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O Jesus histórico

            De tempos em tempos há pesquisas e achados históricos sobre a vida de Jesus. Em revistas da atualidade (Veja nº 1884, Superinteressante nº 208, entre outras) e programas de televisão encontramos depoimentos de arqueólogos, historiadores, estudiosos, ora confirmando, ora contestando datas, fatos, situações narradas nos Evangelhos numa tentativa de provarem ou não a existência de um homem conhecido por Jesus de Nazaré.

            Perante esses fatos, alguns crentes vacilam sua fé quando é comprovado ser impossíveis determinados acontecimentos contidos nos Evangelhos, outros a reafirmam quando algum dado histórico é confirmado. Pelos séculos Jesus já foi estudado como político, louco, messias, filho de Deus, como o próprio criador, profeta, revolucionário, lunático, pedagogo, psicoterapeuta, etc...

            A proposta da Doutrina Espírita para a leitura da narrativa dos atos de Jesus e dos seus apóstolos é mais racional e orientadora, estando em conformidade com o pensamento lógico atual da humanidade. Não se apegando “a letra que mata, mas ao espírito da palavra que vivifica”, Allan Kardec1 esclarece que se pode dividir as matérias contidas nos Evangelhos em cinco partes:

            - Os atos comuns da vida do Cristo;

            - Os milagres;

            - As predições;

            - As palavras que foram tomadas pela igreja para fundamentar os dogmas;

            - O ensino moral.

            Enquanto as quatro primeiras são motivos de objeções e controvérsias, a última mantém-se intocável, incontestável e atual.

            As divisões que ocorreram pela história e continuam a ocorrer até hoje entre os homens são causadas pelas interpretações pessoais ou diferenciadas de fatos superficiais e sem importância. Disto surgiram dogmas, rituais, seitas, disputas religiosas e de poder porque a maioria ainda se apega mais as partes místicas do que à parte moral.

            Se Jesus nasceu aqui ou ali, nesta ou naquela data, se cruzou este ou aquele caminho, se realmente existiu a estrela de Belém ou os Reis Magos, se repartiu o pão e transformou água em vinho... Nada disso tem importância frente a magnâmica mensagem renovadora trazida para toda a humanidade.

            Ele utilizou símbolos e parábolas para se fazer compreender, pois veio pregar inicialmente para um povo simplório e ignorante, tiranizado por séculos por várias nações dominadoras. Quando atentarmos para o mérito de que os Evangelhos foram escritos anos após a sua morte e em situações diversas quando da passagem do Mestre, entenderemos os motivos de tantas discórdias e alegorias que se, tomadas ao pé da letra, tornam-se incoerentes e irracionais. Mas a mensagem principal, a que foi deixada para as futuras gerações e que seria difundida para todo o globo está perfeita e completa: a renovação moral e a reforma de si mesmo (Lc 9, 23-25).

            Tudo o que Jesus ensinou leva-nos ao caminho da perfeição moral, da busca da felicidade, que deve ser conquistada nas múltiplas reencarnações do espírito.

            Pregar amor (Mt 15, 13-14) até aos inimigos (porque amar aos seus, até os fariseus o faziam); perdoar todas as ofensas (onde a pena de Talião, olho por olho, dente por dente, era lei); a prática da caridade (Paulo, I Cor 13, 1-8) como único caminho para a evolução (numa época onde o egoísmo era considerado virtude) esta foi a verdadeira revolução pregada pelo Mestre. Idéias que, apesar de reconhecidas verdadeiras, ainda estão longe de serem integralmente vivenciadas pelos cristãos, mais atentos as minúcias do que ao autêntico.

            Deixemos de nos preocupar tanto com o Jesus histórico e procuremos mais o Jesus Mestre, Irmão, Pedagogo da Alma, o exemplo de amor para todos os homens,conforme a resposta que os espíritos superiores dão na questão 625 de O Livro dos Espíritos, à pergunta de Kardec: - Qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo? JESUS.- foi a lição mais curta e mais completa de toda as 1018 questões.

            Somente quando encontrarmos esse Jesus e pautarmos a vida por ele, seguiremos o caminho da verdade e da vida.

Luis Roberto Scholl
1KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 99 ed. Rio[de Janeiro]: FEB, 1988. p 25.