vinha desanimado e triste, todo sujo e coberto de poeira.

         A mulher, preocupada, perguntou o que acontecera, e ele respondeu:

         — Você não imagina o que me aconteceu! Após muito viajar cheguei ao meu destino. Quando fui fechar o negócio, porém, dei por falta do dinheiro que levara separado para pagar as ovelhas. Procurei por todo lado, revirei meus pertences, mas nada achei. Percebi, tarde demais, que a mochila que levara estava com um buraco no fundo e, por certo, deixara cair pelo caminho a bolsa com o dinheiro. Mas, como encontrar? Com certeza alguém já teria achado seu dinheiro e nunca mais veria aquele que representava as economias de muito trabalho e dedicação.

         E o homem tristemente concluiu:

         — Meus recursos terminaram e tive que recorrer à caridade pública. Não tinha onde me abrigar, nem o que comer. Graças a Deus, consegui chegar até aqui em casa depois de muito sofrimento. Embora tenha perdido tudo o que possuía, tenho vocês que são o meu tesouro.

         Assim dizendo, abraçou o filho e a esposa, emocionado até às lágrimas.

         O jovem, lembrando-se do tesouro que possuía ficou contente. Afinal, poderia fazer algo pelo seu querido pai.

         Correu até seu quarto e voltou com a pequena bolsa de couro contendo as cinco moedas e, com sorriso feliz, entregou-a ao pai, dizendo-lhe:

         — Pegue, meu pai. É tudo seu!

         O pobre homem ao ver a bolsa reconheceu-a e perguntou, surpreso:

         — Onde foi que a encontrou, meu filho?

         — Em meio à vegetação, quando pastoreava as ovelhas.

         — É verdade! Eu quis ganhar tempo e cortei caminho pelo campo, saindo da estrada. Oh, meu filho! Graças a Deus, você a encontrou. O Senhor é muito bom! Mas, como soube que era minha?

         De olhos arregalados o rapaz respondeu:

         — Não sabia, papai. Nunca poderia supor que lhe pertencesse. Julguei que fosse de outra pessoa!

         O pai ficou sério repentinamente e, segurando-o pelo braço, inquiriu:

         — O que fez, meu filho? Encontrou este tesouro que alguém perdera e ficou com ele, quando não lhe pertencia? Como fui eu que perdi, poderia ser qualquer outra pessoa aqui do vale. Não pensou no desespero que, por certo, atingiria o dono das moedas e na falta que elas lhe fariam?

         — Não, papai. Não pensei em nada disso. Desculpe-me. Somente agora começo a perceber como fui egoísta e ambicioso.

         O pequeno pastor, arrependido, abaixou a cabeça, enquanto as lágrimas corriam pelo seu rosto.

         — Perdoe-me, papai. Sei que agi errado e agora compreendo a enormidade da minha falta.

         O pai afagou a cabeça do filho, dizendo:

         — Meu filho, nós temos que respeitar o que é dos outros, para que os outros também respeitem o que nos pertence. Jesus, nosso Mestre, ensinou que seríamos responsáveis por todos os nossos atos e que deveríamos fazer ao próximo o que gostaríamos que ele nos fizesse. Agora pense: Se você tivesse perdido as moedas, o que gostaria que lhe fizessem?

         — Ficaria muito feliz se quem as achou me devolvesse a bolsa, com as moedas, claro!

         — Então, meu filho, assim também deve fazer para com os outros.

         O pequeno pastor agradeceu a lição recebida e prometeu a si mesmo que nunca mais seria egoísta e ambicioso.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Novo filho, novo irmão!



         Carlos estava na pré-adolescência, idade em que a revolta e a irritação eram constantes. Queixava-se de tudo e nunca estava contente com nada. Reclamava da família, da escola, da comida, das roupas, da casa, dos amigos.

         Em razão disso, as pessoas começaram a se afastar dele, pois não há quem goste de alguém sempre mal-humorado.

         Certo dia, ele estava particularmente desagradável. Havia brigado com sua irmãzinha, quebrado um brinquedo dela de propósito e batido no cachorro.

         A mãe o repreendeu com carinho, dizendo:

         — Meu filho, para vivermos bem com as pessoas, é preciso que aprendamos a amar e respeitar a todos os que convivem conosco e a tudo o que nos cerca. Todos nós o amamos, mas ninguém é obrigado a agüentar o seu mal-humor constante. O que está acontecendo? Você tem tudo e está sempre aborrecido! Deixe de ser tão egoísta. Tem gente que tem bem menos do que você e não reclama. Pense nisso!

         Carlos, vermelho de raiva, e mais irritado ainda com as palavras da mãe, afastou-se resmungando:

         — Ninguém me entende nessa casa! Tudo é culpa minha!

         Atravessou o jardim para sair; ao abrir o portão, parou, vendo um garoto de rua.

         Em outra ocasião, ele teria escorraçado o menino. Contra sua vontade, porém, ficara pensativo. As palavras da mãe continuavam a vibrar em seus ouvidos. Sabia que ela tinha razão. Sentia seus amigos distantes, evitando se aproximar dele; a irmãzinha que sempre o estimara, agora o olhava receosa.

         — Estou com fome. Tem pão velho? — perguntou o garoto com olhar triste.

         As palavras do menino o tocaram fundo. Deve ser duro sentir fome — pensou.

         Com o coração mais amolecido, Carlos entrou correndo e voltou em seguida com um copo de leite e um sanduíche que ele mesmo tinha preparado.

         Enquanto o menino comia, sentou-se perto dele na calçada, e pôs-se a conversar.

         — Meu nome é Carlos. E o seu? — perguntou.

         — Pedro.

         — E onde você mora, Pedro? — perguntou

         — Moro num bairro bem afastado, com umas pessoas que me acolheram. Não tenho família — disse o garotinho, baixando a cabeça, tristonho.

         Ao ver Pedro lamentar não ter família, Carlos retrucou, sem pensar:

         — Invejo você, Pedro. Ter família é muito chato! Especialmente mãe, que pega muito no pé da gente. Gostaria mesmo é de viver sozinho!

         O garoto ergueu a cabeça e Carlos percebeu que seus olhos estavam cheios de lagrimas.

         — Você não sabe o que é viver sozinho, Carlos. Não ter uma casa, não ter família, não ter pai, nem mãe; não ter alguém que lhe faça um carinho, que o oriente, até que ralhe com você. Alguém com quem você possa conversar, falar dos seus problemas, das suas dúvidas. Alguém que, quando você estiver doente, lhe dê remédio e fique a seu lado. Você não sabe o que é ser sozinho. Especialmente, sem ter uma mãe.

         Carlos percebeu que dera uma mancada, e, constrangido concordou:

         — Tem razão, Pedro. Falei sem pensar. Mas, e a família que o acolheu? Não e boa?

         — É muito boa. Olha, não conheci meu pai, e quando minha mãe ficou doente e morreu, essa família me socorreu. Então, não quero ser ingrato, devo muito a ela. Apesar de extremamente pobre, me ajudou quando mais precisei. Mas não é a mesma coisa. Sinto falta da “minha mãe”, entende?

         — Entendo.

         Naquele momento é que Carlos sentiu a importância de ter uma família, de ter uma mãe. Seu coração encheu-se de um sentimento novo que brotava em seu íntimo e do qual ele nunca se dera conta, preocupado consigo mesmo: O AMOR.

         Os dois meninos não perceberam é que, ali mesmo, abraçando-os com amor, estava a mãezinha de Pedro, desencarnada.

         Na mente de Carlos brotava uma idéia. Uma imensa compaixão por Pedro fez com que ele o convidasse para entrar.

         — Venha. Quero que conheça minha mãe.

         Entraram. Carlos apresentou Pedro à mãezinha. Ele estava tão diferente, emocionado, que ela percebeu logo que algo tinha acontecido com o filho.

         — Seja bem-vindo, Pedro. Mas, o que houve, meu filho?

         — Mamãe! Sei que o Dia das Mães se aproxima e costumo dar-lhe um presente. A senhora aceitaria qualquer presente que eu lhe desse?

         — Claro, meu filho! Porém, não preciso de presentes. Tenho vocês!

         — Mas eu quero dar-lhe um presente, mamãe.

         — Seja o que for, aceito com prazer, meu filho.

         Aproximando-se de Pedro, que ouvia a conversa sem entender nada, Carlos colocou o braço em seus ombros, e, com os olhos rasos d’água, falou:

         — Aceita um novo filho, mamãe? De quebra, terei um outro irmão!

         — Mas...e a família de Pedro, meu filho?

         Carlos contou à mãe a situação do novo amigo, mas ela, ainda em dúvida, questionou:

         — Pedro, e essa família com a qual você mora? São seus amigos! Não ficariam tristes sem você?

         Surpreso e encantado com a idéia de Carlos, sem poder nem acreditar nessa felicidade, ele respondeu:

         — Não, senhora. São meus amigos sim, gosto muito deles e serei sempre grato. Ajudaram-me numa hora de necessidade, quando minha mãe morreu e fiquei só. Mas acredito que para eles seria um alívio não ter mais uma boca para alimentar. Sabe como é, a vida está tão difícil!...

         — E você gostaria de vir morar conosco? Bem, parece que Carlinhos não pediu sua opinião e precisamos saber o que você realmente deseja!

         O menino sorriu, emocionado:

         — Eu ficaria muito feliz de ter uma nova família!

         Também comovida com a situação de Pedro, a mãe não teve mais dúvidas. Correu para eles, abraçando-os, emocionada dizendo ao filho:

         — Carlos, seu pai e eu sempre quisemos adotar mais um filho, porém tínhamos medo da sua reação. Seu pai e sua irmãzinha também ficarão muito felizes.

         Depois, dirigindo-se a Pedro, completou:

         — Seja bem-vindo, meu filho, ao seu novo lar.

         E naquele dia, a alegria voltou àquela casa, com as bênçãos de Deus.

         Carlos tornou-se um rapazinho mais compreensivo, bem-humorado e feliz, porque deixara de pensar apenas em si mesmo, estendendo amor a outro mais necessitado.

         Alguns dias depois, reunidos para almoçar, a família atual e aquela que ajudara Pedro, comemoraram o Dia das Mães em conjunto, como se todos fossem parte de uma única família.

         Ali, junto deles, radiante de alegria estava a mãezinha de Pedro, que envolveu a todos com infinito amor e gratidão.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

[Início]




O brinquedo avariado



         Naquele quarteirão morava uma criança diferente.

         Netinho havia nascido com uma deficiência mental e não conseguia pensar ou falar direito. Ficava sentado no portão, quietinho, pois gostava de olhar o movimento da rua e ver as crianças brincarem.

         E, porque era diferente, muitas crianças o rejeitavam, maltratando-o, jogando-lhe pedras ou caçoando dele. Agiam assim especialmente os amigos André, Tiago, Pedro e Alfredo.

         Às vezes, atingido por uma pedrada, Netinho corria para dentro do portão, chorando. Sua mãe abraçava-o com carinho, olhava os meninos e dizia:

         — Por que agem assim com meu filho? Que mal ele lhes fez?!...

         Um dia, Dona Júlia, a mãe de Pedro, passando por ali viu o grupo de meninos mexendo com Netinho. Encolhido num canto, com os braços protegendo a cabeça, ele chorava, assustado.

         A senhora aproximou-se, cheia de compaixão, abraçou o menino, consolando-o, e levou-o para dentro, entregando-o aos cuidados da mãe.

         Depois voltou e, sem qualquer crítica ao comportamento dos garotos, convidou-os para irem tomar um suco em sua casa. Eles aceitaram satisfeitos o convite, muito surpresos por não terem levado a bronca que esperavam.

         Enquanto preparava o suco, a mãe de Pedro deu alguns brinquedos para eles se distraírem: um violão, um pequeno toca-fitas, um pianinho, alguns jogos e várias outras coisas.

         Quando voltou trazendo os copos de suco, perguntou risonha:

         — Como é, estão se divertindo?

         Os garotos reclamaram, decepcionados:

         — Não dá para brincar! Está tudo quebrado! O violão está sem cordas — afirmou Tiago.

         — E o toca-fitas não dá para ouvir música. Está sem as pilhas! — disse André.

         — O pianinho está desafinado e faltam algumas teclas! — resmungou Alfredo.

         E Pedro, indignado, explodiu:

         — É isso mesmo, mamãe! Você sabe que estes brinquedos não funcionam. Os jogos estão faltando peças e o trenzinho elétrico está quebrado... Nada funciona!

         Dona Júlia sentou-se e, olhando um por um, concordou:

         — É verdade. Vocês têm toda razão. Estes brinquedos não funcionam. Mas, felizmente, são os brinquedos que estão avariados, e não vocês. Devem ser gratos a Deus por isso.

         Sem entender direito, os meninos perguntaram:

         — Como assim?

         Com serenidade, Dona Júlia esclareceu:

         — Todos vocês nasceram perfeitos! Não têm qualquer dificuldade para pensar e estudam com facilidade, pois seus cérebros trabalham com perfeição. E seus corpos também funcionam corretamente; seus sentidos não apresentam qualquer avaria: ouvem, falam, sentem e enxergam sem qualquer problema. Vocês têm mãos e pés que se movimentam com facilidade. Isso não é ótimo?

         As crianças concordaram, satisfeitas. A mãe de Pedro prosseguiu:

         — Já pensaram se um de vocês tivesse nascido cego? Ou sem um braço? Ou sem uma perna, e não pudesse andar?

         — Ah! Seria horrível! Nem é bom pensar! — disse um dos meninos.

         Dona Júlia concordou, continuando:

         — Pois é. Mas existem pessoas que não são tão felizes, como vocês. Nasceram com alguma dificuldade de expressão no corpo ou na mente, como um brinquedo avariado. Vocês conhecem alguém assim?

         Os garotos lembraram-se do menino que eles tanto amolavam.

         — É o caso do Netinho, não é? — perguntou alguém.

         — Exatamente. Netinho nasceu com um problema na cabeça e por isso não pode se expressar como todo mundo. Ele, como espírito, é inteligente como vocês, mas não consegue fazer o “aparelho”, que é o corpo, funcionar direito. Compreenderam?

         — Quer dizer que ele entende tudo o que acontece ao seu redor? — indagou Pedro.

         — Sem dúvida. Só não consegue fazer com que as outras pessoas saibam disso e sofre muito. Netinho merece todo o nosso respeito e carinho. Se Deus é Pai Justo e Bom, e sabe o que é melhor para nós, e fez com que Netinho nascesse com esse problema, é que esse sofrimento será útil para seu progresso.

         Fez uma pausa e concluiu:

         — Jesus disse que “deveríamos fazer aos outros, o que gostaríamos que os outros nos fizessem”. Assim, se vocês estivessem no lugar de Netinho, como gostariam de ser tratados?

         Os meninos, meditando sobre o que tinham ouvido, ficaram envergonhados, somente agora percebendo como tinham sido injustos com Netinho, cada qual refletindo que poderia ter sido “ele” a nascer com qualquer problema.

         No dia seguinte, houve uma grande mudança. Arrependidos, os meninos pediram desculpas a Netinho por tudo o que lhe tinham feito. Passaram a conversar com ele, chamando-o para brincar e aceitando-o como amigo.

         Satisfeito e risonho, Netinho participava de tudo, aprendendo as brincadeiras e mostrando que as suas dificuldades não eram tão grandes como pareciam.

         Dessa forma, Netinho se tornou um ótimo companheiro para todos eles.

*


         A Doutrina Espírita nos fala sobre a responsabilidade dos pais em relação aos filhos, Espíritos que Deus lhes confiou, acreditando na capacidade deles como educadores.

         Especialmente a mãe, cuja presença é tão necessária ao filho, tem um papel preponderante no encaminhamento desse espírito, através da orientação ético-moral, constante das lições que Jesus nos legou.

         No lar, primeira escola da alma, encontram-se todos os conteúdos imprescindíveis ao crescimento e amadurecimento do filho, especialmente através do exemplo dos pais, preparando-o para, no futuro, ser um cidadão digno e útil à sociedade, sabendo respeitar e amar a seus semelhantes como irmãos.

         Às Mães, na passagem do seu dia, as nossas melhores e mais sinceras homenagens.

         FELIZ DIA DAS MÃES!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A pesca inesperada



         Antonio morava com a família numa pequena aldeia à beira-mar e seu pai, Pedro, era pescador.

         Eram dias difíceis aqueles. Viviam da pesca e os peixes haviam desaparecido do mar.

         A mãe de Antonio trabalhava muito, fazendo todo o serviço doméstico e ainda auxiliando na limpeza dos peixes que seriam colocados à venda.

         Nunca lhes faltara o necessário, embora eles fossem pobres. Agora, porém, a fome rondava a casa.

         Durante muitos dias, seu pai saíra para o mar, jogara as redes, mas o barco voltava vazio.

         Um grande desânimo tomou conta do coração do pescador e já nem tinha vontade de sair para pescar.

         A comida rareava em seu lar, pois não tinha dinheiro, e Pedro via com preocupação o dia em que sua família passaria fome.

         Um dia, bateu à porta da casa do pescador uma velhinha suplicando um prato de comida.

         — Estou faminta — disse ela com voz fraca. — Pelo amor de Deus, ajudem-me!

         Pedro, irritado e nervoso com a situação difícil que atravessava no momento respondeu com grosseria:

         — Ajudá-la, como? Mal temos o suficiente para nossa alimentação! Não posso.

         O pequeno Antonio, cheio de compaixão pela pobre velhinha, retrucou:

         — Mas, papai, ela está pedindo em nome de Deus! Mamãe me ensinou que Jesus disse que deveríamos fazer aos outros o que gostaríamos que os outros nos fizessem. Se estivéssemos na situação dessa senhora, não apreciaria o senhor também ser tratado com bondade?

         A mãe de Antonio, de coração generoso e também desejando ajudar a anciã, concordou:

         — Nosso filho tem razão, Pedro. Além disso, um prato de comida é tão pouco! Não nos fará falta e Jesus ficará contente conosco.

         Vencido pelos familiares, Pedro concordou, afinal.

         Era hora da janta e, carinhosamente, a mãe de Antonio fez com que a mendiga entrasse.

         Sentaram-se à mesa e repartiram o pouco que tinham, fraternalmente.

         Na manhã seguinte o menino acordou e viu seu pai dentro de casa.

         — O senhor não vai sair para pescar hoje? — perguntou curioso.

         — Não adianta. Os peixes desapareceram do mar — respondeu o pescador cheio de desânimo.

         Antonio, com os olhos brilhantes, disse:

         — Tenha confiança em Jesus, meu pai. Ele não nos desampara nunca. Vamos para o mar e eu o ajudarei a pescar. Tenho fé em Deus que conseguiremos.

         Mais animado pelas palavras do garoto, Pedro arrumou suas coisas rapidamente e saíram no barco.

         Pedro jogou a rede e, para sua surpresa, recolheu-a cheia de peixes. E assim, na segunda e na terceira vez.

         Retornaram para casa felizes. Pedro não continha sua alegria.

         — Graças a você, meu filho, fizemos uma grande pesca e a tranquilidade voltará a reinar em nossa casa.

         Fez uma pausa, abraçou o menino e completou, comovido:

         — Não fosse sua fé em Deus, nada teríamos conseguido. Bem que Jesus nos ensinou que quem tivesse fé do tamanho de um grão de mostarda conseguiria qualquer coisa. Mas porque você tinha tanta certeza de que nós não voltaríamos de mãos vazias?

         — Porque eu aprendi, com Jesus, que quando ajudamos alguém também somos ajudados! — respondeu Antonio com muita lógica.

         Pedro fitou o filho longamente, com os olhos rasos de lágrimas, agradecendo a Deus as lições que teve nesse dia inesquecível pela boca de uma criança.

         A partir dessa data, Pedro passou a confiar mais em Deus e, informado de que aquela velhinha não possuía um lar e nem parentes, convidou-a para, daquele dia em diante, morar em sua casa e fazer parte da sua família.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A árvore e os frutos



         Chegando em casa após as aulas, Denis procurou não fazer ruído. Entrou pé-ante-pé, com receio de enfrentar a mãe. Todavia, não escapou da pergunta costumeira:

         — Onde esteve, meu filho?

         — Ora, mamãe! No colégio, é lógico!

         — Denis, suas aulas terminaram às 5 e já passam das 7 horas da noite. O que fez nesse tempo todo?

         A senhora se preparou para ouvir as explicações do filho, que nos últimos dias aconteciam com frequência. Denis fez cara de inocente e retrucou:

         — Poxa, mamãe! Tenho que dar conta de todos os meus passos? Estava com amigos, ora!

         — Que amigos?

         — Uma turma legal que conheci há algum tempo.

         Como o pai não tardaria a chegar e ela estivesse atrasada com a refeição, a senhora deu por terminada a conversa, dizendo:

         — Falaremos sobre isso depois, meu filho. Agora, tome o seu banho e não demore. Hoje é dia de nosso Evangelho no Lar, lembra-se?

         O garoto concordou, feliz por ter se livrado da bronca.

         Após o jantar, sentaram-se para fazer o Evangelho. O pai Eugênio, a mãe Clara, Luciana de 6 anos e Denis.

         A lição da noite, aberto o livro ao acaso, foi:

         “A árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má; portanto cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto. Não se colhem frutos nos espinheiros, nem cachos de uvas nas sarças. O homem de bem tira as coisas boas do bom tesouro do seu coração e o homem mau tira as más do mau tesouro do seu coração; porquanto a boca fala do que está cheio o coração”. (Lucas, 6:43 a 45.)

         Após a leitura, fizeram comentários sobre a lição. Clara explicou:

         — Jesus quis dizer com essas palavras que nosso comportamento dirá aos outros como nós somos. Daí a importância do nosso exemplo em qualquer lugar: na escola, no trabalho, na rua, no lar. Se agirmos mal, seja através de palavras ou de atos, estaremos demonstrando a todos que viemos de uma árvore má. E isso denota o que trazemos por dentro, como são baixos os nossos pensamentos, que se traduzem em atitudes negativas da nossa parte.

         Luciana, que ouvira a conversa da mãe com o irmão, lembrou-se de comentar:

         — Mamãe, ontem vi Denis com uma turma tão esquisita! Os meninos eram grandes, usavam cabelos pintados de cores fortes e tinham brincos nas orelhas.

         Denis, que ouvia calado, respondeu irritado:

         — Você não tem nada com isso, sua fofoqueira! Eles são legais e meus verdadeiros amigos.

         O pai interferiu, prontamente:

         — Calma, meus filhos! Não é hora para discutirmos esse problema. Nossa reunião semanal não é um tribunal em que analisamos as atitudes das pessoas. Além disso, Luciana, não podemos julgar ninguém pela aparência externa. O importante é o que a pessoa é por dentro. Os amigos de Denis podem ser excelentes garotos. A verdade é que não os conhecemos.

         Denis olhou para o pai, agradecido pela força que lhe dera, enquanto Luciana fazia uma careta para o irmão. A mãe, para concluir, disse-lhe com carinho:

         — Os pais sempre querem o melhor para seus filhos. Se muitas vezes parecemos severos, é que desejamos dar a vocês a melhor educação possível, para que ninguém venha a dizer que vocês são frutos de uma árvore má. Especialmente você, Denis, que já está com doze anos, deve ter muito cuidado com as amizades que escolhe, porque existem por aí muito desequilíbrio, vícios e toda espécie de mal. Mas, confiamos em vocês, que receberam a boa semente do Evangelho de Jesus e temos certeza de que sempre agirão o melhor possível de acordo com suas consciências.

         Clara fez uma prece e deu por terminada a reunião.

         No dia seguinte, a turma de Denis combinou de sair à noite. O rapazinho prometeu que ia falar com os pais.

         Assim, acabando as aulas, foi direto para casa. A mãe ficou satisfeita, achando que era resultado da conversa do dia anterior.

         Encontrando um momento propício, Denis pediu:

         — Papai, mamãe, gostaria de sair hoje à noite com a turma. Afinal, já tenho doze anos.

         O casal trocou um olhar preocupado. Eugênio perguntou:

         — Aonde pretendem ir?

         — Apenas comer um sanduíche, papai. Abriu uma lanchonete nova e queremos conhecer. Prometo que volto logo. Deixa, pai!

         — Está bem, meu filho. Mas não demore! — concordou o pai, dando-lhe algum dinheiro.

         Todo satisfeito, Denis arrumou-se e saiu para encontrar com os amigos.

         — Aonde vamos? — perguntou a Vitão, o líder da turma.

         — Dar um “rolé” por aí. Aguarde e verá. Não vai se arrepender.

         Denis não entendeu, mas ficou calado. A turma era de quatro rapazes mais velhos, experientes, e ele sentia-se orgulhoso de ter sido aceito por eles.

         Logo passaram por um carro estacionado e o líder deu uma risadinha:

         — Esse carro é do professor de Ciências, aquela careta. Caprichem nele.

         Os rapazes rodearam o carro e esvaziaram completamente os pneus, para espanto de Denis.

         Mais adiante, local de menos movimento, Vitão tirou do bolso interno da jaqueta um spray de tinta preta e puseram-se a pichar um muro pintado de novo. Horrorizado, Denis via tudo isso sem poder fazer nada. Não estava reconhecendo os amigos.

         Depois, passando por um orelhão, quebraram todo o aparelho telefônico.

         Naquele instante, vendo o vandalismo dos amigos, Denis lembrou-se da lição do dia anterior. Certamente aqueles frutos não viriam de árvores boas. Apesar do medo que sentia do líder, garoto forte e agressivo, resolveu dar um basta:

         — Estou fora — disse.

         — Como assim? — perguntou Vitão, espantado.

         — Você entendeu. Se é esse tipo de coisa que vocês costumam fazer, não são meus amigos, nem amigos de ninguém. Estou fora. Adeus.

         Fez meia volta, sem se preocupar com a reação do bando, e retornou para casa. Estava triste e decepcionado, mas, ao mesmo tempo, orgulhoso por ter tido coragem de tomar uma atitude.

         Ao entrar, sua mãe estranhou:

         — Ué! De volta tão cedo?!...

         — É, mamãe. Descobri que o melhor sanduíche ainda é o seu.

         — E a turma? — indagou o pai, surpreso.

         — Ficaram lá. Percebi que não me servem. Não são frutos bons.

         Satisfeito, comeu com apetite o sanduíche que sua mãe preparou com imenso carinho.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O remédio



         Dentre todos os garotos da vizinhança, Juquinha era o mais levado.

         Cheio de energia, estava sempre inventando algo para fazer.

         Quando não estava no telhado da casa, arriscando-se a cair e quebrar o pescoço, ele estava em cima do muro do vizinho mexendo com as pessoas que passavam na rua.

         Gostava também de apanhar, às escondidas, frutos no pomar do senhor José. De outras vezes, ele subia nas árvores arrancando dali ninhos de pobres aves indefesas, destruindo-os depois, pelo simples prazer de destruir.

         Os garotos da rua o temiam e muitos não brincavam com ele para evitar brigas e encrencas.

         A mãe de Juquinha dava-lhe sempre bons conselhos, mas ele ria, e saía de perto sem lhe atender aos apelos.

         Dona Joana tentava fazer com que Juquinha se interessasse em mudar de vida, e explicava-lhe que não devia agir de maneira maldosa, causando confusão e inimizades.

         Quando era dia do Evangelho no Lar, dona Joana procurava atrair Juquinha para a reunião singela, ciente de que as preces e leituras das passagens evangélicas poderiam auxiliar poderosamente na mudança de atitudes do filho, mas qual nada!...

         Juquinha alegava obrigações inadiáveis e fugia ao convívio carinhoso da família.

         Triste, dona Joana elevava o pensamento em prece e, com o coração repleto de emoção, suplicava a ajuda de Jesus. Não desejava que seu filho persistisse no mal e temia, com justa razão, que com o passar do tempo, ele se tornasse cada vez pior.

         Sabia que, se não conseguisse incutir nele idéias sadias de amor, trabalho, devotamento, respeito, piedade, etc., enquanto ainda era um garoto, depois seria mais difícil.

         E atendendo às súplicas do seu coração generoso, a resposta do Alto não se fez esperar.

         Certo dia, enquanto fugia do proprietário de uma chácara aonde fora roubar frutas, Juquinha caiu do muro, fraturando um osso da perna.

         Como consequência, ele, que nunca parava em casa e estava sempre inventando alguma arte, foi obrigado a permanecer preso a uma cadeira de rodas sem poder caminhar por quarenta dias.

         E, quando Juquinha reclamava da inatividade forçada, dona Joana respondia-lhe com um sorriso:

         — Tenha paciência, meu filho. Este foi o remédio que Deus encontrou para que você pudesse dar um novo rumo à sua vida e repensar suas atitudes.

         E, com um suspiro aliviado, completava satisfeita:

         — Podia ser pior!...

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A caixa de bombons



         Dinho, menino de cinco anos, não conseguia parar quieto. Impaciente, andava de um lado para outro, com expressão de sofrimento.

         Percebendo a inquietação do menino, a mãe perguntou:

         — O que está acontecendo, meu filho?

         Com as mãos apertando a barriga o garotinho reclamou, em lágrimas:

         — Minha barriga dói, mamãe! Ai! Ui! Ai! Não agüento mais!...

         Cheia de ternura, a mãezinha colocou o pequeno no colo e passou a massagear- lhe a região da dor, enquanto ele se aconchegava ao seu seio.

         — Por que, mamãe, estou sofrendo tanto? Será que o Papai do Céu não gosta mais de mim? — perguntou, com a voz entrecortada pelos soluços.

         Acalentando-o ainda mais junto ao peito, a mãezinha explicou:

         — Não é nada disso, meu filho. Deus ama a todos nós da mesma maneira: a você, a mim e às outras pessoas. Nós é que, muitas vezes, com nossas atitudes, causamos o próprio sofrimento.

         Fez uma pausa, para ver se o garoto estava entendendo, e perguntou:

         — Vejamos: o que foi que você comeu hoje?

         Dinho, que prestava atenção no que a mãe dizia, franziu a testa no esforço de se lembrar, e, parando de chorar, respondeu:

         — Quando levantei, tomei um copo de leite e comi bolachas.

         — Ótimo! E na hora do almoço?

         — Comi arroz, feijão, bife e batatinha frita, que gosto muito!

         — Muito bem! E foi só isso? Será que não esqueceu alguma coisa?

         O menino concentrou-se e depois acrescentou, satisfeito:

         — Tomei sorvete de morango!

         — Isso mesmo, Dinho. Mais alguma coisa?

         — Não. Só comi isso.

         — Pense bem, meu filho!

         Dinho não saberia dizer se foi o olhar da mãe que parecia saber tudo, mas a verdade é que baixou a cabeça, com o rosto vermelho, sentindo-se descoberto. Lembrou-se de que, na parte da tarde, foi até o armário onde sua mãe guardava as guloseimas para repartir com a família, pegou uma caixa de bombons e comeu tudo, tudo, tudo, sozinho, escondido atrás da casa.

         Esfregando as mãos, com medo da reação da mãe, ele contou o que tinha feito.

         Sem reprovar o comportamento do menino, ela considerou:

         — Está vendo, Dinho? A dor não foi mandada por Deus, meu filho. Ela é conseqüência da sua gulodice. Se você tivesse repartido com seus irmãos a caixa de chocolates, não estaria passando mal e sentindo dor.

         Nesse momento, ouviram o barulho de um trem que chegava. De longe escutaram seu apito estridente: PIUIIIIII... PIUIIIII...

         A mãezinha aproveitou a oportunidade e explicou:

         — Está escutando o apito do trem?

         — Estou.

         — Pois bem! O maquinista está comunicando a todos que o trem está se aproximando da cidade e que é preciso tomar cuidado. É um aviso! Da mesma forma, meu filho, a dor também é um alerta do nosso corpo avisando que algo não vai bem dentro dele e que é preciso tomar cuidado. Entendeu?

         — Entendi, mamãe. A dor é nossa amiga! É por isso que a gente vai ao médico?

         — Isso mesmo, meu filho! Normalmente, quando estamos com algum problema, procuramos o médico que saberá nos ajudar.

         — Então, hoje nós iremos ao médico?

         A mãezinha sorriu, completando:

         — Neste caso, não há necessidade. O doutor, que conhece você muito bem e sabe da sua gulodice, já prescreveu um remédio natural para essas ocasiões. Agora, vou dar-lhe algumas gotinhas que ajudarão seu organismo a melhorar, amenizando a dor. Está bem?

         Dinho sorriu, confiante e satisfeito. Sentia-se seguro, porque o Pai do Céu o amava e porque tinha uma mãezinha tão sabida e tão boa.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O recém-nascido



         Em certa região bem distante, morava um homem muito pobrezinho. Um dia, andando pela mata à procura de lenha para vender, à margem do caminho encontrou uma cesta e, dentro dela, viu uma criança.

         Ouviu o choro fraco do recém-nascido, que estava cuidadosamente embrulhado numa manta e, cheio de compaixão, pegou o pequenino aconchegando-o ao peito.

         De coração generoso, imediatamente resolveu levá-lo para casa. Preocupava-o, porém, a pobreza extrema em que vivia. Como cuidar do bebê, prover-lhe as necessidades, ele, a quem muitas vezes faltava o que comer? Quem sabe alguém com mais recursos, que passasse por aquela estrada, poderia ficar com ele e dar-lhe uma vida melhor?

         Contudo, ouvindo os vagidos da criança que o fitava com olhinhos vivos, comentou alto:

         — Não posso abandoná-la aqui exposta aos perigos. Deus vai me ajudar! Além disso, sempre quis ter um filho. Melhor dividir com esta criança a minha pobreza do que deixá-la entregue a destino incerto.

         Como se entendesse a decisão que o lenhador tomara, o recém-nascido se aquietou e dormiu tranqüilo.

         Chegando em casa, o homem abriu a porta e disse:

         — Mulher, veja o que eu trouxe!

         A esposa, curiosa, aproximou-se e abriu o embrulho que o marido trazia nos braços. O recém-nascido dormia serenamente, e seu coração se enterneceu. Cheia de alegria, exclamou:

         — O filho que sempre quisemos ter! Deus ouviu nossas preces!

         Ao mesmo tempo, consciente da miséria em que vivia, indagou, aflita:

         — Mas, como vamos cuidar do bebê, João? Não temos comida nem para nós! E uma criança precisa de cuidados especiais!

         Confiante, o marido respondeu:

         — Não se aflija, Ana. Se o Senhor nos mandou este bebê, certamente nos dará os meios para sustentá-lo.

         Era um menino e deram-lhe o nome de Benvindo.

         A partir desse dia, tudo mudou. A casa, antes triste e sem vida, tornou-se alegre e cheia de risos.

         João, mais estimulado ao trabalho, agora não se limitava a procurar lenha no mato para vender. Buscava outras fontes de renda.

         Sabendo da criança, um sitiante das redondezas vendeu-lhe uma cabra por preço módico que João poderia pagar como pudesse. Assim estava garantido o leite do bebê.

         A vida estava mudando. Mas isso não bastava. O que mais poderia fazer?

         João, na soleira da porta da casa, olhava o terreno que se estendia à sua frente e pensou que poderia cultivá-lo. Assim, teriam verduras, legumes e talvez algumas frutas.

         Não pensou duas vezes. O homem que lhe vendera a cabra arrumou-lhe também sementes e mudas diversas, satisfeito por vê-lo interessado no trabalho.

         João pegou o machado e derrubou algumas árvores, limpando o terreno. Depois, fez canteiros e jogou as sementes no solo. Plantou as mudas e cuidou delas com muito amor.

         Logo, tudo estava diferente. À medida que Benvindo crescia, forte e saudável, as plantas igualmente se desenvolviam na terra fértil.

         Dentro de pouco tempo, no terreno, antes inculto e abandonado, os legumes e as verduras surgiam, encantando a vista e trazendo fartura. As árvores frutíferas logo começaram a produzir: agora tinham bananas, laranjas, maçãs, mangas e limões à vontade. Como a produção fosse grande, além de terem alimentos, João passou a vender as frutas, os legumes e as verduras excedentes.

         Com o coração alegre pelas novas funções como mãe, transformando sua casa num lar, Ana passou a cuidar com mais carinho da moradia, a exemplo do marido, plantando um jardim e cultivando flores que enfeitavam e perfumavam o ambiente.

         Benvindo crescia aprendendo a trabalhar com o pai. Era um menino vivo e inteligente. Ainda pequeno, João contou a ele como o encontrara abandonado e da satisfação de trazê-lo para casa, afirmando sempre:

         — Você é nosso filho muito querido. Foi Deus quem o mandou para nós.

         O tempo passou. Benvindo começou a freqüentar a escola, na aldeia. João e Ana faziam questão absoluta que o filho não fosse um analfabeto, como eles.

         Mas, apesar de se considerarem ignorantes, souberam dar ao menino noções realmente importantes para sua vida, como amor a Deus e ao Evangelho de Jesus. E ele cresceu sabendo valorizar a honestidade, o trabalho, o respeito ao próximo, o perdão das ofensas e, acima de tudo, o bem.

         Já moço, Benvindo foi morar numa cidade grande para continuar os estudos. Terminando o curso, com grande satisfação dos pais, ele retornou para casa e disse, emocionado:

         — Papai, não sei como agradecer tudo o que fizeram por mim. Criança abandonada, poderia ter morrido de fome e de frio, mas graças a sua bondade, vim para esta casa como filho que tanto tem recebido de ambos. Tudo o que sou hoje devo a vocês. Muito obrigado!

         Enxugando as lágrimas, Benvindo fitou o pai, já velhinho e encarquilhado, abraçando-o com profundo amor.

         Comovido, João pegou o filho pela mão e levou-o para fora de casa, onde se descortinava lindo panorama: bem próximo, o jardim cheio de flores coloridas e perfumadas; um pouco mais além, do lado esquerdo, as árvores do pomar, carregadas de frutos. Do lado direito, a perder de vista, a horta, onde as verduras e legumes produziam fartamente.

         — Está vendo tudo isso, meu filho?

         — Sim, meu pai. É uma imagem que não me canso de admirar. Como é bonita a nossa propriedade!

         — Pois bem. Nada disso existia antes de você vir para cá. Eu e sua mãe, envelhecidos e cansados da vida, não tínhamos disposição para lutar. Passamos até fome.

         Fez uma pausa, limpou uma lágrima, e prosseguiu:

         — Quando você chegou, meu filho, encheu-nos de esperança e de novo ânimo. Precisávamos alimentá-lo, vesti-lo, cuidá-lo. Para isso, tive que trabalhar muito. Mas o resultado aí está.

         Abraçando o filho com imenso carinho e justo orgulho, apontou as terras cultivadas:

         — Assim, devemos tudo isso a você! E devo mais ainda. Devo a você, meu filho, a oportunidade e a bênção de ser chamado de PAI!

         A mãe, que chorava comovida, aproximou-se também e permaneceram abraçados por longo tempo.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O Sapo sabido



         Quac era um sapo muito sabido e todos o admiravam pela sua inteligência e sabedoria.

         Na lagoa onde residia, era ele quem ensinava outros sapos e rãs, fazendo às vezes de professor.

         Mas, justamente por ser sábio, havia aqueles que tinham inveja dele e desejavam o seu mal.

         Croc era um desses. Orgulhoso e egoísta, sentia-se enciumado toda vez que seus irmãos, os outros sapos, demonstravam afeição por Quac, pois não admitia que ninguém fosse melhor do que ele.

         Por isso, resolveu dar-lhe uma lição.

         Croc sabia que no tronco de certa árvore, um pouco distante da lagoa, habitava uma serpente.

         Certo dia convidou Quac para darem um passeio e, perto da árvore onde sabia morar a serpente, parou e disse:

         — Ali no tronco daquela árvore existem minhocas muito apetitosas.

         Aos pulos, Quac para lá se dirigiu e, qual não foi sua surpresa quando, de dentro do buraco, surgiu uma cobra de cabeça erguida e de língua de fora, pronta para dar o bote.

         Ele levou um susto danado! Deu um pulo para o lado e escapou por pouco, desaparecendo no meio do mato.

         Croc ficou muito decepcionado porque o sábio Quac escapou do bote da serpente.

         Alguns dias depois, Quac andava procurando comida pela mata, quando viu alguns homens que, munidos de faroletes e redes, dirigiam-se para a lagoa. Eram caçadores de rãs. Esperavam a noite cair para, sem piedade, dizimarem seus irmãos sapos.

         Rapidamente, aos pulos, Quac voltou para a lagoa e, encontrando Croc, avisou-o do perigo que estava correndo, e notificou também os outros do grupo, alertando-os para que se escondessem o mais depressa possível.

         E assim eles fizeram, escondendo-se bem. Em pouco tempo os homens chegaram e não encontraram nenhuma rãzinha.

         Procuraram... procuraram... mas as rãs tinham sumido, então os caçadores foram embora muito irritados por não terem conseguido caçar nada.

         Aliviados, os sapos saíram de seus esconderijos e comemoraram a vitória, agradecendo ao querido Quac por salvar suas vidas.

         Croc estava pensativo. Aproximando-se de Quac, perguntou por que ele os alertara do perigo, especialmente ele, Croc, quando teria sido mais fácil fugir, abandonando-os à própria sorte.

         Arregalando os grandes olhos, Quac respondeu:

         — Porque eu aprendi que devemos fazer aos outros o que desejamos que os outros nos façam!

         Croc meditou sobre estas palavras e sentiu-se envergonhado da atitude que tivera.

         Pediu perdão a Quac, afirmando:

         — Você é realmente um grande sábio e muito bom também. Agora compreendo porque todos o admiram.

         E, a partir desse dia, tornaram-se verdadeiros amigos e a paz voltou a reinar na lagoa.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Páscoa



         Olá, meu amiguinho!

         Chegamos ao domingo de Páscoa! É um dia muito feliz porque logo lembramos de presentes, de coelhinhos e de ovos de chocolate! Contudo, a verdadeira Páscoa não é nada disso.

         Você sabe o que representa a Páscoa?

         Originalmente, a Páscoa é uma festa anual dos hebreus, que comemoram a saída do seu povo do cativeiro no Egito.

         Muito tempo depois, tornou-se uma festa anual dos cristãos, porque foi exatamente na Páscoa judaica que Jesus foi preso, julgado e condenado a morrer na cruz, entre dois ladrões. Era sexta-feira.

         No domingo, Maria Madalena e outras duas mulheres, levando aromas e ervas para embalsamar o corpo de Jesus, foram até o túmulo e o encontraram vazio. Depois, Maria Madalena viu Jesus e conversou com ele, compreendendo que ele tinha ressuscitado.

         Então, em memória de Jesus, que retornou em espírito e verdade após a sua morte, os cristãos passaram a comemorar a Páscoa.

         Esse fato, conhecido como a ressurreição de Jesus, é dos acontecimentos mais importantes e decisivos, pois representa a prova da imortalidade da alma, que o Cristo tanto havia pregado.

         Quanto ao costume de presentear com ovos, vem dos tempos antigos, quando os pagãos celebravam a volta da primavera oferecendo uns aos outros ovos de galinha, pintados de cores vivas, hábito que ainda existe em certos países.

         E o que é que o coelho tem com isso?

         Muitos povos têm o coelho como símbolo da fertilidade, representando a renovação da vida, assim como o próprio ovo.

         E os ovos de chocolate, tão gostosos?

         Para incentivar as vendas no período que antecede à Páscoa, alguém uniu o útil ao agradável. Inventou os ovos de chocolate, que os comerciantes passaram a vender com grande sucesso.

         Podemos ganhar e comer ovos de chocolate, sem culpa. Não podemos nos esquecer, porém, de que o significado da Páscoa é muito importante para nós, cristãos.

         Neste domingo de Páscoa, então, vamos nos lembrar de Jesus, agradecendo a ele pela sua vida, pelo exemplo que nos deixou e pelo seu Evangelho, que é luz em nossas almas.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Receita milagrosa



         Ricardo, de oito anos, era o terror do seu bairro.

         Onde estivesse, estaria criando problemas. Rebelde e irreverente, ele brigava com todo mundo.

         Na escola, os colegas evitavam se aproximar dele. Mas assim mesmo, onde passava deixava descontentes: mexia com um, batia em outro, xingava um terceiro.

         Na sala de aula, a professora escutava um grito, e lá vinha reclamação:

         — Professora, o Ricardo jogou meus livros no chão!

         — Professora, o Ricardo roubou meu lanche!

         — Professora, olha o Ricardo! Está me provocando!

         Era assim o tempo todo. Uma reclamação atrás da outra. Até que a professora perdia a paciência, colocava o menino para fora da sala e o mandava à diretoria.

         Na rua era o mesmo problema. Ricardo não conseguia jogar bola em paz com os vizinhos. O jogo sempre acabava em briga.

         Em casa, então, nem se fala! Ricardo entrava dando pontapé na porta, batendo nos irmãos menores, desrespeitando a mãe, reclamando de tudo, quebrando os utensílios domésticos. Resultado: acabava levando uma surra do pai, que estava sempre bêbado.

         Ninguém agüentava mais. Era preciso fazer alguma coisa!

         A professora, preocupada, resolveu mudar de tática. Assim, certo dia, após as aulas, ela o chamou:

         — Ricardo, quer limpar o meu jardim para mim?

         O menino aceitou, satisfeito. Acompanhou a professora até a casa dela e foi logo perguntando pela enxada.

         — Depois você começa o serviço, Ricardo. Antes, vamos almoçar!

         O garoto sentou-se e comeu com vontade. Ao terminar disse:

         — Puxa! Faz muito tempo que não como tão bem.

         Obrigado, dona Neuza. Lá em casa não é todo dia que tem comida. E, quando tem, a mãe divide um pouco para cada um.

         A professora olhou o menino, cheia de compaixão. Jamais pensou que a família dele fosse tão pobre.

         — E seu pai, Ricardo, o que ele faz ?

         — Fica em casa o tempo todo, bebendo. Está desempregado há meses. Quando saio da escola, ele me obriga a pedir esmolas na rua. Com o dinheiro que eu ganho, que nos faz tanta falta, ele compra bebida e se tranca no quarto. Se uma das crianças fizer qualquer barulho, ele fica violento. Dá uma surra em todo mundo.

         — Ah!... E sua mãe?

         — Minha mãe trabalha muito. É lavadeira e ganha uma miséria. Ela precisa cuidar de meus quatro irmãos menores e não tem tempo para mim. Acha que já sou bem crescido e que posso cuidar de mim mesmo — respondeu tristonho.

         A professora sentiu um nó na garganta e seus olhos umedeceram.

         Ricardo foi para o jardim e pôs-se a arrancar o mato que crescia no meio da grama.

         Mais tarde, dona Neuza ofereceu-lhe um lanche e, quando ele terminou o serviço, deu-lhe dez reais.

         Ricardo ficou eufórico. Nunca ganhara tanto dinheiro!

         — Obrigado, professora. Vou passar no supermercado e levar comida para casa. Mamãe ficará contente!

         Dona Neuza sentiu-se emocionada com a atitude do menino, que mostrava preocupação pela família.

         Percebeu que o problema dele era um só: Falta de amor! Ele se sentia rejeitado, tinha necessidade de amor e fazia tudo para chamar a atenção das pessoas.

         Desse dia em diante, dona Neuza passou a tratá-lo de maneira diferente. Todas as manhãs dava-lhe um abraço, um beijo, e dizia-lhe o quanto gostava dele.

         Durante as aulas, quando terminava os deveres, ela demonstrava sua satisfação, acompanhada de um sorriso:

         — Você está indo muito bem, Ricardo. Ótimo! Continue assim. Parabéns!

         Às vezes convidava Ricardo para almoçar e encarregava-o de pequenos serviços, que remunerava. Dava-lhe roupas, calçados, brinquedos e livros.

         Até o levava para passear, ocasiões em que lhe pagava um sorvete, um sanduíche ou um doce.

         O menino estava feliz. Sentia-se importante. Sentia-se amado.

         A professora foi mais longe. Visitou a casa de Ricardo e conversou com a mãe dele, dona Cida.

         Sabendo das dificuldades da família, arrumou um emprego para o pai, chamando-o à responsabilidade. Informada de que dona Cida sabia costurar, conseguiu-lhe uma máquina de costura. Assim, ela ganharia mais, trabalharia menos e poderia dispor de mais tempo para cuidar dos filhos.

         Aos poucos, as coisas foram entrando nos eixos. Algum tempo depois, todos podiam notar a mudança que se operara no comportamento de Ricardo.

         Andava mais bem arrumado, estava mais alegre, tranqüilo, não brigava com ninguém e fazia as lições com capricho. Nada de reclamações!

         As pessoas, curiosas, perguntavam à professora :

         — O que você fez? Como conseguiu mudar o comportamento de Ricardo em tão pouco tempo? Que receita milagrosa foi essa que você usou?

         E a professora respondia com um sorriso:

         — A receita milagrosa? É de Jesus: Um pouco de amor!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A bola colorida



         Brincando no quintal, Susana, de seis anos, viu seu amigo Érico do outro lado da cerca.

         Feliz por ver o vizinho, ela o chamou:

         – Érico, venha brincar comigo! Acabo de ganhar uma linda bola colorida!

         Com os olhos brilhantes de animação, o pequeno pulou a cerca baixa, indo ao encontro da amiguinha.

         Susana segurava a bola com as mãos e o menino ficou encantado.

         Era realmente uma bola de plástico de belo colorido, que chamaria a atenção de qualquer criança.

         Puseram-se a brincar no gramado.

         Érico tinha um cão. Um vira-lata caramelo e branco, vivo e inteligente, que gostava de brincar e de passear com eles.

         De repente Bob, cachorro de Érico viu os dois brincando e não teve dúvida. Passou por um buraco na cerca e, latindo alegremente, avançou, querendo participar da brincadeira. Em disparada, pulou sobre a bola e suas garras afiadas a alcançaram no ar. Para espanto das crianças e do próprio cão, que não sabia o que estava acontecendo, a linda bola colorida caiu na grama, murcha, vazia, rasgada, enquanto o cachorro gania, frustrado.

         Susana, surpresa, não queria acreditar no que estava vendo. Num momento, a bola estava no ar, cheia e linda; no momento seguinte, era um trapo qualquer, vazio e sem graça.

         Revoltada por ter perdido o brinquedo novo, começou a chorar, acusando Érico pelo acidente:

         – Buááá!... Está vendo o que você fez?

         – Não tive culpa, Susana. Desculpe-me. Foi o Bob que quis brincar conosco. Coitado! Ele também não teve intenção de estragar sua bola. Veja como está triste!

         – Não interessa. O cachorro é seu e, portanto, a culpa é sua. Quem mandou deixá-lo entrar no meu quintal? A partir de agora você não é mais meu amigo. Vá embora!

         O menino e o cachorro estavam desolados. Érico tentou explicar, mas Susana não o deixou falar. Apesar das lágrimas do garoto e dos uivos do cão, a menina não reconsiderou sua atitude.

         Virou-lhe as costas e entrou em casa muito zangada, enquanto Érico e o cachorro ficavam parados, tristes.

         Susana, cheia de indignação, contou para a mãe o que tinha acontecido, pedindo-lhe que tomasse uma atitude contra o vizinho.

         A senhora, serena, considerou:

         – Minha filha, entendo que você esteja lamentando a perda da sua bola. Contudo, é só um brinquedo, e, pelo que entendi, a culpa não foi de ninguém. Seu pai lhe comprará outra, fique tranquila.

         – Não quero! Quero aquela bola! Nunca mais falo com Érico. Nunca mais quero vê-lo!

         A mãezinha calou-se, compreendendo que não adiantaria falar mais nada naquela hora.

         Os dias se passaram. Susana, da janela da cozinha, via Érico encostado na cerca, tristinho de fazer dó. Porém não amolecia o coração.

         Certo dia, uma semana depois, a mãe lhe disse:

         – Minha filha, vejo que você anda meio chateada, não brinca mais...

         – Não tenho vontade, mamãe. Sozinha não tem graça.

         – Chame o Érico. Ele está lá do outro lado da cerca – sugeriu.

         – Não. Não quero.

         – Ele não é seu melhor amigo? Vocês sempre se deram tão bem!

         – Era! Agora não é mais.

         A mãe pensou um pouco, chamou a filha, sentou-a no colo com carinho, e considerou:

         – Minha filha, amizade é um tesouro de valor incalculável. E você está perdendo esse tesouro por uma colorida bola de plástico, frágil, que estragou na primeira brincadeira? Pense bem! Bola igual àquela você encontra em qualquer loja, mas uma amizade valiosa, não.

         Susana ficou pensativa por alguns instantes. Depois, decidiu-se.

         Abriu a porta e voou para o quintal. Aproximou-se da cerca, convidando:

         – Vamos brincar?

         O garoto, meio sem jeito, perguntou:

         – Não está mais zangada comigo? Afinal, por minha culpa perdeu sua bola nova. Mas, não se preocupe. Falei com minha mãe e ela vai lhe comprar outra.

         Susana sorriu, já esquecida do incidente:

         – Isso não tem importância. Sua amizade vale muito mais!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A Banda



         Numa classe, a professora estava tendo dificuldade em explicar aos seus pequenos alunos sobre os cuidados que se deve ter com o próprio corpo. Dizia ela:

         — É preciso cuidarmos de nosso corpo para que ele possa funcionar bem. Cada órgão tem uma função própria e trabalha para executar a sua tarefa, obedecendo à harmonia do conjunto. Por exemplo: o coração é responsável por bombear o sangue, levando-o a todas as partes do corpo através das artérias; o estômago processa a comida; os rins filtram o sangue; os pulmões cuidam da respiração. Tudo isso sob o comando do cérebro. Entenderam?

         Os alunos olhavam com cara de dúvida, mas o pequeno Rogério meneou a cabeça, afirmando, convicto:

         — Não.

         A professora tentou explicar de novo, de maneira diferente, mas viu que eles continuavam sem entender direito.

         Aí ela teve uma idéia. Aproveitando o desejo de realizar um projeto que tinha em mente, perguntou:

         — Vocês têm em casa algum instrumento musical de brinquedo?

         Muitos levantaram a mão.

         — Eu tenho um tamborzinho, professora! — disse Rogério.

         — E eu, um pianinho! — afirmou Aline.

         — Tenho uma sanfona! — gritou Maurício, do fundo da sala.

         Assim, apareceram mais três cornetas, duas flautas, uma gaita, um prato e duas violas.

         Satisfeita, a professora pediu que trouxessem os brinquedos no dia seguinte. Apesar de não saberem qual a intenção da professora, as crianças obedeceram.

         No dia seguinte chegaram, curiosas, portando seus instrumentos musicais.

         Entrando na sala, a professora explicou:

         — Com esses instrumentos, vamos formar uma banda. O que acham?

         As crianças adoraram. A professora ordenou:

         — Muito bem! Agora prestem atenção! Quando eu der sinal, vocês começam a tocar.

         E assim ela fez. Disse “já”, e todos começaram a tocar ao mesmo tempo.

         Foi uma confusão! Barulho ensurdecedor tomou conta da classe.

         A outro sinal, elas pararam.

         Os alunos estavam horrorizados. Alguns até taparam os ouvidos para o ruído infernal que se fizera.

         — O que acharam? — perguntou a professora.

         — Horrível! — respondeu o pequeno Rogério, ao que todos concordaram.

         A professora sorriu e explicou:

         — Realmente, estava muito ruim. Para tocar em conjunto, é preciso aprender. Só assim teremos um som bonito e harmonioso. Mas, não se preocupem. Vocês vão aprender!

         Dali em diante passou a orientá-los, ensinando como cada um deveria tocar seu instrumento até que estivessem todos afinados. Muitos dias depois, quando já estavam em condições de tocar em conjunto, ela resolveu fazer o ensaio geral.

         Sob a regência da professora, eles começaram a tocar o que tinham aprendido. Ficou lindo! Os sons saíram dos instrumentos na hora certa, na medida exata, numa integração harmoniosa e agradável ao ouvido.

         As crianças estavam maravilhadas! Jamais esperavam que pudesse sair tão bonita a melodia simples que tocaram.

         Bateram palmas, se abraçaram, pulando de satisfação e de alegria.

         Quando os alunos se acalmaram, a professora perguntou:

         — E então? Perceberam a diferença? É que, agora, ninguém toca o que quer, como quer. Cada um toca uma parte diferente da mesma música, seguindo uma ordem e com disciplina. Isto é um conjunto!

         Fez uma pausa e indagou:

         — Será que essa bandinha tem alguma relação com nosso corpo?

         Para sua satisfação, foi Rogério quem respondeu:

         — Claro que tem, professora! Acho que os músicos são como os órgãos do corpo! E eu sou o coração, porque toco tambor e dou o ritmo!

         — Isso mesmo! Parabéns, Rogério!

         O regente representa o cérebro, que comanda o corpo, não é professora? — concluiu outra aluna.

         — Certo! Vocês entenderam muito bem! Então, para que o corpo funcione bem é preciso que cada parte, cada órgão, cumpra direitinho sua função. Já pensaram se cada órgão do corpo resolver trabalhar como quiser? Seria um caos! Assim, temos que cuidar da higiene, nos alimentarmos de forma sadia, protegendo e cuidando do corpo que Deus nos concedeu, para termos saúde orgânica. Manter o pensamento elevado, cultivar a paz, para termos equilíbrio e saúde espiritual. Entenderam?

         Todos tinham entendido.

         A partir desse dia, o sucesso da bandinha foi tanto que passaram a se apresentar em todas as festas da escola, agradando a todos. Deram até um nome para a banda: CORPO MUSICAL.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Salvando uma vida



         Era um lindo sábado de sol. Henrique passeava com seu pai caminhando sob a sombra das árvores no parque municipal.

         Calado, o pequeno Henrique pensava. Ficara impressionado com algumas cenas que tinha visto no dia anterior durante a transmissão do jornal de uma emissora de televisão.

         ¬¬— Papai, como pode existir gente que mata outras pessoas? — perguntou.

         Apertando mais a sua mãozinha, o pai respondeu:

         — É mesmo muito triste, não é, meu filho? Isso acontece porque os homens ainda trazem o mal no coração. Se todos se amassem como irmãos, isso não aconteceria. Seríamos todos como uma grande família!

         O garoto, de apenas seis anos, mas muito observador, pensou um pouco e retrucou:

         — Mas ontem mesmo eu vi na televisão uma notícia que um pai foi preso porque machucou seu filho! Eu pensei que todos os pais amassem seus filhos!

         Naquele momento estavam passando por um banco e o pai convidou:

         — Vamos nos sentar e descansar um pouco.

         Acomodados no banco, o pai fitou o menino que aguardava uma resposta, e prosseguiu:

         — Todas as pessoas, Henrique, são espíritos em evolução. Deus, que é o Supremo Criador, criou os seres para a evolução. Através de muitas vidas, todos progridem e se aperfeiçoam, tornando-se melhores. Desde os micróbios, que nós não vemos porque são muito pequenos, até os astros celestes que contemplamos à distância, tudo progride.

         O menino estava surpreso e pôs-se a perguntar:

         — Ah! E o meu gatinho? E as flores desse jardim? E os peixes que vimos no lago? E...

         O pai sorriu amorosamente, completando:

         — Tudo, meu filho. Os minerais, os vegetais, os animais e os seres humanos. Tudo evolui. Assim, quando a criatura humana comete maldades, significa que ainda tem muito o que aprender. Até mesmo os pais, que os filhos julgam serem as melhores pessoas do mundo, embora amem seus filhos, são imperfeitos e trazem agressividade dentro de si. Com o tempo, todas as pessoas se tornarão boas e só praticarão o bem: a si mesmas, aos seus semelhantes e ao mundo em que vivem.

         — Ah!...

         — Por isso, devemos respeitar a natureza, respeitando a vida.

         Henrique, que ouvia com muita atenção, lembrou:

         — Mas os homens matam os animais para comer. Coitadinhos!

         — Sim, meu filho, mas isso faz parte da nossa cultura e tende a desaparecer. O pior é que há homens que matam e destroem por prazer. Os animais, que são inferiores a nós, só matam para se defender ou para saciar a fome. Mas o homem mata por maldade os próprios irmãos de raça, e os animais, por esporte; destrói a natureza por ambição, queimando as matas, sujando os rios e poluindo as cidades.

         O garoto, com carinha preocupada, exclamou:

         — Puxa, papai! Eu quero fazer alguma coisa para ajudar!

         — Muito bem, meu filho. Todos nós podemos ajudar a preservar o nosso planeta para que ele seja melhor, mais limpo e mais agradável. Sabe como? Dando o exemplo de amor e respeito pela vida e mostrando às outras pessoas como devem agir.

         Henrique sentiu-se naquele instante como um homenzinho a quem fosse conferida grande tarefa.

         Era tarde. Hora de voltar para casa.

         Recomeçaram a caminhar, quando viram, vindo em sentido contrário, uma garotinha e sua mãe.

         A menina, que tinha acabado de comprar um sorvete, desembrulhou o picolé, jogando o papel no chão.

         Quando mãe e filha se aproximaram de Henrique e seu pai, um pequeno grilo surgiu do meio dos arbustos, saltando entre eles.

         As reações foram diferentes. A garota tirou o sorvete da boca e correu até onde estava o inseto, levantando ameaçadoramente o pé para esmagá-lo.

         Henrique também correu, e, mais rápido, jogou-se no chão e conseguiu pegar o grilo, antes que ela o atingisse com o pé.

         Depois se levantou, ainda ofegante, acariciou o assustado grilo que repousava na palma de sua mão, sorriu satisfeito e disse:

         — Por que queria matá-lo? Deixe-o viver! Ele não lhe fez mal algum!

         E, ante o assombro de mãe e filha, coradas de vergonha, Henrique fitou o pai com orgulho, afirmando:

         — Temos que preservar a vida, não é papai?

         Em seguida, sem esperar resposta, reiniciou sua caminhada.

         Deu alguns passos, mas sentiu que ainda faltava alguma coisa. Parou, virou-se para a menina e completou:

         — E saiba que lugar de papel é no lixo!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A cobra



         Caminhando por uma estrada de terra batida, no meio da mata, Lúcia ia tranquila.

         Morava num sítio das redondezas e dirigia-se à escola, distante uns quinhentos metros de sua casa.

         De súbito, dentre a vegetação, surgiu, se arrastando, enorme e ameaçadora cobra. Colocando-se no meio do caminho, ela armou o bote e ficou esperando.

         A princípio assustada, a menina parou. Pensou em voltar.

         Naquele momento, porém, lembrou-se de tudo o que já aprendera. Sua mãe sempre lhe dizia que tudo na Natureza é criação de Deus, e que devemos respeitar qualquer forma de vida, seja ela humana, animal ou vegetal.

         Assim, enchendo-se de coragem, tendo o cuidado de manter uma boa distância, dirigiu-se ao réptil dizendo:

         — Minha amiga Dona Cobra. Nada tenho contra a senhora. Ao contrário, somos todos irmãos, porque filhos de um mesmo Pai, que é Deus. Estou a caminho da escola e preciso passar por este lugar, que a senhora está ocupando. Assim, se fizer a gentileza de deixar-me passar, eu lhe ficarei muito grata.

         A voz da menina, serena e doce, aquietou o animal, que a contemplava com seus olhinhos miúdos. Depois, parecendo compreender o que lhe foi dito, coleou pela terra lentamente, desaparecendo no meio do mato.

         Lúcia, grata a Deus pela proteção que lhe dera, continuou seu trajeto até a escola.

         Durante horas, ali permaneceu entregue às atividades escolares, esquecendo-se do incidente.

         Mais tarde, quase no horário de tocar o sinal para a saída, chegou alguém. Era um homem que tinha socorrido um menino. Ainda assustado, contou ele:

         — Eu vinha a cavalo pela estradinha, quando vi um moleque ao longe, na minha frente. Ele tinha um pau na mão, e brincava, batendo nas árvores à beira do caminho, assustando os passarinhos e afugentando os pequenos animais. Percebi quando uma enorme cobra surgiu à sua frente. Quis avisá-lo do perigo, gritar para que ficasse quieto, sem fazer movimentos bruscos, mas não deu tempo. O menino, ágil, levantou o porrete, tentando esmagar a cobra. Ela, porém, foi mais rápida e, dando um bote certeiro, picou-o.

         — E o garoto, como está? — perguntou a professora, aflita.

         — Felizmente, foi socorrido há tempo. Encontra-se no hospital da cidade, sob cuidados médicos. Como ele estivesse com uma mochila escolar, pelo horário, cheguei à conclusão de que era um aluno que tinha “matado” a aula, e a trouxe para a senhora. Aqui está ela! — disse ele, entregando a mochila à professora.

         — É do Roberto! Bem que estranhei ele não ter comparecido hoje à escola! Muito obrigada, senhor. E os pais dele, já foram informados?

         — Exatamente por isso vim aqui. Não sei onde ele mora. Se me disser o endereço do garoto, irei avisar à família dele.

         A professora explicou onde Roberto morava, e o bom homem despediu-se, apressado.

         Após a saída dele, Lúcia comentou:

         — Deve ser a mesma cobra que encontrei hoje cedo na estrada!

         — É verdade? Você viu uma cobra? Conte-nos! Como foi isso? — quis saber a professora.

         E Lúcia, diante da classe que a ouvia com atenção, relatou o que tinha acontecido com ela, como se portou diante do perigo e como a cobra se afastou, sem molestá-la.

         O silêncio se fez na sala. Todos estavam perplexos e pensativos.

         Ficou muito claro como o comportamento de cada um determinara uma reação diferente do animal. O respeito de Lúcia e a agressão de Roberto geraram conseqüências diversas.

         A professora, satisfeita com a lição, completou:

         — Se Roberto tivesse vindo para a escola, como era seu dever, não estaria agora sofrendo e nem dando preocupação a seus pais. Nada mais há para ser dito. Está terminada a aula.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A sementinha



         Beto estava muito triste. Seu cão ficou doente e, apesar de todos os cuidados, morreu em seus braços sem que ele nada pudesse fazer para impedir.

         Já havia se passado uma semana, mas Beto continuava inconsolável. Não se conformava com a morte do cãozinho Vira.

         Lembrava, com saudade, do dia em que encontrara Vira, ainda um filhote, perdido na rua perto de sua casa. Tinha aspecto de cão abandonado. Seu pêlo era ralo e feio, estava muito magro e gania de fazer dó. Tinha fome, certamente.

         Apesar da feiúra, Beto sentiu imediata simpatia por ele. Tomou-o no colo e, quando o cãozinho lambeu seu rosto, já estava decidido a levá-lo para casa.

         Recebeu o apelido de Vira, de tanto os familiares caçoarem do pobre e feio filhote, dizendo que ele era um legítimo exemplar da raça dos Vira-latas. Assim, apesar do nome que Beto lhe dera, Rex, passou a ser chamado carinhosamente de Vira.

         Desde esse dia, tornaram-se inseparáveis. Só não estavam juntos quando Beto ia para a escola e durante a noite, pois a mãe proibira, terminantemente, que o animalzinho dormisse no quarto, como era desejo do menino.

         O resto do dia eles divertiam-se a valer: brincavam de bola, apostavam corridas, passeavam na calçada, ou, simplesmente, rolavam na grama.

         Vira transformara-se num belo cachorro. Limpo e bem cuidado, em nada lembrava o filhote magro e feio que Beto encontrou um dia.

         Mas agora Vira estava morto. Beto sentia muita falta da sua companhia e vivia a chorar pelos cantos. A mãe não sabia mais o que fazer para alegrá-lo.

         Um dia, ela teve uma idéia. Apanhou uma semente de flor e disse:

         — Meu filho, quer ajudar-me a plantar esta semente?

         Apesar de não ter vontade nenhuma, Beto aceitou, apenas para agradá-la.

         Dirigiram-se para o jardim e a mãe foi explicando como o serviço deveria ser feito:

         — Primeiro você fará um buraco no solo. Depois depositará a semente na cova e cobrirá com um pouco de terra. Esta semente, meu filho, lançada ao solo, irá morrer e, depois de algum tempo, germinará.

         O menino, que ainda era pequeno, não entendeu direito e perguntou:

         — Como assim?!...

         — Bem, meu filho, tudo o que existe na face da Terra, e que tem vida, precisa morrer para nascer de novo, isto é, voltar a viver. Como isso acontece, só Deus, que é a Suprema Sabedoria e o Criador de tudo o que existe, o sabe. Mas assim acontece com as plantas, com os animais e com as pessoas, para que todos evoluam, tornando-se cada vez melhores!

         Beto ouviu muito sério e compenetrado. Em seguida, indagou:

         — Isso vai acontecer também com o Vira?!...

         — Sem dúvida! Só que a sementinha dele, que é o espírito, renascerá de uma outra mãe, em outro local.

         — Ah!... E eu poderei reconhecê-lo?

         — Quem sabe? Se nascer aqui por perto, isso é possível! Ele poderá apresentar o mesmo jeitinho, as mesmas manias, as mesmas tendências.

         — Então, se algum dia eu reencontrar o Vira, vou reconhecê-lo, mamãe, e tenho certeza de que ele também vai se lembrar de mim.

         Beto calou-se, mas a mãe percebeu que, ao deixarem o jardim, ele já estava diferente, menos triste e bem mais animado.

         A partir desse dia, Beto cuidou com muito carinho da sementinha que tinha lançado a terra. Cercava-a de atenções, não deixando faltar água. Ele passava horas sentado no chão, ali perto, pedindo a Jesus que permitisse à semente germinar, enquanto observava cuidadosamente o local onde a depositara.

         Até que, alguns dias depois, cheio de alegria e entusiasmo ele correu para a mãe, agitando os braços e gritando:

         — Ela brotou, mamãe! Ela brotou! A sementinha está viva de novo! Viva!...

         A mãezinha deixou os afazeres domésticos e foi até o jardim. Os olhos do menino estavam brilhantes de emoção, e ela percebeu como tudo aquilo era importante para seu filho.

         Envolveu-o carinhosamente num abraço, afirmando:

         — Você cuidou muito bem da semente que lhe confiei, meu filho, e Deus atendeu às suas preces. Parabéns!

         Desse dia em diante, acompanhando o desenvolvimento da plantinha, Beto enchia-se cada vez mais de esperança, de confiança e de gratidão a Deus, Supremo Doador da Vida.

         Logo, a plantinha cobriu-se de lindas e perfumadas flores, que Beto não se cansava de admirar e mostrar para as outras pessoas, cheio de justa satisfação, dizendo:

         — Fui eu que plantei!

         Agora, a idéia da morte não lhe causava mais tristeza ou medo. Ao contrário, sentia-se tranqüilo e confiante, compreendendo que a morte era apenas uma etapa natural na vida de todos os seres da Criação, que morreriam e voltariam a nascer, muitas e muitas vezes, para atingir o sublime objetivo da evolução.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O intruso



         Alberto era uma criança muito feliz. Tinha apenas quatro anos e sentia-se o centro do Universo. Rodeado pelo amor de quantos conviviam com ele, bastava que manifestasse um desejo e logo os pais se apressavam em satisfazê-lo.

         O quarto de Alberto, decorado especialmente para ele, era cheio de brinquedos.

         Certo dia a mamãe informou, com lindo e doce sorriso:

         — Alberto, você vai ganhar um irmãozinho!

         O menino sentiu que o mundo desabava sobre sua cabecinha. Não sabia bem o que era isso, mas percebeu que sua vida ia ser invadida por um estranho. Ouvindo a mãe referir-se ao intruso com amor, dentro dele acendeu-se uma luz de alerta que parecia dizer:

         — PERIGO! PERIGO! PERIGO!...

         Com o passar dos dias, suas suspeitas se confirmaram. Um dia a mamãe convidou:

         — Vamos sair e comprar roupinhas para o bebê?

         E lá foram eles percorrer as lojas e escolher roupinhas e presentes para o intruso.

         E dali por diante era sempre assim:

         — Temos que comprar móveis para o quarto do bebê!

         — O bebê vai precisar de uma banheira!

         — Que tal comprar ursinhos de pelúcia para enfeitar o quarto do bebê?

         Que tal comprar isso, que tal comprar aquilo... Era sempre assim.

         E não parou por aí. Um dia a mamãe chamou Alberto e perguntou com delicadeza:

         — Filhinho, quer trocar de quarto?

         — Por quê?

         — Porque eu e seu pai achamos que será melhor montar o quarto do bebê ali.

         — Por quê?

         — Você ficará com um quarto maior e mais bonito. Você se incomoda?

         Alberto não se incomodou e mudou de quarto. Mas só por fora. Por dentro, a cada dia gostava menos desse “irmãozinho” que nem chegara e já fazia tanta confusão em sua vida.

         A barriga da mamãe começou a aumentar, e ela falava com carinho:

         — Veja, Alberto, o nenê está se mexendo. Coloque a mão na minha barriga e sinta.

         — Não. Não quero.

         — Então venha almoçar, meu filho.

         — Não.

         — Por que não quer comer?

         — Porque não gosto dessa comida.

         E Alberto, num repente, empurrou o prato que caiu ao chão em mil pedaços, espalhando comida para todo lado.

         Ele mostrava-se irritado, nervoso, e a mãe perguntou:

         — Por que fez isso? De uns tempos para cá, você está ficando insuportável, meu filho. Está manhoso e chorão, coisa que nunca foi. Se continuar assim, vai levar umas boas palmadas no bumbum.

         Alguns meses depois, a mãe foi para a maternidade, e Alberto ficou a sentir-se sozinho e abandonado, em casa. Na verdade, ficou com a vovó, enquanto o pai acompanhava a mamãe até o hospital.

         Quando sua mãe voltou, trazia um embrulho nos braços. Alberto, saudoso, correu para abraçá-la, gritando de alegria:

         — Mamãe! Senti muito a sua falta! Que bom que você voltou!

         Em vez de abraçá-lo com carinho, ela disse:

         — Cuidado, meu filho! Não faça barulho. Vai acordar o bebê. Veja, Alberto, é seu irmãozinho! Não é lindo?

         O garoto contemplou o pequeno rosto vermelho que saía do meio das roupas e deu sua opinião:

         — Não. Ele é feio. Muito feio.

         Se Alberto achava que antes o bebê ocupava muito o tempo e as atenções da mãe, agora então nem se fala! Ele desejava ficar junto da mãe, mas o colo dela estava sempre ocupado. Lidava o dia inteiro com o bebê. Dava de mamar, trocava as fraldas, dava banho, fazia dormir.

         Nem durante a noite “aquela coisinha” dava sossego. Ninguém mais dormia naquela casa. O intruso chorava o tempo todo.

         E as visitas? Gente que nunca tinha aparecido na sua casa, agora vinha visitar e trazer presentes. Sabem para quem? Para o bebê, é claro!

         Cada vez mais Alberto sentia-se infeliz e descontente. E cheio de raiva, também.

         Enquanto a mãe conversava com as amigas, ele aproximava-se do bebê fingindo abraçá-lo. Apertava suas bochechas. No fundo, gostaria mesmo é de machucar aquele intruso.

         — Veja como ele gosta do irmãozinho! Não sai de cima dele! — dizia a mãe, convicta.

         — Alberto está com ciúmes porque perdeu o colo!

         O menino olhou para a mulher que tinha dito aquelas palavras, fez uma careta e saiu da sala, emburrado.

         Ele não sabia o que fazer. A cada dia o “inimigo” ganhava mais espaço e ele era deixado de lado.

         A mamãe, percebendo o que estava acontecendo com Alberto, tomou-o no colo com muito carinho e disse:

         — Meu filho, nós o amamos muito. Não é porque ganhamos um outro bebê que deixamos de amar você. Os pais amam os filhos da mesma maneira e com o mesmo amor. Deus, que é Pai de todas as criaturas, nos deu a vida e nos colocou em famílias para que pudéssemos viver juntos nos ajudando mutuamente e aprendendo uns com os outros. Seu irmãozinho é um espírito que o Papai do Céu mandou para que nós cuidássemos dele, protegendo-o e educando-o de forma a se conduzir bem na vida. Entendeu? Você não precisa ficar com ciúmes dele. O que acontece é que, no momento, ele precisa mais de mim. Como você, quando era bebê!

         Alberto ficou mais tranqüilo depois dessa conversa e, com o passar do tempo, foi prestando mais atenção no bebê, até que, um dia, ele sorriu! Aquela coisinha feia e desengonçada, abriu um lindo sorriso.

         Foi tão inesperado que deixou Alberto surpreso e encantado.

         — Mamãe! Veja, ele sorriu para mim. O bebê é meu amigo!

         — Viu? Ele gosta de você, meu filho. O primeiro sorriso dele foi para você!

         A partir desse dia, Alberto passou a ver o irmão com outros olhos. Já não o achava tão feio. Até que era engraçadinho!

         A mãe agora tinha mais tempo para Alberto e, sempre que necessário, pedia sua ajuda para cuidar do bebê, enquanto fazia os serviços domésticos.

         Sentindo-se mais seguro e feliz, Alberto esperava ansiosamente que o irmãozinho crescesse para poderem brincar juntos.

         Afinal, o bebê não era mais um intruso. Era seu amigo!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Encontro com a realidade



         Marcos era um menino que, não obstante ter tudo, não dava o menor valor às coisas que possuía.

         Nunca estava contente com os brinquedos que ganhava, reclamava sempre das roupas que sua mãe comprava com tanto carinho.

         Mas o pior mesmo é quando chegava a hora das refeições. Marcos nunca estava satisfeito, a comida sempre ruim e sem gosto.

         Sua mãezinha aconselhava-o, preocupada com seu bem-estar:

         — Coma um pouco, meu filho. Você precisa se alimentar!

         — Não quero! Não gosto de nada! Esta comida está uma droga. Quero chocolate e biscoitos.

         — Mas meu filho — insistia a mãe com carinho e tolerância — você nem experimentou! A carne assada está uma delícia. Além do mais, os alimentos são necessários para nosso organismo. Você acabará ficando fraco...

         O garoto fazia uma careta de desagrado e respondia mal-educado:

         — Não. Não quero. Não gosto de carne assada. Ainda se fosse uma torta de frango...

         A mãe suspirava, desanimada.

         No dia seguinte, porém, à hora do almoço, a mãezinha afirmava contente:

         — Hoje fiz o que você queria, meu filho. Veja o que temos para o almoço. Uma linda e apetitosa torta de frango!

         O menino fazia uma careta e reclamava, mal-humorado:

         — Torta de frango?!... Logo hoje que estou com vontade de comer uma macarronada?

         E assim acontecia sempre: no café da manhã, no almoço, no jantar. Nada estava bom.

         Ele não se alimentava a não ser de bobagens, e a cada dia se enfraquecia mais, embora sua mãe o aconselhasse, preocupada:

         — Marcos, meu filho, temos que saber agradecer a Deus o que nos concede. Existem muitas crianças que dariam tudo para ter o que você tem e não dá valor.

         Marcos tinha um colega na escola que vivia sempre muito calado. Era um menino humilde, bom e delicado, e Marcos gostava dele.

         Certo dia, Marcos reclamou da insistência de sua mãe para que ele se alimentasse e perguntou se a dele, João, também era assim.

         — Não — respondeu João com simplicidade.

         — Como? Sua mãe não insiste para que você coma?

         — Não. Minha mãe me deixa à vontade.

         Marcos ficou todo entusiasmado:

         — Ah! Como gostaria de morar na sua casa! Estou cansado da vida que levo. Eu não poderia passar uns dois dias com vocês? Olhe, este final de semana estarei livre; meus pais vão viajar e ficarei com os empregados. Não será difícil convencer mamãe a deixar-me ficar em sua casa. Por favor, eu gostaria muito!

         Com a insistência de Marcos, Joãozinho concordou, relutante.

         Não tinham muito tempo, pois já era sexta-feira. Concedida permissão para passar o final de semana com o amigo, Marcos arrumou algumas coisas numa pequena mochila e foram para a casa de Joãozinho.

         Andaram... andaram... andaram muito. Essa foi a primeira decepção de Marcos, pois a casa ficava muito longe, num bairro distante do centro da cidade.

         Ao chegarem, o menino estranhou a simplicidade da moradia. Era uma pequena construção de madeira, pintada de creme e cercada por um jardinzinho.

         João apresentou o amigo à sua mãe, explicando que Marcos iria ser hóspede da casa por dois dias. Amável, a senhora falou-lhe com um sorriso amigo:

         — Seja bem-vindo, meu filho!

         Alegando que estava cansado, Marcos pediu para repousar um pouco, indagando onde era o quarto que iria ocupar.

         — Aqui mesmo! — apontou Joãozinho — Dormiremos meu irmão, você e eu no mesmo quarto. Você e meu irmão ocuparão as camas, eu durmo no chão.

         Marcos nada disse, mas não gostou de repartir o quarto com outras pessoas. Sempre tivera o seu próprio quarto.

         A refeição foi frugal, consistindo em chá com pão. Estranhando, Marcos perguntou: — Só isso?

         — Só. Essa é a nossa janta. — respondeu a dona da casa com delicadeza — Desde que meu marido morreu, nossa situação ficou muito difícil e luto para sustentar a casa. Aceita um pouco de chá?

         — Não gosto de chá, obrigado.

         — Sinto muito. Não temos outra coisa para lhe oferecer. Quando tenho dinheiro compro leite, mas hoje não deu.

         Marcos foi dormir com o estômago vazio. Na manhã seguinte, o café foi mais magro ainda. Não havia pão, só chá.

         Era sábado e não teriam aula. A mãe de Joãozinho acordou-os cedo. Precisavam ajudá-la nos cuidados com a horta.

         A contragosto, Marcos trabalhou a manhã inteira. Na hora do almoço estava esfomeado. Para comer, havia alguns ovos, cenouras e couves, colhidos na horta, e arroz.

         Com a fome que estava, Marcos até aceitou a comida simples com prazer. Após o almoço ajudaram nas tarefas domésticas, depois foram brincar.

         Àquela altura, Marcos já estava com fome novamente. Lembrava-se da comidinha gostosa e farta de sua mãe, dos doces saborosos, dos biscoitos... e sentiu uma profunda saudade. Agora tudo aquilo lhe parecia tão importante!

         A mãe de Joãozinho tinha feito pão e o cheiro de pão assado era muito convidativo. Comeu pão e tomou chá, como se fosse a melhor refeição do mundo.

         Após o final de semana, quando voltou para casa, estava bem diferente. Ao encontrar sua mãe Marcos falou-lhe comovido:

         — Estava com muita saudade, mamãe.

         — Como foi o passeio? — perguntou ela, sentindo que algo acontecera.

         — Sabe, mamãe, aprendi muita coisa. Aprendi até a gostar de chá, cenouras e couves! Joãozinho é um menino muito pobre e eles quase não têm o que comer. Ele não tem roupas, nem brinquedos e seus sapatos estão furados. Agora entendo porque a senhora disse que temos que agradecer a Deus tudo o que temos.

         A mãe abraçou o filho, emocionada.

         — Que bom, meu filho, que você agora pensa assim.

         — Compreendo agora que a vida pode ser muito difícil e acho que tive um encontro com a realidade. Quero pedir que a senhora vá comigo até a casa do Joãozinho. Tem tanta coisa que não preciso e que faz falta a eles!

         A mãe fitou com os olhos rasos de lágrimas aquele garoto de oito anos e que agora lhe parecia um homenzinho, falando tão sério e compenetrado.

         Abraçou-o com imenso carinho, agradecendo a Deus a proveitosa lição que seu filho tivera.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O tesouro do Cristo



         Conta-se que há muito tempo atrás, Paulo de Tarso e seu amigo Barnabé estavam viajando a serviço da divulgação da doutrina cristã.

         Levavam a palavra do Mestre, pregando o seu Evangelho para povos incultos e rudes, mas necessitados de Deus. Viajavam com muita simplicidade, geralmente a pé, levando o mínimo indispensável para sua sobrevivência.

         Certa vez, estavam passando por regiões desertas, cheias de precipícios e de florestas infestadas de bandidos. Seu destino era a cidade de Antioquia da Pisídia, que ainda estava longe. Pela primeira vez, foram obrigados a dormir ao relento, no seio da natureza.

         Venceram precipícios, atravessaram rio caudaloso e, do outro lado, encontraram uma caverna nas rochas, onde se acomodaram para descansar o corpo exausto e dolorido.

         Quase não tinham o que comer, mas estavam animados, vencendo obstáculos com otimismo e coragem.

         A solidão lhes sugeria belos pensamentos.

         Ao cair da tarde e após uma refeição frugal, passaram a comentar animadamente sobre as excelências do Evangelho, exaltando a grandeza da missão de Jesus Cristo.

         – Se os homens soubessem... – dizia Barnabé, fazendo comparações.

         – Todos se reuniriam em torno do Senhor e descansariam – rematava Paulo cheio de convicção.

         – Ele é o príncipe que reinará sobre todos.

         – Ninguém trouxe a este mundo riqueza maior.

         – Ah! – comentava Barnabé. – O tesouro de que foi mensageiro engrandecerá a Terra para sempre.

         E, assim, continuaram conversando, quando singular movimento lhes despertou a atenção. Dois homens armados precipitaram-se sobre ambos, à fraca luz de uma tocha acessa com resinas.

         – A bolsa! – gritou um dos malfeitores.

         Barnabé empalideceu ligeiramente, mas Paulo estava sereno e impassível.

         – Entreguem o que têm ou morrem! – exclamou o outro bandido, alçando o punhal.

         Olhando fixamente o companheiro, Paulo ordenou:

         – Dá-lhes o dinheiro que resta. Deus suprirá nossas necessidades de outro modo.

         Barnabé esvaziou a bolsa que trazia entre as dobras da túnica, enquanto os malfeitores recolhiam, ávidos, a pequena quantia.

         Reparando nos pergaminhos do Evangelho que os missionários consultavam à luz da tocha improvisada, um dos ladrões interrogou desconfiado e irônico:

         – Que documentos são esses? Falavam de um príncipe opulento... Ouvimos referências a um tesouro... Que significa isso?

         Com admirável presença de espírito, Paulo explicou:

         – Sim, de fato, estes pergaminhos são o roteiro do imenso tesouro que nos trouxe o Cristo Jesus, que há de reinar sobre os príncipes da Terra.

         Um dos bandidos, grandemente interessado, examinou o rolo de anotações do Evangelho.

         – Quem encontrar esse tesouro – prosseguia Paulo, resoluto – nunca mais sentirá necessidades.

         Os ladrões guardaram o Evangelho cuidadosamente e, apagando a tocha bruxuleante, desapareceram na escuridão da noite.

         Quando se viram a sós, Barnabé não conseguiu dissimular o assombro:

         – E agora? – perguntou com voz trêmula.

         – A missão continua bem – disse Paulo, cheio de ânimo. – Não contávamos com a excelente oportunidade de transmitir a Boa Nova aos ladrões.

         Admirando-se de tamanha serenidade, Barnabé considerou, um tanto preocupado:

         – Mas levaram-nos, além das moedas, os derradeiros pães de cevada, bem como as capas com que nos agasalhávamos...

         – Haverá sempre alguma fruta na estrada – esclarecia Paulo, decidido – e quanto às coberturas, não tenhamos maior cuidado, pois não nos faltarão as folhas das árvores.

         – Mas, como recomeçar nossa tarefa, se não temos sequer as anotações do Evangelho?

         Paulo, todavia, desabotoando a túnica, retirou alguma coisa que guardava junto ao coração.

         – Enganas-te, Barnabé. – disse com sorriso otimista. – Tenho aqui o Evangelho que ganhei de meu mestre Gamaliel e que guardei sempre comigo com muito carinho.

         O missionário apertou nas mãos o tesouro do Cristo e o júbilo voltou a iluminar-lhe o coração.

         Aqueles homens valorosos poderiam dispensar todo o conforto do mundo, mas a palavra de Jesus não poderia faltar.

Tia Célia

(Adaptação da obra “Paulo e Estevão”, de Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier.)

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O salvamento



         O dia estava lindo. Um sol radioso brilhava no céu sem nuvens.

         Bruno resolveu ir à praia brincar e jogar bola com uns amigos.

         Duas horas depois, cansados da brincadeira, os garotos pararam para descansar um pouco.

         De repente, Bruno olhou para o mar e viu alguém que parecia estar em dificuldades.

         — Socorro! Socorro! Acudam! — gritava o rapazinho.

         — É o Zeca! — disse alguém — Conheço aquele rapaz.

         Naquela praia não havia guarda-vidas. Bruno, apavorado, olhou para todos os lados, esperando que alguém se jogasse na água para salvar o garoto.

         Todavia, os adultos que ali estavam não tomavam nenhuma atitude. Ficaram assustados e sem ação, apenas olhando fixo para o menino que gritava por socorro.

         Bruno sentiu que precisava fazer alguma coisa. Era preciso salvar aquele rapazinho, de qualquer jeito.

         Ele sabia nadar um pouco, porém não tinha muito fôlego e também não ignorava que para retirar de dentro da água alguém que estava se afogando, era preciso muita força e destreza, caso contrário correria o risco de também morrer afogado.

         Mas alguém tinha que fazer alguma coisa. Pesando os prós e os contras, resolveu arriscar, pensando:

         — Eu confio em Deus. Ele vai me ajudar!

         Jogou-se na água, nadando rápido contra as ondas, indo ao encontro do Zeca.

         Estava já cansado, quando, ao olhar para trás, viu que diversos homens igualmente haviam se jogado na água para tentar salvar o garoto e, rapidamente, o estavam alcançando.

         Mais tranqüilo Bruno diminuiu o ritmo das braçadas, e foi com imenso alívio que viu os homens passarem por ele, aproximando-se do rapazinho em dificuldades.

         Dentro em pouco, a turma do salvamento chegou à praia trazendo o menino, desacordado.

         Após os primeiros-socorros, o garoto voltou a si, começando a respirar novamente e jogando para fora a água que havia engolido.

         Foi uma alegria geral! Todos estavam muito felizes e agradecidos a Deus por terem salvo uma vida.

         Recuperado, Zeca agradeceu a seus salvadores:

         — Muito obrigado. Se não fosse a coragem de vocês, eu teria morrido.

         Um dos homens respondeu, envergonhado:

         — Não agradeça a nós, garoto. O corajoso realmente foi esse menino aqui, o Bruno, que, sem pensar na sua própria segurança e nos riscos que corria, jogou-se no mar para salvar você.

         Zeca olhou para Bruno com os olhos cheios de lágrimas:

         — Bruno, você é incrível! Nem sei como lhe agradecer. Mas, diga-me, você acha que conseguiria me salvar? Sou bem maior do que você e iria dar trabalho! Como você iria me carregar?

         Bruno coçou a cabeça, deu um sorrisinho e respondeu:

         — Na verdade não sei, Zeca. Porém, tinha muita confiança em Jesus e a esperança de que outras pessoas também seguissem meu gesto e se jogassem na água. Foi o que aconteceu, graças a Deus!

         Os demais estavam emocionados diante do gesto corajoso de Bruno. O menino se sacrificara para dar o exemplo a todos os que estavam apenas observando, sem ação.

          E, com o amparo de Deus e a coragem de Bruno, uma vida fora salva.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Presente para Jesus



         Quando a professora entrou na sala, os alunos estavam conversando entre si e cada um falava do presente que iria pedir no Natal.

         Aproveitando a oportunidade, já que este seria o último dia de aula antes do encerramento do ano letivo, a professora lembrou aos seus alunos:

         — Na Festa de Natal comemora-se o nascimento de Jesus. Então, o aniversariante é Jesus e não devemos ficar tão preocupados em ganhar presentes. Ao contrário, devemos nos lembrar das palavras do Mestre quando disse que tudo o que fizermos aos mais necessitados será a ele mesmo que estaremos fazendo.

         — Mas então o que podemos fazer, professora? — perguntou um dos garotos.

         — Isso é vocês que devem resolver. Pensem e decidam.

         De toda a classe, somente Vera, Carla e Raul ficaram preocupados com as palavras da professora.

         A caminho de casa eles iam conversando. Eram vizinhos e amigos, e estavam sempre juntos.

         — O que podemos dar de presente de Natal para as pessoas, como se o estivéssemos dando ao próprio Jesus? — perguntou Carla, pensativa.

         — Que tal dar balas e doces? Cada um de nós pedirá dinheiro à sua mãe e compraremos as guloseimas. Depois, sairemos distribuindo às pessoas! — sugeriu Raul.

         Vera, porém, ponderou:

         — Desse modo, na verdade serão nossas mães que estarão dando os presentes, não nós, porque não temos dinheiro! Então, penso que não podem ser coisas que precisamos comprar. Que tal darmos nossas roupas?

         Carla e Raul ficaram pensativos durante alguns instantes, depois Carla retrucou:

         — Acho que não daria certo. Mesmo porque, se nós dermos nossas roupas, teremos que comprar outras! Ou então, daremos as que não usamos mais e que nem gostamos. Não seria um verdadeiro presente.

         — Já sei! — disse Raul — e se fizermos visitas às casas?

         — Bem lembrado. Contudo, só a visita não é suficiente. Também precisamos levar “algo mais”. Mas, o quê?!... E não pode ser de comprar porque não temos dinheiro! — lembrou Vera.

         Afinal, Carla, de olhos brilhantes, disse:

         —Tive uma idéia! Se nós desejamos dar alguma coisa, e não pode ser adquirido com dinheiro, mas deve representar nosso esforço, nosso sentimento, que tal levarmos alegria e espírito natalino através da música? Olhem! Nós três gostamos de cantar. Podemos ensaiar algumas músicas natalinas e, na véspera do Natal iremos cantar para as pessoas! Que tal?

         Vera e Raul bateram palmas, aplaudindo a idéia.

         Assim, os três amiguinhos escolheram as músicas e ficaram dias ensaiando.

         Na véspera do Natal, se arrumaram direitinho e saíram de casa percorrendo as ruas do bairro. Paravam na frente das casas, começavam a cantar e, ao ouvirem as vozes infantis, os moradores abriam as portas, atraídos pelas belas melodias.

         E em cada casa que eles passavam, os moradores iam acompanhando o pequeno grupo, que crescia sempre. Percebendo o movimento, eles olharam para trás e perceberam, com emoção, que agora todas as pessoas do bairro os acompanham e cantavam junto com eles. A alegria, o entendimento e a fraternidade haviam dominado os corações de todos, graças àquelas crianças.

         Como a noite avançasse, sorridentes e felizes, os moradores resolveram fazer uma grande festa no meio da rua.

         Em pouco tempo, trouxeram mesas, cadeiras, toalhas e enfeites natalinos. Cada um colaborou com os pratos que havia preparado em casa para a sua ceia, e, juntando tudo, uma linda festa surgiu!

         Pessoas necessitadas, moradores de rua, se aproximaram, encantados, e também participaram, tornando-se a grande festa realmente uma comemoração digna do Aniversário de Jesus.

         Vibrações de paz, amor e fraternidade envolveram a todos. Vizinhos que estavam brigados fizeram as pazes. Pessoas que não se conheciam, começaram a conversar e se tornaram amigas, aumentando os elos afetivos.

         Estavam todos satisfeitos e abraçaram Carla, Vera e Raul, agradecendo-lhes pela excelente idéia.

         Pela primeira vez na vida, sentiam-se mais perto de Jesus, comemorando a Festa de Natal como se o Divino Aniversariante estivesse ali presente!

         FELIZ NATAL!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Mãos unidas



         A família reunida em torno de uma mesa fazia o Evangelho no Lar.

         O tema da noite era a Caridade e, após a leitura do texto evangélico, cada um fez seu comentário. A pequena Sônia, de cinco anos, falou:

         — Papai, eu vi na televisão que o Natal está chegando e as lojas estão cheias de brinquedos!

         — Sim, minha filha. Mas essa é uma deturpação da idéia do Natal, que deveria ser dedicado a Jesus, cujo nascimento comemoramos no dia 25 de dezembro — esclareceu Antonio.

         Orlando, de oito anos, lembrou:

         — Além disso, tem muita gente que não pode comprar presentes. Vi outro dia no jornal que, em virtude de uma grande chuva numa região, muitas famílias perderam tudo e estão desabrigadas.

         A mãe, dona Clara, disse cheia de piedade:

         — Tem razão, meu filho. Ao lado dos felizes do mundo, também há muito sofrimento e dor que nos compete amenizar. Aqui mesmo, em nossa cidade, existem bairros muito pobres onde as pessoas não têm o que comer, e muito menos terão condições de pensar em comprar presentes no Natal.

         O mais velho, Ricardo, de 12 anos, que estava bastante pensativo, propôs:

         — A lição de hoje é sobre a Caridade, lembrando-nos que precisamos dividir o que possuímos, ajudando os mais necessitados. Que tal se partíssemos para a ação, fazendo alguma coisa?

         Satisfeitos por ver que a semente do evangelho germinava, os pais concordaram:

         — Muito bem lembrado, Ricardo. O que vocês sugerem?

         — Eu dou minhas roupas velhas e alguns brinquedos! — exclamou Soninha.

         — Eu também vou separar algumas roupas e brinquedos. Além disso, tenho sapatos e tênis que não me servem mais — disse Orlando.

         — Ótimo! — afirmou Ricardo que, por ser o mais velho, parecia o chefe da pequena equipe. — Mas isso não basta. É pouco. Precisamos pedir ajuda para todas as pessoas conhecidas: vizinhos, parentes, amigos, colegas de classe, professores.

         Os demais concordaram animados, batendo palmas.

         Das palavras passaram à ação e, em poucos dias, as doações começaram a chegar: eram gêneros alimentícios, roupas, calçados, brinquedos, remédios, livros e até alguns utensílios domésticos e móveis.

         Os pais levaram as crianças para conhecer os bairros mais pobres da periferia e eles voltaram sensibilizados, chegando à conclusão de que precisavam de mais auxílio, pois a quantidade de necessitados era enorme.

         Ricardo foi à emissora de rádio local e transmitiram-se pedido de ajuda para a “Campanha Mãos Unidas”, como passaram a chamar, e a resposta não tardou.

         Choveram donativos de todos os lados, do campo e da cidade, dos bairros mais ricos e até dos pobres. Todos queriam colaborar.

         No dia de Natal, encerrando a “Campanha Mãos Unidas”, puseram tudo num caminhão e foram levar o resultado obtido para as famílias carentes.

         Uma grande quantidade de pessoas que haviam colaborado os acompanhou e todos estavam muito felizes. Cada um ajudou como pôde, até se vestindo de palhaço para distribuir balas e alegrar a criançada.

         Foi uma grande festa. No encerramento, Antonio fez uma prece, agradecendo a Deus em nome de todos, pelas bênçãos desse dia, no que foi acompanhado por uma multidão de pessoas de todos os credos religiosos.

         Todos retornaram para seus lares cheios de felicidade e bem-estar, especialmente a família de Antonio, pois não fosse o empenho das três crianças, não teriam este ano um Natal realmente diferente e dedicado a Jesus e aos menos afortunados.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Aprendendo a viver



         Morando numa pequena casa em um bairro humilde, Toninho vivia inconformado.

         Na escola via colegas mais bem-vestidos, calçando tênis caros, e sentia-se triste. Gostaria de ser como um deles, ter casa bonita, passear no “shopping center”, ter brinquedos sofisticados, “vídeo-games”. Ouvia o relato dos amigos sobre a programação de final de semana, e ficava humilhado.

         Por que só ele tinha uma vida tão chata e tão sem atrativos?

         Nunca podia comprar nada de diferente, usava o par de tênis que não servia mais para o seu irmão, e suas roupas estavam velhas e surradas. É bem verdade que a mamãe as trazia sempre limpas e bem-passadas, mas Toninho sentia-se mal por usar sempre as mesmas roupas.

         Ao chegar em casa para o almoço, reclamava. A comidinha era simples e nunca tinha pratos diferentes.

         – Outra vez feijão com arroz?

         O pai, operário de uma fábrica, respondia com paciência:

         – E não está bom? Tem muita gente que não tem o que comer, meu filho! Vamos agradecer a Deus, pois nunca passamos fome.

         Toninho não respondia. Abaixava a cabeça e punha-se a comer, de má-vontade.

         Certo dia, Toninho saiu chateado de casa. Brigara com os pais, pois queria uma calça jeans que tinha visto numa loja no centro da cidade e seu pai lhe dissera que era impossível naquele momento. Não tinha dinheiro.

         Nervoso, engolindo as lágrimas e chutando uma lata, Toninho foi para a rua. Andou bastante, sem destino. Cansado, parou para descansar um pouco. Logo, uma menina aproximou-se dele e pediu uma moeda.

         Ele olhou admirado para a garota, afirmando:

         – Não tenho dinheiro!

         – Mas você parece rico. Deveria ter dinheiro.

         Toninho, espantado, olhou melhor para a menina, achando graça.

         – Então, acha que sou rico?

         – Pois não é? Está limpo, bem-vestido, bem-calçado. Aposto que tem até uma casa!

         Toninho, que sempre se considerara muito pobre, perguntou:

         – Tenho. Por quê? Você não tem uma casa?

         A menina respondeu, apontando para um lugar ali perto:

         – Não. Moro debaixo daquele viaduto ali.

         O garoto, que nunca se dera conta da verdadeira pobreza, estava horrorizado. A menina, cujo nome era Júlia, convidou-o para conhecer “sua casa” e ele a acompanhou.

         Lá chegando, Toninho viu um casal simpático acendendo o fogo num fogão improvisado com tijolos. Também havia outras famílias dividindo o local.

         Os pais de Júlia o receberam com um sorriso. Haviam recebido alguns gêneros alimentícios e estavam contentes. Teriam o que comer naquele dia e poderiam até ajudar outras famílias que ali estavam.

         – Não se assuste – disse a mãe de Júlia a Toninho –, nem sempre estivemos nesta situação. Acontece que há alguns meses meu marido foi dispensado na indústria onde trabalhava e está desempregado até hoje. Não pudemos mais pagar o aluguel e fomos despejados. Para comprar o que comer, nós fomos vendendo os móveis e eletrodomésticos que possuíamos. Assim, perdemos o jogo de sofá, a geladeira, o fogão, o aparelho de som, as camas. Agora, estamos morando aqui debaixo desse viaduto. Mas, não pense que estamos tristes. Não, de modo algum! Sempre agradecemos a Deus por termos onde nos abrigar. Existem pessoas que nem isso possuem!

         Toninho sentiu um nó na garganta. Despediu-se, emocionado.

         Chegando em casa, Toninho sentiu a segurança e o aconchego do ambiente doméstico. Entrou na cozinha e um cheiro bom de comida veio do fogão.

         Seu pai chegou da fábrica e se sentaram à mesa para comer. Toninho pediu para fazer a oração de agradecimento.

         – Muito obrigado, Senhor, por tudo o que temos. Pela nossa casa, pela família, pela comida. E que nunca nos falte o necessário para viver. Assim seja.

         Notando que o filho estava emotivo e diferente, o pai explicou:

         – Meu filho, amanhã vou receber um dinheiro extra e poderei comprar aquela calça jeans que você tanto deseja.

         Para sua surpresa, Toninho respondeu:

         – Não, papai, não precisa. Isso agora já não tem qualquer importância.

         Vendo o espanto dos pais, que não estavam entendendo, o menino contou-lhes a história de Júlia, sua nova amiga.

         Os pais de Toninho também quiseram conhecer a família de Júlia, que tanto bem fizera a seu filho, e tornaram-se amigos. O pai de Toninho explicou o caso na fábrica e, dentro de poucos dias, surgindo uma vaga, o pai de Júlia foi contratado.

         Na escola, agora o comportamento de Toninho era completamente diferente. O exemplo de otimismo e resignação daquela família havia tocado seu coração. Mostrava-se mais alegre, satisfeito e nunca mais se sentiu infeliz, reconhecendo que a vida é um bem muito precioso e que Deus dá a cada um o necessário para poder viver.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Lágrimas de arrependimento



         Ciro gostava muito de brincar no quintal de sua casa. À sombra acolhedora de uma grande árvore, ele passava horas, distraído com seus brinquedos.

         Era um lugar fresco e agradável, onde a luz do sol filtrava-se suavemente, e onde, muitas vezes, ele até adormecia com a cabeça apoiada em suas raízes possantes, cansado de brincar.

         A árvore era uma linda mangueira e dava frutos saborosos, que Ciro colhia com as próprias mãos ao sentir fome.

         Apesar de tudo isso, Ciro era um menino cheio de vontades, e certo dia começou a implicar com a árvore, desejando cortá-la.

         Chegando até sua mãe, ele disse:

         — Mãe, eu quero que a senhora mande cortar a mangueira.

         Surpresa, a mãe retrucou:

         — Por que, meu filho? Você sempre gostou tanto dela!

         Batendo o pé no chão o garoto respondeu:

         — Não gosto mais, ora essa. Ela toma muito espaço, faz muita sombra e está atrapalhando no quintal.

         Espantada, a senhora considerou:

         — Pense bem, meu filho. As árvores devem ser preservadas, pois são muito úteis e levam anos para crescer e produzir. Essa nossa mangueira dá mangas deliciosas e em seus galhos acolhedores os pássaros fazem seus ninhos, e...

         — Não adianta, minha mãe! — interrompeu-a o garoto caprichoso. — Quero que a ponha abaixo.

         Quando o pai chegou, após o serviço, foi informado da exigência do filho.

         Novo diálogo se estabeleceu tentando fazê-lo desistir da idéia. Tudo em vão. Não valeram conselhos e ponderações, argumentos e reprimendas. Ciro estava irredutível.

         Tanto ele gritou, chorou e reclamou que seus pais, apesar de considerarem um absurdo o seu desejo, resolveram fazer-lhe a vontade.

         Afinal, era filho único! E o que é que ele pedia que os pais não lhe davam?

         No dia seguinte, o pai mandou cortar a bela árvore com o coração amargurado.

         Ciro estava feliz. A cada golpe desfechado no tronco ele sorria. Afinal, o homem deu por terminado o serviço. Da bela mangueira só restara um toco.

         Ciro deu-se por satisfeito e foi brincar.

         Contudo, o sol muito forte doía-lhe os olhos e o calor era excessivo. Em poucos minutos estava cansado e todo cheio de suor. Resolveu entrar.

         A mãe, que o observava de longe, perguntou:

         — Não vai brincar mais, Ciro?

         Desapontado, o garoto respondeu:

         — Estou cansado. O sol está muito quente hoje.

         — Quer comer alguma coisa? — tornou a mãe, carinhosa.

         — Sim, mamãe. Gostaria de chupar uma manga.

         — Ah, meu filho, não temos mais mangas. Esqueceu que a mangueira foi destruída? As últimas que sobraram dei para o jardineiro levar!

         Despeitado, Ciro sentou-se nos degraus da porta da cozinha, olhando o quintal que lhe parecia tão estranhamente vazio agora.

         Observou muitos passarinhos que pareciam voar a esmo, sem lugar para ficar.

         Ciro lembrou-se que tinha visto, nos galhos derrubados, vários ninhos e compreendeu que aqueles pássaros haviam perdido suas casinhas. Também notou que estavam famintos, procurando migalhas no chão para comer.

         Com o passar dos dias, Ciro foi ficando cada vez mais arrependido da decisão que tomara.

         Não brincava mais no quintal. Tudo ficara sem graça, não tinha mais árvore para subir, o sol era inclemente e queimava tudo.

         Suspirando, um dia aproximou-se do toco, agora escuro e ressequido e, abraçando o que sobrara da mangueira, deu vazão à sua tristeza. Em lágrimas, ele começou a dizer.

         — Estou muito arrependido, minha amiga. Você não sabe a falta que me faz. Não sabia que você era tão importante para nós e agora nada mais tem graça. Não tenho mais sombra para brincar e o sol me queima. Os passarinhos ficaram sem saber o que fazer, como eu, e foram embora, em busca de outros galhos acolhedores. Ah! Se eu pudesse voltar atrás! Agora compreendo porque dizem que é preciso cuidar da ecologia, preservando as árvores. Sem vocês, tudo fica árido e feio...

         Ciro chorou... chorou muito, abraçado aos restos da sua velha companheira.

         Suas lágrimas de arrependimento, contudo, umedeceram o tronco ressequido e, alguns dias depois, ao aproximar-se dele, Ciro teve uma grande surpresa.

         Do meio do tronco, brotos frágeis e verdinhos surgiam como esperança de uma nova vida em seu âmago.

         Cheio de alegria, Ciro percebeu que o milagre da vida se repetia, e que a árvore voltaria a crescer, com a bênção de Deus!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O medo



         Glorinha saiu de casa para ir à escola como fazia todos os dias. E aquele parecia ser um dia como todos os outros. Mas não era.

         No trajeto, Glorinha percebeu que alguma coisa estava acontecendo. Nas ruas, as pessoas estavam agitadas, falavam alto e pareciam atemorizadas.

         Intrigada, a menina desejou saber qual a novidade. Ao passar diante da banca de jornais, viu duas mulheres conversando e, curiosa, parou para escutar. Uma dizia à outra:

         — Já se viu uma coisa dessas? Agora toda a cidade está em perigo!

         — Mas, como foi que ele escapou? — perguntava a outra.

         — Sei lá! Com certeza algum descuidado deixou aberta a porta da jaula e ele...zás! Fugiu!

         Quem teria fugido? Glorinha resolveu perguntar ao dono da banca, um velhinho muito simpático com quem sempre conversava.

         — Seo Antonio, “quem” foi que fugiu?

         O velhinho arregalou os olhos, levantou as sobranselhas e, ajeitando os óculos na ponta do nariz, informou:

         — Você não sabe, Glorinha? Pois foi um leão! Escapou do circo que chegou ontem na cidade.

         — Ah! Um leão?!... E ele é grande? — quis saber a menina.

         — Se é grande? Dizem que é enorme! E muito feroz também. Tenha cuidado ao andar pela cidade.

         Agradecendo o conselho, Glorinha continuou seu caminho. Agora, informada do que estava acontecendo, entendia melhor as conversas que ouvia de passagem.

         Encontrou dois homens e um deles dizia:

         — Olha, mandei minha mulher trancar toda a casa e não permitir que nossos filhos saiam para a rua. Os meninos não irão às aulas enquanto a fera não tiver sido capturada.

         E o outro concordava plenamente:

         — Tem toda razão. Certa vez ouvi contar que um animal escapou de um circo e feriu duas pessoas. Não podemos facilitar. Olha, já preparei até minha espingarda. Se o bicho aparecer, prego fogo!

         Cada vez mais assustada, Glorinha chegou à escola. Ali os comentários eram os mesmos: giravam em torno do terrível leão que escapara do circo.

         Preocupadas, as mães pediam às professoras que tomassem todo o cuidado com seus filhos. Outras eram de opinião que o melhor seria fechar a escola, dispensando os alunos das aulas naquele dia, ou até que fosse solucionado o problema.

         As crianças estavam apavoradas e ouviam-se gritos e choros por toda parte. Enfim, o ambiente estava um verdadeiro caos!

         A professora de Glorinha, moça tranqüila e de bom-senso, reunindo os alunos na classe considerou, serena:

         — O melhor que nós temos a fazer é manter a calma. A confusão apenas complica e o medo tem terrível poder sobre as pessoas, impedindo que se possa analisar e julgar com acerto. Não se preocupem. Fiquem tranqüilos que nada nos acontecerá. Estamos seguros neste prédio e, em qualquer circunstância, devemos confiar em Deus, que nunca nos desampara. Além disso, nem sabemos se tudo isso é verdade!

         Vendo que os alunos estavam mais calmos, a professora pediu que abrissem o livro, informando:

         — Vamos à lição do dia.

         Após as aulas, ao sair da escola Glorinha notou que a situação estava pior ainda. Agora, a confusão era geral. Carros da polícia percorriam as ruas da cidade orientando as pessoas para que permanecessem em suas casas. O corpo de bombeiros fora acionado e grupos de cidadãos, armados, procuravam pistas do terrível animal em todos os lugares da cidade e nos arredores, em defesa da população.

         Chegando em casa, Glorinha encontrou a mãe toda apavorada, tremendo de medo.

         — Graças a Deus você chegou, minha filha. Ocupada com o serviço doméstico, somente agora liguei o rádio e ouvi a notícia. Você está bem? O leão não te ameaçou?

         Glorinha, lembrando o que a professora tinha dito, falou:

         — Mamãe! Claro que estou bem! Além disso, minha professora disse que é importante manter a calma e confiar em Deus. Nada devemos temer.

         Como se fosse uma confirmação daquelas palavras, de repente elas ouviram um miado estranho na porta da cozinha. Pensando que era o gato da vizinha, Glorinha correu a abrir a porta, que a mãe havia trancado.

         Com surpresa, encontrou escondido num canto da escada uma coisa fofa e peluda que miava cheia de medo. Chegando mais perto, a menina reconheceu, naquele bichinho inofensivo, trêmulo e faminto, um filhote de leão.

         Pegando-o no colo, chamou a mãe e exclamou:

         — Veja, mamãe! Aqui está o terrível e feroz

         leão que faz a cidade toda tremer! Parece que ele está mais assustado do que nós!

         Dando uma sonora risada, completou satisfeita e aliviada:

         — O que o medo pode fazer com as pessoas!

         Em pouco tempo, a casa de Glorinha estava repleta de gente que viera ver o filhote de leão. A polícia, a imprensa, os bombeiros, os vizinhos, populares curiosos e até o prefeito municipal, todos queriam ver de perto o animalzinho. E, ao vê-lo, sentiam uma enorme vergonha do alarido todo que fora feito em torno do fato.

         Chegou o dono do circo, constrangido, e o prefeito exigiu uma explicação:

         — Por que não esclareceu que o animal que fugiu do seu circo era um pequeno e inofensivo filhote de leão?

         Coçando a barba, o astuto proprietário justificou-se:

         — Bem, achei que era uma excelente propaganda para o meu circo. Pelo menos, a cidade inteira ficou sabendo que chegamos, não é?

Tia Célia

(Adaptação da Parábola dos Talentos, Evangelho de São Mateus, XXV:14 a 30.)

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A valorização do esforço



         Um pai tinha três filhos. Desejando ensiná-los a serem trabalhadores e diligentes, de forma que pudessem aproveitar as oportunidades que lhes fossem concedidas durante a existência, um dia chamou-os e lhes disse:

         — Meus filhos, vou viajar. Antes, porém, vou dar-lhes algumas moedas para que vocês as utilizem da melhor maneira possível, de forma a fazê-las render. Em uma semana estarei de volta e quero ver o que cada um conseguiu fazer com o dinheiro que lhes dei.

         Chamou um filho e deu-lhe cinco moedas, duas moedas ao outro e uma moeda ao terceiro filho.

         Os garotos ficaram muito felizes com seu tesouro.

         O filho que ganhara cinco moedas, após muito pensar, resolveu comprar material e fazer pipas para vender. Assim, trabalhou bastante e, quando ficaram prontas, vendeu todas elas rapidamente. Dessa forma, conseguiu recuperar o que havia gasto e ganhar mais cinco moedas, ficando com dez.

         O garoto que ganhara duas moedas pensou bastante, pois não tinha muito dinheiro. O que fazer? Afinal, resolveu.

         Foi até o supermercado, comprou pacotinhos de suco e os preparou. Depois, arrumou uma barraquinha e vendeu copos de suco para os amigos.

         Assim, recuperou o que havia gasto e ganhou mais duas moedas, ficando com quatro.

         O terceiro filho, que recebera uma única moeda, colocou-a no seu cofrinho, com medo de perdê-la, e não fez nada.

         Uma semana depois o pai voltou e pediu contas aos filhos das moedas que lhes entregara.

         O que havia ganho cinco moedas, entregou dez ao pai, explicando, todo entusiasmado, o que fizera.

         — Muito bem, meu filho! Gostei de ver o seu esforço. Parabéns!

         O segundo filho, que ganhara duas moedas, entregou as quatro moedas ao pai e, muito animado, explicou o que tinha feito para consegui-las, recebendo os cumprimentos:

         — Parabéns, meu filho! Você soube fazer seu dinheiro render de forma útil.

         O terceiro filho, que recebera uma única moeda, aproximou-se um pouco envergonhado ao ver o relato dos irmãos e justificou-se, devolvendo a moeda ao pai:

         — Aqui está sua moeda, meu pai. Fiquei com medo de perdê-la e guardei-a nesse cofrinho para devolvê-la ao senhor quando voltasse.

         O pai, muito desapontado, falou com severidade:

         — Você foi preguiçoso, meu filho, e não mereceu a moeda que lhe confiei. Por isso, como você a devolveu sem fazer nada, vou entregá-la a um de seus irmãos que saberá usá-la de forma útil.

         E assim, corando de vergonha, o menino perdeu a oportunidade que o pai lhe concedera.

         Também assim acontece conosco na vida. Deus, que é nosso Pai, nos concede “talentos” que são oportunidades para algo fazermos de bom na vida, e que precisamos fazer com que frutifiquem a benefício da nossa evolução, ajudando ao nosso próximo e a nós mesmos.

Tia Célia

(Adaptação da Parábola dos Talentos, Evangelho de São Mateus, XXV:14 a 30.)

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O sonho de Laurinho



         Laurinho tinha apenas oito anos, mas era muito vivo e inteligente.

         Certo dia, na escola, ele ouviu a professora falar sobre a existência da “alma” explicando que ela é imortal e, por isso, já existia antes desta vida e continuaria existindo após a morte do corpo. Para finalizar, a professora, que era espírita, completou:

         — O sono é um estado muito parecido ao da morte, porque o espírito se desprende do corpo e vai para onde quiser. A diferença é que, do sono, acordamos todas as manhãs; e, quando ocorre a morte do corpo material, o espírito não volta mais a habitar aquele corpo de carne.

         Laurinho escutou com muita atenção e ficou preocupado com as palavras da professora.

         Na verdade, não entendia direito como isso poderia acontecer. Aliás, nem sabia se acreditava em “espírito”.

         — Será que temos mesmo uma alma ou espírito? — perguntou.

         — Nós não temos uma alma ou espírito, Laurinho. “Nós somos” o espírito — respondeu a professora.

         Laurinho estava surpreso. Ele nunca ouvira ninguém falar sobre esse assunto!

         Assim, voltou pensativo e cheio de dúvidas para casa, e o resto do dia não conseguiu pensar em outra coisa.

         À noite, fez uma pequena oração para Jesus, que a mãe ensinara, e deitou-se. Não demorou muito, estava dormindo.

         Algum tempo depois, Laurinho acordou. Sentiu sede e levantou-se para beber água.

         Reconhecia-se mais leve, bem disposto. Ao olhar para o leito, levou um susto. Viu um outro Laurinho dormindo.

         Como poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo?!...

         Lembrou-se, então, do que a professora havia ensinado.

         — Que legal! Então, este é meu corpo espiritual e estou fora do corpo de carne!

         Achando graça da situação, saiu do quarto e caminhou pela casa. Seus pais ainda estavam acordados e Laurinho viu a mãe fazendo tricô e o pai lendo um livro em sua cadeira de balanço preferida.

         Foi até a cozinha beber água, mas não conseguiu segurar o copo, pois sua mão passava por ele sem conseguir pegá-lo.

         Viu seu gatinho Xuxu que estava ronronando num canto da cozinha e resolveu brincar com ele.

         — Xuxu! Xuxu! — chamou.

         O gatinho acordou, sonolento. Laurinho aproximou-se e passou as mãos no animalzinho que, eriçando os pêlos, miou e correu a esconder-se no quarto de despejo no meio de um monte de roupas, como se estivesse com medo.

         Laurinho resolveu deixar Xuxu em paz e voltar para o quarto.

         Ao passar pela sala, viu o vovô Carlos ao lado de sua mãe. O avô, sorridente, disse:

         — Cuide de sua mãe para mim, Laurinho. Diga a ela que estou muito bem.

         O menino, já com sono, voltou para o quarto e deitou-se.

         No dia seguinte, Laurinho despertou cedo para ir à escola. Trocou de roupa e foi até a cozinha onde sua mãe acabava de preparar o café.

         Sentaram-se. A senhora comentou, enquanto colocava café na xícara:

         — Que estranho! Não sei onde está o seu gatinho. Sempre que sentamos à mesa para as refeições, Xuxu se aproxima para ganhar alguma coisa. Estou acordada há horas e ele ainda não apareceu.

         Naquele momento, Laurinho lembrou-se do sonho que tivera e afirmou:

         — Eu sei onde ele está.

         Levantou-se, foi até o quarto de despejo, abriu a porta e Xuxu saiu se espreguiçando todo.

         — Como você sabia que ele estava lá? — Perguntou o pai, curioso.

         Laurinho contou o sonho que teve à noite, deixando os pais surpresos. Depois continuou:

         — E tem mais. O vovô Carlos, que estava na sala ao seu lado, mamãe, pediu-me que cuidasse de você e que lhe dissesse que ele está muito bem.

         Emocionada, a senhora, cujo pai tinha morrido há alguns meses, exclamou:

         — Mas, seu avô Carlos já morreu, meu filho!

         — Pois eu o vi bem vivo, mamãe. E nem me lembrei que ele já estava morto.

         Os pais de Laurinho não continham a satisfação e se abraçaram, percebendo que algo de muito grandioso ocorrera àquela noite.

         Eles, que não acreditavam em nada, sentiam agora uma nova esperança em seus corações, graças ao sonho de seu filho Laurinho.

         E o menino, de olhos arregalados, disse:

         — E não é que minha professora tem razão? A morte não existe!...

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O sonho da esperança


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         Clarindo era um menino para quem as dificuldades da vida chegaram cedo. Desde tenra idade viu-se, por contingências alheias à sua vontade, obrigado a lutar pela própria sobrevivência.

         Morava numa pequena casa nos arrabaldes da cidade que, embora humilde, era um verdadeiro lar, pois ali existia o amor e a paz.

         Quando seu pai desencarnou, vitimado por um acidente de trabalho, tudo mudou na vida de Clarindo.

         Não contando mais com a presença e o amparo do pai, que trazia sempre o necessário para o sustento da família, a situação tornou-se muito difícil. Sua mãe foi obrigada a deixar o lar para trabalhar numa casa rica, e ele, Clarindo, também resolveu trabalhar de engraxate para ajudar nas despesas.

         Como não tivessem com que pagar o aluguel da pequena casa, eles foram obrigados a mudar para uma favela, onde a generosidade de alguém lhes conseguiu um barraco.

         Ao chegar na favela, o ambiente diferente e hostil causou infinita tristeza e angústia à pobre mulher que, intimamente, entrou a conversar com Deus:

         “Oh! Senhor, o que será de meu filho? Obrigado a crescer neste ambiente, a conviver com criaturas de baixo nível moral, poderá vir a se tornar um delinqüente! Ajuda-me! Sinto-me tão sozinha desde que meu querido esposo morreu! Mas, confio no Senhor e sei que não me deixarás ao desamparo”.

         Naquela noite, já instalados na favela, a mãe adormeceu chorando escondida para que o filho não percebesse suas lágrimas de tristeza e dor.

         No dia seguinte, logo que os primeiros raios de sol invadiram o pequeno e miserável barraco pelas frestas da parede, a mãe levantou-se para preparar o café da manhã. Leite não tinha. Nem café. Só um pouco de chá e um pedaço de pão duro.

         Clarindo acordou bem disposto. Percebeu pelo rosto da mãe, inchado de tanto chorar, que ela estava sofrendo bastante.

         Satisfeito e sorridente o menino contou:

         — Mãe, eu tive um lindo sonho esta noite.

         Procurando demonstrar interesse, ela pediu:

         — Conte-me, meu filho. Que lindo sonho foi esse?

         — Sonhei que estava num lugar muito bonito, todo cheio de flores luminosas, quando vi meu pai que se aproximava. Abraçou-me com carinho e disse-me que tivesse confiança em Deus.

         “Sabe, meu filho — disse ele —, nada acontece por acaso. Numa outra existência você e sua mãe, por ambição, prejudicaram muito um seu irmão. Vocês roubaram tudo o que ele tinha e o deixaram na rua da amargura. Sem um lar, maltrapilho, seu irmão vagou por longo tempo vivendo da piedade alheia, até que ficou doente e morreu. É por isso que agora estão passando por tantas dificuldades. Confiem em Deus e suportem as privações com resignação, pois será a libertação de vocês. O Senhor é muito bom e não deixará de assisti-los”.

         Surpresa e muito comovida, a mãe de Clarindo deixou que as lágrimas corressem pelo seu rosto. E o garoto, também com os olhos úmidos da emoção que ainda sentia, continuou:

         — Engraçado, mãe, é que, enquanto meu pai falava, eu via as cenas que ele descrevia como se fosse um filme. E sabe o que mais? Eu senti que meu pai era aquele irmão que nós prejudicamos! Será que é verdade?

         A mãe olhou o filho com carinho e, comovida, falou:

         — Meu filho, esta é a resposta de Deus às minhas preces. Atendeu às minhas íntimas indagações através do sonho de uma criança. Sim, Clarindo. Acredito que tudo isso seja verdade. Devemos ter prejudicado muito alguém para que estejamos agora passando por essa provação.

         Limpando as lágrimas, fitou o filho com determinação e coragem, e disse-lhe resoluta:

         — Vamos vencer, meu filho. Tenhamos bom-ânimo, coragem e muita fé em Deus que é Pai e, tenho certeza, não nos deixará ao desamparo.

         Clarindo sorriu feliz ao perceber que sua mãe estava mais contente e conformada.

         Nesse instante alguém bate à porta. Clarindo vai atender e se depara com uma mulher pobremente vestida, mas com largo sorriso no rosto simpático. Disse a visitante:

         — Olá! Sou Cecília, sua vizinha aqui do lado. Como vocês se mudaram ontem e não tiveram tempo de ajeitar as coisas, trouxe-lhes um pão quentinho que acabou de sair do forno, e uma garrafa com café.

         Antes que a mãe de Clarindo tivesse tempo de agradecer a bondade da vizinha, eles viram chegar uma menina franzina, de dez anos mais ou menos, que lhe estendeu uma pequena lata com linda flor plantada:

         — Tome, é para a senhora. Fui eu que plantei.

         Logo em seguida, surgiu na porta o rosto moreno de um homem que lhe perguntou, sorridente:

         — A senhora gosta de chuchu? Trouxe-lhe alguns que colhi agora mesmo no meu quintal.

         Sentindo um nó na garganta, e sob forte emoção, a mãe de Clarindo abraçou os estranhos que lhe invadiam a casa como um raio de sol, enquanto pensava que tinha julgado mal as pessoas da favela, e compreendeu que todos os lugares e todas as pessoas são de Deus. Que, em qualquer situação a que formos chamados a viver, encontramos pessoas boas e podemos crescer e evoluir.

         E, agradecendo ao Alto as bênçãos do momento, exclamou, sorridente:

         — Obrigada. Sejam bem-vindos! Foi Jesus que os enviou!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O farol apagado



         Numa região muito distante, sobre um alto rochedo, existia um pequeno farol.

         Naquele trecho da costa, o mar era muito perigoso, pois havia inúmeros rochedos que poderiam levar as embarcações a desastres, caso não percebessem o perigo a tempo.

         Por essa razão foi construído o farol, para que os navios passassem em segurança pelo local.

         Mas o pequeno farol vivia descontente. Achava sua vida muito monótona e sentia uma terrível inveja das embarcações que passavam ao longe, rumo a lugares distantes; das gaivotas que voavam livres pelos ares e que poderiam conhecer terras estranhas; e, até, das estrelas que contemplava todas as noites brilhando no firmamento.

         Mas ele vivia ali, parado, sem sair do lugar, dia após dia, noite após noite.

         Sua única distração era esperar o faroleiro, isto é, o homem que cuidava dele, que todos os dias, ao anoitecer, vinha acender sua luz. E então, ele ficava ali, girando... girando... girando...

         O faroleiro vivia sozinho e era a única pessoa que existia nas imediações. Certo dia, ele caiu doente na cama, ardendo em febre e sem condições de se levantar e executar suas obrigações costumeiras.

         Naquela noite ninguém acendeu a luz do farol.

         O farol estranhou o acontecimento, pois nunca antes ocorrera tal coisa, e estranhou ainda mais a escuridão que tomou conta de tudo. Ficou tudo escuro... escuro...

         Naquela noite, nuvens pesadas cobriam o céu prenunciando tempestade, e logo um vento forte começou a soprar. Em pouco tempo a chuva caiu, torrencial.

         Sem poder enxergar nada, só escutando o barulho da chuva que caía e o ruído das ondas do mar que faziam chuá... chuá... chuá..., o farol acabou adormecendo. No dia seguinte, aos primeiros raios do sol é que pôde ver o que acontecera durante a noite.

         Uma canoa fora arrastada pelas ondas do mar, batendo de encontro aos rochedos; um barco de pescadores acostumados com o farol que lhes indicava o caminho, bateram nas pedras, soçobrando. E até um grande navio, que fazia sua rota para terras distantes, também ficou preso entre os rochedos, sem possibilidade de sair.

         Só então o pequeno farol, ao ver a extensão da tragédia que acontecera pela falta da sua luz, percebeu como sua tarefa era importante.

         As pessoas foram socorridas a tempo, e o faroleiro, levado a um hospital para receber o necessário atendimento médico.

         Em seu lugar, porém, ficou um substituto, outra pessoa responsável para acender a luz do farol, enquanto o faroleiro não estivesse curado e pronto para voltar ao trabalho.

         A partir desse dia, o farol nunca mais lamentou seu destino, cumprindo sua tarefa com boa-vontade e amor.

         Feliz, todas as noites ele podia ser visto girando... girando... girando...

         E quem o visse, de longe, poderia notar que sua luz se tornara mais viva e mais brilhante.

TIA CÉLIA

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A força do exemplo



         Dora, ou Dorinha, como a chamavam, era menina viva e inteligente, porém tinha um problema: a preguiça.

         Detestava qualquer tipo de tarefa, por mais simples que fosse. Para levantar cedo e ir à escola era aquela dificuldade! Alegava-se sempre cansada. Nunca fazia os deveres de casa, passados pela professora, e não estudava para as provas. Por isso, suas notas eram péssimas.

         Em casa não colaborava em nada. Se a mãe, com muito carinho, lhe pedisse para arrumar a mesa, à hora da refeição, ela alegava dor de cabeça; ou para varrer a casa, pois estava atarefada, a menina respondia que precisava estudar e fechava-se no quarto. Quando a mamãe necessitava que ela olhasse o nenê, Dorinha reclamava, irritada:

         — Tudo eu? Tudo eu?!...

         Enfim, Dorinha não sentia prazer em ser útil. Na verdade, só estava contente brincando, passeando, assistindo televisão ou dormindo.

         Sua mãe preocupava-se com ela, tentando aconselhá-la, mas sem resultado. Nas preces, a pobre mãe pedia a Deus que a ajudasse, pois temia pelo futuro da filha.

         Certo dia, Dora notou que uma pequena casa vizinha da sua, e que permanecera fechada por muitos meses, estava aberta. Uma família mudara-se durante a noite e a menina ficou curiosa para conhecer os novos vizinhos.

         Ao voltar da escola, Dorinha viu um garoto sentado num banco, no jardim à frente da casa.

         Sorridente, aproximou-se para travar conhecimento com o garoto, satisfeita por ter mais alguém para brincar.

         — Olá! — disse, cumprimentando-o. — Como se chama?

         — Olavo. E você?

         — Dora. Mas todos me chamam de Dorinha.

         O menino era muito simpático e atencioso. Dorinha gostou dele. Em pouco tempo, estavam conversando como velhos amigos.

         Dorinha logo começou a se queixar da vida. Reclamou da escola, da mãe, dos afazeres domésticos, enfim, de tudo. E, tomando ares de vítima, dizia:

         — Já pensou, Olavo? Não basta ser obrigada a levantar cedo para freqüentar uma escola chata, com aulas mais chatas ainda, e, quando chego em casa, exausta, ainda sou obrigada a ajudar minha mãe nas tarefas caseiras! Quem é que agüenta? Estou cansada dessa vida!

         Olavo, que a fitava com olhos arregalados e brilhantes, deu um suspiro e exclamou:

         — Como invejo você, Dorinha!

         — Por quê? Minha vida é horrível e monótona! Eu odeio essa vida! — retrucou a menina, revoltada.

         E Olavo falou-lhe com doçura, afirmando:

         — Pois acho a sua vida ma-ra-vi-lho-sa!!!...

         — É mesmo? — indagou a garota, incrédula.

         — É verdade, minha amiga. Eu nunca saio de casa, nem para ir à escola...

         — Você não estuda?

         — Não, Dorinha. Sou doente e muito fraco. Não posso andar como você. Antes, eu tinha um amigo grande e forte que me levava à escola nos braços, mas depois ele se mudou e não tive mais ninguém que o substituísse. Minha mãe não consegue me carregar. Seria bom se eu tivesse uma cadeira de rodas para me locomover, mas somos pobres e ainda não pudemos comprar uma.

         Dorinha, de boca aberta, gaguejou:

         — Então, você também não pode brincar na rua? De esconde-esconde, de pular corda, correr e saltar?

         — Não. Mas não me queixo...

         — O que faz o dia inteiro? Deve ser bem triste sua vida.

         — Até que não. Auxilio mamãe naquilo que posso: escolho o arroz, o feijão, limpo verduras, descasco batatas, enxugo a louça. Além disso, minha mãe confecciona pequenos objetos de artesanato para vender e aumentar nossa renda familiar e, quando tem serviço, eu a ajudo nessa tarefa. Também tenho amigos que me fazem companhia e me trazem revistas e livros. Passo horas entretido a ler. Enfim, acho que a minha existência é até muito boa! Conheço pessoas que possuem menos do que eu e cuja vida é bem mais difícil.

         Dorinha olhava-o com admiração e respeito. Sentia-se envergonhada das suas reclamações.

         Olavo sorriu e completou:

         — Sinto falta apenas de poder freqüentar a escola. Gostaria muito de continuar estudando e aprendendo coisas novas. Mas, algum dia, se Deus quiser, eu tenho certeza de que conseguirei. Por isso, Dorinha, agradeça a Jesus tudo o que você tem: um corpo perfeito para poder andar e brincar, inteligência para estudar e aprender, e o amor de uma família.

         Dorinha despediu-se do amigo com o pensamento renovado. Ao entrar em casa foi direto para a cozinha e falou, atenciosa:

         — Mamãe, eu arrumo a mesa. Depois do almoço, pode deixar que lavo toda a louça e varro o chão. E eu tomo conta do nenê também...

         A mãe, desacostumada daquela boa-vontade toda, perguntou surpresa:

         — O que aconteceu, minha filha? Você está doente? Com febre?

         Dorinha riu e explicou direitinho:

         — Estou bem, mamãe, não se preocupe. Apenas tive um encontro muito interessante.

         E, depois de contar à mãe a conversa que teve com o novo amigo Olavo, concluiu:

         — A partir de hoje, mamãe, vou procurar realizar minhas tarefas com otimismo e alegria!

         Quanto a Olavo, os pais de Dorinha fizeram uma campanha e conseguiram comprar a cadeira de rodas que ele tanto desejava. Além disso, sabendo das dificuldades da família, levaram o garoto a um médico para tentar descobrir, dentro da medicina atualizada, recursos para sua cura.

         E logo, era Dorinha, satisfeita e tranqüila, que passava todas as manhãs acompanhando Olavo a caminho da escola, onde juntos iam estudar.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O anjo de guarda



         Gilberto era um menino muito arteiro. Não era mau, mas vivia sempre pregando peças nas pessoas, provocando confusão na escola e assustando os irmãozinhos em casa.

         Perto dele, ninguém tinha paz.

         Quando entrava num lugar era recebido de má-vontade porque todos já sabiam que alguma ele iria aprontar.

         Dona Dalva, sua mãe, preocupava-se com o comportamento do filho, que não conseguia modificar.

         Certo dia, conversando com uma amiga espírita, a mãe de Gilberto desabafou dizendo não estar mais aguentando as reclamações que lhe chegavam de todos os lados: dos vizinhos, da escola, dos parentes e dos amigos.

         — Por que não experimenta mandá-lo às aulas de Moral Cristã no Centro Espírita do qual faço parte? — sugeriu a amiga.

         — Será que adianta? — retrucou a mãe, em dúvida.

         Com um sorriso sereno a amiga ponderou:

         — Não custa experimentar! Você nada tem a perder, não é? Verei o que posso fazer.

         Dalva pensou um pouco e reconheceu que a amiga Neide tinha razão. Ela era de outra religião, mas na verdade não participava, e seu filho crescia sem nenhum conceito religioso.

         — Está bem. Onde fica esse Centro Espírita? — perguntou.

         Após anotar o endereço, despediram-se e cada qual foi tratar de suas obrigações.

         No domingo, Dalva levou o garoto pontualmente no horário combinado. Algumas crianças, que já conheciam Gilberto da escola, torceram o nariz ao vê-lo, mas nada disseram.

         Nesse dia, a professora Neide iria falar sobre o “Anjo de Guarda”.

         — Vocês sabiam que todos nós temos um Espírito de Luz, alguém interessado em nosso bem-estar e progresso, a quem Deus deu a missão de nos guiar e orientar na vida? — perguntou ela.

         Uma das crianças comentou baixinho:

         — Então, o Anjo de Guarda do Gilberto deve ser um “diabinho”!

         Ouvindo, as outras crianças caíram na risada, e Gilberto reclamou:

         — Olha aí, professora, essa menina está dizendo que vivo acompanhado por um “diabinho”!

         A professora Neide colocou ordem na sala e repreendeu os alunos pelo desrespeito para com o novo coleguinha. Depois, explicou:

         — Em primeiro lugar, é preciso que saibamos que “diabinho” não existe. O que existem são espíritos imperfeitos, ignorantes e que gostam de brincadeiras e de nos causar pequenos aborrecimentos e confusões. São chamados de espíritos “zombeteiros” ou “brincalhões”. Sempre que estão perto de nós, nos fazendo companhia, é sinal que não estamos agindo bem, porque é o nosso pensamento que os atrai. E quando isso acontece, o nosso Anjo de Guarda, que realmente nos ama e deseja o nosso bem, fica muito triste.

         Gilberto prestava muita atenção no que a professora dizia. Ela falava de coisas interessantes e que ele desconhecia. Perguntou interessado:

         — Quer dizer que existem mesmo “fantasmas”?

         Os demais riram, divertidos, e a professora respondeu com seriedade:

         — Não propriamente. Existem espíritos de pessoas que já viveram aqui na Terra e que já deixaram o corpo material, desencarnaram, como dizemos. Na verdade, ninguém morre. Somos todos espíritos imortais, criados para o progresso, e Deus, que é nosso Pai, nos dará sempre oportunidades para aprender e evoluir. Aqueles que já deixaram esta vida vão para o mundo espiritual, uma outra realidade que coexiste conosco, sem que percebamos. Assim, como na Terra, uns são bons, outros indiferentes, malvados, estudiosos, brincalhões, e assim por diante.

         Gilberto meditou um pouco, preocupado, depois perguntou:

         — Então, meu avô também continua vivo?!...

         — Sim, sem dúvida. E continua gostando de você do mesmo jeito, Gilberto, e certamente acompanha seu desenvolvimento com interesse.

         Envergonhado, Gilberto abaixou a cabeça e não disse mais nada.

         É que o avô era alguém a quem ele muito amava. Sofrera bastante com a morte do avozinho querido e custara a aceitar o fato. Agora, sabê-lo vivo causava-lhe muita alegria, mas também o deixava apreensivo. Se o avô estava perto dele, não deveria estar gostando do seu comportamento.

         Terminada a aula, Gilberto retornou para casa e sua mãezinha já percebeu a mudança no filho.

         Na hora do almoço a irmã mexeu com ele, e Gilberto não reagiu. Não perturbou ninguém nesse dia.

         Na hora de dormir, a mãe o acompanhou ao quarto e notou, com surpresa, que ele fazia uma oração, coisa que não fazia parte dos seus hábitos diários.

         — Obrigado, Jesus, por esse dia e ajuda-me para que eu seja um menino bonzinho. Ampara o papai, a mamãe e meus irmãozinhos, e que possamos todos viver em paz e alegria. Assim seja.

         Sensibilizada, Dalva esperou que ele terminasse a oração e perguntou-lhe:

         — Notei você muito pensativo hoje o dia inteiro, meu filho. Aconteceu alguma coisa?

         Gilberto contou à mãe tudo o que aprendera na aula de evangelização e concluiu, arregalando os olhos expressivos:

         — Já pensou, mamãe, como o vovô deve estar triste comigo? Não quero aborrecê-lo. Quero que se sinta orgulhoso de mim!

         Surpresa com tudo o que o filho lhe contara, Dalva concordou com ele, agradecendo mentalmente a Deus o socorro que lhe enviara na pessoa da amiga Neide, tendo os olhos úmidos de emoção.

         A partir daquele dia, Dalva também começou a freqüentar a Casa Espírita, reconhecendo a importância do conhecimento espírita nas pessoas e o bem que isso fizera a seu filho e a toda a família.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A girafinha Gina



         Gina era uma pequena girafa, linda e de coração bondoso. Seu corpo, coberto por um pelo curto e sedoso, tinha belas manchas cor de mel que reluziam ao sol.

         Todavia, apesar de ser novinha, seu pescoço já era muito longo!

         Isso lhe causava problemas com os outros animais da floresta, e encontrava dificuldade em fazer amigos.

         Por ser muito grande, os outros bichos menores a discriminavam. Ninguém queria brincar com ela.

         Quando ela convidava o coelho para passear, ele dava uma desculpa:

         — Agora não posso, Gina. Preciso limpar minha toca.

         Se ela ia à casa do esquilo chamá-lo para brincar, ele respondia:

         — Agora não dá, Gina. Tenho que procurar comida. Quem sabe mais tarde?

         E assim acontecia com todos que procurava. Depois, andando pela mata, ela os encontrava juntos, brincando de esconder. Então, parou de procurá-los, entendendo que não gostavam dela.

         Sentia-se triste e sozinha, mas o que fazer?

         Sua mãe, vendo-a tristonha, a consolava:

         — Minha filha, se seus amigos não gostam de você pelo seu tamanho, então não merecem sua amizade.

         Certo dia, passeando pela floresta, Gina ouviu um alarido estranho. Andou até descobrir de onde vinha aquele barulho.

         Sabem o que era? Eram seus amigos que estavam chorando, desesperados. Ali estava o coelho, o esquilo, a raposa, o sapo, a garça.

         Arregalando os olhos de espanto, Gina perguntou:

         — Por que vocês estão chorando? O que aconteceu?

         Quando eles a viram ficaram muito felizes.

         — Ah, Gina! Ainda bem que você apareceu! Só você para poder nos ajudar! — exclamou o esquilo, aliviado.

         E o coelho completou:

         — Estamos perdidos! Saímos para passear e não sabemos mais voltar para casa. Acho que estamos rodando em círculos! Será que você pode nos indicar o rumo que devemos tomar?

         Gina sorriu, satisfeita pela oportunidade de ajudar.

         — Claro!

         Então, a girafinha esticou seu longo pescoço, olhando em torno, por cima das árvores, e afirmou:

         — Vocês devem ir para o norte. Por aqui! — e mostrou com uma das patas dianteiras o rumo que deveriam seguir. Mas, também preciso voltar para casa. Irei com vocês.

         Contentes e aliviados, alegremente todo o grupo fez o caminho de volta. Alguns bichinhos estavam cansados e Gina levou-os nas costas.

         Eles adoraram passear no lombo da girafinha. E todos queriam, por sua vez, experimentar.

         Quando chegaram perto de casa se despediram de Gina, agradecidos.

         — Gina, você é muito legal! Obrigado — disse o coelho.

         — É. Apesar do seu tamanho, você é uma boa companheira — reconheceu a raposinha.

         Tinham aprendido a conhecê-la e agora já gostavam dela.

         Gina agradeceu, satisfeita. Sua boa ação surtira efeito.

         No dia seguinte, logo cedo, a girafinha acordou com o chamado de seus novos amigos.

         — Gina, quer brincar conosco?

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Tucumim, o indiozinho



         Tucumim era um pequeno índio muito estimado em toda a floresta. Gostava de correr, brincar com os animais, pescar. Caçar só quando estava com muita fome, pois evitava provocar sofrimento em outros seres da Criação.

         Alimentava-se geralmente de raízes, ervas ou frutos silvestres que colhia no meio do mato.

         Amava o sol, a lua, o vento, a chuva e, principalmente, as outras criaturas. Quando encontrava um animalzinho ferido, não descansava enquanto não o visse curado.

         Certa vez, voltando de um passeio pela floresta, Tucumim viu um passarinho preso numa arapuca, com a asinha quebrada. Retirou a ave da arapuca e colocou uma pequena tala, que amarrou com fibra vegetal, para imobilizar a asa. Em poucos dias a avezinha, já curada, partiu, agradecendo ao amigo com lindos trinados pela alegria de poder voar novamente.

         Nesse mesmo dia, andando à procura de raízes comestíveis, Tucumim topou com um coelhinho, seu amigo, que estava numa armadilha com a pata machucada. O indiozinho colocou sobre o ferimento uma pasta feita com ervas, conforme lhe ensinara seu avô, e, em pouco tempo, o coelhinho saiu pulando. Antes de internar-se na floresta, ele se virou como a dizer:

         — Obrigado, Tucumim. Você é um amigão!

         Na manhã seguinte, quando foi pescar, Tucumim ouviu gemidos de dor. Era uma oncinha caída num buraco preparado como armadilha e que, na queda, tinha se machucado. Incansável, Tucumim fez um curativo na ferida e logo a oncinha corria feliz pela floresta, muito agradecida pela ajuda.

         Tucumim, porém, estava preocupado.

         Quem estaria colocando aquelas armadilhas na floresta e tirando a paz de seus habitantes? Sentiu medo.

         Seu avô sempre dissera que ele deveria ter muito cuidado com o homem branco, que era mau e matava sem piedade, pelo prazer de matar.

         Por isso, Tucumim tinha muito medo dos homens brancos.

         Na verdade, nunca tinha visto um homem branco. Imaginava-os gigantescos e de fisionomia terrível e assustadora.

         Assim, ao encontrar pegadas diferentes no chão, concluiu que só poderiam ser de homem branco, e ficou apavorado.

         Contou na aldeia o que estava acontecendo e todos os índios ficaram assustados também. Resolveram sair e procurar essa criatura malvada que estava colocando em pânico os moradores da mata.

         Procuraram... procuraram... procuraram...

         Estavam cansados de andar quando ouviram uma voz que gritava:

         — Socorro! Socorro! Tirem-me daqui!...

         Seguindo o som da voz, chegaram até a beira de um grande buraco, no fundo do qual um homem gemia de dor.

         Apesar de assustados, de arco e flechas em punho, os índios gritavam satisfeitos:

         — Nós o apanhamos! Nós o apanhamos! Vamos acabar com ele!

         Porém, Tucumim, que possuía um coração bondoso e sensível, ao ver aquela criatura gemendo de dor, condoído pensou:

         “Mas ele não tem a aparência terrível e assustadora que eu imaginava. É igualzinho a nós. Só a roupa é diferente.”

         Virando-se para seus irmãos de raça, falou:

         — Não podemos matá-lo. Não percebem que ele é uma criatura como nós, que sofre e chora? Vamos, ajudem-me a tirá-lo do buraco. Está ferido e precisando de ajuda.

         Com o auxílio de um cipó, os índios retiraram o caçador com todo o cuidado, colocando-o sobre a relva, à sombra de uma árvore.

         Emocionado, o caçador não parava de agradecer:

         — Se não fossem vocês, provavelmente eu morreria dentro daquele buraco. Não sei como lhes agradecer. Percebo agora o mal que fiz colocando todas aquelas armadilhas na floresta. Acabei caindo numa delas e agradeço a Deus por vocês terem me salvado. Como posso retribuir o bem que me fizeram?

         Tucumim, porta-voz de toda a tribo, respondeu:

         — É fácil. Não coloque mais armadilhas na floresta. Deixe os animais em paz.

         O caçador, envergonhado, concordou:

         — Nunca mais farei isso, prometo. Agora sei que tive o que merecia. Cada um é responsável por tudo o que faz, e eu mereci essa lição. Perdoem-me. Quero que sejamos amigos.

         Percebendo a sinceridade do homem, os índios estenderam-lhe as mãos em sinal de amizade e depois o levaram para a taba.

         Nesse dia prepararam uma grande festa para comemorar o acontecimento.

         Afinal, todos somos irmãos!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O cavalinho insatisfeito



         Apesar de morar numa linda cocheira cheia de conforto, o cavalinho estava sempre insatisfeito.

         Tinha um grande campo verde para cavalgar e brincar com seus amigos, onde não lhe faltava erva tenra e macia para sua alimentação e água pura e límpida para beber num regato próximo.

         E quando a noite chegava, recolhia-se à cocheira, onde um monte de capim novo e seco lhe servia de leito, enquanto pela janela aberta podia ver as estrelas brilhando no céu, lá longe.

         João, um servidor amigo, banhava-o regularmente, escovando seu pelo com cuidado e deixando-o brilhante e sedoso.

         Ainda assim, não estava contente e passava o tempo a reclamar da vida.

         Reclamava de ter que levantar cedo, da grama que não estava bem verde e macia, da água que alguém turvara, do colchão de capim duro.

         Quando o empregado vinha banhá-lo, reclamava que a água estava muito fria, e a escova, muito dura, o machucava.

         Certo dia, quando João chegou sorridente para tratá-lo, encontrou-o ainda com humor pior do que nos outros dias. Sem querer, o empregado descuidou-se e o balde com água caiu sobre a pata do cavalo.

         Imediatamente, o animal reagiu, irritado, dando um coice no coitado do servidor, dizendo com maus modos:

         — Desastrado!

         Caindo de mau-jeito, o rapaz não conseguiu se levantar, gritando por socorro.

         Quando vieram acudi-lo, vendo-o no chão, indagaram:

         — O que houve, João?

         Gostando realmente do cavalinho e não desejando que fosse punido, respondeu:

         — Não foi nada. Caí e machuquei a perna.

         Levado a um hospital, constataram que João fraturara um osso de uma perna e seria preciso engessá-la. Durante um mês teria que fazer repouso e não poderia trabalhar.

         No dia seguinte, outro empregado foi encarregado de cuidar dos animais, substituindo João em suas funções.

         Sendo muito preguiçoso, o novo empregado não se preocupava com nada. Esquecia de soltar os animais para passear no campo, não trocava a água dos bebedouros, não tirava o capim velho substituindo por novo e não gostava de dar banho, deixando-os sujos e mal-cheirosos.

         Como o cavalinho reclamasse do tratamento que lhes estava sendo dispensado, pois vivia cheio de moscas, ainda recebeu algumas chibatadas no lombo, que o deixaram ferido.

         Assustado, visto que nunca tinha apanhado, o cavalinho ficou com medo e nunca mais reclamou de nada.

         Lembrava-se, porém, com profunda saudade do servidor amigo que os tratava sempre com bondade e nunca lhes deixara faltar nada. À noite, sozinho, olhando as estrelas, ele chorava de tristeza em seu leito sujo e mal-cheiroso.

         Quando João retornou, após os trinta dias, foi com um relincho feliz que o recebeu. O cavalinho encostou a cabeça em seu peito, satisfeito pela volta do amigo.

         O empregado estranhou a atitude carinhosa do animal, antes tão mal-humorado, e se condoeu do seu aspecto, pois perdera o ar altivo, mantendo a cabeça baixa; estava todo sujo e seu pêlo ferido sangrava, mordido pelos insetos que assentavam em seu corpo, atraídos pela sujeira.

         Cheio de compaixão, abraçou o cavalinho que suspirou feliz. Em seguida lavou-o, cuidou das feridas e escovou o pêlo que readquiriu, em parte, o aspecto brilhante e sedoso. Quando acabou, olhou o animal, exclamando:

         — Pronto. Agora você já está com melhor aspecto!

         O cavalinho, que tivera muito tempo para pensar durante aqueles trinta dias, falou-lhe comovido, demonstrando humildade:

         — Agradeço seu cuidado e atenção. Foi preciso que eu sofresse para saber valorizar sua amizade. Agora compreendo como fui rude e malcriado com você, e como foi bom para mim. Perdoe-me o coice que lhe dei. Isso nunca mais acontecerá.

         Fez uma pausa e, fitando o amigo com os olhos úmidos de emoção, concluiu:

         — Aprendi que é preciso saber agradecer tudo o que temos. Deus me deu uma vida boa onde nada me faltava, no entanto eu vivia insatisfeito com tudo. Foi preciso que as coisas piorassem para que eu pudesse perceber como era feliz. Entendi, também, que é preciso saber respeitar os outros se desejamos ser respeitados.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Aprendendo com a natureza



         Laurinha, menina boa e amorosa, ouviu uma palestra na escola dizendo que trabalhar é para pessoas adultas, e que crianças tinham apenas que estudar e brincar.

         Assim, quando a mãe lhe pedia para fazer alguma coisa, alegava que precisava estudar, que os amigos estavam esperando para brincar, ver televisão, ou, simplesmente, que estava cansada.

         Certo dia, vendo Laurinha sem fazer nada, sentada a soleira da porta da cozinha, a mãe pediu:

         – Minha filha, enxugue a louça para mim, sim?

         A resposta veio rápida:

         – Não posso, mamãe, estou descansando.

         A mãezinha pensou um pouco e disse com carinho:

         – Laurinha, todos nós temos que dar nossa contribuição na vida colaborando para o bem-estar geral.

         – Criança tem que estudar e brincar. Trabalho é coisa de adulto, mamãe – retrucou a menina, mostrando o que tinha aprendido.

         – Não é bem assim, minha filha. A atividade remunerada, o trabalho profissional, é serviço de pessoas adultas. Porém, dentro da nossa capacidade, é preciso retribuir um pouco do muito que temos recebido da vida.

         A senhora parou de lavar a louça e, virando-se para a menina, sugeriu:

         – Laurinha, aproveite que não está fazendo nada, vá até o quintal e observe bem a natureza. Depois volte e conte-me o que você viu.

         Embora de má-vontade, a menina levantou-se e saiu caminhando pelo quintal. No começo nada percebeu. Passou os olhos pelas flores que se abriam, coloridas e belas, enfeitando o quintal. Andou mais um pouco e viu uma laranjeira coberta de flores perfumadas. Depois, viu uma abelhinha apressada que ia de flor em flor, retirando o alimento, e em seguida, voava para o toco de uma árvore onde fabricava um favo de mel.

         Observou laranjeiras com frutos pequenos e verdes, enquanto outras já tinham laranjas maduras.

         Passando por uma mangueira, apanhou uma manga e sentou-se no chão para saboreá-la. Adorava mangas!

         Olhou para o alto e viu um passarinho que

         apanhava gravetos no chão e levava para um galho, no alto da mangueira, e ali o depositava cuidadosamente construindo o seu ninho.

         Olhando para o chão, viu uma fileira de formigas que carregavam folhas, cascas de frutas e migalhas de pão para o formigueiro.

         Laurinha admirou a organização delas, andando em fila ordenadamente. Todas carregavam alguma coisa. Todas trabalhavam!

         Depois de chupar a manga, como estivesse toda lambuzada, a garota voltou para casa. Lavou-se na torneira do quintal e entrou na cozinha, procurando uma toalha para se enxugar.

         Vendo a menina, a mãe perguntou:

         – E então? O que você observou?

         – Bem, vi uma abelhinha recolhendo o néctar das flores de uma laranjeira e levando para produzir o mel. Observei também que tem laranjeiras com frutos pequenos e outras com laranjas maduras. Vi nossa mangueira cheia de mangas maduras e apanhei uma para chupar. Estava uma delícia!

         A menina parou de falar, pensando.

         – O que mais você observou, minha filha?

         – Vi também formigas levando comida para o formigueiro. Era como se elas tivessem ido ao supermercado fazer compras! Creio que foi só.

         – E o que você achou de tudo isso?

         – Percebi que a senhora tem razão, mamãe. Todos trabalham, mesmo os mais pequeninos: a abelha produz o mel, a árvore produz as flores que vão se transformar em frutos, as formigas levam comida para a família, o passarinho constrói sua casa...

         – Muito bem, minha filha! E você poderia ter visto ainda muito mais: os insetos e pequenos animais que se alimentam dos frutos maduros que caem e que limpam o solo, a terra que recebe a semente e que a faz germinar, e tantas outras coisas.

         Entusiasmada pelas descobertas, a menina concordou:

         – Tem razão, mamãe, E tem o Sol que nos ilumina e aquece, a água que bebemos...

         – Isso mesmo, minha filha. E tudo para quê?

         – Para nos tornar a vida melhor e mais feliz. Tudo na natureza trabalha a benefício de todos. Como eu nunca tinha percebido isso?

         Abraçando a mãe, Laurinha disse:

         – Mamãe, também quero ajudar, colaborando para que todos sejam felizes. Aqui em casa, o papai trabalha para trazer dinheiro e podermos comprar alimentos e tudo o mais de que precisamos. A senhora faz todo o serviço da casa, limpando, lavando, arrumando e cozinhando. Também quero ajudar fazendo aquilo que for possível. Vou trabalhar daqui por diante ajudando a senhora e todos da nossa família. Sempre tenho recebido muito, agora quero aprender também a dar.

         E a menina lembrava, com novo ânimo: posso regar o jardim, varrer o quintal, cuidar do cachorro, enxugar a louça, deixar meus brinquedos e minhas roupas arrumadas. Vou ter muito que fazer!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A existência de Deus



         Certa professora estava tendo problemas em sua classe com os alunos.

         Um deles, Luizinho, de família afastada da religião e de idéias profundamente negativas, começou a passar essas mesmas idéias para as outras crianças.

         Afirmava, esse menino, que Deus não existia e que tudo era uma invenção do homem.

         As outras crianças, surpresas e inquietas, não sabiam como refutar as palavras do colega e começaram a se sentir inseguras.

         Chegando ao conhecimento da professora, preocupada com o problema, ela pensou como poderia modificar aquela situação, resolvendo a questão.

         Pensou... pensou... e, afinal, teve uma idéia.

         Certo dia avisou aos alunos que, na manhã seguinte, iriam fazer uma experiência. Deveriam trazer todas as peças de um relógio, um rádio, um toca-fitas, ou qualquer outro objeto que estivesse quebrado. E deveriam trazer também uma caixa que coubesse esse objeto.

         Os alunos estavam cheios de curiosidade, mas a professora não quis adiantar nada, afirmando sorridente:

         — Amanhã vocês ficarão sabendo.

         No dia seguinte, compareceram todos os alunos, sob intensa expectativa, portando o material solicitado.

         A aula transcorreu normalmente. No final do período, a professora pediu que colocassem o material para a experiência sobre a carteira.

         Em seguida, mandou que cada um colocasse o objeto quebrado dentro da caixa, com todas as peças, e tampasse bem.

         Eles assim o fizeram, sem entender o propósito a que a professora queria chegar.

         — Muito bem! Agora, agitem a caixa com força, tentando fazer com que as peças todas se encaixem em seus lugares e os maquinismos voltem a funcionar.

         — Mas, professora!... — gaguejou uma das crianças.

         — Não discutam. Façam o que estou mandando.

         As crianças agitaram as caixas durante um minuto, cinco minutos, dez minutos, quinze minutos...

         Já não agüentavam mais. Estavam exaustas!

         Após esse tempo, a professora pediu que abrissem as caixas e verificassem o resultado do esforço despendido.

         — Como estão os aparelhos?

         Desanimadas, as crianças olharam o conteúdo de suas caixas e uma delas respondeu:

         — Continuam quebrados, professora.

         Fingindo surpresa, ela perguntou à classe:

         — NINGUÉM? — disse, frisando bem a palavra. — Ninguém conseguiu consertar a sua máquina?!...

         Todos responderam negativamente balançando a cabeça.

         Um deles afirmou, convicto:

         — Claro, professora! Nem que ficássemos aqui o dia inteiro, o mês inteiro ou o ano inteiro, conseguiríamos consertá-las desta maneira!

         — Ah! — exclamou a professora. — E por quê?

         — Porque para que alguma coisa funcione é preciso que “alguém” coloque as peças no lugar, ajuste os parafusos etc. Enfim, é preciso a mão de uma pessoa que conheça aquele mecanismo e saiba fazer o serviço.

         Os outros alunos foram unânimes em concordar com o colega.

         Satisfeita, a professora questionou:

         — Muito bem. Então todos concordam que para que alguma coisa funcione é preciso o esforço de alguém?

         Fez uma pausa, passando o olhar lentamente pela sala, depois continuou:

         — Ótimo! E o Universo, que é tão imenso? Quem pode me dizer quem é que faz com que o Sol nasça todas as manhãs? Ou que faz as plantinhas brotarem? Ou que as estações aconteçam sempre em épocas certas?

         Percebendo, afinal, onde a professora pretendia chegar, as crianças sorriram satisfeitas.

         O garoto que afirmara que Deus não existia, baixou a cabeça, envergonhado.

         A professora aproveitou o momento para fixar a lição, perguntando a todos:

         — Então, quem faz todas estas coisas maravilhosas?

         E todos responderam em uníssono:

         — DEUS!

         — Alguém tem alguma dúvida?

         Luizinho levantou a cabeça e respondeu:

         — Não, professora!

         Satisfeita, a professora concluiu o assunto:

         — Muito bem. Deus criou tudo o que existe, inclusive nós mesmos. Por isso é NOSSO PAI. O Universo é regido por leis sábias e justas, perfeitas e imutáveis, e todos estamos sujeitos a elas. Mas, sobretudo, devemos nos lembrar que Deus nos ama a todos, porque é profundamente bom e misericordioso.

         Luizinho, afinal, disse para alegria de todos:

         — Vou passar a lição para meus pais, professora. Acho que eles nunca pensaram nisso que a senhora explicou!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O pastor invigilante



         Em certa região vivia um pequeno pastor que passava o tempo a pastorear suas ovelhas.

         Pela manhã, levava o rebanho para o campo, onde as ovelhas tinham vegetação abundante e água fresquinha de um regato que corria entre as pedras ali perto. À tarde, elas voltavam felizes para o redil. O pastorzinho vinha cansado, mas satisfeito.

         Um dia, porém, começou a ficar enjoado do seu trabalho, desejando fazer algo melhor. Já não cuidava direito das ovelhas e, quando uma delas se afastava das demais, não se apressava em trazê-la de volta. Deixava-as livres e entregues a si mesmas, enquanto ele ficava sentado à sombra de uma árvore sonhando em mudar de vida.

         Certo dia, um lobo faminto aproximou-se do local e, como elas estavam sozinhas, avançou sobre as indefesas ovelhinhas, enquanto o pastor dormia despreocupado das suas tarefas.

         Com o barulho que as ovelhas fizeram, balindo desesperadas, o pastorzinho acordou e, percebendo o perigo, tocou sua trompa, um chifre que era usado para pedir ajuda quando necessário, ou apenas para se comunicar à distância com outro pastor.

         Logo seu pai e alguns empregados da fazenda chegaram correndo e o lobo fugiu, às pressas.

         Mas, uma das ovelhinhas tinha sido atingida e esvaía-se em sangue no chão, toda machucada.

         O pai levou-a com muito cuidado para casa e cuidou de suas feridas com todo carinho. O pastorzinho, arrependido, chorava, vendo sua ovelhinha sofrendo por sua causa.

         Depois, seu pai o chamou e falou-lhe severamente:

         — Você não merece minha confiança. Dei-lhe a tarefa de cuidar de minhas ovelhas e você foi descuidado e invigilante. Se não estivesse distraído na execução das tarefas que lhe confiei, teria percebido o perigo a tempo de evitá-lo, pedindo socorro com presteza. Agora, um animalzinho indefeso sofre por seu descaso e talvez até venha a perder a vida.

         Cabeça baixa, triste, o pastorzinho respondeu:

         — Sei que tem razão, meu pai. Reconheço o meu erro. Mas não me negue uma outra oportunidade! Prometo ser mais cuidadoso e vigilante nas minhas obrigações E cuidarei com muito amor das ovelhas que o senhor me confiar.

         Satisfeito, o pai o abençoou, sabendo que já aprendera a lição, e concedeu-lhe nova oportunidade de provar que mudara de comportamento.

         A ovelhinha, sob os cuidados do pequeno pastor, em pouco tempo estava curada e corria alegremente pelos campos com as outras ovelhas, seguida pelo olhar atento do rapaz.

*

         Também assim acontece conosco. Quantas vezes Deus, Nosso Pai, confiante, nos concede a bênção de realizarmos alguma tarefa que, por descuido, não executamos com proveito.

         O Senhor coloca à nossa disposição os meios necessários para nosso progresso e, invigilantes, nos entregamos à preguiça e ao descaso, indiferentes à divina oportunidade que nos é concedida e, ainda, muitas vezes, prejudicando outras criaturas com a nossa irresponsabilidade.

         Deus, porém, é Pai Amoroso e, sempre nos dará novas oportunidades para recomeçarmos de onde paramos.

         E, se tocarmos a “trompa” pedindo socorro através de uma prece, não deixará de nos atender em nossos momentos de dificuldades.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O esforço da semente



         A sementinha soltou-se da árvore e caiu no solo, e lá permaneceu. Certo dia, um vento passou soprando forte, e a arrastou para longe.

         Nesse lugar estranho, longe do local onde sempre vivera, longe da árvore-mãe que a tinha agasalhado, a sementinha sentia-se solitária, mas confiante de que sua vida ia mudar. Uma manhã, olhando para o alto, viu pesadas nuvens que se acumulavam no céu e percebeu que ia chover.

         Logo, o vento começou a soprar, e a chuva forte caiu, molhando a terra, se acumulando em poças e depois formando um pequeno regato.

         A sementinha, apavorada, viu-se arrastada pela enxurrada por um longo trecho... até que notou que havia parado. A lama acabou por envolvê-la, e ali ela ficou, escondida no escuro, coberta pela terra.

         Sem nada ver, a sementinha sentia-se muito triste. Estava sozinha e sem poder sair daquele lugar onde não entrava luz. Não gostava da escuridão, nem da umidade, nem da terra que a mantinha presa, impedindo-a de ver o sol.

         Todavia, ela não perdia as esperanças de ter um futuro melhor. Confiava que o Criador não a fizera nascer em vão.

         E a sementinha sentia a vida pulsar dentro de si: Toc... toc... toc... Eram as batidas do seu coração.

         Mas o que adiantava ter um coração, sentir-se viva, se nada podia fazer entregue à inutilidade embaixo da terra?

         Então, a sementinha, em lágrimas, orou com muita fé:

         – Ajude-me, Senhor. Quero ter uma vida diferente, realizar alguma coisa de útil e de bom! Não me deixe aqui sem poder fazer nada.

         Depois, cansada de chorar, a sementinha acabou por se acomodar, adormecendo aconchegada à terra.

         Certo dia, algum tempo depois, ela acordou. Dormira bastante. Sentia-se descansada. Teve vontade de espreguiçar-se.

         Encheu o peito de ar e abriu os braços com força. Então, viu que dois delicados brotinhos surgiam do seu corpo. Mais animada, começou a fazer força: Esticou... esticou... esticou bem os braços... e, cheia de alegria, conseguiu romper o solo!

         E um espetáculo lindo surgiu diante de seus olhos maravilhados: O céu azul, as árvores verdes e floridas que existiam ali perto, os pássaros, e especialmente o sol, cujos raios mornos aqueciam seu corpo, fortalecendo sua seiva.

         Poucos dias depois, já era uma linda plantinha, forte e decidida, cheia de pequenos galhos e de folhas verdinhas.

         Em breve, tinha crescido e se transformado num belo arbusto. Não demorou muito, e era uma árvore, de tronco robusto e cujos galhos avançavam para todos os lados formando uma grande copa.

         Surpresa e feliz, descobriu que era uma Macieira!

         Agora, olhando tudo do alto, a Macieira pensava em como se modificara sua vida. Os pássaros vinham fazer ninhos em seus ramos; os pequenos animais se abrigavam sob sua copa; as pessoas protegiam-se sob sua sombra, as crianças subiam em seus galhos, e, no tempo certo, colhiam seus frutos, alimentando-se com suas doces e saborosas maçãs. E até os vermes existentes no solo se beneficiavam, aproveitando os frutos estragados que caíam no chão.

         E a Macieira acolhia a todos, satisfeita por poder ser útil. Sentia-se agora feliz e realizada.

         Seu coração grande e generoso, repleto de gratidão, reconhecia o quanto devia à terra que a agasalhara em seu seio por tanto tempo, à água que mantivera sua vida latente, e ao calor do sol que lhe dera condições de crescer e se desenvolver.

         Compreendia agora que, sem as dificuldades que tinha atravessado, não poderia ter chegado a ser a bela árvore em que se transformara.

         E certamente, agradecia a Deus, que a criara, consciente de que precisava passar por aquele processo de aprendizado para crescer e realizar a tarefa que lhe fora destinada.

         Sentia-se importante; deixara de considerar-se inútil.

         Sua tarefa poderia ser pequena, mas só ela a poderia realizar, por isso agora se considerava muito feliz.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A tartaruga mensageira



         Um dia, há muito tempo atrás, os animais habitantes de uma grande floresta ficaram sabendo que um grupo de homens pretendia derrubar todas as árvores para transformá-las em madeira.

         Apavorados, pois isso representaria a destruição deles também, resolveram mandar uma mensagem pedindo socorro a um grupo de pessoas amigas e amantes da natureza.

         Os bichos se reuniram para decidir quem seria o portador da mensagem, pois era uma missão muito importante, e o local para onde teriam que ir ficava muito, muito distante.

         Apresentaram-se para a tarefa: um passarinho, um esquilo, um macaco e uma tartaruga.

         – Eu sou o melhor – disse o passarinho estufando o peito –, porque posso voar e, rapidamente, dar conta do recado.

         O esquilo alisou o pêlo macio e falou, orgulhoso:

         – Eu tenho mais condições de cumprir a missão, porque sou rápido e ágil!

         O macaco, coçando a cabeça, afirmou:

         – Não! Eu sou o mais indicado porque, pulando de galho em galho chegarei mais depressa ao destino.

         Todos riram quando a pequena tartaruga se apresentou. Afinal, tinham urgência que a mensagem fosse entregue rápido, e a tartaruga era, reconhecidamente, muito lenta.

         Depois que as risadas se acalmaram, o leão perguntou:

         – Por que é que você acha que tem condições de ser a portadora?

         – Porque tenho confiança em Deus que o conseguirei! – respondeu a tartaruga com serenidade.

         Após muito discutir, os animais decidiram, muito sabiamente, que para maior segurança, todos os quatro levariam uma mensagem igual. Aquele que chegasse primeiro, teria a honra de entregá-la.

         E assim, numa bela manhã de sol, partiram os mensageiros levando as esperanças e a confiança de todos os animais.

         O esquilo saiu aos pulos, ligeiro; o passarinho abriu as asas e voou rápido pelo céu; o macaco, pulando de árvore em árvore, lá se foi a perder de vista. Só a pobre tartaruga iniciou a jornada com sua marcha lenta, para chacota dos demais.

         Enfrentaram perigos e obstáculos. Tão logo terminaram as árvores, o macaco teve que continuar também pelo solo.

         A certa altura do caminho ocorreu um grande desmoronamento de terras e, como não quisessem se abrigar para não interromper a marcha, o macaco e o esquilo foram atingidos e não puderam prosseguir.

         O passarinho passou voando sem maiores dificuldades, mas a tartaruga, vendo o perigo, com tranqüilidade escondeu-se na sua carapaça esperando-o passar.

         Mais adiante, sobreveio terrível tempestade, e o passarinho, não obstante se agarrasse às árvores para se proteger, foi arrastado pelo vento forte. A tartaruga, porém, novamente parou sua caminhada, escondendo-se em sua carapaça do furor do temporal, esperando o tempo melhorar. Depois, prosseguiu sua jornada.

         Em conseqüência das fortes chuvas, regiões ficaram totalmente inundadas, mas a corajosa tartaruga não desanimou.

         Guardando muito bem a carta para que não molhasse, prosseguiu nadando.

         E assim, vencendo dificuldades enormes, perigos inesperados e obstáculos difíceis, a tartaruga chegou ao seu destino. Ali ficou sabendo, muito surpresa, que era a primeira a chegar!

         Sentiu-se orgulhosa e satisfeita, pois foi cumprimentada por todos, como se fosse uma heroína.

         E voltou para casa com os amigos que iriam protegê-los e evitar a destruição da floresta.

         Carregada nos braços, ela chegou coberta de glória, para espanto dos animais, que nunca poderiam imaginar que a pequena tartaruga cumpriria missão tão importante.

         Os animais então perceberam que todas as criaturas merecem respeito e consideração, e que todos têm condições de vencer. Que, muitas vezes, não são as criaturas que parecem ter as melhores condições que vencem, mas aquelas que se utilizam melhor das possibilidades que possuem.

         Perguntaram então à tartaruga, a que ela atribuía sua vitória.

         – Creio que sem PACIÊNCIA, PERSISTÊNCIA, CORAGEM e muita FÉ, eu não poderia ter vencido – respondeu ela.

         E concluiu com tranqüilidade:

         – SÓ ASSIM VENCEREMOS!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A baleia azul



         Ela nasceu grande e forte.

         Desde recém-nascida era muito maior do que os outros habitantes das profundezas do oceano.

         Afinal, era uma baleia. Uma linda baleia azul!

         Mas Balofa, como seus amigos peixes a chamavam, não conseguia brincar e se divertir como todos os outros seres do mar por causa do seu tamanho.

         Com o passar do tempo, como só conseguisse brincar com as outras baleias iguais a ela, começou a desenvolver dentro de si um enorme desprezo pelas outras criaturas, fossem peixes, moluscos ou crustáceos.

         Considerava-os pequenos e insignificantes, e o orgulho pelo seu tamanho e beleza tomou conta do seu coração. Quando eles se aproximavam querendo brincar, ou apenas conversar, ela respondia altaneira:

         – Não se enxergam? Vejam o meu tamanho e vejam o de vocês! Vão procurar sua turma que eu tenho mais o que fazer.

         E como muitos seres do mar se afastassem à sua aproximação temendo ser esmagados por ela, Balofa acreditou-se verdadeiramente invencível e auto-suficiente, afirmando convicta e cheia de orgulho:

         – Eu sou forte e poderosa. Não preciso de ninguém.

         Certo dia, contudo, passeando com sua mamãe, afastou-se do cardume encantada com a beleza de alguns corais que vira ao longe.

         Aquela região era absolutamente desconhecida para ela.

         Não se preocupou, porém. Era grande e sabia se defender. Não havia morador das profundezas do mar que pudesse vencê-la. Quanto ao caminho de casa, logo o encontraria. Era só questão de tempo. Com sua inteligência e sua força não tinha medo de nada.

         Assim pensando, Balofa percorreu enormes distâncias sem saber para que lado estava indo. Já estava cansada quando, sem perceber, aproximou-se muito de uma praia e ficou presa num banco de areia. Lutou bastante, debateu-se, suplicando ajuda:

         – Socorro! Socorro! Estou presa e não posso sair! Socorro! Acudam!

         Mas, qual! Aquela era uma praia quase deserta e dificilmente passava alguém.

         Há horas estava fora da água, sob o sol inclemente. Exausta de lutar, sentia-se cada vez mais fraca.

         Ninguém atendia às suas súplicas e a pobre baleia azul pensou que era o fim. Morreria ali, sem socorro e longe da família.

         Chorou, chorou muito. Desesperou-se e compreendeu, finalmente, que não era tão auto-suficiente como sempre acreditara. E que o seu tamanho, aquele enorme corpo do qual sempre se orgulhara, era justamente a razão de estar presa no banco de areia.

         Com lágrimas nos olhos, lamentava-se:

         – Ah! Se eu fosse pequenina como os outros peixes não estaria agora nesta situação.

         Meditou bastante e decidiu que, se conseguisse se salvar, seria diferente e não desprezaria ninguém. Deixaria de ser tão orgulhosa e faria amizade com todo mundo.

         Algumas horas depois passou um garoto pela praia. Vendo-a, gritou encantado:

         – Uma baleia azul! E parece que está encalhada, pobrezinha. Vou buscar ajuda.

         Se fosse em outra época, Balofa reviraria os olhos com desprezo, não acreditando que uma criatura tão insignificante pudesse ser de alguma utilidade. Agora, porém, era diferente. Agradeceu a Deus pelo auxílio que lhe mandava na pessoa de uma criança tão pequena.

         Logo depois o menino voltou com o pai e algumas pessoas das redondezas. Com grande esforço, aproveitando a subida da maré, conseguiram finalmente soltar a grande baleia, que sumiu nas águas, toda feliz.

         Um pouco adiante, encontrou sua mãe, muito preocupada, que a procurava sem descanso. Ufa! Que alívio!

         Naquele dia, no fundo do mar houve grande festa, e os peixes ficaram admirados de serem convidados por Balofa. E, mais ainda, de serem recebidos com muito carinho e atenção pela linda baleia azul, toda sorridente e gentil.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O carrossel



         Fernando era um menino muito pobre. De família humilde, suas dificuldades eram imensas, pois muitas vezes em sua casa faltava até o que comer.

         Mas Fernando possuía um coração muito bom, era alegre e prestativo, e o pouco que ele tinha repartia com os outros.

         Era entregador numa loja, cujo dono resolvera ajudá-lo apenas para que não ficasse na rua. Seu “salário” era muito pequeno. Na verdade, resumia-se às gorjetas que as pessoas de boa-vontade lhe davam pela sua ajuda.

         Um dia voltava ele para casa e aquele tinha sido um dia de pouco movimento; ganhara apenas algumas moedas.

         Era quase noite. Passando defronte de uma linda vitrine de confeitaria, ficou parado olhando os doces que ali estavam expostos.

         Ouviu um suspiro fundo vindo do seu lado. Virou-se e viu uma garotinha que, de olhos arregalados, fitava um enorme pedaço de bolo com cobertura de chocolate.

         A menina, maltrapilha, tinha o aspecto pálido e doentio de quem não se alimentava há muitas horas. Condoído da situação da garota, Fernando perguntou:

         — Você está com fome?

         Ela balançou a cabeça, concordando, sem tirar os olhos do bolo.

         Fernando enfiou a mão no bolso consultando seus magros recursos.

         Ele também estava com fome. Porém, certamente em casa sua mãe o estaria esperando com um prato de sopa quente e um pedaço de pão.

         Gostaria de comprar alguma coisa para ele, Fernando, com aquele dinheiro que lhe custara tanto ganhar, mas a pequena parecia tão faminta!

         Resolveu-se. Entrou na confeitaria, pegou o pedaço de bolo e orgulhosamente, por ter podido comprá-lo com o “seu dinheiro”, ofereceu-o à pequena maltrapilha com amplo sorriso.

         O olhar de alegria da menina foi suficiente para recompensá-lo.

         Satisfeito, tomou o caminho para seu lar. Próximo de sua casa viu as luzes de um parque de diversões que haviam montado naquele dia.

         A música, as luzes e o movimento de pessoas atraíram a atenção de Fernando.

         Adorava parque de diversões com seus brinquedos e sua música. Principalmente o carrossel, com os cavalinhos que subiam e desciam rodando sempre ao som de uma música, o encantava.

         Ficou parado, olhando. Como gostaria de andar naquele carrossel! Mas, infelizmente, não tinha mais moedas.

         O preço de um ingresso para uma volta no brinquedo era o mesmo que gastara comprando o pedaço de bolo pára a pequena mendiga. Se não tivesse comprado o doce, agora teria o dinheiro para dar uma volta no carrossel.

         Lembrou-se, porém, do rostinho sujo e satisfeito da menina e afastou esse pensamento egoísta da sua cabeça.

         “Não tem importância” — pensou — “Mamãe sempre me disse que tudo aquilo que fizermos aos outros, Deus nos dará em dobro. Está, portanto, bem empregado o meu dinheiro”.

         Nisso, percebeu um garoto muito bem vestido a seu lado, chupando um sorvete. Vendo Fernando olhar o carrossel, perguntou:

         — Quer andar de cavalinho?

         — Quero. Mas não tenho dinheiro — respondeu.

         O garoto estendeu-lhe dois bilhetes dizendo, indiferente:

         — Tome.

         — Mas não tenho com que pagar! — gaguejou Fernando.

         — Não tem importância. Já estou cansado desses brinquedos. Meu pai é dono desse parque e tenho sempre quantos bilhetes quiser.

         Agradecendo, Fernando fitou os bilhetes com os olhos úmidos de emoção, enquanto dizia para si mesmo:

         — Minha mãe tinha razão. Eu sabia que Deus ia me retribuir, mas não pensei que fosse tão rápido.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Resposta de Deus



         Jandira, uma menina de oito anos de idade, desde muito pequena se acostumara a passar por toda sorte de privações.

         Não conhecera o pai, e a mãe a abandonara quando tinha pouco mais de quatro anos. Uma vizinha, apiedando-se dela, levou-a para casa.

         Mas a vizinha tinha muitos filhos e logo Jandira percebeu que não poderia morar ali, que não era bem-vinda.

         Com cinco anos saiu da casa que a acolhera, cansada de apanhar, e foi para a rua, acompanhando umas crianças que conheceu e que também não tinham família. Assim, Jandira foi morar com os novos amigos num casebre abandonado.

         Aprendeu a pedir esmolas para poder sobreviver. Comia do que lhe davam. Apesar de todas as dificuldades da sua curta vida, Jandira jamais foi uma criança revoltada. Tinha o coração amoroso e bom, e todos a estimavam. Acreditava em Deus e tinha certeza de que Ele não a deixaria desamparada, conforme ouviu alguém ensinar certa vez.

         Certo dia, enquanto pedia esmola na cidade, Jandira viu aproximar-se um homem de aspecto distinto, muito bem-vestido.

         – Por caridade, uma esmola! – pediu.

         Ouvindo a voz da criança, Manoel olhou e viu uma menina de rostinho sujo, roupas rasgadas, que o fitava com grandes olhos vivos e confiantes. Como estivesse com pressa, deu uma moeda sem se deter.

         No dia seguinte, encontrou a garota no mesmo lugar. Ela sorriu e estendeu a mãozinha pedindo uma esmola. Novamente Manoel deu uma moeda, contra seus hábitos, e ouviu o agradecimento da menina.

         – Que Deus o abençoe e que nunca lhe falte nada.

         Impressionado, seguiu adiante com passos rápidos, mas não conseguiu esquecer o rostinho da garota durante todo o dia.

         Na manhã seguinte, lá estava ela no mesmo lugar. A menina aproximou-se dele com uma florzinha na mão, sorridente.

         – É sua. Trouxe para o senhor.

         Surpreso, Manoel sentiu necessidade de parar para conversar.

         – Como se chama? – perguntou.

         – Jandira.

         – Quantos anos tem, Jandira?

         – Acho que tenho oito ou nove anos, senhor. Não sei ao certo.

         – Não vai à escola? – indagou ele.

         – Não. Nunca pude estudar, apesar de ter muita vontade de aprender a ler e a escrever.

         – Onde você mora, Jandira? – perguntou, impressionado.

         – Num barraco, com outras crianças.

         – Por quê? Não tem família?

         – Minha mãe foi embora quando eu era muito pequena. Tenho apenas pai.

         – Como se chama seu pai? – quis saber ele.

         A menina respondeu com seriedade.

         – Deus.

         – Deus? Esse é o nome do seu pai? – ele perguntou, pensando não ter entendido direito.

         – Sim. Deus não é o Pai de todo mundo? – respondeu ela com simplicidade.

         – Ah! É verdade.

         – Então, Ele não deixa que me falte nada. Tenho tudo do que preciso. Um teto para me abrigar da chuva e do frio, tomo banho num chafariz e, quando sinto fome, peço uma esmola e ganho dinheiro para comprar o que comer. Às vezes ganho comida e nem preciso pedir esmolas, e ainda posso repartir com os outros o que recebo.

         Sensibilizado, Manoel perguntou:

         – O que mais você gostaria de ter, Jandira?

         – Nada. Eu não preciso de nada.

         – Diga. Gostaria de poder ajudar – insistiu Manoel.

         A menina pensou um pouco e, com os olhos rasos d’água, respondeu baixinho:

         – Gostaria de ter uma família de verdade.

         Manoel sentiu um aperto no coração e as lágrimas afloraram em seus olhos. Sentia-se culpado. Era rico, tinha tudo. Uma casa grande, emprego bom e não tinha filhos. Morava apenas com a esposa e nunca pensara em ajudar ninguém. E aquela criança pedia tão pouco da vida!

         Tomou uma resolução. Sua esposa sempre quisera filhos e iria gostar.

         Fitou a menina à sua frente, e disse:

         – Agora tudo vai ser diferente, Jandira. Deus, apesar de dar-lhe tudo, como você afirmou, encarregou-me de ser seu pai aqui na Terra. Aceita? Além de um pai, terá também uma mãe.

         Sem poder acreditar em tamanha felicidade, Jandira pulou nos braços de Manoel, cheia de alegria.

         – Deus o mandou? Aceito! Eu sabia que ele não deixaria de atender às minhas preces. Antes de dormir – explicou – sempre pedia ao Pai do Céu que me dê um pai de verdade aqui na Terra.

         Nesse momento, Jandira lembrou-se dos companheiros:

         – Ah!...E meus amigos? Não posso abandoná-los!

         – Não irá abandoná-los, Jandira. Como minha filha, terá condições de ajudá-los. Tenho dinheiro. Arrumaremos uma casa de verdade, alguém que tome conta deles e terão tempo de estudar para serem mais tarde criaturas dignas e úteis à sociedade.

         A menina batia palmas de alegria.

         – Que bom! Que bom!

         Em seguida, olhou Manoel com muito carinho e, segurando a mão dele, perguntou:

         – Posso chamá-lo de papai?

*

         O nosso carinho e o nosso abraço a todos os pais do mundo.
         FELIZ DIA DOS PAIS!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A descoberta



         Toninho, de nove anos, era um menino diferente e, por isso, causava muitas preocupações aos seus pais.

         Frequentava a escola, mas não gostava de estudar e apresentava dificuldades em acompanhar a classe.

         Apreensivos com seu futuro, os pais tentavam de todas as maneiras fazer com que Toninho se interessasse por alguma coisa. Mas, qual nada! Ele gostava mesmo era de brincar.

         À medida que o tempo passava, os pais do menino ficavam cada vez mais aflitos. Já haviam tentado de tudo.

         Procuraram despertar-lhe interesse pela música. Foi um desastre. Piano, Toninho não tinha paciência para suportar os monótonos exercícios. Violão, ele ficava irritado e colocava tanta força no manejo que em pouco tempo arrebentava as cordas. Violino, nem pensar. Bateria, ele não gostava de barulho. Enfim, para a música, não tinha vocação, nem ritmo e nem sensibilidade, deixando os professores desanimados.

         — Já que você não tem tendência para a música, meu filho, quem sabe uma outra arte? A pintura, por exemplo. Veja o exemplo dos grandes gênios da pintura. É fascinante!

         — Está bem. Vou tentar.

         Mas, qual! Toninho não conseguia lidar com os pincéis nem com a mistura das cores. Ficava entediado, e logo desistiu.

         — Se você não gosta de estudar, nem de música ou de pintura, quem sabe se interessa por algum esporte? Poderia talvez jogar futebol! — considerou a mãezinha dedicada.

         — Nem pensar. Gosto de assistir jogo, mas não de correr atrás de uma bola.

         — Bem, talvez então alguma modalidade de atletismo?

         — Corrida, salto em distância, arremesso de peso... nada disso faz o meu gênero.

         — Tênis?

         — Nem pensar.

         — Talvez vôlei?

         — Não tenho altura suficiente.

         — Natação?

         — Gosto de ir à piscina, mas entro na água apenas para refrescar o corpo do calor do sol.

         — Basquete?

         — Não tenho pontaria.

         Enfim, tentaram todas as modalidades de esporte. Nada.

         Os pais, cada vez mais preocupados. Toninho contava agora quinze anos. Crescera, transformando-se num rapaz alto e magro. Porém ainda não descobrira nada que o interessasse.

         Experimentaram a informática, mas ele usava o computador apenas para divertir-se com os jogos.

         A mãe de Toninho estava cada vez mais aflita, mas o pai insistia em afirmar:

         — Fique calma, querida. Todas as pessoas têm habilidade ou tendência para alguma coisa. Nosso filho não é diferente. Ele vai acabar descobrindo do que gosta.

         — Será? Tenho pedido tanto a Deus que ilumine nosso filho! — dizia a mãezinha um tanto desanimada.

         Certo dia, Toninho encontrava-se passeando num parque. Sentou-se à borda do lago e pôs-se a pensar. Aquela situação também não era agradável para ele. Tinha vontade de fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Nesse momento, lembrou-se de Deus e orou com fervor suplicando ajuda e proteção. Sentia-se inútil e sem objetivos na vida. Abaixou a cabeça e chorou sentidamente.

         Sentiu-se mais reconfortado. De repente, Toninho olhou em torno e viu um pedaço de madeira ali perto. Teve o impulso de pegá-lo nas mãos. Revirou-o para todos os lados, observando-o. Interessante! Pareceu-lhe ver a imagem de um pássaro de asas fechadas naquela madeira. No mesmo instante, Toninho pegou um canivete de estimação que trazia sempre no bolso, e começou a trabalhar.

         Com habilidade, esculpiu a cabeça, colocou os olhos no lugar, trabalhou as asas. Depois, modelou as pernas e os pés, que se apoiavam num pedaço de galho.

         Toninho não viu o tempo passar. Quando terminou, ele ficou extasiado diante da pequena escultura, obra de suas mãos.

         Correu para casa. Queria contar a novidade. Chegando, mostrou a escultura.

         — Vejam! Papai, você tinha razão. Todos nós temos potencialidades ignoradas e habilidades insuspeitas. Descobri que minhas mãos servem para alguma coisa. Também posso ser útil e criativo.

         — Mas, quando foi que aprendeu a esculpir em madeira? — indagou o pai, intrigado.

         — Não sei. Parece-me que já aprendi e que estou apenas recordando!

         Era imensa a perplexidade e a alegria dos pais. Finalmente, Toninho descobrira uma razão para viver!

         Desse dia em diante, Toninho como que tivera sua vista alargada. Tudo o que via, enxergava com outros olhos, vislumbrando sempre o que poderia fazer, modificar, transformar, esculpir.

         Tornou-se um grande artista. Seus trabalhos eram muito procurados e suas exposições bastante concorridas. Ficou conhecido no Brasil e no exterior, mas jamais deixou de ser a criatura simples que era.

         Agora, porém, tinha um objetivo. Ajudar crianças, passando seus conhecimentos e ensinando que somente nos sentiremos felizes quando trabalharmos com amor fazendo aquilo que gostamos.

         Agradecia sempre a Deus, que o ajudara quando mais precisava, indicando-lhe o caminho que deveria trilhar.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O menino e o arco-íris



         Toninho era um garoto que, embora não fosse rico, nada lhe faltava.

         Tinha tudo! Pais amorosos, uma casa confortável, roupas bonitas e estudava numa boa escola.

         Mas Toninho era um garoto que só conseguia ver da vida o que ela tinha de pior. Nas pessoas e nas coisas, procurava sempre o lado negativo.

         Se um amiguinho se aproximasse após ter tomado um banho, de roupas limpas, cabelos penteados, ele olhava o outro dos pés à cabeça procurando algo para criticar: — Que sapatos mais feios!

         Em casa, a comida era sempre feita com carinho pela mãe, ansiosa para agradá-lo. Ele provava e já franzia o nariz, exclamando:

         — Está uma droga! Muito salgada!

         A mãe ficava triste, porém nada podia fazer. Debalde procurava fazê-lo mudar de comportamento, ensinando-lhe que tudo tem seu lado bom e que era preciso enxergar a vida com outros olhos.

         Contudo, Toninho não se modificava. Ao contrário, parecia que a cada dia ele estava ficando pior.

         Ninguém gostava dele. Os colegas na escola evitavam sua presença, temendo suas críticas. E, com isso, ele foi ficando cada vez mais sozinho e mal-humorado.

         Sua mãezinha, preocupada com ele, fazia sentidas preces a Jesus, rogando-lhe a ajudasse a modificá-lo. O que seria dele no futuro se continuasse assim? A vida lhe seria um fardo muito difícil de suportar.

         Certo dia, porém, brincando no quintal, ao passar correndo por debaixo de uma árvore, Toninho não viu um galho e esbarrou violentamente nele. De imediato, sentiu uma dor terrível nos olhos, não conseguia abrir as pálpebras e lacrimejava muito.

         A mãe levou-o ao médico. Examinando Toninho, o médico acalmou os receios da mãe, dizendo-lhe:

         — Graças a Deus não foi nada grave. Os olhos foram arranhados levemente pelo galho. Todavia, há necessidade de manter repouso e ficar com os olhos vendados.

         O médico colocou uma pomada, fez um curativo em cada olho, tampando-lhe completamente a visão, depois recomendou:

         — Voltem dentro de dois dias.

         Amparado pela mãe, Toninho saiu do consultório médico reclamando.

         — Não se lamente, meu filho. Agradeça a Deus, pois você poderia ter ficado cego — considerou a mãezinha, paciente.

         Aqueles dois dias foram um tormento para o menino. Chorou, se lastimou, bateu os pés no chão, fez birra, mas acabou se conformando. Afinal, o médico disse que se quisesse sarar, teria que ficar com os olhos vendados.

         Naquele período aprendeu até a andar pela casa, embora trombando nos móveis; já conseguia saber se estava fazendo sol ou não, pelo calor no corpo; sentia o perfume das flores, a carícia do vento e tudo o que não dava importância antes.

         No final dos dois dias, estava mais tranqüilo e foi muito satisfeito que, à hora marcada, voltou ao médico.

         Ao sair do consultório, após ter retirado os curativos, a emoção foi muito grande ao ver de novo a rua, as pessoas caminhando, os carros no trânsito, o céu, as árvores...

         Toninho até chorou de felicidade.

         Puxando-o pela mão, a mãe lhe disse:

         — Vamos rápido, meu filho. Veja como o tempo está feio. Acho que não tarda a chover mais!

         Toninho olhou para o alto, fitando o céu, cheio de nuvens escuras e sorriu, retrucando:

         — Não acho que o céu esteja feio, mamãe. Acho até que está muito bonito! E veja o lindo arco-íris que surgiu entre as nuvens! Parece que ele está me saudando e dizendo: “Bem-vindo à vida, Toninho!”.

         A mãe o olhou surpresa, ao notar a mudança que se operara nele, e Toninho explicou:

         — Sabe, mamãe, estes dois dias me fizeram ver as coisas de outra maneira. Não poder enxergar, ver sempre tudo escuro é horrível, e fez-me dar valor ao que me cerca. Mais do que isso. Entendi que antes, mesmo tendo visão perfeita, na realidade eu enxergava menos do que um cego. Compreendo agora porque a senhora vivia tentando fazer-me mudar de comportamento. Vejo agora que tudo é belo na natureza, as pessoas, as coisas que nos cercam.

         A mãe suspirou e, olhando para o Alto, intimamente agradeceu a Jesus a lição que seu filho tinha recebido.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Tempo perdido



         Certo homem era marceneiro de profissão e possuía extraordinária facilidade para trabalhar com madeira. Era um verdadeiro mestre em seu ofício e todos admiravam seus trabalhos.

         Esse homem tinha um sonho.

         Desejava esculpir na madeira uma imagem de Jesus, a quem ele amava profundamente, em tamanho natural.

         Conversando com um amigo, o marceneiro falou do sonho que acalentava em seu íntimo e o companheiro o incentivou:

         - Então por que você não começa? Com seu talento e habilidade nas mãos, tenho certeza que a escultura será uma obra prima!

         Ao que o marceneiro respondeu:

         - Ah! Meu amigo! Desejo não me falta. Contudo, o trabalho deverá ser perfeito e ainda não resolvi qual a madeira que irei utilizar.

         Sempre em dúvida, o artesão deixava o tempo passar. Uma madeira porque era muito rija; a outra porque não era resistente o suficiente; outra era macia e de fácil manejo, porém a tonalidade não o agradava.

         E assim o tempo foi passando e o marceneiro não se dava conta.

         Alguns anos depois reencontrou o amigo que tinha retornado à cidade e, curioso, perguntou sobre a obra.

         - Já resolvi o tipo de madeira que irei trabalhar. Entretanto, ainda não iniciei porque não estou nas minhas melhores condições íntimas. Creio que para esculpir a figura do Mestre preciso estar bem comigo mesmo e com o mundo. Sabe como é, os fregueses exigem muito da minha atenção e, não raro me irrito, perdendo a paciência. Além disso, não podendo dispensar o serviço da marcenaria, onde ganho o sustento para minha família, só posso dedicar-me ao sonho acalentado pela minha alma nos momentos de folga. E aí, grande parte das vezes, eu sinto-me exausto e sonolento. Contudo — completava tentando aparentar entusiasmo —, pretendo começar minha obra prima dentro em breve.

         Algum tempo depois, voltaram a se encontrar e, questionado pelo amigo que demonstrava interesse pelo assunto, o artesão argumentava:

         - Infelizmente, ainda não iniciei o trabalho porque as condições não permitem. A família exige muito da minha atenção e os filhos requisitam meus carinhos. Você compreende, ainda são pequenos e dependentes. Porém, quando que eles crescerem um pouco mais, poderei trabalhar em paz.

         E assim o tempo foi passando. Muitos anos depois, em visita à cidade, o amigo foi procurar o marceneiro. Encontrou-o velho e doente.

         Após os cumprimentos e a troca de notícias, felizes com o reencontro, o visitante interrogou, curioso:

         - E daí? Estou ansioso para ver o trabalho que você tanto desejava executar. Com certeza deve ter ficado soberbo!

         Os olhos do artesão se apagaram e uma tristeza infinita vibrou em sua voz já trêmula pela idade:

         - Ah, meu amigo! Infelizmente, nem cheguei a iniciar o trabalho que representava o sonho de toda uma vida. As dificuldades foram muito grandes e a necessidade de prover o sustento da família me absorveu. Agora, encontro-me doente e sem forças. A vista está fraca e já não enxergo mais como antes, e as mãos, trêmulas, não me permitem mais trabalhar.

         Penalizado, o visitante amigo viu-o puxar um lenço e enxugar uma lágrima, cheio de arrependimento e amargura.

         - É tarde, meu amigo. Tive todas as condições e não soube aproveitar. Perdi a oportunidade que o Senhor me concedeu.

         Tentando animá-lo, o visitante considerou:

         - Quem sabe? Não desanime. Talvez ainda seja possível.

         O marceneiro fitou o amigo, demonstrando que compreendia toda a extensão da sua inutilidade e da sua cegueira, e respondeu convicto:

         - Não agora; só se for em outra existência!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A galinha intransigente



         Existiu certa vez uma galinha que nunca estava satisfeita com nada. Vivia de mal com o mundo e não perdoava a menor ofensa, mesmo involuntária.

         Passava o tempo a queixar-se da vida e a criticar tudo o que os animais da fazenda faziam. No terreiro, ninguém estava livre dos seus comentários.

         Se um patinho se machucava, ela logo dizia:

         - Bem feito! Quem manda dona Pata deixar seus filhotes soltos por aí?

         Se o cachorrinho era picado por uma abelha ao enfiar o focinho no tronco de uma árvore, ela logo exclamava com ar satisfeito:

         - Teve o que merecia! Quem manda ficar enfiando o nariz onde não deve?

         Se o gatinho, sem querer, entornava o prato de leite, ela reagia:

         - Também com a educação que dona Gata lhe dá, só podia ser um trapalhão mesmo!

         E assim ela criticava todos os animais do terreiro. E ai de alguém que lhe fizesse a mínima ofensa. Jamais teria o seu perdão.

          Certo dia, ela descuidou-se arrumando o galinheiro e não viu que um de seus pintinhos desaparecera.

         Quando percebeu, ficou apavorada e saiu gritando por ele:

         - Chiquinho! Chiquinho! Onde está você?

         Mas nada do Chiquinho aparecer. Perguntou para os vizinhos, para dona coruja, sempre muito esperta, e nada. Ninguém sabia dar notícias do pintinho.

         Todos estavam preocupados e ajudando a procurar o filhote da galinha, até que dona Vaca lembrou-se de tê-lo visto atravessando o pasto a caminho do riacho.

         Correram todos, e lá chegando ficaram surpresos e encantados com a cena que viram.

         O pintinho caíra na água e, não sabendo nadar, debatera-se, ficando preso em umas plantas na outra margem do riacho que, embora estreito, não dava para alcançar.

         O patinho, excelente nadador, já fizera vãos esforços para soltar o pintinho, que estava preso por uma das patas, mas ele era muito fraco e não tinha força suficiente.

         O cachorrinho e o gatinho tiveram uma idéia e, nesse exato momento, a colocavam em execução.

         O cachorrinho, que era o mais forte, se pendurou num galho de árvore à margem do regato e, ao mesmo tempo, segurou uma das patas do gatinho, que se esticou... esticou... esticou até conseguir agarrar o Chiquinho pelo pescoço. Depois, puxando-o com força, pode livrá-lo dos ramos que o prendiam.

         Foi um alívio geral! Em pouco tempo, Chiquinho estava nos braços da mamãe Galinha, que respirava aliviada.

         - Graças a Deus! Não sei como agradecer a vocês todos pela ajuda que me deram! — disse com lágrimas nos olhos.

         Depois, pensando um pouco, completou envergonhada:

         - E logo eu que sempre fui tão intolerante com todos! Mas, nunca mais criticarei ninguém. Nunca se sabe quando nós também vamos precisar da ajuda e do perdão dos outros. Hoje, por minha falta de atenção, meu filho quase perde a vida. Porém, em vez de me censurar, vocês me ajudaram. Quero que me perdoem tudo o que já lhes fiz, como espero que Deus me perdoe também.

         E deste dia em diante, dona Galinha transformou-se numa criatura boa, paciente, tolerante e compreensiva para com as falhas do próximo e nunca mais criticou ninguém.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Tomando decisões



         Enquanto o pai se entretinha a ler um jornal, Gustavo, de onze anos, pegou um livro da estante e pôs-se a folheá-lo. De repente parou, e perguntou:

         – Papai, o que é livre-arbítrio?

         O pai colocou o jornal de lado e tirou os óculos:

         – Livre-arbítrio, meu filho, é a capacidade que o ser humano tem de tomar suas próprias decisões, fazer suas escolhas. Entendeu?

         – Não.

         Cheio de paciência, o pai respondeu:

         – Por exemplo, Gustavo. Amanhã é sábado e tem treino de futebol à tarde. Você vai?

         – Não sei, papai. Também tenho convite para ir a uma festa de aniversário, no mesmo horário.

         – Eu sei. Aniversário do Jorginho, seu amigo de infância. E então? O que você vai resolver? Vai ao treino ou vai à festa?

         – Acho que não vou à festa do Jorginho, papai. Creio que vou ao treino.

         – Ah, então você já se decidiu?

         O garoto pensou um pouco e respondeu:

         – O futebol é um compromisso que assumi no início do ano e não devo faltar. O time precisa de mim. Porém, pensando bem, papai, se eu não for ao aniversário, o Jorginho vai ficar chateado comigo.

         – Então, você vai ao aniversário do seu amigo?

         Gustavo coçou a cabeça, confuso, e considerou:

         – Pensando bem, existe um outro problema. Na próxima semana nosso time tem um jogo importante, que faz parte do campeonato entre as escolas. Ah, Meu Deus! Não sei o que fazer!

         O pai sorriu e explicou:

         – Livre-arbítrio é exatamente isso, meu filho. Entre duas ou mais opções, você tem que decidir. Nesse momento, você vai ter que se resolver: o prazer ou o dever.

         – Agora eu entendi, papai. Mas é muito difícil tomar decisões!

         O pai concordou com ele, recomendando que pensasse bastante até o dia seguinte para não tomar uma decisão errada.

         – Meu filho, o livre-arbítrio é um dádiva de Deus, mas também é uma conquista do espírito no trajeto evolutivo realizado. Então, precisamos pensar bem antes de qualquer decisão. Seja ela certa ou errada, ficaremos sempre condicionados às conseqüências dos nossos atos, segundo a Lei de Ação e Reação, ou Lei de Causa e Efeito.

         Como era tarde, foram dormir.

         No dia seguinte, Gustavo estava sentado à mesa tomando o café da manhã, quando o pai lhe perguntou:

         – E daí, meu filho? Resolveu?

         – Pensei bastante e ainda não me decidi. Porém até à tarde, eu resolvo.

         Quase na hora de sair, Gustavo apareceu na sala com a mochila e um pacote embrulhado para presente na mão.

         – Vejo que você se decidiu pelo aniversário, Gustavo. Quer dizer que o prazer ganhou – disse o pai.

         O garoto balançou a cabeça negativamente.

         – Não? Então, vai ao treino. Ficou com o dever.

         Gustavo balançou a cabeça novamente:

         – Também não, papai.

         – Não estou entendendo!

         – É que apareceu uma terceira opção, papai. Lembrei que teremos prova de matemática na

         segunda-feira. Então, vou estudar na casa de um colega que entende bem a matéria. Antes, porém, vou passar na casa do Jorginho, dar-lhe os parabéns e entregar o presente que comprei para ele. Assim, o prazer e o dever serão igualmente atendidos.

         O pai estava surpreso e maravilhado. Seu filho Gustavo, que ele julgara um pouco desleixado com relação às suas tarefas, mostrara que era ponderado e responsável, tomando decisões com habilidade.

         Levantou-se, estendendo os braços para o rapazinho:

         – Parabéns, meu filho. Você soube decidir entre o prazer e o dever. Mas, diga-me, e o treino? O time tem jogo importante na semana que vem...

         Abraçando o pai, com enorme sorriso no rosto, o garoto explicou:

         – É verdade, papai. Porém, fiquei sabendo hoje cedo que o jogo será adiado. Então, não tive mais dúvidas. Agora estou tranqüilo, certo de que fiz o melhor.

         Gustavo despediu-se do pai e da mãe, pegou a mochila com os livros, o presente e, acenando uma última vez, fechou a porta atrás de si.

         O pai estava feliz. Sentia-se realizado por ter um filho que usara o livre-arbítrio de maneira tão responsável.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Fósforos de cor



         Andando pela rua, Laurinha ia remoendo seus pensamentos.

         Estava chateada porque desejava muito um vestido novo que tinha visto numa loja e não podia comprar.

         Pediu à mãe, insistiu, implorou, mas a resposta tinha sido sempre a mesma:

         — Não, minha filha. Não temos dinheiro agora. Quem sabe em outra ocasião?

         A garota bateu o pé, exigente:

         — Não. Quero agora! Depois, aquele vestido não estará mais na loja. E ele é lindo, mamãe. Eu quero, quero e quero!

         — Pois não o terá, Laurinha. No momento estou com pouco dinheiro e não posso gastar o que tenho para atender um capricho seu.

         A menina chorou, fez birra, bateu o pé, gritando inconformada: — Mas eu quero!

         Porém, apesar de toda a pressão de Laurinha, a mãe não cedeu, continuando firme. Ela falou com o pai, julgando que seria mais fácil. Aproximou-se dele dengosa, como sempre fazia quando desejava alguma coisa, sentou-se no seu colo e pediu, com voz suplicante:

         — Papai, eu posso comprar um vestido que vi na loja? É lindo!

         Todavia, a resposta foi a mesma: Não. Laurinha foi para o quarto amuada, chorou, mas teve que se conformar porque os pais não iriam mudar de idéia.

         Alguns dias depois, Laurinha amanheceu com febre. Dona Isabel, cuidadosa e preocupada, não permitiu que a filha fosse à escola, obrigando-a a permanecer na cama.

         Como a febre não diminuísse, a mãe levou Laurinha ao médico. Ela estava com princípio de pneumonia.

         Por mais de uma semana, a garota ficou na cama, tomando remédios e reclamando por não poder sair de casa e ir à escola.

         — Vou ficar boa logo, mamãe? — perguntava ela. — A festa junina da escola está se aproximando e não quero faltar!

         — Vamos ver. Depende de você, minha filha. Se tomar os remédios direito, ficar de repouso na cama, quem sabe?

         Aquela semana custou a passar. Laurinha, embora inconformada, teve que obedecer. Para passar o tempo, jogava damas com os amigos, via televisão, e, quando estava sozinha, lia, lia muito.

         Ela, que nunca tinha se interessado muito por leituras, leu livros que falavam das coisas que são realmente importantes em nossa vida e que devemos valorizar, como a família, a saúde, a educação.

         Ao mesmo tempo, Laurinha não pode deixar de notar que seus pais estavam gastando bastante com ela: tinham que pagar a consulta médica, comprar remédios e até uma alimentação melhor que ela estava precisando para se recuperar.

         Preocupada perguntou à mãe:

         — Mamãe, a senhora disse que estava sem dinheiro e agora está tendo que gastar tanto comigo! Onde arrumou dinheiro?

         — É que a saúde, minha filha, é muito importante para nós e para isso sempre daremos um jeito. É diferente de comprar uma roupa, que não é necessária e podemos passar sem ela.

         Uma semana depois, a garota estava diferente, mais tranqüila, mais serena.

         Chegou o dia da festa junina da escola.

         Laurinha, recuperada, arrumou-se e foi toda feliz para a festa encontrar com os colegas e amigos.

         Lá, passeando entre os postes iluminados, as barracas enfeitadas, as bandeirinhas, ela olhou para a mãe, sorridente e disse:

         — Sabe, mamãe, aprendi muito nesses dias. Aprendi que existem coisas que são realmente importantes. Como a saúde, por exemplo. Fiquei brava por não conseguir comprar aquela roupa nova que eu desejava tanto, mas agora nem me lembro mais dela!

         Olhando uma colega que riscava fósforos de cor, ela explicou:

         — Aprendi que tem coisas na vida que são como fogos de artifício: depois de queimar, não sobram nada. São belos, luminosos, coloridos, mas é só para um momento. Não duram.

         Parou de falar, olhou para a mãe com olhar carinhoso e agradecido, completando:

         — Mas o amor, este dura para sempre.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Amigos para sempre



         Carlinha costumava sempre brincar com seu vizinho, Hugo, que era bom, mas muito arteiro.

         Um dia, Hugo ficou com raiva de Carlinha porque ela não quis brincar de esconde-esconde com ele, preferindo a companhia de uma amiguinha.

         As meninas estavam brincando de casinha, quando o garoto, furioso, chegou, agarrou a boneca de Carlinha e saiu correndo com ela. A garota abandonou a amiga e saiu atrás dele. Quando conseguiu alcançá-lo, a boneca estava estraçalhada: braços para um lado, pernas para o outro e a linda roupa, rasgada. – Carlinha pegou os restos da boneca de estimação e correu para casa, chorando muito.

         – O que aconteceu, minha filha? – perguntou a mãe ao vê-la chegar aos gritos. Carlinha contou o que tinha acontecido, afirmando entre soluços.

         – Nunca mais ou brincar com o Hugo. Nunca mais quero vê-lo. Nunca o perdoarei, mamãe.

         A mãezinha pegou a filha no colo com imenso carinho, consolando-a.

         – Sei que está sofrendo, filhinha, mas isso passa. Ele gosta de você e ficou com ciúmes, por isso reagiu assim. Vocês são tão amigos! Logo estarão juntos de novo.

         Mas a pequena afirmava, decidida:

         – Nunca, mamãe. Hugo não é mais meu amigo.

         – Carlinha, boneca a gente pode comprar outra, minha filha. Mas uma amizade não tem preço. Algum dia você vai entender isso – ponderou, com calma.

         Percebendo, porém, que naquele momento não adiantava dizer mais nada, pois a filha estava muito magoada, a senhora calou-se.

         Dois dias depois, Carlinha estava triste e desanimada. Sozinha, não tinha ânimo para brincar, uma vez que perdera seu grande amigo.

         Notando sua tristeza, a mãe sugeriu:

         – Carlinha, porque não faz as pazes com Hugo? Ele já veio procurá-la e você não quis brincar nem falar com ele.

         – Não consigo, mamãe.

         A mãe, que estava preparando o almoço, parou e disse:

         – Minha filha, que tal comprar uma bola nova para o Hugo? Ele vai gostar.

         – Ah, mamãe! Ele destrói minha boneca preferida e eu ainda tenho que dar um presente a ele?

         – Sabe por que, minha filha? Você estará fazendo um bem a ele. Hugo também está triste, se sentindo culpado pelo que lhe fez.

         – Está bem. A professora de Evangelização disse, outro dia, que temos que praticar a caridade.

         – Exatamente – concordou a mãe, sorrindo.

         Mais tarde saíram e compraram uma linda bola. Depois, Carlinha foi levar o presente para ele, selando a paz entre eles.

         Ao voltar, a mãe perguntou:

         – Como foi seu encontro com Hugo, Carlinha?

         A menina pensou um pouco e respondeu:

         – Mais ou menos. Ele gostou da bola e pediu-me desculpas pela boneca quebrada.

         – E você, não ficou contente?

         Carlinha ficou calada, pensativa. Depois, contou:

         – Sabe, mamãe. Fizemos as pazes, mas aqui dentro, bem no fundo – e colocou a mão no coração – ainda estou triste e magoada.

         A senhora abraçou a filha, explicando:

         – É que você ainda não o perdoou, minha querida. Lembra-se que falou que iria fazer um bem a ele, isto é, um gesto de caridade? Pois bem. Você fez a caridade mais fácil que é a material. Mas tem a caridade maior e mais difícil de ser praticada que é a caridade moral, especialmente, o perdão.

         – É verdade. Ainda não o perdoei realmente.

         – Para seu bem, procure esquecer o que ele lhe fez. Enquanto não perdoá-lo, você não será feliz, minha filha.

         – Vou tentar, mamãe.

         Alguns dias depois, Hugo foi procurar Carlinha. Trazia um pacote nas mãos.

         – Isto é para você, Carlinha. Sei que não é a mesma coisa, mas gostaria que você aceitasse.

         A menina abriu e viu uma linda bonequinha, nova em folha.

         – É linda, Hugo! Como conseguiu?

         O menino, com olhos brilhantes e o peito estufado de satisfação contou:

         – Quando quebrei sua boneca me senti muito mal. Você sabe que somos pobres e mamãe não teria dinheiro para lhe comprar outra boneca. Mas, eu queria reparar meu erro.

         Pedi ajuda a algumas pessoas amigas, e comecei a trabalhar para ganhar alguns trocados. Lavei carros, limpei jardins, varri calçadas, entreguei encomendas, arrumei cozinha, cuidei de cachorros, e muito mais. Assim, consegui comprar, com meu esforço, essa boneca para você.

         Carlinha estava surpresa. Não pensou que ele tivesse ficado tão abalado.

         – Você não diz nada, Carlinha. Aceite o presente, com meu pedido de desculpas. Estou muito arrependido. Por favor!

         Olhou o garoto que, à sua frente, suplicava com lágrimas nos olhos, a menina aproximou-se dele e deu-lhe um grande abraço.

         – Claro que eu o perdôo, Hugo. Somos amigos e a amizade não tem preço.

         Naquele instante, Carlinha sentiu que de dentro do seu peito uma nuvem escura se desprendia, enquanto uma pequena luz começava a brilhar, produzindo bem-estar, paz e alegria.

         E completou com um sorriso:

         – Agora somos amigos para sempre!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O Espantalho



         Numa horta, cercado de montes de verduras, vivia o Espantalho.

         Perna de pau, estofo de capim que se escapava aqui e ali, braços abertos, ali ficava ele com chuva ou sol, frio ou calor.

         Vestindo um velho paletó surrado e todo remendado, chapéu de palha na cabeça, assustava quem dele se aproximasse.

         As crianças, com medo, atiravam-lhe pedras; os pequenos animais fugiam apavorados quando ele se balançava ao vento; e os passarinhos não ousavam chegar perto, temerosos também de sua presença.

         E o pobre Espantalho se sentia muito infeliz assim isolado de todos, considerando-se rejeitado e inútil.

         Com seus enormes olhos de botão, via o homem com a enxada na mão cavando a terra, jogando as sementes no solo, colocando estacas nos pés de tomates e de ervilhas, arrancando as ervas daninhas, todo cansado e coberto de suor. Tinha um desejo imenso de ajudar, mas não podia sair do lugar, sempre na mesma posição.

         O tempo passou...

         As sementes floresceram, os tomates e ervilhas amadureceram; as cenouras, couves e alfaces já estavam no tempo de ser colhidas.

         Um dia, chegou o dono da horta trazendo seu filho pela mão e um embrulho debaixo do braço. O homem falou com muito carinho, mostrando a horta ao menino:

         — Veja meu filho, como está bela a nossa plantação! As hortaliças e os legumes cresceram fortes e sadios e, agora, prontos para serem colhidos e servir de alimento a muita gente. Mas tudo isso devo a alguém sem cuja ajuda inestimável não teria conseguido. Alguém que sempre esteve firme no seu posto, que nunca abandonou a tarefa que lhe foi confiada. Alguém que, antes da aurora, já estava trabalhando e que, quando o sol sumia no horizonte, ainda estava firme no seu lugar.

         E, para surpresa do boneco, que acompanhava a conversa muito interessado, ele concluiu, apontando-o:

         — Meu amigo, o Espantalho!

         E aquele pobre boneco, cujo coração era feito de palha, ficou emocionado e até sentiu lágrimas umedecerem seus olhos de botão.

         Aproximando-se com um sorriso carinhoso e agradecido, o homem disse:

         — Você, meu querido Espantalho, por toda a ajuda que me prestou sem nada exigir em troca, mantendo longe os animais e pássaros que estragariam as plantinhas, vai ganhar um presente!

         E, desembrulhando o pacote que trouxera, mostrou orgulhoso:

         — Vai ganhar uma roupa nova!

         E quem passasse por aquelas bandas, dali em diante, veria um lindo Espantalho com belo terno de paletó xadrez, chapéu novo na cabeça, tomando conta da horta, todo orgulhoso da sua tarefa. E, coisa curiosa, se observasse bem, veria que um ligeiro sorriso de satisfação alegrava o rosto de palha do Espantalho.

         Porque agora ele sabia que, assim como todas as pessoas, também era útil. Tinha uma tarefa a realizar e, por pequena que ela fosse, era muito importante.

         E também porque, agora, sentia-se AMADO!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O astronauta do futuro



         Lucas, menino de sete anos, andava sempre olhando para o céu, admirando as estrelas e sonhando acordado.

         Adorava o espaço e gostava de imaginar que era um astronauta. Sempre que se reunia com amiguinhos, em sua casa, a brincadeira mais freqüente era que estavam numa nave espacial, em viagem pelas galáxias. Inventavam dificuldades, obstáculos e problemas, que eles mesmos resolviam, retornando sempre em segurança para o planeta Terra.

         Quando Lucas ganhou uma roupa de astronauta, ficou eufórico. Aí não conseguia mais fazer nada. Passava o tempo todo dentro da roupa, vivendo no seu mundo de fantasia.

         Na escola, tinha dificuldade em manter o pensamento na aula. Estava sempre viajando.

         Certo dia, ele não conseguiu fazer os deveres de casa, e a professora perguntou:

         — Por que não fez as tarefas, Lucas?

         De cabeça baixa, envergonhado por ser repreendido na frente dos colegas, ele respondeu:

         — Esqueci, professora.

         Daniel, um garoto que estava sempre brincando e fazendo piadas a respeito de tudo, sugeriu:

         — Vai ver que estava viajando pelas estrelas, professora.

         Todos caíram na gargalhada.

         — Silêncio! — ordenou a professora.

         Depois, olhando para o engraçadinho perguntou:

         — Por que você disse isso, Daniel?

         O menino, encabulado, respondeu:

         — Desculpe-me, professora, mas o Lucas está sempre brincando de viagens espaciais!

         — Ah! Então é por isso que você não fez as tarefas, Lucas?

         — É verdade, professora. Quando brinco não vejo o tempo passar. Adoro colocar minha roupa de astronauta e imaginar que estou no espaço em missão.

         — Entendo. Mas por que tanto interesse? O que você espera com isso?

         Diante da atenção da professora, Lucas explicou:

         — Tenho vontade de conhecer outros planetas, de encontrar vida em outros mundos, de conhecer seres diferentes. Quando crescer, vou estudar bastante e quero ser um astronauta!

         A professora, que o fitava séria, considerou:

         — Mas não percebe que, agora, você pode se prejudicar, e até ser reprovado, se não estudar? Além do mais, Lucas, tudo isso é bobagem. Até agora ninguém provou que existe vida em outros mundos. Acho melhor esquecer essas besteiras e tratar de estudar. Vamos à aula!

         A professora voltou-se para o quadro-negro, escrevendo a matéria do dia, e ninguém mais falou no assunto.

         Lucas, porém, estava profundamente chateado. Sentia-se humilhado perante os colegas.

         A professora havia acabado com seus sonhos, com seus planos para o futuro.

         Triste e desiludido, de cabeça baixa, Lucas retornou para casa.

         Ao vê-lo chegar desanimado, a mãe perguntou:

         — Olá, meu filho! O que houve? Parece que você está um pouco triste. Venha cá, sente-se perto da mamãe e me conte o que aconteceu.

         O garoto relatou o acontecido na sala de aulas e, com lágrimas nos olhos, quis saber:

         — Mamãe, é verdade que não existe vida em outros planetas?

         A mãezinha arregalou os olhos, surpresa:

         — Como não, meu filho? O fato de ainda não terem encontrado vida não significa que não exista. As viagens espaciais são feitas exatamente para encontrar vestígios de vida em outros mundos.

         — Ah, é verdade? Estou mais tranqüilo — respondeu o menino, aliviado.

         A mãe pensou um pouco, e prosseguiu:

         — Além disso, meu filho, julgo que sua professora não conhece direito o Evangelho de Jesus.

         E, diante do garoto maravilhado, a mãe explicou:

         — Quando Jesus disse: Há muitas moradas na Casa de meu Pai, falou exatamente sobre esse assunto. Qual é a Casa do Pai, Lucas?

         — Aprendi que é tudo o que existe!

         — Exato, meu filho. Então, a Casa de Deus, nosso Pai, é o Universo, com tudo o que ele contém: o Sol, a Lua, as Estrelas, os Planetas e tudo o mais. Você acha que o Criador, que é a sabedoria suprema, criaria tudo isso para nada? Por exemplo, você criaria uma cidade para colocar vida inteligente apenas num pequeno barraco, de um bairro bem distante?

         — Claro que não, mamãe!

         — Então, Lucas, nosso Pai Celeste também não faria isso.

         Ainda preocupado, o menino retrucou:

         — Então, por que até agora não foi encontrado vida em outros mundos, mamãe?

         A mãezinha pensou um pouco e concluiu:

         — Talvez ainda seja cedo, meu filho. A quantidade de planetas que existe no Universo é imensa, o que torna a busca mais difícil. Acontece, também, que nossos aparelhos e naves não são equipados de maneira a realizar essa façanha, no momento. Além disso, com toda a violência que existe na nossa sociedade, as guerras, que são fruto do orgulho, do egoísmo e da ambição dos homens, o que acha que iria acontecer se Deus permitisse que o ser humano desembarcasse num outro planeta?

         — Iria levar brigas para lá! — respondeu o garoto.

         — Isso mesmo, meu filho. Levaria confusão, desordem, agressividade, violência, e muito mais. Tudo o que existe aqui em nosso mundo. E isso Deus não pode permitir.

         Lucas ficou calado, refletindo no que a mãe tinha dito.

         Vendo o filho pensativo, a mãe concluiu:

         — Mas não perca a esperança, meu filho. Confie em Deus. Tudo isso vai mudar. No futuro, quando o homem for melhor, quando conseguir viver em paz com seus irmãos, quando souber respeitar a si mesmo, ao seu semelhante e à própria natureza, Deus permitirá que realize seu desejo e encontre vida em outros mundos. Até lá, não deixe de sonhar, mas prepare-se e estude bastante.

         Lucas encheu-se de alegria e de renovadas esperanças ante as palavras da mãezinha.

         E continuou olhando para o espaço infinito, admirando as estrelas e sonhando com o dia em que seria um astronauta, para levar a paz a outros planetas.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Dedé, o elefantinho



         Na clareira de uma grande floresta morava, com sua família, um pequeno elefante. Pequeno, modo de dizer, porque na realidade ele era muito maior que qualquer dos outros animais da floresta, seus amigos.

         No entanto, esse elefantinho, que possuía uma família amorosa, uma vida tranqüila, bons amigos e um lugar lindo para morar, vivia sempre insatisfeito.

         E sabem por quê? Por causa da sua tromba que era enorme!

         Olhava os outros animais e não se conformava com seu aspecto. E perguntava para sua mãe:

         - Por que só eu, mamãe, entre todos os meus amigos, tenho o nariz tão comprido e tão feio?

         - Porque Deus quis assim, meu filho. E tudo o que Deus faz é bem feito, Dedé.

         - Mas eu queria ter o focinho delicado como o coelho, ou o elegante focinho afilado da raposa! - respondia o elefantinho revoltado.

         Inconformado com a sua figura, o pobre Dedé ficava horas a mirar-se nas límpidas águas do lago, chorando e se lamentando da sorte:

         - Buá!... buá!... buá!... Como sou horrível!

         Certo dia, após muito chorar, deitou-se à sombra de uma árvore e dormiu. Quando acordou, para espanto seu, notou que alguma coisa estava faltando nele. Afinal descobriu:

         - Minha tromba sumiu! Viva!... Minha tromba sumiu!...

         No lugar dela havia um focinho como o do porco, parecendo uma tomada. Agradeceu a Deus o socorro que lhe enviara e levantou-se para mostrar aos amigos o seu novo e belo focinho, tão elegante e discreto.

         Mas como estava muito calor, Dedé resolveu refrescar-se nas águas do lago.

         Tentou pegar água com o focinho para lavar as costas, mas não conseguiu. E era tão bom quando podia jogar água como um chuveiro!

         - Não tem importância, pensou. - Estou com fome e vou comer algumas folhas.

         Saiu da água e dirigiu-se para a árvore onde lá no alto viu umas lindas e tenras folhinhas novas.

         Logo percebeu que não conseguiria.

         Esticou... esticou... esticou o focinho e nada. Era muito curto e não conseguia alcançar o galho da árvore.

         Tentou apanhar algumas folhas no chão, como sempre fazia com a tromba, mas também não deu certo.

         Chiiii! Tentou coçar as costas, tentou tomar água, mas tudo sem resultado.

         Ele, que estava tão satisfeito e animado com o novo focinho, começou a ficar triste e desolado, pensando que ia morrer de fome e sede sem a sua tromba.

         Andou um pouco pela floresta pensando em como iria resolver o seu problema, quando encontrou o coelho e o esquilo, seus amigos. Ambos deram um grito, assustados, sem o terem reconhecido.

         - Sou eu, Dedé. Não me reconhecem?

         O coelho e o esquilo olharam para ele, já mais tranqüilos, e responderam a uma só voz:

         - O que aconteceu, Dedé? Você está horrível!

         E ele contou como tinha pedido tanto a Deus para que lhe tirasse a tromba indesejável.

         - Ora, e agora como é que você vai nos levar para passear nas suas costas? Sem a tromba, como é que vamos subir?

         - É mesmo! - lembrou-se Dedé, já arrependido.

         Deixou os amigos e foi para casa. Mas seu pai, sua mãe e os irmãozinhos não o aceitaram, dizendo:

         - Vá embora! Não reconhecemos você!

         - Mas eu sou o Dedé! Não me reconhecem?

         - Mentiroso. O Dedé é bem diferente e tem uma linda tromba como a nossa. Suma daqui!

         E o elefantinho, expulso pela família que ele tanto amava e que não o reconhecera, afastou-se a chorar desconsolado.

         Nisso, Dedé acordou ainda com lágrimas a caírem pelo seu rosto. E muito satisfeito percebeu que tudo não passara de um sonho. Olhou sua tromba, novamente no lugar, com muito carinho, e suspirou aliviado.

         Correu a contar à sua mãe o sonho que tivera e acrescentou com firmeza:

         - Agora eu sei que Deus sabe realmente o que faz. Nossa tromba é muito importante e útil em nossa vida.

         - Exatamente, meu filho, e fico feliz que você tenha entendido essa verdade - concordou sorrindo a mãe de Dedé.

         E desse dia em diante nunca mais Dedé desejou ser diferente, vivendo sempre feliz com o que Deus lhe concedera.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Mãe de verdade



         O pequeno índio andava pela mata triste e desanimado.

         Sua mãe morrera no mesmo dia em ele nasceu e, desde então, fora criado por uma mulher muito boa e generosa que se prontificara a tomar conta do recém-nascido, mas que não poderia substituir a mãe que ele não conhecera.

         O que seria uma "mãe"? Como seria uma "mãe"? Tinha vontade de saber.

         Então resolveu sair e perguntar a todos que encontrasse.

         Alguém por certo lhe descreveria uma mãe!

         E saiu pela floresta num lindo dia de sol.

         Escondida entre as folhas de um pequeno arbusto encontrou uma coelhinha.

         – Dona Coelha, o que é uma "mãe"? – perguntou.

         Neste instante surgiu seu filhotinho que se atirou nos braços da mamãe Coelha, assustado com alguma coisa.

         E o bichinho, todo coberto de lindos pêlos brancos, respondeu, após pensar um pouco, enquanto acariciava o seu filho:

         – Ah! Mãe é aquela que protege dos perigos!

         Andou mais um pouco e encontrou a dona Coruja num galho de árvore.

         – Dona Coruja, o que é uma "mãe"?

         Fitando as corujinhas com seus enormes olhos arregalados cheios de ternura, ela respondeu:

         – É aquela que ama os lindos filhotinhos que Deus lhe deu!

         O indiozinho afastou-se ainda sem entender, pois os filhotes da dona Coruja eram muito feios.

         Mais adiante o pequeno índio encontrou uma passarinha que trazia, presa ao bico, uma apetitosa minhoca.

         – Dona Passarinha, o que é uma "mãe"?

         Sem hesitar, ela respondeu, após colocar a minhoca na boca do filhotinho que esperava ansioso no ninho.

         – "Mãe" é quem alimenta, para que o seu pequeno cresça forte e sadio, – afirmou, convicta.

         O índio agradeceu e continuou o seu caminho.

         Logo adiante, encontrou uma gata que lambia cuidadosamente as costas do seu filhotinho. E perguntou:

         – Dona Gata, a senhora pode me dizer o que é uma "mãe"?

         E a gata respondeu, sem parar o que estava fazendo:

         – Não tenho duvida de que "mãe" é quem lava e cuida para que o pequeno esteja sempre limpinho.

         Já estava um pouco tarde e o indiozinho precisava voltar para casa antes do anoitecer. Estava tão confuso! Todos a quem perguntara tinham dito coisas diferentes e ele não entendia o porquê.

         Caminhando rapidamente, tropeçou num tronco e caiu, machucando a perna numa lasca de árvore. Sentindo muita dor, ele continuou o seu caminho com grande dificuldade.

         Ao aproximar-se da aldeia, já viu que algo estava acontecendo, pois todos pareciam preocupados. Ao vê-lo chegando, aquela que cuidava dele correu a encontrá-lo, aflita:

         – Aonde você foi? Estava preocupada! A noite chegou e você não apareceu! Mas está machucado! E olhe que sujeira! Venha. Vamos lavar o ferimento e fazer um curativo. Está com fome? Preparei aquele ensopado de legumes de que você mais gosta...

         Olhando a mulher que falava e que o fitava com tanto amor, tanto carinho por sua pessoa, além da evidente preocupação com seu bem-estar, o indiozinho lembrou-se do que seus amigos da floresta lhe haviam dito.

         E não teve mais dúvidas. Como não percebera isso antes? Ela era a síntese de tudo o que eles disseram e muito mais ainda.

         Com os olhos úmidos de pranto ele falou, enternecido e confiante:

         – MAMÃE!!...

Desejamos um FELIZ DIA DAS MÃES a todas as mães do mundo!

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A força da compreensão



         Um brinquedo de Jonas havia desaparecido. Irritado, suspeitando que seu irmão Lucas, de apenas três anos de idade, era o culpado, gritou:

         — Lucas, devolva meu carrinho vermelho novo.

         — Não sei onde está. Não peguei seu carrinho — respondeu o pequeno.

         — Pegou sim. Diga onde você o escondeu, Lucas!

         Mas o garotinho repetia, batendo o pé no chão e chorando:

         — Não peguei, não peguei, não peguei.

         Ao ver a confusão armada e Lucas em prantos, a mãe pega o pequeno no colo e diz ao filho mais velho:

         — Jonas, meu filho, você já tem onze anos e não pode ficar brigando com seu irmãozinho. Se Lucas disse que não pegou, acredite. Procure direito e acabará encontrando seu brinquedo.

         Bufando de raiva, Jonas sai da sala e começa a procurar o carrinho. Procurou no quarto de dormir, no quintal, na varanda, na sala e até no banheiro. Nada de encontrar seu brinquedo preferido.

         Sem saber mais onde buscar, Jonas entrou no escritório e, olhando para a estante de livros do seu pai, pensou: Só pode estar aí!

         Retirou todos os livros da estante.

         Quando o pai chegou, ao entardecer, levou um susto. Encontrou Jonas perdido no meio dos livros, desanimado.

         — O que aconteceu, meu filho? — perguntou, espantado.

         — Estava procurando meu carrinho, papai.

         — No meio dos meus livros? E você o achou?

         — Não, papai.

         — Bem. Então, agora coloque os livros no lugar.

         — Mas, papai! Estou cansado! — reclamou o garoto, fazendo uma careta.

         Com muita paciência, o pai considerou:

         — Jonas, foi você que fez essa bagunça. Logo, é você que deve arrumar tudo, colocando os livros no lugar! Pode começar já, caso contrário não terminará até a hora de dormir.

         Eles não viram que o pequeno Lucas tinha entrado, se escondido atrás da mesa, e ouvia a conversa.

         Assim que o pai saiu da sala, Lucas se prontificou com seu jeitinho:

         — Quer ajuda, Jonas?

         Com uma grande pilha de livros nos braços, que mal podia carregar, o irmão respondeu mal-humorado:

         — Você?! Saia daqui, pirralho! Você não tem força para levar livros tão pesados. Agora me deixe trabalhar!

         Não demorou muito, Jonas estava exausto. Resolveu parar um pouco para descansar e tomar um lanche, mas estava tão cansado que se sentou no sofá da sala, diante da televisão, e acabou cochilando.

         Ao acordar, levou um susto!

         "Meu Deus! Eu adormeci e não acabei de arrumar os livros do papai!"

         Correu para o escritório e teve uma grande surpresa.

         Parecia um milagre! Apesar de um pouco desalinhados, os livros estavam todos no lugar!

         — Quem terá feito isso? — perguntou baixinho, sem poder acreditar.

         Uma voz alegre e cristalina respondeu:

         — Fui eu!

         Era Lucas, satisfeito com seu serviço, carregando o último livro.

         — Como você conseguiu fazer isso, Lucas? Eles são muito pesados! Como pôde carregar uma pilha de livros?

         — Ora, não carreguei uma pilha de livros. Levei um por um!

         Jonas fitou o irmão, admirado do trabalho que ele tinha realizado. Compreendeu que menosprezara a ajuda do pequeno Lucas julgando-o incapaz. No entanto, o irmãozinho provara que podia realizar aquela tarefa. Certamente, não conseguiria levar um peso grande, mas tinha usado a cabecinha e transportado os livros aos poucos.

         Jonas aproximou-se do irmão e abraçou-o com carinho.

         — Lucas, hoje você me mostrou que sempre podemos realizar aquilo que desejamos. Basta que tenhamos boa vontade e criatividade. Obrigado, irmãozinho.

         Os pais, que passavam naquele momento e pararam para observar a cena, também ficaram satisfeitos ao ver os irmãos abraçados e em paz.

         Sorridente, a mãe considerou:

         — Para que a lição seja completa ainda falta uma coisa, Jonas. Lembra-se do seu carrinho vermelho? Pois eu o encontrei, meu filho. Estava no meio das suas roupas, no armário.

         Corando de vergonha, Jonas virou-se para o irmão e disse:

         — Lucas, nem sei como me desculpar pela maneira como agi. Por duas vezes hoje eu o julguei mal e errei. Além disso, você mostrou que é pequeno no tamanho, mas que tem um grande coração. Apesar de ter sido maltratado por mim, suportado o meu mau humor, minha irritação, esqueceu tudo e, quando viu que eu estava em apuros, ajudou-me com alegria, realizando uma tarefa que era minha. Você pode me perdoar?

         O pequeno abraçou Jonas com um largo sorriso:

         — Claro! Você me leva para passear amanhã?

         Todos riram, satisfeitos por fazerem parte de uma família que tinha problemas como qualquer outra, mas que acima de tudo era feliz, porque existia compreensão, generosidade e amor entre todos.

Tia Célia

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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O bicho preguiça



         A preocupação da mãe de Caio era conseguir educar seu filho, tornando-o alguém de bons sentimentos, que gostasse de estudar e de trabalhar. Se alcançasse esses objetivos, já estaria ótimo.

         Todavia, Caio era um garoto que amava a vida boa, sem responsabilidades nem deveres. Preguiçoso, evitava todo tipo de esforço físico e mental. Achava uma chatice ser obrigado a freqüentar a escola e gostava ainda menos de fazer qualquer serviço que a mãe lhe pedisse. E ela brincava, dizendo:

         – Você parece um bicho preguiça!

         Mas Caio não se importava de ser chamado assim. Gostava mesmo era de se divertir com os amiguinhos.

         Certo dia, ele estava brincando e a mãe o chamou para tomar banho. Ele foi para o banheiro resmungando:

         – Ah, mamãe! Quero brincar! Por que é que sou obrigado a tomar banho?

         A mãezinha respondeu com paciência:

         – Porque é necessário, meu filho! Já pensou como seria se não tomasse banho todos os dias? Em pouco tempo, estaria sujo, malcheiroso e ninguém iria querer se aproximar de você.

         – Ah! E se, mesmo assim, eu não quiser tomar banho? – respondeu o menino indisciplinado.

         – Estaria sujeito a doenças, em virtude dos microorganismos, das bactérias, que proliferam na sujeira. Quer arriscar?

         O garoto baixou a cabeça, inconformado, mexendo na água com as mãos.

         Depois de observá-lo por alguns instantes, vendo que não estava convencido, a mãe considerou:

         – Caio, olhe para você! Já pensou na maravilha que é seu corpo?

         – Meu corpo?! – o menino levantou a cabeça, interessado.

         – Sim, meu filho. Deus lhe deu um corpo perfeito! Tudo funciona bem. Você enxerga bem, ouve bem... Faça um esforço: pense em tudo o que recebeu de Deus.

         O garoto pensou um pouco e lembrou:

         – Minhas pernas são fortes e me levam onde quero ir. Meus braços também são perfeitos e tenho bastante força, não é?

         – Isso mesmo, meu filho.

         Gostando da brincadeira, Caio continuou pensando e descobrindo:

         – Sou inteligente e aprendo com facilidade, quando quero. Escuto muito bem. Falo direito, não como a Heloísa, minha colega, que tem dificuldade para falar.

         – Sim, Caio. Papai do Céu lhe deu essas e muitas outras coisas boas que você poderá relacionar. Mas já pensou na responsabilidade que tem por tudo isso que recebeu?

         O garoto arregalou os olhos, espantado.

         – Responsabilidade?

         – Sim, meu filho. É quando temos que responder pelos danos que causamos a alguma coisa ou a alguém. Quando você ganha um presente, não se sente responsável por cuidar dele? – disse a mãe.

         – É verdade. Cuido direitinho dos meus brinquedos e não deixo ninguém quebrar ou estragar.

         – Está certo, meu filho. E brinquedo, se quebrar, poderá ser consertado e, se não houver jeito, até ganhar outro. Já não acontece o mesmo com o corpo, que lhe foi dado por Deus de presente para que pudesse usá-lo por uma vida inteira. Então, como acha que deve tratar seu corpo?

         – Não havia pensado nisso, mamãe. Devo cuidar dele, lavá-lo, limpá-lo direitinho para que não estrague e nem deixe de funcionar, como um aparelho quebrado.

         – Exatamente, Caio. Conservando seu corpo, ele sempre estará bem e você poderá usá-lo por muito tempo.

         O garotinho pensou um pouco e voltou a perguntar:

         – Xiii! Mas não sei como fazer para lavá-lo por dentro!

         A mãe achou graça da idéia do pequeno e esclareceu:

         – Não se preocupe, Caio. Deus faz tudo tão bem feito que no interior do nosso organismo a limpeza é automática. Os próprios órgãos cuidam de limpar e eliminar o que não precisam.

         – Já sei! É o que acontece com as fezes e o xixi.

         – Exatamente. Mas não é só isso, meu filho. Se o nosso corpo material, que é passageiro, precisa de nossa dedicação e cuidados, que não exigirá o Espírito, que é eterno?

         – Terei de lavar o Espírito também? – perguntou o menino, assombrado.

         – Claro que não, meu filho. Porém, se já desejamos ser melhores, seguir os ensinamentos de Jesus, temos que limpar a alma. Como faremos isso?

         – É difícil, mamãe.

         – Não, não é. Basta ter boa-vontade e perseverança. Temos que limpar nossos pensamentos, retirando as coisas negativas. Corrigir os sentimentos, colocando bondade em nossas atitudes. Renovar nossos ideais e aspirações, desejando o melhor, elevando os pensamentos para ter o amparo do Alto. Devemos também estar sempre prontos a trabalhar, aprender e crescer. Jamais ficar parados, sem ação. Sabe por quê?

         – Não.

         – Porque existem micróbios e bactérias também no mundo espiritual e que atacam as pessoas que não cuidam da limpeza interior.

         O menino calou-se, refletindo sobre tudo o que tinha ouvido. Depois concluiu, sorridente:

         — Tem razão, mamãe. Não quero ser um bicho preguiça.

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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Allan Kardec, o Missionário de Jesus



         Há muito tempo, numa família de pessoas sérias e respeitáveis, nasceu um menino. A chegada de um bebê é um dia muito especial para a família, por isso esse 3 de outubro de 1804 ficaria gravado para sempre em suas vidas. Os pais ficaram muito felizes com a chegada do bebê, cumulando-o de carinho e atenções. Deram-lhe o nome de Hippolyte Léon Denizard Rivail.

         O papai, Jean-Baptiste, e a mamãe, Jeanne Louise, se debruçavam sobre o bercinho, pensando: Como será nosso bebê? O que será nosso filho quando crescer?

         Tradicionalmente, vinham de uma família de pessoas inteligentes e cultas. O pai ocupava o cargo de juiz de direito. Era normal que se preocupasse com o futuro da criança.

         Na França do século XIX a educação era difícil, e os professores tentavam instruir seus alunos através de castigos, de palmadas. Havia poucas escolas e, as existentes, normalmente eram para os mais privilegiados.

         Por isso, o pai de Hippolyte Léon, desde que o filho era pequenino já procurava pensar para qual escola o mandaria quando chegasse à hora. Pesquisou bastante e decidiu-se pela Escola de Pestalozzi, na cidade de Yverdun, na Suíça.

         Pestalozzi era um notável educador, famoso em todo o mundo. Assim, embora de família católica, o garoto foi mandado para um país protestante, aonde se tornou um dos mais conhecidos discípulos de Pestalozzi. Como professor, divulgou o sistema educacional do seu mestre, que veio a revolucionar o ensino na França e na Alemanha.

         Hippolyte Léon tinha inteligência lúcida, notável raciocínio, sentimentos nobres, caráter reto e bons princípios. Com quatorze anos já dava aulas aos alunos menores, substituindo seu mestre quando ele precisava viajar.

         Mesmo sendo um aluno brilhante, enfrentou discriminação por ser católico num país protestante. Os atos de intolerância que sofreu e que via outros sofrerem, o levaram a desejar uma reforma religiosa, na qual todas as pessoas fossem unidas e iguais entre si, não existindo diferença entre elas.

         Mas ele não sabia como fazer isso!

         Retornando à França, terminados os estudos, dedicou-se a dar aulas e fazer traduções de obras sobre educação e moral, para o idioma alemão, que conhecia profundamente. Escreveu diversos livros, fundou uma escola onde assumiu a tarefa de educar crianças e jovens para se tornarem homens dignos e respeitáveis como ele.

         Por essa época, as manifestações dos Espíritos agitavam o mundo. O professor Rivail, como era chamado, começou a pesquisar o assunto e percebeu a importância desses fenômenos.

         Mente lúcida, raciocínio claro e sempre disposto a aprender, aberto a novas idéias, logo se tornou um foco de luz, irradiando luminosidade para a sociedade em que vivia.

         Pesquisou as manifestações dos Espíritos, comparou com as comunicações que lhe mandaram de diversos países, selecionou por assunto, formando um corpo de doutrina, a que deu o nome de Doutrina Espírita, ou Espiritismo.

         Percebeu a relevância desses conhecimentos que vinham do Mundo Espiritual para esclarecer os homens na Terra. Assim, em 18 de abril de 1857 publicou a obra “O Livro dos Espíritos”, que contém toda a Doutrina Espírita, sob o pseudônimo de Allan Kardec. Como era um nome ilustre na França, tendo publicado vários livros, não queria influenciar as pessoas com seu nome.

         Os fundamentos do Espiritismo são: 1) A existência de Deus. 2) A imortalidade da alma. 3) A comunicação entre os mundos material e espiritual. 4) A lei da reencarnação ou vidas sucessivas. 5) A pluralidade dos mundos habitados.

         Assim, àquela criança nascida no início do século XIX, estava programada uma tarefa extraordinária: tornar-se o Codificador da Doutrina Espírita.

         Como Mensageiro de Jesus, viria para transformar o mundo, auxiliado pelos Espíritos, levando esclarecimento, consolação, fé e esperança a todas as criaturas.

         Com os ensinamentos dos Espíritos Superiores encontrou finalmente aquilo que buscava. Entendeu que todos os homens são irmãos e iguais perante a lei, diferenciando-se entre si apenas pelo grau de evolução e pelas conquistas morais alcançadas.

         Por isso, nesse dia 18 de abril, quando a Doutrina Espírita completa 150 anos, elevemos a Allan Kardec os nossos pensamentos cheios de gratidão pela notável missão que tão bem desempenhou.

         Certamente aqueles que foram seus pais nesta última existência, que o receberam em seu lar, foram escolhidos para essa tarefa e preparados para dar a Allan Kardec a educação e o respaldo necessários para a execução da missão que iria realizar no futuro. Os Espíritos Jean Baptiste e Jeanne Louise devem se sentir felizes, realizados e gratos a Deus por lhes dar um filho que viria a tornar-se um dos grandes homens da Humanidade de todos os tempos.

         Allan Kardec é uma luz que resplandece no infinito como uma estrela de brilho intenso que jamais se apagará.

Célia Xavier Camargo

Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

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A curiosidade de Paula



         Esta é Paula, ela tem quatro aninhos e é uma menina muito educada, esperta e sapeca.

         A Paula mora com seus pais, seus avós e seu irmãozinho, que acabou de nascer, o Joãozinho. Há também cachorrinhos na casa de Paula.

         Esses dias, ela estava brincando no pátio com suas bonecas, quando viu que um dos cachorrinhos começou a chorar, logo o outro cachorrinho veio e o encheu de lambidas, fazendo com que ele parasse de chorar. Paula ficou curiosa, por não saber o porquê do cachorrinho ter parado de chorar após as lambidas do outro animal.

         Ela resolveu então perguntar para sua mãe. Entrou para dentro de casa, onde ela estava, e perguntou:

         - Mamãe, porque o cachorrinho para de chorar quando outro cachorrinho lhe lambe?

         Sua mãe, a pegando no colo, lhe disse:

         - Paulinha, somos uma família não é mesmo? Eu, você, seu pai, o Joãozinho e seus avós?

         - Claro mamãe, somos uma família, uma família que se ama muito e que é muito feliz, brigamos de vez em quando, mas logo fizemos as pazes.

         - Pois é minha filha, assim como nós, os animais também possuem sua família. Aqui em casa, por exemplo, há uma família de cachorrinhos, há a mamãe, o papai, e os quatro filhotinhos. Aquele que você viu lambendo o cachorrinho é o seu pai, que, ao vê-lo chorar foi lhe fazer um carinho para que ele ficasse feliz, se sentisse amado e não chorasse mais. Todos os animais possuem suas famílias, o galo, a galinha e os pintinhos são uma família; o coelho, a coelha e o coelhinho, também; assim como o passarinho, a passarinha e o passarinho filhote. Também eles vivem em família como nós. Assim como o Papai do Céu nos deu uma família, para que não vivêssemos sozinhos, deu também aos animais uma família, para que eles vivessem mais felizes.

         Paula então abriu um sorriso, deu um abraço em sua mãe e disse:

         - Obrigado Mamãe, eu te amo muito e sou muito feliz em ter vocês como minha família.

         E voltou a brincar com suas bonecas.

Janaína Soares Schorr

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Preconceito, DIGA NÃO!



         Tita, era uma menina de pele tão negra que ao chegar no colégio recebeu o apelido de Pretinha. Ela não gostava desse apelido, pois as outras meninas tinham peles clarinhas.

         Um dia, Tia Lu, a nova professora da escola percebeu a tristeza no olhar daquela menina e teve uma ideia: propôs uma gincana, a Gincana da Alegria.

         A gincana teria que ter a participação de toda a turma. Alguns não gostaram porque a Tita teria que participar. Reuniram-se todos em volta da Tia Lú para ouvirem como seria a gincana.

         Quando ela começou a explicar, todos ficaram eufóricos e todos queriam participar. Sabe quais eram as regras? Todos os participantes teriam que encontrar entre os professores, alunos do colégio e funcionários o maior número de pessoas que tivessem um amigo ou parente que ajudasse voluntariamente nas tarefas da escola.

         E assim começou a gincana, a professora organizou os grupos e a alegria era tanta que até se esqueceram do preconceito com a cor de Tita, quando se uniram para realizar as tarefas.

         Todos que participaram da gincana, quando foram relatar suas experiências, notaram que mesmo os mais simples dos funcionários, sendo eles de cor ou não, tinham uma experiência a contar. Os mais altos cargos da escola, assim como os mais simples, quando unidos no mesmo sentimento de cooperação, acabam gerando um grande e bonito banquete, o Banquete da Esperança, da meta cumprida.

         Ao término da gincana Tia Lú reuniu todos em volta dela e explicou:

         - O sucesso da gincana só foi possível graças ao empenho de todos e aquelas pessoas com as quais vocês tiveram contato e que ainda não haviam despertado para a alegria da doação, acabaram sendo tocadas por um sentimento positivo. Assim, meus queridos, na vida não é a cor da pele ou a posição social que faz o sucesso de um ser humano. Deus, em sua infinita bondade, jamais classificou os seres pela cor ou posição social. Ele enviou seu filho Jesus para nos ensinar a amar e respeitar a todos.

         Ao término, todos se abraçaram e Tita, ao retornar para o seu lar, estava com o coração radiante de felicidade, o mesmo acontecendo com todos seus colegas.

Maria Aparecida Melo da Silva - Juiz de Fora/MG


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Em uma aula de evangelização



         Jean e Luís chegaram ao Grupo Espírita quando a música que antecede a evangelização estava começando. Os dois ouviram atentamente, pois embora não soubessem a letra das músicas, sabiam que era um importante momento de harmonização espiritual. Jean ficou triste ao observar que algumas crianças não cantavam e até atrapalhavam outros colegas que queriam cantar com empurrões e provocações.

         Os dois logo perceberam que não estavam sozinhos: outras crianças desencarnadas também tinham vindo aprender nas aulas de evangelização espírita. Algumas estavam acompanhadas de suas mães, pois pretendiam reencarnar na mesma família.

         Quando as crianças se dirigiram para a aula, eles acompanharam um dos grupos, acomodando-se em um canto da sala. Outros Espíritos foram com eles também assistir a aula. Ao iniciar, uma das evangelizadoras fez uma prece, mas nem todos prestaram atenção. Alguns dos desencarnados, porém, puderam perceber a energia positiva que envolveu o ambiente a partir daquela prece sincera.

         - Ah! Se os encarnados soubessem o poder que tem uma prece! - pensou alto Luís.

         Ele percebeu que as evangelizadoras adoram a tarefa que realizam. Elas sabem que têm a oportunidade de ajudar, mas que também aprendem muito acerca da Doutrina Espírita e dos ensinamentos de Jesus. Por isso, preparam a aula com muito amor e costumam ter o auxílio dos amigos espirituais encarregados da tarefa de evangelização no Centro Espírita.

         Naquele dia, o tema da aula era Anjo guardião, também chamado de Espírito protetor. Ele é o Espírito que nos acompanha e protege, desde antes do nascimento, e nos intui a seguir sempre o caminho do bem.

         As crianças compreenderam que é possível pedir o auxílio desse amigo espiritual através de uma prece e que ele também representa a bondade de Deus para com seus filhos, pois ele nunca nos abandona.

         Dessa forma, durante a aula, Jean entendeu melhor a tarefa que Luís teria durante a sua próxima encarnação: Jean iria reencarnar em breve e Luís seria seu Espírito protetor, pois ele já era um Espírito mais evoluído, que aceitou a tarefa de acompanhar Jean. Eles já eram amigos, e sabiam que reencarnar é uma oportunidade preciosa de evoluir e aprender.

         Luís observou que nem todas as crianças aproveitaram a aula, pois três delas conversaram muito e brincaram nos momentos em que as evangelizadoras ensinavam. Ele pensou que, talvez, aquelas crianças ainda não soubessem que fazemos escolhas sobre como aproveitar o tempo, todos os dias, todos os momentos. Luís ficou triste ao constatar que aquelas crianças, pelas suas atitudes, estavam se ligando mentalmente a desencarnados que são nossos irmãos, mas estão muito infelizes, pois ainda não têm Jesus no coração e não querem que outras crianças saibam mais sobre o Mestre Jesus e seus ensinamentos. Com essas sintonias espirituais, as crianças estavam fazendo escolhas de maneira errada, deixando de aproveitar a oportunidade de aprender lições que, com certeza, fariam diferença nos momentos de dificuldade que todas as pessoas passam enquanto encarnadas.

         Mas os amigos Jean e Luís e as outras crianças desencarnadas prestaram muita atenção durante todo o tempo, assim como a maioria das crianças encarnadas que fizeram perguntas e aproveitaram o momento para aprender.

         Ao final da aula, os desencarnados agradeceram a Deus a oportunidade de aprender que tiveram e pediram por aquelas três crianças, para que o Espírito protetor delas pudesse intuí-las a prestar mais atenção nas aulas, a fim de que não tenham que aprender mais tarde, pela dor, as lições que não aproveitaram para aprender, através do amor das evangelizadoras, nas aulas de evangelização.

Claudia Schmidt


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Um presente diferente



         “O Espírito goza sempre do livre-arbítrio. Em virtude dessa liberdade é que escolhe, quando desencarnado, as provas da vida corporal e que, quando encarnado, decide fazer ou não uma coisa e procede à escolha entre o bem e o mal. Negar ao homem o livre-arbítrio fora reduzi-lo à condição de máquina.” Questão 399 de O Livro dos Espíritos


         Luísa tem doze anos, e é uma adolescente muito ligada a sua tia Antônia. As duas têm ligações espirituais de outras vidas, e o afeto que as une é muito grande.

         Antônia leva a sobrinha à evangelização espírita desde que Luísa era muito pequena, acompanhando, a cada aula, o que foi ensinado e reforçando o aprendizado com histórias, livros, conversas, pois ela sabe que é uma importante oportunidade de aprender sobre Jesus e a Doutrina Espírita.

         A tia também sabe que Luísa, como todo Espírito reencarnado, traz tendências, imperfeições a serem corrigidas, tendo muito a aprender, rumo à perfeição.

         Atenta ao desenvolvimento espiritual da sobrinha, Antônia acompanha de perto as atitudes de Luísa, orientando-a à luz do Espiritismo. Porém, outro dia, sem querer, Antônia viu a sobrinha mexendo em sua carteira, retirando alguns trocados.

         A tia, então, reforçou os ensinamentos sobre honestidade, respeito à propriedade alheia, lembrando conceitos como causa e efeito. Porém, na semana seguinte, a avó de Luísa contou à Antônia, com tristeza, que a neta tinha retirado dinheiro em sua carteira sem autorização.

         Assim, neste aniversário, Luísa não ganhou presente de sua tia, e elas conversaram novamente:

         - Você sabe que é errado pegar o que não é seu, sem permissão do dono. Essa atitude tem um nome e quem a realiza é chamado de...

         - Mas tia, eu não... - interrompeu a adolescente.

         - Não quero que você diga nada - foi firme a tia. Nada do que você possa dizer muda ou justifica o que você fez. Você é livre pra fazer suas escolhas, lembra do conceito de livre-arbítrio? Mas toda escolha tem consequências...

         Agora Luísa ouvia de cabeça baixa. A tia continuou:

         - E cada um colhe o bem ou o mal que plantar. Honestidade é uma atitude que vale para grandes e pequenas coisas; para alguns trocados ou altas quantias em dinheiro. Meu presente de aniversário para você este ano é esta conversa que estamos tendo pois, a partir dela, espero que você pense no que fez e, da próxima vez, escolha o bem que traz alegria e felicidade. Quero que saiba que faço isso porque amo muito você. Se eu fingir que nada aconteceu, não ajudo você a pensar sobre suas atitudes e a escolher corretamente...

         Luísa não gostou da conversa. Achou que a tia exagerava porque foram só alguns trocados que não fariam falta. Foram necessárias algumas experiências amargas, em que sentiu o resultado de suas más escolhas, além de outras conversas com sua tia, até que Luísa entendesse que a Lei de Causa e Efeito que tantas vezes ouviu falar nas aulas de evangelização funciona realmente e para todos! E que somente escolhendo o bem e o amor é que seremos felizes.

Claudia Schmidt


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Um presente por passar de ano



         Laura estava muito chateada e foi reclamar ao pai:

         - Por que a Mari ganhou uma bicicleta por passar de ano e eu não ganhei nada? Tirei boas notas este ano...

         O pai sabia que, às vezes, era difícil Laura entender algumas decisões, mas ele tinha convicção de que estavam dando a melhor educação para a filha tão amada. Assim, ele iniciou a explicação com calma, perguntando se ela lembrava das regras da família. A menina disse que sim, e o pai perguntou quais eram os deveres dela como filha.

         - Obedecer e respeitar os pais, ajudar nas tarefas de casa, não brigar com minha irmã, estudar...

         - As regras auxiliam para o bem-estar de todos, não é? A menina concordou com a cabeça e o pai continuou:

         - Você recebe salário por isso?

         - Recebo uma mesada - disse Laura.

         O pai lembrou que a mesada não era um pagamento por ela cumprir suas obrigações, mas sim uma maneira de ela aprender que as coisas materiais custam dinheiro e que não podemos comprar tudo o que queremos.

         - Não vamos lhe dar um presente por você passar de ano ou por ter sido uma boa menina - disse, com firmeza, o pai. O bem deve ser realizado porque é o correto a fazer e não porque vamos ganhar algo em troca.

         Ele fez uma breve pausa, para convidar a filha a chegar mais perto, a fim de que pudesse acariciar os cabelos dela. Quando ele continuou, era possível perceber o amor e a sinceridade em suas palavras:

         - Você ainda não percebeu, mas fazer o bem traz felicidade. Um dia, minha filha, você vai entender que devemos fazer o que é correto, para não colhermos os frutos de nossas más escolhas. Quem escolhe o mal, também escolhe o sofrimento, que é a consequência futura daquela escolha.

         - Mas ganhar uma bicicleta seria um bom incentivo - esse era o último argumento da garota.

         - Todos têm o livre-arbítrio. E, nós, seus pais, escolhemos não comprar a sua dedicação aos estudos com uma bicicleta ou uma roupa nova, mas explicar a você sobre a Lei de Causa e Efeito.

         Laura já tinha ouvido falar muitas vezes nessa lei. É a lei da colheita, podemos escolher o que plantar: o bem ou o mal, mas colheremos o que plantarmos.

         - Já sei... não posso plantar tomates e colher cebolas, não posso fazer o mal e querer colher coisas boas.

         - Isso também se aplica aos seus estudos. Os pais podem esclarecer, mas quem escolhe é o filho. E, com certeza, você não vai ganhar um presente por ter feito a escolha certa, que é estudar com seriedade, valorizando o que está aprendendo. Você mesma vai colher as recompensas no futuro. Aliás, não conheço ninguém que tenha se arrependido de estudar...

         Laura concordou, um pouco contrariada ainda, afinal, não é fácil crescer em uma família espírita, sem promessas e sem recompensas imediatas. Mais tarde ela entenderia que as lições espíritas recebidas na infância foram importantes para que ela escolhesse o bem que traz felicidade.

Claudia Schmidt


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Uma árvore especial



         Alguém já ouviu falar de uma árvore que, além de dar frutos, dava comida: feijão, arroz, carne, salada? Pois é, essa árvore existiu e era uma árvore muito especial, porque foi o início de uma linda história:

         Era uma vez Dona Maria, uma senhora muito bondosa. Em frente de sua casa havia uma linda árvore. Dona Maria, preocupava-se com as pessoas que passavam fome perto de sua casa. Ela, então, arrumou um jeito de ajudar: todos os dias pendurava na árvore em frente a sua casa um saco. Dentro do saco, cuidadosamente arrumados em caixas de leite previamente limpas, colocava comida: arroz, feijão, pão, carne e o que mais houvesse para o almoço em sua casa.

         Com o tempo, Dona Maria percebeu que o saco de comida desaparecia assim que era colocado na bela árvore em frente a sua casa. Curiosa, um dia ficou espiando e viu que um menino, com mais ou menos seis anos de idade, usando roupas rasgadas, esperava pela comida e sentava à sombra da árvore para saboreá-la.

         Tito comia com vontade, pois em sua casa, muitas vezes, não havia o que comer. Ele morava com a mãe, viúva, e com mais três irmãos maiores.

         A bondosa senhora resolveu, então, se aproximar do menino, a fim de auxiliá-lo. Puxou conversa, prometeu para o dia seguinte um bolo de chocolate e, assim, aos poucos, eles foram se conhecendo melhor.

         Logo os dois estavam almoçando juntos e Dona Maria caprichava na comida para que o menino crescesse forte e saudável. Quando a mãe de Tito adoeceu e não pôde trabalhar, Dona Maria preparou mais comida, para que também houvesse almoço para os outros irmãos e sua mãe.

         Nos anos que se seguiram, Dona Maria incentivou-o a estudar, deu a ele material escolar, e acompanhou seus progressos escolares.

         A família de Tito também foi encaminhada para receber auxílio no Centro Espírita que Dona Maria frequentava, recebendo roupas, alimento, orientação profissional e espiritual. Dona Maria se tornou amiga da mãe de Tito, Dona Rute, que passou a trabalhar na casa de Dona Maria, auxiliando nas tarefas do lar.

         As duas amigas frequentavam juntas o grupo de estudos no Centro Espírita e Tito participava, com alegria, das aulas de evangelização espírita. O menino crescia em idade e em saber: era um aluno dedicado e sempre mostrava, orgulhoso, o boletim para Dona Maria, que ficava contente em perceber que o menino estudava bastante e era um aluno exemplar. O tempo passou, a amizade dos dois se fortaleceu e logo Tito era um adolescente.

         Alguns anos depois, quando o jovem arrumou o primeiro emprego, Dona Maria foi a primeira a saber que ele iria trabalhar na fábrica perto de sua casa. Foi assim também quando ele começou a trabalhar no Centro Espírita, para alegria de Dona Maria.

         Enquanto Dona Maria se tornava uma velhinha muito simpática, Tito se transformava em um adulto, e, cada vez mais, em um homem responsável, caridoso, um verdadeiro homem de bem.

         Quando Dona Maria adoeceu, Tito e a namorada cuidaram dela durante muito tempo. E foram eles que escutaram as últimas palavras que Dona Maria pronunciou nesta encarnação:

         - Que bom que vocês estão comigo, hoje. É mesmo verdade, o bem que se faz sempre retorna pra gente.

Claudia Schmidt


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Os infortúnios ocultos1



         “Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita; - a fim de que a esmola fique em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará.” (Mt 6, 4)

         Uma jovem senhora, acompanhada da filha pequena, atravessa a cidade de carro. Embora ela tenha condições de se vestir com as roupas da última moda, se veste de forma muito simples, e assim também são as roupas de sua filha. Logo de manhã, entra em uma casa de madeira, muito pobre, onde é recebida com alegria por uma mulher de rosto cansado, cercada de crianças.

         Todos cercam a jovem senhora, que traz além de mantimentos e roupas quentes para as crianças, o seu sorriso, e palavras de incentivo e apoio. Enquanto a conversa segue, é possível perceber que a amizade e o respeito são a base deste relacionamento entre famílias que moram tão distantes, com realidades materiais tão diferentes.

         A família aceita a ajuda, pois o pai está enfermo e a mãe não consegue, apenas com o próprio trabalho, sustentar toda a família. Depois que sairem dali, a jovem senhora e sua filha irão até o hospital levar palavras de conforto e notícias da família ao pai, que está se recuperando de grave doença.

         A mulher que presta socorro à família não pergunta à mãe e seus filhos se eles acreditam em Deus ou se tem religião. Ela sabe que eles são seus irmãos, pois todos somos filhos de Deus, independente de crermos no Pai ou possuirmos uma religião. E ela tem certeza de que, auxiliando aquela família, começa bem o seu dia, praticando a caridade sincera, aquela realizada com o coração.

         A família que recebe a ajuda não sabe o nome da benfeitora, apenas que se chama Maria. Também desconhece o nome da menina, e não tem ideia de onde moram mãe e filha. Sabem apenas que a bondade reina naqueles dois corações, que auxiliam sem nada desejar em troca.

         Por que usam roupas tão simples? Vestem-se de maneira simples para não humilhar a família que recebe a ajuda, para que eles não se sintam tristes por não terem roupas modernas e bonitas. Mãe e filha sabem que a caridade não deve ser feita por obrigação, mas que deve ser realizada com amor e respeito por aqueles que, naquele momento de sua trajetória evolutiva, necessitam da ajuda material.

         Por que a filha acompanha a mãe? Para que aprenda a fazer a caridade desde pequena. Assim, a mãe ensina que além de doar coisas materiais, ela pode fazer a caridade empregando seu tempo em favor dos que necessitam: ajudando um doente, dedicando-se a uma criança que deseja um pouco de atenção e carinho, ouvindo um idoso que deseja conversar para diminuir a solidão. Desse modo, a mãe ensina à filha sobre a caridade que vem do coração, que não exige recompensa. Ela também ensina à menina, através do seu exemplo, que devemos fazer a caridade sem que ninguém saiba o bem que é realizado, pois assim estaremos em paz com a nossa consciência.

         Ninguém sabe a respeito das atitudes caridosas que mãe e filha realizam. Elas não contam para ninguém, nem para o marido, vizinhos ou amigas. Outro dia, porém, uma das mulheres auxiliadas por elas esteve em sua casa, vendendo artesanato. Reconhecendo a mulher que tanto a ajudou quando ela precisou, com coisas materiais, mas também com palavras de carinho e incentivo, quis agradecer-lhe. Mas Maria disse-lhe apenas: Não diga nada, não contes a ninguém. Jesus assim nos ensina. Ela se referia à frase do Mestre: “Não saiba a vossa mão esquerda o que dê a vossa mão direita”, ofertando sem esperar recompensa e auxiliando sem contar a ninguém o bem que realizamos.

         Embora elas não saibam, os mensageiros de Deus as observam, aprovando a ajuda que oferecem, bem como a maneira simples e sincera com que auxiliam os que necessitam; e à noite, quando as duas, mãe e filha dormem, recebem as bênçãos dos céus, como recompensa e reconhecimento pelo bem que praticam.


         História baseada no cap. XIII, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Os infortúnios ocultos.

         1 Infortúnios: infelicidade, desgraça

Claudia Schmidt


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Preta, uma heroína



         (...) É verdade que na maioria dos animais domina o instinto. Mas, não vês que muitos obram denotando acentuada vontade? É que têm inteligência, porém limitada. Não se poderia negar que, além de possuírem o instinto, alguns animais praticam atos combinados, que denunciam vontade de operar em determinado sentido e de acordo com as circunstâncias. (...) O Livro dos Espíritos, questão 593

         José é frentista há muitos anos. Ele trabalha à noite, em um posto em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul.

         Em uma noite fria, apareceu no posto uma cachorrinha faminta, que se aproximou de José, abanando o rabo.

         O frentista deu comida e atenção à Preta, como foi chamada a cachorra vira-lata. Aos poucos, ela foi adotada por todos os funcionários do posto, e cada um cuidava dela à sua maneira: conversando, alimentando, brincando, dando água limpa, fazendo de Preta a mascote do lugar.

         Ela costumava dormir boa parte do dia e seguia José por toda a parte, durante a noite. Foi ele que percebeu que a cachorrinha engordava a cada dia e, em breve, teria cachorrinhos.

         O dia do parto chegou, ou melhor, a noite. José auxiliou no nascimento dos onze cachorrinhos e todos os funcionários do posto ajudaram, no tempo certo, a encontrar um lar amoroso para cada um dos filhotes.

         Preta não se sentia só, tinha a companhia e a amizade de todos que trabalhavam no posto e até de alguns clientes. Mas seu amigo preferido era José, que sabe que os animais são parte da criação de Deus, nossos irmãos. Ele dispensa à Preta um carinho especial e até fez para ela uma capa para aquecê-la nas noites frias de inverno.

         A mascote acompanhava José na madrugada em que chegaram ao posto três jovens alcoolizados.

         - É um assalto! - anunciaram.

         E, nervosos e em desequilíbrio, bateram em José, que caiu no chão.

         Preta, então, começou a latir muito alto, como nunca havia feito, e a morder os assaltantes. Enquanto ela ameaçava os três jovens, José conseguiu fugir e chamar ajuda.

         Devido ao barulho, às mordidas e à determinação de Preta, os jovens desistiram do assalto, indo embora sem levar nada.

         Quando José contou o ocorrido para seus colegas, Preta foi considerada uma heroína. Ela, porém, parece saber que foi apenas uma maneira de retribuir o carinho recebido.

         Ter um bichinho de estimação, dispensando-lhe carinho, atenção e os cuidados necessários, como alimentação, moradia, água limpa, é abrir portas para que a bondade de Deus se manifeste de diversas formas, como aconteceu com José e Preta. Conviver com os animais é uma oportunidade de desenvolver virtudes como responsabilidade, respeito, carinho e amor mútuos.


         História baseada em fatos reais

Claudia Schmidt


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Regras para a felicidade



         Podem os Espíritos encarnar em um mundo relativamente inferior a outro onde já viveram? Sim, quando em missão, com o objetivo de auxiliarem o progresso, caso em que aceitam alegres as tribulações de tal existência, por lhes proporcionar meio de se adiantarem. (O Livro dos Espíritos, questão 178)

         Felipe adora motos, desde muito pequeno. Ele estava junto com tio Arnoldo quando chegou um jovem interessado em comprar a moto vermelha de seu tio.

         O jovem fez muitas perguntas sobre a moto, e Felipe observou que o tio foi sempre muito sincero, mesmo que a informação talvez fizesse o jovem desistir da compra. Além disso, tio Arnoldo mostrou todos os riscos que a lataria da moto tinha, e sobre o quanto dirigir um veículo frágil, sem proteção, pode ser perigoso.

         - Andar de moto é perigoso, sim. É preciso atenção, cuidado em todos os movimentos e até tentar saber que manobras os outros motoristas vão fazer, a fim de evitar acidentes. Correr de moto é brincar com a morte - completou o tio.

         O jovem ficou de pensar sobre a compra, e ligar mais tarde. Assim que ele foi embora, Felipe perguntou ao tio porque ele não falou como é bom andar de moto, do vento batendo no rosto, da economia de gasolina.

         - Tudo isso ele já deve ter pensado. Falei o que achei importante, alertando o jovem para que ele não se arrependa da compra. Segui as duas regras básicas da minha vida.

         - Nos negócios? - quis saber Felipe.

         - Para qualquer coisa. A primeira é: fazer aos outros o que gostaria que fizessem para mim. E eu gostaria que me alertassem sobre o que eu não sei e sobre os defeitos daquilo que pretendo comprar.

         - Mas e se ele desistir do negócio?

         - Tudo bem. O importante é que eu também segui a segunda regra, a regra da felicidade.

         - Regra da felicidade? Serve para vender coisas?

         - Serve pra tudo na vida. E você já a conhece, lembra: Felicidade = PN + CT + FF.

         - Felicidade é igual a posse do necessário mais... mais... Felipe não lembrava de toda a fórmula.

         - Felicidade é igual a posse do necessário, mais consciência tranquila, mais fé no futuro - completou o tio. No caso da venda da moto, é essencial que eu permaneça com a consciência tranquila, sem mentir ou enganar o comprador.

         - Mas vai ser difícil vender a moto assim, sendo tão sincero.

         - Pode ser. Mas para mim é importante quando analisar, à noite, o que eu fiz durante o dia, ter certeza de que não menti, não enganei alguém, não fui desonesto.

         - Ah- tio! O Senhor não é deste planeta! - disse rindo Felipe. Aqui as pessoas roubam, enganam, tiram vantagem.

         A conversa seguiu com o tio explicando que as pessoas são Espíritos encarnados na Terra e que estão em diferentes graus evolutivos, e muitas ainda não compreenderam que a verdade é sempre descoberta, mais cedo ou mais tarde. E que o importante é cada um fazer a sua parte, sendo honesto e ético.

         Naquela tarde, Felipe aprendeu muitas coisas sobre motos, com a ajuda de Arnoldo. O que ele não ficou sabendo é que seu tio, que já havia desenvolvido a caridade e o amor em encarnações passadas, sabia perdoar e gostava muito de ajudar os outros, não era mais deste planeta, mas sim de outro lugar, mais evoluído, mas estava encarnado na Terra em importante missão: auxiliar outros irmãos a evoluírem.

Claudia Schmidt


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Agradecer a Deus



         “Por que Deus a uns concedeu as riquezas e o poder, e a outros, a miséria? Para experimentá-los de modos diferentes. Além disso, como sabeis, essas provas foram escolhidas pelos próprios Espíritos, que nelas, entretanto, sucumbem com frequência.” O Livro dos Espíritos, questão 814.

         - Mas é meu aniversário! - gritou Renan, diante da vitrine que mostrava o brinquedo que ele queria.

         - Sim, eu sei - respondeu a mãe. Mas você já ganhou seus presentes e não pode querer tudo que enxerga, meu filho.

         - Só mais este! - implorou o menino.

         Diante da negativa e do olhar sério e firme da mãe, o garoto se calou.

         - Você não está sabendo valorizar o que tem, Renan. E nem agradecer tudo o que possui.

         Era verdade. O menino reclamava muito e sempre queria os brinquedos da moda, sem se importar se os pais podiam comprar; e assim que os ganhava, perdia o interesse.

         Enquanto seguiam de volta para casa, Dona Ana perguntou:

         - Você já percebeu quantas coisas tem para agradecer?

         - Como assim?

         - Agradecer a Deus tudo o que você tem: uma casa confortável, a escola onde você aprende muitas coisas. Ela fez uma pausa e prosseguiu: pai, mãe, dois irmãos...

         Dona Ana sorriu e a conversa continuou: Renan, com a ajuda da mãe, sentiu-se grato pela comida, roupas, móveis, pelo cachorro e por sua bicicleta.

         Em um feriado, quando eles voltavam de um passeio, o carro estragou perto da entrada da cidade. Enquanto aguardavam o conserto do automóvel, Renan observou as casas e as crianças que brincavam ali perto. Eram casas muito simples, algumas pareciam feitas de papelão e tábuas velhas. As crianças brincavam com uma bola feita de pedaços de pano, toda remendada.

         Havia pessoas idosas, sentadas à sombra, e a mãe de Renan foi conversar com elas. Logo percebeu que faltava comida, remédios e esperança naqueles lares.

         Renan a tudo observava, enquanto lembrava das vezes que não quis comer porque a comida não era aquela que ele tinha pedido para o almoço.

         Alguns dias depois, mãe e filho voltaram àquele local, trazendo comida, remédios, cobertores e roupas que arrecadaram em uma campanha organizada em seu bairro.

         Através de muitas conversas com a mãe, Renan compreendeu que cada Espírito vivencia diferentes situações para o próprio aprendizado. Assim, as privações materiais são provas pelas quais os Espíritos passam, mas que podem ser amenizadas por corações caridosos. Com o tempo, ele compreendeu, inclusive, que a riqueza também é uma prova, pois todos vão prestar contas da utilização que fizeram dos bens que foram emprestados por Deus.

         Durante outros passeios, Renan e Dona Ana fizeram novas listas de agradecimento, inclusive uma em ordem alfabética, incluindo as árvores, os brinquedos, o céu... Em outras oportunidades, mãe e filho agradeceram pelos rios, mares, flores, pelas aulas de evangelização espírita, pelas coisas que já sabiam, pelo passado e também pelo futuro.

         Aos poucos, Renan deixou de reclamar, pois foi percebendo que, embora não tivesse tudo o que gostaria, devia agradecer a Deus por tudo que faz parte da vida, percebendo e valorizando as oportunidades de aprendizado nesta encarnação.

Claudia Schmidt


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A história de Clara



         “Quando o homem se acha, de certo modo, mergulhado na atmosfera do vício, o mal não se lhe torna um arrastamento quase irresistível? Arrastamento, sim; irresistível, não; porquanto, mesmo dentro da atmosfera do vício, com grandes virtudes às vezes deparas. São Espíritos que tiveram a força de resistir e que, ao mesmo tempo, receberam a missão de exercer boa influência sobre os seus semelhantes.” O Livro dos Espíritos, questão 645.

         Clara desencarnou há mais de um ano, quando o carro em que ela estava bateu em uma árvore, na volta da balada. O motorista, alcoolizado, nada sofreu, mas o corpo físico de Clara não suportou o choque. E foi assim, entre assustada e embriagada, que ela viu o resgate chegar, as tentativas, sem sucesso, de reanimá-la e o desespero de seus pais quando chegaram ao local e encontraram o corpo da filha sem vida.

         A jovem vagou durante muito tempo, sem rumo. Perturbada, ela acompanhou várias festas, regadas a álcool e drogas, onde viu Espíritos, desencarnados como ela, sugerirem aos jovens atitudes irresponsáveis, com consequências trágicas como homicídios, suicídios, abortos, vícios e acidentes automobilísticos.

         Aos poucos, ela percebeu que a vibração espiritual de reuniões em que a ética e o respeito ao próximo e a si mesmo estão ausentes permite fácil acesso aos Espíritos desequilibrados, que se ligam a jovens para com eles beber, usar drogas, perturbar e iludir.

         Inicialmente, Clara achou que tudo de ruim que acontecia àqueles jovens era responsabilidade dos Espíritos obsessores, mas depois compreendeu que a ligação se dava pela sintonia, e os jovens sempre podiam escolher que atitude tomar, embora muitos, ao optarem pelo álcool ou drogas, deixavam-se levar, mais facilmente, por falsas ideias sobre diversão e prazer.

         Neste Carnaval, a jovem Clara está em uma Colônia Espiritual, onde reflete sobre as atitudes de sua última encarnação e se prepara para reencarnar, ciente que terá que superar a tendência ao vício, em uma difícil encarnação.

         Atenta, ela intui seus amigos, tentando fazê-los entender que é possível se divertir sem álcool ou drogas, respeitando o corpo físico e o próximo. Ela deseja, sinceramente, que não sejam necessários a dor e o sofrimento para que eles aprendam que cada um é responsável por suas escolhas e pelas consequências que delas resultam.

         Clara também tem esperança de que o que aconteceu com ela possa servir de alerta para muitos jovens, a fim de que outras existências não sejam interrompidas devido ao envolvimento com álcool e drogas.

Claudia Schmidt


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Os irmãos Miguel e João



         Miguel e João são irmãos gêmeos. Embora sejam muito parecidos fisicamente - só seus pais conseguem diferenciar um do outro - eles costumam ter atitudes muito diferentes no dia-a-dia.

         Miguel está sempre reclamando e é mal-humorado, enquanto João está sempre sorrindo, de bem com a vida. No último Natal, cada um dos meninos ganhou uma linda bicicleta. Miguel, porém, reclamou da cor do presente.

         João adora estudar e sempre tira boas notas, e Miguel não gosta de estudar, está sempre reclamando das provas e dos professores. Enquanto João tem muitos amigos, Miguel muitas vezes se sente solitário, sem ter com quem brincar. João sempre chama o irmão para participar das brincadeiras, mas, muitas vezes, Miguel acaba brigando com as outras crianças, estragando a brincadeira.

         Os dois irmãos costumam agir de maneira diferente também frente aos problemas. Miguel reclama de qualquer coisa, acha tudo difícil, e tem dificuldade em compreender as provas que a vida lhe apresenta. João não tem o hábito de reclamar e sempre procura se esforçar para encarar os problemas como oportunidades de aprender coisas novas.

         Outro dia, os dois irmãos compraram um jogo para brincar no computador e o jogo não funcionou. Miguel ficou furioso, reclamou por vários dias. João ficou chateado, mas logo ligou para o vendedor e pediu que ele providenciasse a troca do jogo com defeito.

         João gosta muito de seus pais e de seu irmão. Ele aproveita o tempo com os pais para contar as novidades da escola e jogar bola com o pai. Miguel tem vergonha de seus pais, em especial de sua mãe, que costuma alertar o filho acerca de suas atitudes erradas, na tentativa de que ele entenda melhor a Lei de Causa e Efeito e compreenda que reclamar de nada adianta.

         Muitos se perguntam por que os irmãos, apesar de gêmeos, são tão diferentes. A Doutrina Espírita esclarece que cada um deles é um Espírito único, em evolução. Ambos foram criados por Deus e possuem a mesma finalidade - a perfeição. Todos os Espíritos criados por Deus, que é justo e sábio, irão alcançar a perfeição, em mais ou menos tempo, conforme os esforços que empreguem.

         Provavelmente, os dois irmãos reencarnaram na mesma família para se ajudarem, aprendendo com os erros e acertos um do outro. A caminhada rumo à perfeição é individual e vai depender do bom uso que cada um fizer do seu livre-arbítrio, escolhendo a resignação, a caridade, a paciência, o perdão e o amor.

         Miguel, porém, ainda não compreendeu que a reencarnação é uma preciosa oportunidade de aprendizado e superação das dificuldades, enquanto João já aprendeu a aproveitar as situações que a vida lhe apresenta para escolher o bom caminho, espalhando otimismo, alegria e esperança.

         A evolução é o caminho que todos trilhamos. As escolhas diárias dos pensamentos, palavras e ações que realizamos é que determinam a velocidade desta caminhada. A Doutrina Espírita serve como luz, a iluminar a estrada, ajudando a escolher com base na lei de amor ensinada e exemplificada por Jesus.

Claudia Schmidt


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Gato preto



         Tita e Cacá passeavam na feira, no setor de pequenos animais. Tita estava eufórica: tinha permissão da mãe para escolher um gatinho de presente.

         Tita queria um filhote, há muito tempo. As opções eram muitas: gatos malhados, brancos, pretos, cinzas. As duas meninas pararam em frente a uma das bancas e um lindo gato preto veio ao encontro delas. Começou a se esfregar em Cacá através da grade e quando foi para o lado de Tita, a menina deu um pulo:

         - Gato preto, não! Dá azar!

         Cacá se espantou com a amiga e indagou:

         - Você acha mesmo que a cor do gato pode influenciar nos acontecimentos de sua vida?

         Tita ficou muda. Cacá continuou:

         - Pensa um pouco! Vai dizer que, quando você chega em um lugar, pisa com o pé direito primeiro? E quem não tem o pé direito, só o esquerdo, está destinado a ter azar a vida toda?

         Enquanto Tita continuava calada, elas continuaram a caminhar, e a olhar os animais.

         Gostaram muito dos peixes coloridos que nadavam em um lindo aquário.

         - Peixe e gato não, né Tita? Vai que o seu gato come o seu peixe no jantar.

         - Isola! Disse Tita, batendo em uma cadeira de madeira que estava próxima.

         Cacá riu, pensando que bater na madeira não altera o destino, mas nada disse.

         - Tá bom! Sou supersticiosa e daí? O problema é meu!

         - Com certeza é um problema seu! - disse sério Cacá. Meu é que não é! Eu uso a cabeça, e analiso as coisas, antes de acreditar nelas. Sei que a cor da roupa não traz sorte, azar, dinheiro ou amor. Também não leio horóscopo!

         Tita lia o horóscopo todos os dias, antes de sair de casa.

         - Imagina se todas as pessoas nascidas em tal época ou mês do ano vão ter o mesmo destino! Pensa um pouco, Tita!

         A menina estava um pouco vermelha agora, e Cacá não sabia se era de raiva ou de vergonha por acreditar em crendices sem pensar a respeito.

         - Se todos pensarem como você, nenhum gatinho preto vai ganhar um novo lar... As nossas escolhas é que determinam o nosso destino. Optar pela honestidade, alegria, ética, caridade é que traz bons acontecimentos em nossa vida.

         - Mas pensar no mal atrai o mal - retrucou Tita.

         - E pensar e fazer o bem atrai o bem. É a Lei de Causa e Efeito, que a Doutrina Espírita explica. Essa lei faz parte do amor, da sabedoria e da justiça de Deus. Amuletos ou supertições não atraem ou repelem coisa alguma. O que faz isso é o pensamento, pois se eu achar que o meu dia vai ser ruim porque eu vi um gato preto, posso me convencer disso e tornar o meu dia péssimo. Mas será por escolha minha, o gato ou a cor dele nada tem a ver com isso.

         - Pensando assim, acho que você tem razão... pensou alto Tita.

         - É claro que tenho. Já é hora de deixar essas bobagens de lado e assumir a responsabilidade pelas escolhas que fizemos. A felicidade é uma escolha nossa, e depende das nossas atitudes.

         Apesar da conversa, ainda levaria algum tempo para que Tita mudasse a sua forma de pensar, mas escolher um gatinho preto como presente foi um grande passo para deixar de lado as superstições e começar a refletir em que acreditar como verdades.

         O lindo gatinho preto, de nome Calvin, correspondeu ao afeto recebido, tornando-se um grande amigo e companheiro de muitas alegrias e brincadeiras.

Claudia Schmidt


Desenhos de Cristina Chaves - Porto Alegre - RS

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O Espírito protetor



         Qual a missão do Espírito protetor?A de um pai para com os filhos: conduzir o seu protegido pelo bom caminho, ajudá-lo com os seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, sustentar sua coragem nas provas da vida.”       Questão 491 de O Livro dos Espíritos

         - Apavorada, eu? Estou em pânico!

         Milena estava muito ansiosa com o teste que faria dali a dois dias, e conversava com Pietra, sua amiga.

         - Mas é apenas um teste...

         - É “O” teste! A prova pra entrar na Orquestra Municipal... e realizar o meu sonho de ser violinista!

         - Você não estará sozinha, lembra?

         - Toda a banca examinadora vai me ver! E se eu errar? Se não conseguir? - Milena não conseguia ser otimista.

         - Você estará com o seu Espírito Protetor, o seu Anjo da Guarda... Ele vai estar contigo em um momento tão importante, com certeza. Você tem estudado, não tem?

         - Tenho sim. E muito - respondeu Milena com um suspiro.

         - Então você está fazendo a sua parte, e devia orar ao seu Espírito Guardião para que ele lhe auxilie nesses ensaios finais, pedindo que você tenha coragem, calma e toque muito bem na hora da prova.

         - Fácil falar, né? Minha cabeça está a mil! - protestou Milena.

         - Ficar nervosa não vai ajudar... Lembre que temos um Espírito amigo, que nos acompanha desde o planejamento de nossa encarnação e por toda a nossa existência, nos intuindo, auxiliando, torcendo para que utilizemos as oportunidades que a vida nos oferece para aprender e evoluir. E esse teste é uma grande oportunidade!

         A mãe de Milena tinha ensinado a conversar com o Anjo em suas orações. Mas, às vezes, ele parecia tão distante...

         - Nós é que nos distanciamos dele, porém, se fizermos uma prece sincera, teremos a companhia e o auxílio dele - Pietra parecia ler os pensamentos da amiga. Eu sinto que ele está ao meu lado nos momentos difíceis, quase posso ver a presença dele. Sempre peço que ele sente ao meu lado para não me deixar dizer bobagens em uma conversa complicada, ou segure a minha mão quando eu tenho um desafio, como naquele dia que atravessamos aquela ponte que parecia que já ia cair, lembra?

         Milena lembrou da aventura... O passeio era pra ter terminado no meio da tarde, mas escureceu cedo, e o grupo se perdeu na hora de voltar... Ainda bem que terminou tudo bem. Ficou apenas o susto e a história pra contar!

         Pietra lembrou ainda que através da prece e das boas atitudes nos aproximamos de nosso Espírito protetor. E que, embora não saibamos seu nome, ele pertence a uma ordem mais elevada, isto é, é um Espírito amigo, mais evoluído e que muitas vezes se comunica conosco durante o sono ou através da nossa intuição, dando bons conselhos.

         Milena começou a se sentir mais calma, pois entendeu que Deus é tão bondoso que nos envia um amigo invisível para estar conosco e nos intuir no caminho do bem. Os conselhos daquela tarde também serviram para muitas outras situações na vida da menina, em que ela solicitou e sentiu a ajuda de seu Anjo Guardião.

Claudia Schmidt


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Lembranças da infância



         Uma vez, em uma linda manhã de primavera, acordei me sentindo um pouco mais próxima de Deus. Fui criada em um lindo sítio, onde o cantar dos pássaros, a beleza das matas eram minhas companhias constantes. A cada amanhecer um novo dia me aguardava, os banhos nos riachos, que delícia, eram muito revigorantes. Hoje, já crescida e contando com 20 primaveras me vejo a relembrar saudosa de meus tempos de criança, e na alegria de encantar as crianças, e porque não os adultos, sinto vontade de contar uma das inúmeras histórias que tão bem faziam a minha imaginação infantil.

         Tudo começou quando um senhor de longas barbas já aparentando uns 80 anos de idade, me contou a seguinte história:

         - Vivia em um maravilhoso sítio uma linda criança que contava na época seus sete anos de idade, ela era muito esperta e alegre. Um dia resolveu que iria brincar com os primos, que estavam passando o final de semana em sua casa, foram até uma enorme árvore onde se podia avistar ao longe. Só que esta árvore era difícil de subir o que não era problema para a menina Clara, ela tinha junto a árvore uma escada que sempre utilizava para suas travessuras, mas seus primos não tinham a sua esperteza aí que começou a confusão. Luizinho com seus 8 anos de idade, também peralta, porem tinha medo de subir em árvores, teve uma grande idéia que foi prontamente aceita pela turminha. Em vez de subirmos em árvores vamos entrar pela mata e explorar a natureza, foi aí que não pensando em mais nada entraram pela mata, quando deram por si já era tarde e não sabiam mais voltar. O medo tomou conta deles, o menino teve uma ideia, vamos pedir ao papai do céu ajuda, precisamos rezar e assim o fizeram.

         Quando começaram a rezar através da oração uma luz foi clareando em volta deles, como a protegê-los e guiá-los pelos caminhos afora, terminada a prece resolveram caminhar e qual não foi a surpresa quando encontraram o caminho de volta. Aprenderam que jamais iriam fazer aventuras novamente sozinhos, e assim foram a procura da tia Lu na cozinha do sítio, para fazer um lanche, pois a barriguinha já demonstrava sinais de vazia.

Maria Aparecida Melo da Silva - Juiz de Fora/MG


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O quarto dos segredos



         Tia Lú adora contar histórias para seus sobrinhos. Um dia ela narrou uma aventura que deixou todo mundo paralisado e com vontade de saber o final.

         A história era assim:

         - Havia em um Castelo um enorme quarto onde todo mundo tinha medo de entrar, porque era conhecido como o quarto dos segredos.

         Um menino muito levado chamado Zequinha resolveu que iria entrar para descobrir o que havia por detrás daquela porta. Lá foi ele, cheio de coragem, e entrou.

         Sabe o que ele viu lá dentro?

         Um enorme espelho, uma enorme cama e bem perto da cama havia um grande bau. Curioso, abriu o bau e viu que havia uma grande escada. E Zequinha desceu e foi parar em um lindo jardim florido.

         Resolveu caminhar pelo jardim onde tudo era de uma beleza rara, muito lindo, e até os bichos tinham uma aparência diferente, com muita luz.

         Intrigado, resolveu investigar de onde vinha tanta beleza, e foi andando, até chegar num lago todo azul que refletia os raios do sol. Como Zequinha estava com sede, tomou daquela água e acabou dormindo ali mesmo.

         De repente, foi acordado com uma linda melodia e quando abriu os olhos, olhou espantado que estava cercado de muita luz, muitos animais e crianças.

         Ficou encantado olhando tudo aquilo, quando uma menina de nome Rosa chegou perto dele e o convidou para ir junto com o grupo.

         Zequinha foi e para sua surpresa todas as crianças e os animais passaram a atirar por todos os lados pétalas de flores, que quando caíram pelo chão se transformavam em um lindo tapete florido. Vencendo a admiração, Zequinha perguntou para sua nova amiga Rosa o que era aquilo.

         Rosa explicou que aquele quarto era o quarto dos segredos, porque ali viveu um menino que tinha muito amor no coração, e tamanho era seu amor pela natureza e pelas pessoas, que construiu aquela passagem secreta, que agora era habitada por seres que tinham um grande amor no coração e uma luz muito grande pelas boas ações praticadas.

         Zequinha ficou admirado com tudo, mas precisava ir embora, porque ainda estava encarnado, por isso precisava voltar para seu mundo.

         Mas, antes de partir, recebeu a missão de transformar o coração de todas as pessoas, dando a elas a luz do amor, da sabedoria e da caridade.

         E assim, amiguinhos, Zequinha cresceu e sempre que olhava para alguém procurava auxiliar, ajudando-os a encontrarem a luz.

         O mundo nunca mais foi o mesmo porque Zequinha soube espalhar a luz do conhecimento e muitos o seguiram.

         Com isso, meus sobrinhos, vamos plantar a sementinha dentro de nós e fazê-la florescer para que através de nossos exemplos cristãos muitos seguidores possamos ter, transformando o planeta Terra em um mundo de paz, luz e harmonia entre todos.

         Os sobrinhos da Tia Lú ficaram encantados com a história e cada um procurou fazer a sua parte na construção de um mundo melhor.

Maria Aparecida Melo da Silva - Juiz de Fora/MG


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A corrida



         Era uma vez uma Onça Amarela e a Tartaruga Lili.

         Dona Onça Amarela se achando muito esperta resolveu passar a perna na Tartaruga Lili.

         Sabe o que ela fez?

         Ela combinou com a Tartaruga Lili uma corrida, e quem chegasse primeiro levaria o prêmio que era uma apetitosa comida.

         Dona Onça Amarela logo se viu cheia de confiança, ganhar da Tartaruga Lili era a maior moleza.

         Só que ela não contava com a sabedoria do Rei Papagaio. Ele era conhecido como um rei muito bondoso e honesto e nada na vizinhança passava despercebido dele.

         Como o Rei Papagaio sabia que a Tartaruga Lili andava devagar e a Onça Amarela andava correndo, resolveu dar uma lição na Onça, que queria passar a perna na Tartaruga Lili. O Rei, então, colocou pelo caminho vários sacos de comida.

         Quando deram a largada a Onça Amarela saiu correndo, e a Tartaruga Lili foi andando com seus passinhos.

         A Onça Amarela chegou primeiro e foi logo abrindo o saco de comida toda feliz por ter passado a perna na Tartaruga Lili, mas, lembram-se do que o Rei Papagaio fez?

         Pois é, durante a caminhada da Tartaruga Lili ela foi encontrando pelo caminho vários sacos e quando chegou ao final da corrida tinha encontrado quatro sacos com comida. E a Onça Amarela ganhou apenas um saco.

         O Rei Papagaio reuniu as duas e disse:

         - Aprendemos nesta corrida uma grande lição: a Onça Amarela se achando muito esperta, por ser veloz, ganhou apenas um saco de comida, tamanha sua pressa; a Tartaruga Lili ganhou quatro sacos, porque em seus passos lentos pode observar melhor ao seu redor, com isso recolhendo maior soma de alimentos.

Para pensarmos

         - Quem muito corre não presta atenção no caminho, e acaba perdendo oportunidades; quem procura ser atento no caminho, sempre enxerga detalhes importantes e acaba conseguindo melhores resultados.

         É importante sempre usarmos a calma em todas as horas para que Papai do Céu possa nos orientar através do nosso Anjo da Guarda e nossos amigos espirituais.

Maria Aparecida Melo da Silva - Juiz de Fora/MG

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Aprendendo a orar



         Antônia e Jade eram grandes amigas. Jade já tinha ido várias vezes dormir na casa de Antonia, mas essa era a primeira vez que Antonia dormiria na casa de Jade.

         Ambas estavam supercontentes, e brincaram a tarde toda, divertindo-se muito.

         Ao anoitecer, tomaram banho e logo estavam sentadas à mesa, junto com o restante da família de Jade: o pai, a mãe, e os irmãos Charles e Carlos.

         Quando Antônia ia começar a comer, a mãe de Jade perguntou:

         - Quem vai fazer a prece?

         Jade prontamente aceitou o convite e fez uma bela oração de agradecimento pela comida, pela família e pelos amigos. Antonia percebeu que ninguém juntou as mãos ou fez o sinal da cruz para orar, mas nada disse.

         O jantar estava delicioso, organizado por seu Airton, pai de Jade. Arrumar a mesa e lavar a louça era tarefa das crianças e Antônia ajudou.

         Depois, quando Antônia e Jade ficaram sozinhas, a menina perguntou:

         - Vocês sempre fazem preces antes de comer?

         - Sim - explicou Jade. Temos muito a agradecer, você não acha?

         Antônia concordou. Jade continuou:

         - Antes eram meus pais que faziam a prece, mas eles fazem preces muito compridas, e a gente ficava com fome, esperando a prece terminar. Então, eu e meus irmãos combinamos que sempre um de nós vai fazer a prece. Foi assim que aprendemos. Sei que minha mãe gosta que façamos a oração porque, enquanto falamos, mesmo de olhos fechados, ela sorri e balança a cabeça. Você não viu? E Jade imitou o gesto afirmativo da mãe.

         As meninas puderam brincar até mais tarde naquela noite, pois não teriam aula no dia seguinte. Perto da meia-noite, seu Airton avisou que teriam quinze minutos para encerrar as brincadeiras e ir dormir. Assim, os meninos terminaram o jogo que disputavam e as garotas recolheram os brinquedos espalhados pela sala.

         As meninas conversavam baixinho no quarto quando dona Augusta veio dar boa noite.

         - Já fizeram a prece antes de dormir?

         Ante a resposta negativa, a mãe, então, orou com as garotas, agradecendo pelo dia e pedindo uma boa noite de sono, e que elas pudessem encontrar o anjo da guarda durante o sono, a fim de receberem bons conselhos.

         Quando terminaram, Antônia não se conteve e perguntou:

         - Vocês não juntam as mãos, não se ajoelham, não fazem o sinal da cruz para rezar?

         Jade, educada desde pequena na Doutrina Espírita, não entendeu a pergunta, mas a mãe respondeu:

         - Na Doutrina Espírita não temos rituais, por isso não temos uma posição específica para orar, e não ajoelhamos, não juntamos as mãos, nem fazemos o sinal da cruz. Também não usamos velas, nem imagens de santos. A prece é uma conversa com Deus e não precisamos de gestos especiais ou rituais para conversar, você não acha? O que importa são os sentimentos que temos no coração.

         Antônia fez que sim com a cabeça, revelando que entendeu o motivo por que na casa de Jade não havia santos, nem altares, nem velas.

         Em seguida, Dona Augusta contou uma das muitas histórias que sabia sobre Jesus, embalando o sono das meninas, ao mesmo tempo que ensinava a elas um pouco mais sobre o Mestre amado.

Claudia Schmidt


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A melhor decisão



         Augusto tinha um lindo gato marrom, chamado Tom. Eles eram companheiros de brincadeiras, e o gato seguia o menino por todos os lugares. Tom, porém, às vezes, era um pouco desastrado. Ele já havia quebrado a folhagem preferida de Dona Eulália, derrubado um pote de bolachas de cima da mesa, além de ter rasgado o jornal várias vezes.

         Uma tarde, porém, Augusto foi até o quarto de sua mãe procurar cotonetes em uma das gavetas. Procura daqui, procura dali, o menino tirou pra fora tudo o que havia na gaveta, quando de repente:

         - Crashhh!

         O menino derrubou um vidro vermelho de perfume. Quando o vidro caiu no chão, quebrou em mil pedaços, fazendo barulho e esparramando todo o conteúdo pelo chão. Dona Eulália, que estava na cozinha, ouviu o barulho e veio ver o que havia acontecido.

         - Meu perfume! – disse ela. Que desastre! Como foi que isso aconteceu, Augusto?

         - Foi o Tom, disse o menino, apontando para o gato, que tinha se afastado um pouco, devido ao barulho.

         - Mas que desastrado esse gato!- reclamou a mãe. Não é a primeira coisa que ele quebra nesta casa!

         Augusto permaneceu calado, enquanto a mãe continuou.

         - Hoje Tom vai dormir na garagem! Não quero mais este gato dentro de casa! A partir de agora, o Tom vai ficar lá fora, para que não quebre mais nada!

         Augusto não contou a verdade, apenas levou o gato para a garagem. Pobre gatinho! Sem entender o que havia ocorrido, ia passar a noite sozinho na garagem. Mais tarde, quando Dona Eulália serviu o jantar, Augusto não quis comer. Sentiu falta da companhia do gato, e lembrou que naquela noite não poderiam brincar juntos no tapete da sala.

         Quando foi deitar, sua mãe veio fazer uma prece com o menino e também percebeu o tapete vazio onde Tom dormia, perto da cama de Augusto. Quando terminaram a prece, Augusto, arrependido, disse de repente:

         - Não foi o Tom que quebrou o perfume, mãe. Fui eu! Eu bati sem querer e ele caiu no chão. Desculpe-me!

         A mãe abraçou o filho e lembrou que dizer a verdade é sempre a melhor decisão. Em seguida, os dois foram até a garagem buscar o Tom, que ficou muito feliz em poder dormir em seu tapete, ao lado de Augusto.

Claudia Schmidt


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As Palavras Mágicas II



         Elisa queria que as férias chegassem logo, pois ela iria visitar sua prima Antônia na fazenda. No dia em que, finalmente, sua tia chegou para buscá-la, a menina esqueceu de se despedir dos pais, tamanha era a pressa em ir para a fazenda.

         Quando chegaram à fazenda, Antônia percebeu que Elisa não disse “boa tarde” para tio Eugênio e para as pessoas que trabalhavam no local. Os dias foram passando entre brincadeiras, passeios a cavalo e banhos no rio.

         Mas uma coisa estava deixando Antônia curiosa: Elisa nunca dizia as palavrinhas mágicas “por favor”, para pedir algo e “obrigada” quando recebia algum favor. Além disso, quando Elisa fazia algo errado, ela nunca dizia “me desculpe” e Antônia nunca ouvia Elisa dizer “com licença” quando entrava no seu quarto ou quando precisava interromper os adultos que estavam conversando.

         Percebendo que Elisa não conhecia as palavras mágicas que são sinal de boa educação, tia Augusta e Antônia elaboraram um plano: distribuíram por toda a casa bilhetinhos coloridos, com situações em que as palavras mágicas devem ser usadas.


         Assim, na cozinha havia bilhetes dizendo:
         "Por favor alcance o açúcar."
         "Desculpe, eu me atrasei para o almoço."
         "Obrigada por fazer a minha sobremesa favorita."

         Na sala, os bilhetes diziam:
         "Por favor, me alcance a almofada."
         "Obrigada por me contar uma história."
         "Desculpe por ter pisado no seu pé."

         E no quarto de Antônia, os bilhetes diziam:
         "Obrigada por me emprestar o livro."
         "Desculpe se magoei você."
         "Por favor, você pode me alcançar aquele brinquedo?"

         Quando Elisa viu todos aqueles bilhetes espalhados pela casa, achou engraçado. Sua prima então explicou que era uma maneira nova para que ela e todas as pessoas da casa aprendessem a usar as palavras mágicas.

         - Palavras mágicas? Quais são? Eu não conheço nenhuma – disse Elisa.

         - Por favor, obrigado, com licença, desculpe são as palavras mágicas - ensinou a prima. Observe, elas estão em todos os bilhetes, para que a gente possa aprender a usar essas palavras em todos os lugares e com todas as pessoas.

         E foi assim, com bilhetes coloridos de vários tamanhos, espalhados por toda a casa que Elisa aprendeu as palavras mágicas.

         Quando chegou em casa, Elisa ensinou sua mãe e seus dois irmãos a usarem as palavras mágicas que tinha aprendido na casa de tia Augusta e da prima Antônia.

Claudia Schmidt


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Toda ocupação útil é trabalho


Por trabalho só se devem entender as ocupações materiais?
“Não; o Espírito trabalha, assim como o corpo. Toda ocupação útil é trabalho.”
Questão 675 de O Livro dos Espíritos.


         Era o primeiro dia de férias da escola e a mãe de Artur pediu a ele para secar a louça do almoço.

         - Não posso! – respondeu o garoto. Nestas férias não vou fazer nada! Trabalhar... nem pensar!

         Assim, naquele dia Artur se negou a arrumar o quarto, a lavar seu tênis e a guardar sua roupa que havia sido passada. Ele ficou deitado no sofá, a tarde toda, olhando bobagens na TV. Sua mãe pensou que podia obrigá-lo a ajudar, mas resolveu fazer diferente...

         No dia seguinte, acordou muito tarde e se recusou a varrer a calçada, dizendo:

         - Trabalhar nas férias? Nem pensar!

         A mãe, então desafiou o filho:

         - Aposto que você não consegue ficar uma semana sem trabalhar!

         - Aposto um sorvete como eu consigo! – respondeu Artur.

         - Combinado! – disse a mãe.

         Dona Ana passou, então, a observar de perto o filho, verificando as escolhas que ele fazia. Quando ele terminou de ler um dos livros que havia ganhado de seu tio, ela disse:

         - Meu filho, talvez você não saiba, mas na Doutrina Espírita aprendemos que TODA OCUPAÇÃO ÚTIL É TRABALHO. Ler este livro, com histórias espíritas, é trabalho.

         Sem querer trabalhar, Artur pegou a bicicleta para dar uma volta na quadra. Pedalou alegremente por mais de uma hora, e quando voltou, Dona Ana lembrou:

         - Exercícios físicos são ótimos para o corpo. É uma ocupação útil, logo é ...

         - Trabalho! – completou Artur, largando a bicicleta.

         Quando o menino começava a ficar entediado, chegou Abigail, sua vizinha, convidando para brincar. Os dois se divertiram muito juntos durante horas. Quando ela foi embora, Dona Ana esclareceu:

         - Brincadeiras saudáveis como as dessa tarde fazem bem ao Espírito, educam e ensinam respeito e cordialidade. Logo, podem ser considerados como uma espécie de trabalho.

         Artur não respondeu. Em seguida, ligou a TV e assistiu um documentário sobre animais, aprendendo muitas coisas interessantes sobre os bichos de estimação.

         - Estudar é uma importante ocupação útil, assim como assistir a educativos programas na TV – lembrou a mãe, mais tarde, durante o jantar.

         Naquela noite, Artur assistiu um filme que havia pegado na locadora. Era um filme de terror, com cenas de suspense. Quando Dona Ana chegou na sala, ela comentou:

         - Isso realmente não é trabalho. Não é útil, mas acho que serve para deixar você com medo e atrair para o ambiente companhias espirituais que adoram o medo e a violência.

         Artur ficou pensativo, mas terminou de assistir o filme. Mais tarde, quando sua mãe veio dar boa-noite, perguntou:

         - Você já fez suas orações?

         Ante a resposta afirmativa, ela sorriu e disse:

         - Orar por si mesmo e pelos outros é uma bela e útil ocupação... E enquanto dormimos, podemos, em Espírito trabalhar e estudar...

         Artur apenas sorriu, compreendendo que não venceria a aposta feita.

         E foi assim, com amor e paciência, fazendo o menino refletir acerca de suas escolhas, que a mãe de Artur ensinou a ele que toda ocupação útil é trabalho.

         No dia seguinte, Artur secou a louça do almoço e arrumou o quarto, sem reclamar. Ele foi sentindo que ser útil é uma escolha inteligente, que traz bem-estar e alegria, e que o trabalho é uma oportunidade valiosa de aprendizado e evolução.

         Alguns dias depois, mãe e filho fizeram uma pausa nos trabalhos que realizavam e saborearam um enorme e delicioso sorvete.

Claudia Schmidt


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Os três vizinhos: Sol, Tófi e Tupi


(Baseado em fatos reais)

Poder-se-á dizer que os animais só obram por instinto?
“Ainda aí há um sistema. É verdade que na maioria dos animais domina o instinto.
Mas, não vês que muitos obram denotando acentuada vontade? É que têm inteligência, porém limitada.”

O Livro dos Espíritos, questão 593

         Vocês precisam conhecer a Sol, o Tófi e o Tupi! Eles são vizinhos. Explico melhor: Sol é uma cachorrinha preta, muito esperta; Tópi é seu vizinho, um simpático cãozinho malhado que mora com Tupi, um cãozinho branco adorável. Todos são classificados como sem raça definida, os chamados vira-latas, formado da mistura de várias raças.

         Os três moram na mesma rua, a poucos metros de distância e tem uma linda amizade. Todos os moradores sabem que os cachorros são amigos e comentam, alegremente, sobre o afeto que une os três animais.

         Sol mora a algumas casas de distância de Tófi e Tupi, mas sempre que sua dona permite que ela brinque na rua, a primeira coisa que ela faz é correr para a casa dos dois amigos, latindo no portão, para chamá-los para brincar. Os dois vêm correndo receber a amiga, latindo para poder sair e brincar. Sol usa de seu livre-arbítrio, que todos os animais possuem, escolhendo a companhia dos amigos, pois poderia fazer o que quisesse durante o tempo em que fica solta na rua. Ela, porém, sempre escolhe a companhia dos amigos.

         Os donos de Tófi e Tupi já compreenderam acerca dos laços de afeto que unem os três, e permite que eles brinquem juntos, à tarde. A rua fica mais iluminada com a alegria deles, e é maravilhoso observar os três cães correndo, se divertindo juntos, pois é possível perceber que eles se adoram.

         Mas quando cai a noite, é preciso retornar para casa. Sol sempre tenta dormir na casa de seus amigos, para poder prolongar as brincadeiras, mas sua dona não permite, pois adora a cachorrinha e sabe que ela precisa descansar.

         Ela sabe que os animais também cansam, sentem dor e, embora não tenham pensamento contínuo como os seres humanos, pensam e tem inteligência, entendendo o que acontece ao seu redor. Os animais são um princípio espiritual, têm perispírito e reencarnam, pois são dotados de uma individualidade imortal, que evolui, rumo à perfeição.

         Sol é um exemplo da individualidade do princípio inteligente que são os animais, e que estão em diferentes graus evolutivos: ela é adorável, amiga de todos os animais da rua. Sol também se relaciona de forma amigável com os outros animais e as pessoas, e costuma vir cumprimentar Chiquinho com “beijinhos carinhosos”. Francisco, como também é conhecido o amigo de Sol, é um poodle branco que mora perto de sua casa, mas que devido a sua fragilidade física não pode sair para brincar na rua, mas fica muito contente, quando através da grade, recebe o carinho de sua amiga.

         Mas por que sofrem os animais? Eles enfrentam sofrimentos físicos não para expiar seus erros, mas como prova, para ativar o seu progresso, através do despertamento das sensações e dos sentimentos. Assim como nós, eles são criados por Deus, são nossos companheiros de jornada, merecem ser respeitados e amados por todos.

         Os donos de Sol, Tófi e Tupi sabem que os animais pensam, possuem vontade própria e sua companhia é um presente de Deus aos seres humanos. Através da convivência com animais de estimação Deus permite que pessoas e animais possam acelerar a evolução, e por isso agradecem ao Pai Maior a amizade, o carinho e o respeito que unem os três vizinhos, servindo de exemplo para todos os seres vivos.

Claudia Schmidt


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Aproveite a vida!


         - Feliz aniversário! Aproveite a vida!

         Aquela última frase não saia da cabeça de Bia: “Aproveite a vida!” A tia que havia dado o conselho já havia ido embora, sem que a menina pudesse perguntar o que exatamente ela queria dizer com isso.

         Bia estava fazendo dez anos, e ganhou um computador. Logo estava colocando em prática as aulas de Informática da escola, e até mandando e recebendo e-mails.

         Foi em uma tarde em frente ao computador que ela teve a idéia de mandar para todos os seus contatos, a seguinte pergunta: “O que é aproveitar a vida pra você?”

         Quando as respostas chegaram, elas eram as mais variadas:

         “Tirar férias e ir pescar!” – definiu um tio de quem Bia gostava muito. A menina, porém, não gostava de pescar, e achou que o conceito não lhe servia.

         “Ir pra balada e beber todas!” – respondeu um primo mais velho. Bia não podia ir para a balada, não tinha idade ainda, e quando fosse, achava que não iria “beber todas” pois os pais haviam lhe ensinado que bebida alcoólica não é uma boa escolha, pois faz mal à saúde.

         “Ficar sem fazer nada, só descansando!” – dizia um dos e-mails recebidos. “Que engraçado!” - pensou Bia. “Não gosto de ficar sem fazer nada, pois fico entediada e minha mãe reclama que eu a incomodo, pedindo algo para fazer.”

         “Viajar, conhecer o mundo!” – foi a resposta da irmã mais velha de Bia, que fazia faculdade na capital. Viajar é bom, pensou Bia, mas não o tempo todo, afinal, ficar em casa com os amigos e a família também é legal...

         “Ter muito dinheiro pra comprar tudo o que quiser!” – a resposta de sua melhor amiga surpreendeu Bia. Porém, muitas outras pessoas também associaram a resposta a coisas materiais como dinheiro, carro novo, posição social, viagens.

         Uma das respostas, porém, era diferente e dizia:

         “Aproveitar a vida é estar com quem você gosta, fazendo o que você gosta.”

         Bia gostou deste e-mail, mas gostou mais ainda de outro:

         “O conceito de aproveitar a vida varia de pessoa para pessoa, de acordo os valores importante para cada um: família, diversão, dinheiro, viagens, podendo ser coisas materiais ou não. Como Espíritos imortais que somos, estamos encarnados na Terra com o objetivo de aprender a amar, a perdoar, a conviver em família, a fazer o bem a todos. Você sabia que somos como os pássaros? Também temos duas asas: a asa da sabedoria, que representa o conhecimento intelectual que devemos buscar através do estudo e do trabalho; e a asa do amor, que é a prática da caridade, do perdão, da paciência, da compreensão, do respeito, e dos muitos outros valores eternos ensinados por Jesus.”

         O e-mail terminava dizendo que cabia a Bia definir, ela mesma, o que é aproveitar a vida, sem esquecer que somos Espíritos criados por Deus de passagem pela Terra, com a missão de aprender o amor e evoluir.

         Bia, depois de pensar sobre o conteúdo, inspirada pelo seu Espírito protetor, guardou carinhosamente o e-mail, certa de que ele tinha ajudado a entender o que a tia queria dizer naquele aniversário.

Claudia Schmidt


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O ser humano mais importante do mundo


         O desafio anual da escola era a seguinte pergunta: “Qual o ser humano mais importante do mundo?” A melhor resposta valia uma bolsa de estudos para o ano seguinte. Tita queria muito ganhar o desafio, porque sua família passava por dificuldades financeiras e o prêmio ajudaria bastante.

         Ela, decidida a brigar pelo primeiro lugar, foi a luta! A primeira parada foi a Biblioteca Municipal, porém lá havia centenas de biografias de homens e mulheres que foram e são importantes para a humanidade. Tita fez algumas anotações, mas não encontrou uma resposta.

         Em seguida a garota foi pesquisar na Internet. Procurou em vários sites, sem encontrar a informação que desejava.

         Tita foi, então, perguntar a sua mãe:

         - Jesus! – foi a resposta que ouviu. Ele mudou o mundo. A história e a contagem do tempo se dividem entre antes e depois da sua presença na Terra. Seus ensinamentos são muito importantes para a humanidade.

         Era, sem dúvida, uma resposta muito interessante. Porém, logo em seguida, Tita lembrou que Jesus jamais se consideraria o ser humano mais importante do mundo. Embora ele seja o modelo e guia, o ser mais perfeito que já encarnou na Terra, Jesus é humilde. Ele disse que tudo o que ele fez e faz nós também podemos fazer, pois somos todos irmãos, filhos de Deus, um Pai bondoso e sábio.

         Ela se lembrou, então, de diversos outros indivíduos que dedicaram sua vida em auxiliar as pessoas: Madre Teresa de Calcutá, Gandhi, Martin Luther King, Allan Kardec, Chico Xavier, Divaldo Franco, todos eles são exemplos de amor ao próximo.

         - É isso!- disse Tita bem alto. Descobri quem é o ser humano mais importante do mundo!

         E ela elaborou a resposta que ganhou o primeiro prêmio e a bolsa de estudos:


         "Conforme ensinado por Jesus, o ser humano mais importante do mundo é o meu próximo, aquele que precisa de mim e me oportuniza realizar a caridade através de pensamentos, palavras e ações. Assim, considerando o meu próximo o ser humano mais importante do mundo, a quem devo respeitar, amar e fazer o bem, caminho na direção de Deus, nosso Pai."

Claudia Schmidt


[Atividade]        [Início]



Caridade, o amor em ação


         Alguém já ouviu falar de uma árvore que, além de dar frutos, dava comida: feijão, arroz, carne, salada? Pois é, essa árvore existiu e era uma árvore muito especial, porque foi o início de uma linda história:

         Era uma vez Dona Maria, uma senhora muito bondosa. Em frente de sua casa havia uma linda árvore. Dona Maria, que era espírita, preocupava-se com as pessoas que passavam fome perto de sua casa. Ela, então, arrumou um jeito de ajudar: todos os dias ela pendurava na árvore em frente a sua casa um saco. Dentro do saco, cuidadosamente arrumados, em caixas de leite previamente limpas, ela colocava comidas: arroz, feijão, pão, carne e o que mais houvesse para o almoço em sua casa.

         Com o tempo, Dona Maria percebeu que o saco de comida desaparecia assim que era colocado na bela árvore em frente a sua casa. Curiosa, um dia ficou espiando e viu que um menino, com mais ou menos seis anos de idade, usando uma roupa rasgada, esperava pela comida e sentava à sombra da árvore para saboreá-la.

         Tito comia com vontade a comida de Dona Maria, pois em sua casa, muitas vezes, não havia o que comer. Ele morava com a mãe, viúva, e com mais três irmãos maiores.

         Dona Maria resolveu, então, se aproximar do menino, a fim de auxiliá-lo. Puxou conversa, prometeu para o dia seguinte um bolo de chocolate e, assim, aos poucos, eles foram se conhecendo melhor.

         Logo os dois estavam almoçando juntos e Dona Maria caprichava na comida para que o menino crescesse forte e saudável. Quando a mãe de Tito adoeceu e não pôde trabalhar, Dona Maria preparou mais comida, para que também houvesse almoço para os outros irmãos e a mãe de Tito.

         Nos anos que se seguiram, Dona Maria incentivou Tito a estudar, deu a ele material escolar, e acompanhou seus progressos escolares.

         A família de Tito também foi encaminhada para receber auxílio no Centro Espírita que Dona Maria frequentava, recebendo roupas, alimento, orientação profissional e espiritual. Dona Maria se tornou amiga da mãe de Tito, Dona Rute, que passou a trabalhar na casa de Dona Maria, auxiliando nas tarefas do lar.

         As duas amigas frequentavam juntas o grupo de estudos no Centro Espírita e Tito frequentava, com alegria, as aulas de evangelização espírita. O menino crescia em idade e em saber: era um aluno dedicado e sempre mostrava, orgulhoso, o boletim para Dona Maria, que ficava contente em perceber que o menino estudava bastante e era um aluno exemplar. O tempo passou, a amizade dos dois se fortaleceu e logo Tito era um adolescente.

         Alguns anos depois, quando Tito arrumou o primeiro emprego, Dona Maria foi a primeira a saber que ele iria trabalhar na fábrica perto de sua casa. Foi assim também quando ele começou a trabalhar no Centro Espírita, para alegria de Dona Maria.

         Enquanto Dona Maria se tornava uma velhinha muito simpática, Tito se transformava em um adulto, e, cada vez mais, em um homem responsável, caridoso, um verdadeiro homem de bem.

         Quando Dona Maria adoeceu, Tito e a namorada cuidaram dela durante muito tempo. E foram eles que escutaram as últimas palavras que Dona Maria pronunciou nesta encarnação:

         - Que bom que vocês estão comigo, hoje. É mesmo verdade, o bem que se faz sempre retorna pra nós.

Claudia Schmidt


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Dudu, o menino curioso


         Era uma vez um menino chamado Eduardo, seu apelido era Dudu. Um dia, ele foi passear em uma chácara, onde moravam os avós de seu amigo Pedro. Era um lugar muito bonito, com muitas árvores, flores, e também muitos e diferentes animais.

         Havia animais que ele nunca tinha visto tão de perto: galos, galinhas, porcos, cavalos e até um sapo verde, que pulava pelas redondezas. Quando ele conheceu o galo, ficou encantado e ao mesmo tempo curioso para saber se o galo podia se comunicar. O som que ele emitia era diferente da maneira como Dudu falava, pois o galo tinha um jeito próprio de se expressar, que era mais ou menos assim (perguntar às crianças como é que o galo fala):

         - Có, có, có...

         Em seguida, Dudu passou pelo pato, que também falava, mas de outra maneira (perguntar às crianças como é que o pato fala):

         - Quá, quá, quá...

         Dudu começou então a imitar os animais, e se divertiu muito (perguntar que animais as crianças conhecem e pedir que façam o som de cada animal citado).

         Depois, Dudu perguntou para sua mãe:

         - Mãe, todos os animais se comunicam?

         - Sim – respondeu a mãe.

         - E todos ele têm nariz, boca e olhos?

         - Todos os bichos foram criados por Deus, que é um Pai muito bondoso. Todos os bichos que você viu: galos, galinhas, porcos, cavalos e o sapo possuem boca para falar e ouvem os sons com suas orelhas. Também tem nariz para respirar e sentir o cheiro das coisas. E como nós, têm olhos para ver esse mundo lindo criado por Deus. Porém as crianças, os homens e as mulheres têm mãos para pegar os objetos e senti-los e os animais possuem patas que fazem a mesma coisa. Tudo isso são presentes de Deus para com seus filhos, que somos todos nós.

         - Puxa vida! Quanta coisa para agradecer a Deus... Se eu não tivesse boca como eu ia comer? Como é que eu ia falar? E se não tivesse ouvidos para ouvir, não poderia escutar a conversa dos bichos. Se não tivesse nariz, como eu ia respirar? Como sentir o cheiro das flores e da comida gostosa que a vovó faz? E os olhos? Como são importantes... Se não tivesse olhos não poderia ver o mundo todo... E se não tivesse mãos, como iria pegar as coisas, carregar os brinquedos, e pegar na sua mão para atravessar a rua?

         - Pois é, meu filho, não esqueça de agradecer a Deus o corpo físico que você possui. Ele é um presente de Deus.

Mara Winsh e Claudia Schmidt
Desenhos de Eduarda Scholl, evangelizanda do Grupo Espírita Seara do Mestre

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É dia de GRE-NAL


         Era dia de Gre-Nal1. Naquela manhã Lucas levantou “com a corda toda”. Colorado2 “doente” tocava “flauta” em todos os gremistas3 que encontrava pela frente. Menosprezava qualquer um que estivesse vestido de azul4.

         Júlio há algum tempo observava as atitudes do filho, preocupando-se com a desvalorização que ele dava às pessoas que pensavam diferente dele. No futebol isto se tornava muito evidente: para Lucas todo gremista era pessoa de menor valor e não merecia seu respeito. O pai procurava alertá-lo que todos mereciam respeito e consideração independente do time que torcia, da música que gostava, do jeito que se vestia...

         Lucas retrucava:

         - Que nada, pai! Gremista é tudo “cabeça fraca” mesmo. – e saía dando risada.

         Mesmo quando o pai lhe mostrava torcedores do Grêmio famosos, cultos, inteligentes, bondosos, ele não ligava. E assim, o pequeno torcedor colorado continuava a conquistar inimizades para si.

         Como fanático pelo Internacional, Lucas praticamente não tirava a camisa do time, nem para dormir. Pensando nisso, Júlio teve uma idéia e convidou o filho para refletir:

         - Imagine, Lucas, que amanhã ao acordar, você, ao invés de estar vestindo a camisa do Inter, estará vestindo a camisa do Grêmio.

         - “Que é isso”? “Tá” louco, pai? Jamais vai acontecer uma coisa destas.

         - Só imagina. Como você se sentiria?

         - Horrível, pai. Eu jamais torceria para o Grêmio. Isso é impossível!

         - Pois bem. Toda vez que nós demonstramos preconceito contra alguém ou separamos pessoas pelas suas idéias ou opções, muitas vezes trazendo prejuízos para elas, é muito provável que em uma próxima reencarnação tenhamos que nascer na condição exata daquele a quem discriminamos. Por exemplo, ainda hoje muitas pessoas têm preconceitos por causa da cor da pele do outro. Se não conseguir superar este problema, aprendendo a respeitar o seu próximo de cor de pele ou origem diferente, a valorizar as pessoas daquela raça, ele poderá renascer no meio daquele povo, para aprender e reparar seus equívocos e perceber, na vivência, que todas as pessoas são iguais e importantes.

         Você entendeu? É como se você acordasse no outro dia com a camisa do time que tanto despreza, colada no corpo, sem poder tirá-la. Aprendendo na convivência, neste caso imposta, a respeitar a opinião, os gostos e a forma de viver dos outros. Até chegar o momento que você aprende a amá-los.

         Lucas não respondeu, ficou calado e pensativo. A idéia do pai tinha lógica. Talvez agora, não pensaria mais que, só porque o outro torce por um time diferente, é um ser inferior ou um inimigo, mas somente alguém que pensa diferente, mesmo que não concorde. Mas, quando viu Thiago passar pela frente de sua casa, não perdeu a chance:

         - E aí, tricolor5. “Tá” preparado pra perder? Vai dar Inter, 3 a 0.

         E, apesar da brincadeira, para o espanto de Thiago, logo ele o convidou para “bater uma bolinha” no campinho do bairro, algo que ele jamais havia feito antes com um gremista.

Luis Roberto Scholl

         1 Gre-Nal: principal disputa de futebol no Rio Grande do Sul, onde se enfrentam o Grêmio e o Internacional
         2 Colorado: torcedor do Internacional
         3 Gremista: torcedor do Grêmio
         4 Azul: cor predominante da camisa do Grêmio
         5 Tricolor: torcedor do Grêmio.

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Mensagem pra você!


         Marcela era uma menina muito gentil e educada na escola e com os amigos. Em casa, porém, suas atitudes eram diferentes: gritava com todos, reclamava de tudo, e parecia não conhecer as palavras mágicas obrigado, com licença, por favor e desculpe.

         Um dia, teve uma enorme briga com uma de suas irmãs, xingou muito e foi se trancar no quarto. Uma hora depois, recebeu no celular a seguinte mensagem:

         Horrível o seu comportamento, Marcela! Você deve estar envergonhada de ter gritado tanto...

         Ela não estava envergonhada e achou que devia ser engano. Mas se deu conta que dizia seu nome, então pensou que era uma brincadeira. Como não conhecia o número de quem mandou o recado, logo já tinha esquecido.

         No dia seguinte, à hora do almoço, foi mal-educada com sua mãe, saindo da mesa sem terminar o almoço e reclamando da comida.

         Meia hora depois, em seu celular havia uma nova mensagem:

         Deus, através dos seus mensageiros, está observando suas atitudes, Marcela.

         Uma ameaça? - pensou a garota. Quem teria a coragem de enviar algo assim? Resolveu ligar de volta para o número indicado para pedir satisfações, mas o telefone estava desligado. Tentou várias vezes, sem sucesso.

         No dia seguinte, pediu um tênis novo para o pai e como não ganhou, bateu a porta do quarto dizendo:

         - Mas que droga! Ninguém faz o que eu quero nesta casa!

         Algum tempo depois, nova mensagem:

         Quem tem Jesus no coração não deve se comportar assim.

         Marcela ficou ofendida, e prometeu a si mesma não mais olhar as mensagens daquele número de celular. Pensou bastante em quem poderia ser, achava que era uma de suas irmãs, mas, embora tentasse, não conseguia descobrir o autor dos recados.

         Marcela continuava uma menina mal-educada em casa e gentil com aqueles que não eram de sua família. Por isso, nos dias que se seguiram, ela recebeu várias outras mensagens, que faziam pensar sobre o seu comportamento e sugeriam mudanças.

         Irritar-se é o melhor processo de perder – dizia uma delas.

         Ela tentava não olhar os recados, mas sua curiosidade era grande e ela tinha esperança que descobriria o autor, que mantinha o celular sempre desligado para não ser encontrado, mas que mandava mensagens assim:

         Use a gentileza, mas, de modo especial dentro da própria casa. Experimente atender os familiares como você trata as visitas.

         O tempo foi passando, e os recados continuavam. Quando tinha alguma atitude legal com algum familiar, Marcela ficava contente com os recados carinhosos que recebia, pois mensagens de incentivo eram enviadas:

         Muito bem! Jesus deve estar feliz com sua atitude!

         E foi assim, acompanhado de perto por uma de suas irmãs, que comprou um celular especialmente para ajudar Marcela, que ela foi se tornando gentil e educada também em casa, com os familiares. Ela nunca descobriu quem lhe mandava as mensagens, mas conseguiu entender que as atitudes de cada um são importantes para que haja paz e harmonia em família.

Claudia Schmidt

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Mediunidade – compromisso com o bem


         Mateus adorava o primo mais velho, Antony. Mas, às vezes, achava ele um pouco esquisito, como agora, quando observa Antony falando sozinho.

         Dessa vez, Mateus não se conteve:

         - Tava falando sozinho, cara?

         - Não – respondeu calmamente o primo – estava falando com uma amiga, Clara.

         Mateus fez cara de quem não acreditou, pois não enxergava ninguém. Antony percebeu a descrença e explicou:

         - É que ela já desencarnou. O corpo físico dela morreu, mas o Espírito continua vivo.

         - E por que você vê ela e eu não? – Mateus continuava com dúvidas.

         - É que eu sou médium vidente. Médium continuou o primo, é quem se comunica com Espíritos desencarnados, ou seja, pessoas que já morreram.

         Antony percebeu o interesse de Mateus e continuou:

         - Quem enxerga os Espíritos é chamado de vidente. Mas há outros tipos de médium como aqueles que fazem curas, que apenas ouve a voz dos Espíritos, mas não enxerga, e também aqueles que psicografam mensagens, ou seja, escrevem aquilo que os Espíritos ditam. Você já ouviu falar de Chico Xavier?

         - Uma vez vi uma reportagem sobre ele na TV.

         - Chico Xavier, além de ser uma pessoa que fez o bem durante toda sua vida, foi um grande médium. Psicografou mais de 400 livros e centenas de mensagens.

         - Mensagens? Mensagens de quem? Mateus realmente se interessou sobre o assunto.

         - Mensagens de Espíritos, como Clara, que já desencarnaram. Muitos mandam notícias aos parentes e amigos, comprovando que a vida continua depois da morte do corpo físico.

         - É como quando fazemos a “brincadeira do copo”, e falamos com Espíritos, não é?

         - Isso não é uma brincadeira, é algo muito perigoso. Você sabia que assim chamam Espíritos desocupados, brincalhões e ignorantes, que podem se ligar aos participantes dessa tal “brincadeira” para intuir no caminho do mal, da preguiça, das brigas, das drogas... Ninguém devia brincar de falar com os Espíritos.

         Mateus estava prestando muita atenção:

         - Entendi – disse Mateus. Ser médium é ser alguém especial, escolhido por Deus.

         Antony sorriu e disse que desde que ele era bem pequeno via Espíritos. No começo tinha medo, mas depois foi entendendo o que estava acontecendo. Disse também que um médium não é alguém especial, mas sim uma pessoa que, antes de nascer, assumiu o compromisso de usar a mediunidade para ajudar os outros.

         Mateus achou legal ter um primo médium, mas e ele, porque não era médium também?

         - Nem todo mundo vê, fala ou ouve os Espíritos, porque nem todos têm esse compromisso. Mas pode-se dizer que todas as pessoas são médiuns, porque todos têm a oportunidade de perceber as intuições para o caminho no bem enviadas do seu anjo da guarda, seu Espírito protetor. A oração nos prepara para perceber esses conselhos tão importantes em nossa vida.

         Assim, nessa conversa, Mateus aprendeu muito sobre mediunidade. Antony prometeu emprestar ao primo um livro que conta sobre a vida de Chico Xavier para que ele entendesse que se comunicar com os Espíritos é algo sério, que exige responsabilidade, mas que também é uma das manifestações da bondade de Deus, pois permite que saibamos mais sobre os desencarnados e o Mundo Espiritual.

Claudia Schmidt

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Ane e sua tia


         Ane é uma menina que costuma espalhar alegria e otimismo em todos os lugares por onde passa. Porém, nos úlitmos dias, Ane estava triste e preocupada: sua tia Val, que ela adora, estava muito doente.

         Val estava no hospital há vários dias e toda sua família estava cuidando dela, e orando para que ela fosse curada.

         Uma noite, porém, enquanto Ane dormia, ela recebeu a visita da tia doente. Val explicou à amada sobrinha que o tempo que ela tinha planejado ficar na Terra estava terminando, e que ela havia cumprido a missão a que tinha se proposto nesta encarnação. As duas se abraçaram e Ane pôde dizer à tia o quanto a amava e que ficaria com muita saudade. Em seguida a tia desapareceu, deixando na memória da menina seu jeito meigo e sua alegria contagiante.

         No dia seguinte, Ane soube que a tia, em Espírito, havia feito outras visitas naquela noite, a fim de se despedir dos familiares.

         O enterro da jovem Val foi um momento de muita tristeza para toda a família, mas Ane sabia que ali estava apenas o corpo físico da tia, pois o Espírito não morre. Sua mãe e ela choraram muito, ficaram tristes e com saudades. Elas se consolaram nas explicações na Doutrina Espírita, onde haviam aprendido que Deus é sábio e justo e que devemos confiar Nele, po